quarta-feira, 30 de junho de 2010

terça-feira, 29 de junho de 2010

Soneto

O que eu sabia de outros tempos era
Rugido de água ou duma floresta
Para lá da janela, mas breve adormecia
E ficava jazendo ausente em seu cabelo.

Por isso nada sei dela, senão destruído de noite
Algo do seu joelho, não muito do pescoço,
Cheiro de sal de banho no cabelo negro
E mais o que dela ouvi dizer.

Dizem-me que breve se esquece a sua face
Por ter vista talvez pra alguma coisa
Vazia como folha por 'screver.

Mas dizia-se que ela própria sabe
Não ser claro o seu rosto que se esquece.
Se lesse isto, não sabia de quem era.

Bertolt Brecht, Poemas, Paulo Quintela (trad.), Asa, 2007.

"Shutter Island" de Martin Scorsese, 2010

Sylvia Beach e Margaret Anderson

Because while Sylvia Beach saw Ulysses and thought it was worth creating a wholly new publishing enterprise for, and Margaret Anderson thought, "This is the most beautiful thing we'll ever have. We'll print it if it's the last effort of our lives," the authorities looked down from their imperial heights and yelled, "obscene." When Anderson began serializing Ulysses, issues of Little Review were confiscated and destroyed. When Beach published Ulysses in her little bookshop and began exporting copies to the United States, they were seized at the border, and she had to develop new trade routes. She cleverly sent a man on a ferry between Canada and the United States, "a copy of Ulysses stuffed down inside his pants," over and over and over again. Anderson was brought up on obscenity charges, accused of "being a danger to the minds of young girls," but the American literary empire did not mount a protest or come to her aid. Stansell writes, "The trial provoked only mild interest in the press and brought no outcry whatsoever from New York literary critics." They lost in court, they were fined and fingerprinted, and Little Review never recovered. Anderson moved to Paris. The kingdom didn't know what it was missing, until, the groundwork laid, the market flooded with pirated copies and the reputation built, Random House came sweeping in to rescue Ulysses.

O póstumo

Por mim confesso: não
Tenho esperança nenhuma.
Os cegos falam duma saída. Mas eu
Vejo.

Quando os erros estiverem todos gastos,
Estará sentado, como último companheiro,
Em nossa frente o Nada.

Bertolt Brecht, Poemas, Paulo Quintela (trad.), Asa, 2007.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O mais prolongado Portugal x Espanha de sempre: 28 anos de guerra

Chafurdando quase ao acaso nos microfilmes da BN com impressos do século XVII dei com um papel delicioso, impresso em Lisboa em 1642, e com o promissor título Cartel de Desafio, y Protestacion Cavalleresca de Don Quixote de la Mancha Cauallero de la triste figura en defension de sus Castellanos. Na primeira página, uma ilustração com dois cavaleiros a disparar um contra o outro. Infelizmente o cartão de fotocópias chegou ao fim quando faltava imprimir a última página. Mas isto promete. Para os mais distraídos, isto insere-se, naturalmente, no contexto da Guerra da Restauração.

Um cheirinho do início:

El Cauallero de la triste Figura DON QVIXOTE DE LA MANCHA, &c. Digo que como es notorio al mundo mi valor inuencible, lo sea tambien la Protestacion, y Reto, que por la presente hago, y es que despues del miserable castigo, que el Cielo ha dado a mi nacion Castellana en pena justa de su soberbia, embustes, y tirannias, reduziendola al mayor extremo de couardia, que jà mas ha encontrado Cauallero andante en la redondez de la tierra, con que vergonçosamente ha perdido su monarchia, y en particular despues de la misteriosa libertad de los Portuguezes nuestros aduersarios antigos, y increible corage, con que el Verano passado estos brabos gigantes, sin receber daño alguno, han por todas partes talado nuestros campos, quemado nuestros lugares, y muerto nuestras gentes ...

Capas muito muito muito más...

...Horríveis mesmo. Go knock yourselves out.

Eu bem vos dizia...

One of Camus’s most fascinating protagonists, Jean-Baptiste Clamence, the self-styled “judge penitent” of The Fall, proclaims that “charm is a way of getting the answer yes without having asked any clear question” (F, p. 56). Camus himself possessed such charm. A handsome man, who might be described as a better-looking version of Humphrey Bogart, Camus looked and lived the part of “the existentialist,”and in many respects he was the very embodiment of the cultural reputation that the intellectual came to have in France following World War II.

David Sherman, Camus, Blackwell, 2009.

Ao cuidado de quem goste de ténis

"Collateral" de Michael Mann, 2004

Zefiro torna (Monteverdi) - Rial & Jaroussky



Música: Claudio Monteverdi (1567-1643)
Texto: Ottavio Rinuccini (1562-1621)
Interpretação: L'Arpeggiata/Christina Pluhar/Philippe Jaroussky/Nuria Rial

Zefiro torna e di soavi accenti
l'aer fa grato e'il pié discioglie a l'onde
e, mormoranda tra le verdi fronde,
fa danzar al bel suon su'l prato i fiori.

Inghirlandato il crin Fillide e Clori
note temprando lor care e gioconde
e da monti e da valli ime e profonde
raddoppian l'armonia gli antri canori.
Sorge più vaga in ciel l'aurora, e'l sole,
sparge più luci d'or; più puro argento
fregia di Teti il bel ceruleo manto.

Sol io, per selve abbandonate e sole,
l'ardor di due belli occhi e'l mio tormento,
come vuol mia ventura, hor piango hor canto.

domingo, 27 de junho de 2010

Para observar
É preciso aprender a comparar. Para comparar
É preciso ter já observado. Pela observação
Produz-se um saber, mas é necessário o saber
Para a observação. E:
Observa mal aquele que nada sabe empreender
Com o observado. Com olhar mais agudo
O pomareiro abrange a macieira do que o passeante.
Mas não vê exactamente o homem quem não saiba
Que o homem é o destino do homem.

Bertolt Brecht, in «Fala a operários-actores Dinamarqueses sobre a arte da observação», Poemas, Paulo Quintela (trad.), Asa, 2007

E Deus manifesta-se no pontapé livre


Com a devida vénia ao Chico e ao André, que conhecem pérolas destas.

Dois tipos parecidos

























sábado, 26 de junho de 2010

'Der Tunnel' de Roland Richter, 2001

Tal era Ulisses

Amigos, não sabemos onde é a escuridão, onde é a aurora,
nem onde desce sob a terra o sol que dá luz aos mortais,
nem onde nasce; mas pensemos rapidamente se nos resta
algum expediente.

Homero, Odisseia, Canto X, vv. 190 - 193, Tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia, 2003

sexta-feira, 25 de junho de 2010

The second 'Second Sex'

Living authors can add to the problems or aid in solving them. Umberto Eco empowered translators of The Name of the Rose to adjust his text in each new language, permitting, for instance, the American edition to include less Latin, and the German edition more. Carlo Emilio Gadda, another magisterial, if reclusive, Italian novelist, instructed his English translator to drop off questions in his mailbox in the morning and pick up the answers by end of day. Czech novelist Milan Kundera sometimes called his American editor in the middle of the night to question the English rendition of a Czech or French word. The editor would generally tell Kundera that the author didn't know English very well, and go back to sleep.
When translators work on serious nonfiction, the threat of catastrophe takes different forms. With most works of scholarship or journalism, an author's conventional, nondistinctive style in one language becomes a conventional, nondistinctive style in another. At the same time, literal accuracy (for those who still believe in that allegedly quaint notion) assumes a fiercer importance. According to some biblical scholars, the entire Christian doctrine of the "virgin birth" arose from mistranslation of an ancient Hebrew word into Greek. What a difference a word can make.As translation contretemps go, the one surrounding French philosopher Simone de Beauvoir (1908-86) and her foundational work of modern feminism, Le Deuxième Sexe, first published in two volumes in French in 1949, remains one of the most tempestuous and fascinating.

Aos que virão a nascer

Entrei nas cidades no tempo da desordem
Quando lá reinava a fome.
Vim pra entre os homens no tempo da revolta
E com eles me revoltei. Assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

O meu pão comi-o entre as batalhas.
Deitei-me a dormir entre os assassinos.
Dei-me ao amor, descuidado
E vi a natureza sem paciência.
Assim passou o tempo
que na terra me foi dado.

As estradas levavam ao pântano no meu tempo.
A língua traiu-me ao carniceiro.
Pouco pude fazer. Mas os que mandavam
Sem mim estavam mais seguros, esperava eu.
Assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

As forças eram poucas. O alvo
Estava muito longe.
Via-o com nitidez, inda que pra mim
Difícil de alcançar.
Assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

Bertolt Brecht, Poemas, Paulo Quintela (trad.), Asa, 2007.

Ao refúgio na Dinamarca nos primeiros anos de exílio

Diz-me, casa entre o Sund e a pereira da herdade:
Aquela velha frase CONCRETA É A VERDADE
Que o fugitivo te inscreveu na parede mesmo ao meio,
Sobreviveu aos ataques dos aviões de bombardeio?

Bertolt Brecht, Poemas, Paulo Quintela (trad.), Asa, 2007

Refúgio

Um remo sobre o telhado. Um vento médio
Não levará a palha.
No pátio para o baloiço das crianças
Há barrotes cravados.
O correio vem duas vezes
Aonde as cartas seriam bem-vindas.
Sund abaixo vêm as barcaças.
A casa tem quatro portas, pra fugir por elas.

Bertolt Brecht, Poemas, Paulo Quintela (trad.), Asa, 2007.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Agamémnon

Depois de a sacra Perséfone ter dispersado em várias
direcções as almas femininas das mulheres,
aproximou-se a alma triste de Agamémnon, filho de Atreu.
Em seu redor outras se congregavam; e outros havia que em casa
de Egisto com ele foram assassinados e seu destino encontraram.
Reconheceu-me assim que bebeu do negro sangue.
Chorou alto e verteu logo copiosas lágrimas,
estendendo para mim as mãos, desejo de me tocar.
Mas nele já não havia força ou vigor, tal como
tinha anteriormente nos seus membros flexíveis.
Rompi a chorar assim que o vi e comoveu-se-me o coração.

Homero, Odisseia, Canto XI, vv. 385 - 395, Tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia, 2003

terça-feira, 22 de junho de 2010

Recordando Marie A.

1
Naquele dia, na lua azul de Setembro,
Calmo, debaixo da ameixoeira nova,
Tive-a eu, calma amada pálida,
Nos braços como um sonho lindo.
E sobre nós, no belo azul de Verão,
'Stava uma nuvem que olhei por longo tempo:
Era muito branca e ia lá muito alto,
E quando ergui os olhos tinha-a levado o vento.

2
Desde esse dia muitas, muitas luas
Boiaram calmas no horizonte e passaram.
As ameixeiras, com certeza as derrubaram -
E o que é feito do amor? - Perguntas tuas -
E eu respondo: Não me posso lembrar.
E no entanto, sim, sei o que queres dizer.
Mas do rosto, realmente não me posso recordar.
Apenas sei que outrora o beijei.

3
E também do beijo me teria já esquecido
Se não fosse aquela nuvem que lá estava.
Dessa ainda sei e hei-de sabê-lo sempre:
Era muito branca e muito alto pairava.
As ameixeiras talvez inda floresçam,
E a tal mulher tem sete filhos já, talvez.
Mas aquela nuvem floresceu só por minutos,
E, quando ergui os olhos, no vento se desfez.

Bertolt Brecht, Poemas, Paulo Quintela (trad.), Asa, 2007
Nem sabia que isto existia. Mas existe mesmo. Está aqui, carambas.

Coro final

Não persigais de mais a injustiça,
Que em breve, por si só, ela se escoa.
Pensai na escuridão, no grande frio
Deste vale que de lágrimas ecoa.

Bertolt Brecht, Poemas, Paulo Quintela (trad.), Asa, 2007

'Zwartboek' de Paul Verhoeven, 2006

Amarga canção de amor

Seja agora como for,
Amei-a muito um dia.
Por isso sei também: um dia
Deve ter sido bela.

É certo que não sei agora já como parecia:
Um dia apagou o que brilhou durante sete luas.

Bertolt Brecht, Poemas, Paulo Quintela (trad.), Asa, 2007

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Que jogo

Landscape

A windy night and on this lonely road the prince of Parma's army
has left carcasses of horses
on a bald hill the bones of a recently conquered castle are glowing
there's only stone sand waste and a wind without purpose or color

What enlivens the landscape is a moon sharply inprinted on the sky
and a few soiled shadows bellow
as well as a white gallows for hanging from it are the thin pods
of bodies in which a wind blows life this wind without trees and clouds.

Zbigniew Herbert, The Collected Poems 1956 - 1998, Alissa Valles, Ecco, 2007

'Das leben der Anderen' de Florian Henckel von Donnersmarck, 2006



















[Georg Dreyman]
The State's head office for Statistics on Hans Beimler St. counts everything, knows everything: how many shoes I buy per year: 2.3, how many books I read in a year: 3.2, and how many students graduate every year with an 4.0 GPA: 6,347. But there is one number not registered,perhaps because such a figure hurts even the bureaucrats: suicides. If you called the Beimler St. office and asked, "How many people between the Elbe and Oder rivers, between the Baltic Sea and Ore Mnts. were driven to death from desperation?" Then our oracle of numbers remains silent, and probably writes down your full name for the State Security, those grey men who take care of our country's security and happiness. Since 1977 our country has ceased counting cases of suicide."Murdering oneself". That's what they call it.

Ballad: that we do not perish

They who sailed at dawn
but now will never return
left their trace on a wave -

a shell lovely as a fossil mouth
sinks to the depths of the sea

Those who trod the sandy road
but never reached the sutters
though they could see rooftops -

will find shelter in the air's bell

and those who will orphan only
a chilly room a couple of books
an empty inkwell a blank page

verily did not wholly die

they whisper in wallpaper groves
their flat heads live on the ceiling
their paradise is made of air water
of lime of earth an angel of winds

will chafe their bodies in his hand
they will
waft across pastures of this world

Zbigniew Herbert, The Collected Poems 1956 - 1998, Alissa Valles, Ecco, 2007

A start on Jazz (em 1942)

Anabasis

The condottieri of Cyrus the Foreign Legion
crafty and ruthless - to be sure - murdered
two hundred and fifteen daylong marches
- please kill us we can't go any farther -
thirty-four thousand six hundred fifty stadia

harrowed by insomnia they traversed wild countries
tricky fords snowy mountain passes and salty plains
hacking a path through the living bodies of peoples
it's good they didn't claim to be defending civilization

the famous cry on the mountains of Teches
is interpreted incorrectly by sentimental poets
they had just found the sea a way out of the dungeon

they journeyed without Bible prophets burning bushes
without signs on earth without signs from the heavens
with the terrible consciousness that life is momentous.

Zbigniew Herbert, The Collected Poems 1956 - 1998, Alissa Valles, Ecco, 2007

medo

«Queria pedir-lhe que não saísse daqui, me acompanhasse, ficasse comigo deitada aguardando não só a manhã mas a próxima noite, e a outra noite, e a noite seguinte, porque o isolamento e a solidão se me enrolam nas tripas, no estômago, nos braços, na garganta, me impedem de me mover e de falar, me tornam num vegetal agoniado incapaz de um grito ou de um gesto, à espera do sono que não chega. Fique comigo até que eu, finalmente, adormeça, me afaste de si numa dessas inexplicáveis reptações frouxas com que os afogados oscilam nas vazantes, me estenda de bruços, de boca na almofada, babando na barriga da fronha palavras indistintas, me afunde no poço pantanoso de uma espécie de morte, a ressonar o meu grosso coma de pastilhas e de álcool.»
António Lobo Antunes, Os cus de Judas

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922 - 2010)

Disse o italiano, encolhendo os ombros, Fica o silêncio depois da música e depois do sermão, que importa que se louve o sermão e aplauda a música, talvez só o silêncio exista verdadeiramente.

José Saramago, Memorial do Convento, p. 169.

The death and life of the Book Review

Amanhã

"Barton Fink" de Joel Coen, 1991

we look into hunger's face the face of fire face of death
the worst of all - the face of betrayal

and only our dreams have not been humiliated

1982

Zbigniew Herbert, The Collected Poems 1956 - 1998, Alissa Valles, Ecco, 2007

quinta-feira, 17 de junho de 2010

To the river

O river - hourglass of water figure of eternity
I step in your stream more and more changed
so thath I might be a cloud a fish or stone cliff
and you are changeless like a clock measuring
the body's metamorphoses and the spirit's fall
the gradual disintegration of tissues and love

I born of clay
want to be your pupil
to know the heart of Olympian string
cool procession murmuring column
bedrock of my faith and my despair

teach me stuborness and endurance
so that I shall deserve in the last hour
to repose in the shade of a great delta
in a holy triangle of beginning and end

Zbigniew Herbert, The Collected Poems 1956 - 1998, Alissa Valles, Ecco, 2007

Gato na caixa

Falar

Ela continuou a falar. Contou a toda a gente. Havia alguma coisa por dizer, ela sabia-o, mas não o conseguia exprimir em palavras. Passado algum tempo deixou de falar no assunto.

Raymond Carver, O que sabemos do Amor (Beginners), João Tordo (trad.), Quetzal, 2010

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Bloomsday 2010



He rested an innocent book on the edge of the desk, smiling his defiance. His private papers in the original. Ta an bad ar an tir. Taim imo shagart. Put beurla on it, littlejohn.

Quoth littlejohn Eglinton:
- I was prepared for paradoxes from what Malachi Mulligan told us but I may as well warn you that if you want to shake my belief that Shakespeare is Hamlet you have a stern task before you.

Bear with me.
Stephen withstood the bane of miscreant eyes, glinting stern under wrinkled brows. A basilisk. E quando vede l'uomo l'attosca. Messer Brunetto, I thank thee for the word.

James Joyce, Ulysses

Henry Roth*

Roth, in short, was a literary refusnik. So what did all that rejecting leave him with? Very little but his "sense of life"—but that he had to a degree most writers can only dream of, and few could tolerate. I imagine (though I don't know) that that "sense of life" is what he meant to leave us with. I very much doubt Roth would have had American Type climax with a marriage. Indeed, Davidson tells us he didn't. Roth may have had a problem with the very idea of endings. In Mercy of a Rude Stream he quotes more than once a Talmudic saying to the effect that you are not required to finish, but you are not allowed to stop, either. Life, unlike fiction, has neither crisp beginnings nor redemptive endings. It endures, as Roth did, until it doesn't. The saddest ending of all would be if Roth's amorphous, neurotic, miraculously unquashable "sense of life" was precisely what got polished out of his work.
Continuar a ler aqui.

*Ou de como as disposições de um autor podem ser destruídas pelas disposições do seu editor.

To Apollo

1
He went in a rustle of stone robes
he cast a shadow a glow of laurels

his breaths were light as a statue's
but his movements like a flower's

rapt by the sound of his own song
he raised a lyre to the height of silence

immersed in himself
his pupils white as a stream

stone
from his sandals
to the ribbons in his hair

I imagined your fingers
had faith in your eyes
the unstrung instrument
the arms without hands

give me back
youth's shout
arms held out
and my head
in an immense crest of delight

give me back my hope
speechless white head

silence -
a fissured neck
silence -
a broken song

Zbigniew Herbert, The Collected Poems 1956 - 1998, Alissa Valles, Ecco, 2007

Zibgniew Herbert segundo Seamus Heaney

Isto vale a pena ouvir.
(Estabelecemos desde já que Zbigniew Herbert é um poeta que amo.)

Os factos

Os factos são sempre óbvios demasiado tarde, mas a diferença mais singular entre a felicidade e a alegria é que a felicidade é um sólido e a alegria um líquido.

J. D. Salinger, in «A Fase Azul de Daumier-Smith», Nove Contos, José Lima (trad.), Difel, 2005.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Lines of a pantheist

Destroy me star
- says the poet -
pierce me with distance's arrow

drink me source
- says a drinker -
to the dregs drink me to nullity

let sharp eyes deliver me
to devouring landscapes

words meant to save the body
may they bring me precipices

a star will sink its root in my forehead
the source will lend my face humanity

and you'll awaken silent
in the palms of stillness
at the heart of the thing

Zbigniew Herbert, Collected Poems 1956 - 1998, Ecco, Alissa Valles (trad.), 2007

Roberto Calasso


Quero ler As Núpcias de Cadmo e Harmonia.

Home

A home above the year's seasons
a home for children beasts apples
a square block of empty space
under an absent star

home was childhood's telescope
home was feeling's skin
a sister's cheek
a tree's branch

a flame blew out of cheek
a bullet struck out the branch
a homeless footsoldier's song
over the scattered ash of a nest

home is a childhood's cube
home is feeling's die

a burnt sister's wing
a dead tree's leaf

Zbigniew Herbert, The Collected Poems 1956 - 1998, Alissa Valles, Ecco, 2007

Mersault

Cf. aqui.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Se nada se repete igual
todas as coisas são últimas coisas.
Se nada se repete igual,
todas as coisas são também as primeiras.

(em memória unitiva de Antonio Porchia)

Roberto Juarroz, Poesia Vertical, Arnaldo Saraiva (trad.), 1998.

Beirut, Bratislava

video
O ser começa entre as minhas mãos de homem.
O ser,
todas as mãos,
qualquer palavra que se diga no mundo,
o trabalho da tua morte,
Deus que não trabalha.

Mas o não ser também começa entre as minhas mãos de homem.

O não-ser,
todas as mãos,
a palavra que se diz fora do mundo,
as férias da tua morte,
a fadiga de Deus,
a mãe que nunca terá filho,
meu não morrer ontem.

Mas as minhas mãos de homem onde começam?

Roberto Juarroz, Poesia Vertical, Arnaldo Saraiva (trad.), 1998.
O meu olhar espera-me nas coisas,
para me olhar a partir delas
e me despojar do meu olhar.
A minha memória espera-me nas coisas
para me provar que não existe o olvido.

E as coisas apoiam-se em mim,
como se eu, que não tenho raiz,
fosse a raiz que lhes falta.

Será que talvez as coisas
também esperem por mim?

Será que tudo o que existe
se espera fora de si?

Será afinal que os meus braços
estão abertos para me abraçar?

Roberto Juarroz, Poesia Vertical, Arnaldo Saraiva, Campo das Letras, 1998

domingo, 13 de junho de 2010

Há poucas mortes inteiras.
Os cemitérios estão cheios de fraudes.
As ruas estão cheias de fantasmas.

Há poucas mortes inteiras.
Mas o pássaro sabe em que ramo último poisa
e a árvore sabe onde termina o pássaro.

Há poucas mortes inteiras.
A morte é cada vez mais insegura.
A morte é uma experiência da vida.
E às vezes são precisas duas vidas
para poder completar uma morte.

Há poucas mortes inteiras.
Os sinos dobram sempre o mesmo.
Mas a realidade já não oferece garantias
não basta viver para morrer.

Roberto Juarroz, Poesia Vertical, Arnaldo Saraiva (trad.), 1998.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A perder de vista no sentido do meu corpo

Todas as árvores todos os seus ramos todas as suas folhas
A erva na base dos rochedos e as casas amontoadas
Ao longo o mar banhando a tua vista
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitas
A transparência dos transeuntes nas ruas de acaso
E as transeuntes exaladas pelas tuas pesquisas obstinadas
As tuas ideias ficas no coração de chumbo nos lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitas
A semelhança dos olhares consentidos com os olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitas

O amor é um homem inacabado

Paul Eluard
, L' Amour de la Poésie, 1929, Antologia, Tradução de António Ramos Rosa, Tempo de Poesia n.º8

Soccer and Philosophy*

Léda

Meu corpo desperta sou juvenil e bela
E murmuro um cantar da minha infância

Numa suave cama meu corpo como um íman
Desenha um céu de estrelas visto em sonhos

Todos me perderam de ninguém sou
Contudo sou como um espelho volante
Ofereço meu riso às fáceis cortesias

Meus seios têm a idade de ser acariciados
Como um sino pela tempestade atroz
Como um pão raro por quem saciou a fome

Posso limitar o poderia dos deuses
E deitar abaixo a sua imaginação

Ser mortal reproduzindo-me
Ser eterna destruindo o tempo

Hei-de corar quando o frio me tomar
E serei de neve nas chamas


Paul Eluard
, Léda, 1949, Antologia, Tradução de António Ramos Rosa, Tempo de Poesia n.º8

"Aula do Kama Sutra" - Darwish dito por ele mesmo




Com um copo com embutidos de lazúli
espera por ela

Sobre o lago em volta da tarde e o perfume de flores
espera por ela

Com a paciência do cavalo pronto para descer a montanha
espera por ela

Com o bom gosto do príncipe magnífico
espera por ela

Com sete almofadas cheias de nuvens leves
espera por ela

Com o fogo do incenso mulher enchendo o lugar
espera por ela

Com o cheiro do sândalo homem em redor do dorso dos cavalos
espera por ela

E não tenhas pressa, e se ela chegar depois da hora
então espera por ela

E se ela chegar antes da hora
então espera por ela

E não assustes os pássaros que estão nas suas tranças
e espera por ela

Para que ela se sente descansada como um jardim no cimo da sua beleza
e espera por ela

Para que respire este ar estranho no seu coração
e espera por ela

Para que levante o vestido das suas coxas, nuvem por nuvem
e espera por ela

E trá-la à varanda para ver uma lua afogada em leite
espera por ela

E oferece-lhe água antes do vinho, e não
olhes para as perdizes gémeas a dormir sobre o seu peito
e espera por ela

E toca-lhe a mão devagarinho quando
pousa o copo sobre o mármore
como se lhe levasses orvalho
e espera por ela

Fala com ela como uma flauta
com a corda assustada de um violino
como se fôsseis os dois testemunhas do que o amanhã vos prepara
e espera por ela

Ilumina-lhe a noite anel por anel
e espera por ela
até que a noite te diga:
não ficaram senão vós dois no mundo

Portanto leva-a com cuidado para a tua morte desejada
e espera por ela


Mahmûd Darwîsh
Tradução do árabe: André Simões
Eu disse-to pelas nuvens
Disse-to pelas árvores do mar
Por cada onda pelos pássaros nas folhas
Pelos calhaus do ruído
Pelas mãos familiares
Pelo olhar que se torna rosto ou paisagem
E o sono dá ao céu a sua cor
Por toda a noite bebida
Pela grade das estradas
Pela janela aberta por um fronte descoberta
Disse-to pelos teus pensamentos pelas tuas palavras
Toda a carícia toda a confiança se sobrevivem.

Paul Eluard, L' Amour de la Poésie, 1929, Antologia, Tradução de António Ramos Rosa, Tempo de Poesia n.º8

quinta-feira, 10 de junho de 2010

No dia de Camões



Mote alheo

De vuestros ojos sentellas,
Qu'enciẽden pechos de yelo
Suben por el ayre al cielo
Y en llegando son estrellas


Voltas proprias
Falsos looores os dan
Qu'essas sẽtellas tan raras,
No son nel cielo mas claras
Qu'en los ojos donde estan.
Porque quãdo miro en ellas
De como alũbran al cielo.
No se que seran nel cielo
Mas, se aca son estrellas.

Ni se puede presumir,
Que al cielo suban señora
Que la lũbre qu'en vos mora
No tiene mas que subir,
Mas pienso q dan querellas
A Dios nel octauo cielo,
Porque son aca en el suelo,
Dos tan hermosas estrellas.


Camões

(mantenho a ortografia da edição de 1621 das Rimas)

Uma alegoria dos dias

«Vi Sísifo a sofrer grandes tormentos,
tentando levantar com as mãos uma pedra monstruosa.
Esforçando-se para a empurrar com as mãos e os pés,
conseguiu levá-la até ao cume do monte; mas quando ia
a chegar ao ponto mais alto, o peso fazia-a regredir,
e rolava para a superfície a pedra sem vergonha.
Ele esforçava-se de novo para a empurrar: dos seus membros
escorria o suor; e poeira da sua cabeça se elevava.»

Homero, Odisseia (11. 593 – 600),Tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia, 2003 .

Chuva

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Inferno

Chamar-te-ei, e tudo será igual à serenidade
das contínuas leis de morte que governam o acaso,
menos a tua imagem de fogo e sombra
corroendo as débeis células do meu corpo.

Luís Quintais, Mais Espesso que a Água, Livros Cotovia, 2008

Hemingway reports Spain

Barcelona

It was a lovely false spring day when we started for the front this morning. Last night, coming in to Barcelona, it had been gray, foggy, dirty and sad, but today it was bright and warm, and pink almond blossoms colored the gray hills and brightened the dusty green rows of olive trees.
Then, outside of Reus, on a straight smooth highway with olive orchards on each side, the chauffeur from the rumble seat shouted, "Planes, planes!" and, rubber screeching, we stopped the car under a tree.

Jardim

Viste, escutaste
o pavão
que ensombrecia
o dia
profusamente?

Um veneno, um veneno
que é a imerecida
cor
deste canto.

Luís Quintais, Mais Espesso que a Água, Livros Cotovia, 2008

"Blood Simple" de Joel Coen, 1984

Depois da escrita

Eu convoco o lugar onde ninguém está, onde o olhar é
raro, e o ruído
é a plana e fugaz vontade do pensamento.

Será esta a vertigem, o abandonado court de ténis após as
chuvas de uma da tarde de maio,
a linguagem mais branda de uma poça de água na
imperfeita sintética superfície.

Eu começo depois da escrita, toda a escrita começa depois
da escrita.

Luís Quintais, Mais Espesso que a Água, Livros Cotovia, 2008

terça-feira, 8 de junho de 2010

Uma maior determinação

Agora, pela terceira vez desde que regressara do hospital, abriu o livro dela e leu a breve dedicatória da página de guarda. Escritas a tinta, em alemão, numa letra pequena, desesperadamente sincera, liam-se as palavras: «Meu Deus, a vida é um inferno.» Nada antes, nem nada a seguir. Solitárias na página, na quietude doentia do quarto, as palavras pareciam assumir a dimensão de uma máxima incontestável, clássica até. X ficou de olhos pregados na página durante vários minutos, tentando, contra ventos e marés, não ser arrastado. Depois, com uma maior determinação do que a que usara durante semanas , pegou num lápis e escreveu por baixo da dedicatória em inglês: «Pais e professores, ponho a questão "O que é o inferno?" Quanto a mim, é o sofrimento de ser incapaz de amar.» Começou a escrever o nome de Dostoievsky por baixo da frase, mas reparou - com um terror que lhe percorreu o corpo inteiro - que aquilo que escrevera era quase totalmente ilegível. Fechou o livro.

J. D. Salinger, Nove Contos, Difel, José Lima (trad.), 2005

In search of J.D. Salinger

Salinger’s death in January this year brought down the curtain, if you can say that, on a half-century of wilful seclusion that defines his literary personality and indelibly colours interpretation of his slender published output. “It is my rather subversive opinion,” he wrote in 1961 for the dust jacket of his book Franny and Zooey, “that a writer’s feelings of anonymity-obscurity are the second most valuable property on loan to him during his working years.” That arch “second most” is a classic Salinger diversion. The real question is: Valuable how? For the hermetic atmosphere these feelings generate? As a testament to purity of motive? As a method of focusing on what’s most important? With Salinger it is difficult to say, because in 1965, after a twenty-five-year career that had produced over thirty stories, three story collections, and one of the most popular novels ever written, he opted to transform avoidance of publicity into the ultimate literary silence by refusing to publish another word for the remaining forty-five years of his life.

Tédio

À mesa do tédio sentado
sei que o tédio
é a terra na qual
cresce a flor da ameaça,
esse símbolo deslocado
com que entendo
a primitiva técnica
de escrita e arremesso.

Luís Quintais, Mais Espesso que a Água, Livros Cotovia, 2008

"Call Northside 777" de Henry Hathaway, 1948

Gaguez

Todas as línguas do mundo se sujaram.
Fomos condenados à gaguez triunfal
pela qual procuramos ainda dizer
o que nos foi recusado.

Na mínima dor colhemos
os frutos que alimentam o nosso sangue,
a corrente que nos prende
à furiosa morte.

A metáfora da alma
será ainda a melhor dádiva
deste corpo tão eficiente e tão pobre.
Assim nos saciamos.

Luís Quintais, Mais espesso que a água, Livros Cotovia, 2008

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Oda a tu nombre doble


No conto "Los pasos en las huellas" de Julio Cortázar (*), uma personagem escreveu um poema dedicado a uma Irene Paz, intitulado "Oda a tu nombre doble". Quem faltou às aulas de Grego não percebe o título, e o Julio impiedosamente não explica. E eu também não.


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(*) in Julio Cortázar, Octaedro, Alianza Editorial, Madrid, 2005
morar bem
morar longe
morar lá onde
mora meu
mais distante quando

Paulo Leminski, O ex-estranho, Iluminuras, 2001

A árvore na janela

Olinda Wischral

pessoas deviam poder evaporar
quando quisessem
não deixar por aí
lembranças pedaços carcaças
gotas de sangue caveiras esqueletos
e esses apertos no coração
que não me deixam dormir

Paulo Leminski, O ex-estranho, Iluminuras, 2001

"Fargo" de Joel Coen, 1996

Redonda. Não, nunca vai ser redonda
essa louca vida minha
essa minha vida quadrada,
quadra, quadradinha,
não, nada,
essa vida não vai ser minha.

Vida quebrada ao meio,
você nunca disse a que veio.

Paulo Leminski, O ex-estranho, Iluminuras, 2001

Calma



«Es cierto que escribir me calma de a ratos, será por eso que hay tanta correspondencia de condenados a muerte, vaya a saber. Incluso me divierte imaginar por escrito cosas que solamente pensadas en una de esas se te atoran en la garganta, sin hablar de los lagrimales; me veo desde las palabras como si fuera otro, puedo pensar cualquier cosa siempre que en seguida lo escriba, deformación profesional o algo que se empieza a ablandar en las meninges.»


Julio Cortázar, Liliana llorando
(in Octaedro, 1974)

sábado, 5 de junho de 2010

«A criatura, senhor padre Augusto, pode ser boa sem que lhe acenem com os gozos do Céu e os enxofres do Inferno.»


Aquilino Ribeiro
O homem que matou o Diabo
Bertrand, 1939

(Para o Chico e já agora para o André também)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

The life of Artie Shaw

Lope, em sua casa III

Aqui a lareira, o ferro. As trempes. Aí soa
a madeira. As roupas penduradas. O cobertor
que dá calor ainda. Olhai-os: os brinquedos são
[meninos,
a mãozinha de bronze. O candeeiro. Mais espelhos...
A liberdade foi amor e acabou em prisões.
Preso ou livre um homem é conforme lhe diz a
[sua alma.
Em suas cadeias solto forjou o destino tornando-se
quem entre muros sempre viveu, venceu: entregou-se.
Liberdade mais que amor foi Lope, e assim brilha
perpetuamente livre: mais livre hoje faz o homem.

Vicente Aleixandre, Antologia de Vicente Aleixandre, Selecção, tradução e notas de José Bento, Editorial Inova, 1977

Uma cena the "The Hudsucker Proxy" de Joel Coen, 1994

Como Moisés é o velho

Como Moisés no alto do monte.

Cada homem pode ser aquele
e mover a palavra e erguer os braços
e sentir como do seu rosto a luz varre
o velho pó dos caminhos.

Porque ali está a aposta.
Olha para trás: a aurora.
Adiante: mais sombras. E as luzes despontavam!
E ele agita os braços e proclama a vida,
desde a sua morte a sós.

Porque como Moisés, morre.
Não com as tábuas vãs e o ponteiro, e o raio nas
......................................................................[alturas,
mas desfeitos os textos na terra, ardidos
os cabelos queimados os ouvidos pelas palavras
....................................................................[terríveis,
e alento ainda nos olhos, e nos pulmões a chama,
e a luz na boca.

Para morrer basta um ocaso.
Uma porção de sombra na linha do horizonte,
Um formigar de juventudes, esperanças, vozes.
E além na sucessão, a terra: o limite.
O que os outro verão.

Vicente Aleixandre, Antologia de Vicente Aleixandre, Selecção, tradução e notas de José Bento, Editorial Inova, 1977

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Epitáfio

Para apagar o teu nome,
ardente corpo que na terra aguardas
como um deus o esquecimento, aqui te chamo,
limite de uma vida, aqui, exacto
corpo que ardeu. Não sepulcro, terra livre.

Lançai ao passar vosso olhar lento,
o que uma dura pedra vos pedisse,
ou o que pede uma árvore sem pássaros,
casta na noite, em nua vigília.

Nunca o rumor de um rio aqui se escute,
Sob a profunda terra o morto vive
como absoluta terra.

Homem, passa:
não sobre um peito soarão teus passos.

Vicente Aleixandre, Antologia de Vicente Aleixandre, Selecção, tradução e notas de José Bento, Editorial Inova, 1977
- Este mundo que nos aperta por todos os lados, que vai esvaziando punhados do nosso pó aqui e ali, desfazendo-nos em pedaços como se orvalhasse a terra com o nosso sangue. Que fizemos nós? Porque nos apodreceu a alma?

Juan Rulfo, Pedro Páramo, Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues (trad.), Cavalo de Ferro, 2007.

Mark Twain

He could be verbose, and a grouch, and at times he was all elbows and sharp teeth, but he was also piercingly funny, and few could turn a phrase quite so neatly: “Wagner’s music is better than it sounds,” for example, or “Sometimes I wonder, whether the world is being run by smart people who are putting us on or by imbeciles who really mean it.” He was a great social commentator too, an opponent of imperialism and racism, a supporter of women’s rights and labour unions. But more than anything it was his voice that caught me; like that of Walt Whitman, it rang out as something new, something uniquely and compellingly American.
To know Twain fully, you first have to know the river. He was raised on its banks, but their acquaintance goes much further; having spent his early 20s dabbling in printing and newspapers elsewhere, Twain returned to Hannibal and trained as a steamboat pilot, studying 2,000 miles of the river before he was awarded his licence in 1859. He knew these waters intimately; he loved them, was reassured and inspired by them. Even his pen name was a piece of riverboat terminology—the boatman’s cry of “mark twain!” meant that the water was two fathoms deep and it was safe to proceed. It was already a pseudonym before Twain came along: he says in “Life on the Mississippi” that it had been used by another riverman, Captain Isaiah Sellers, upon whose death he breezily “confiscated” it.

Para ler, é seguir a seta ->

Princípio

Ele suicida-se no fim do primeiro conto.

(Nove contos, J. D. Salinger.)

O Corpo de Deus de 1647

A coisa conta-se em poucas palavras, e, apesar de quase completamente ignorada pela historiografia contemporânea, é fundamental na propaganda da Restauração. Mais, até ao século XIX ainda era fonte de inspiração de obras literárias, como "O Regicida", de Camilo Castelo Branco, e indirectamente as suas sequelas "A filha do regicida" e "A caveira da mártir".

No dia de Corpo de Deus de 1647, que nesse ano calhou a 20 de Junho, D. João IV comungou e foi à procissão, que percorria o que é hoje a Baixa de Lisboa. Alegadamente acoitado numas casas que teria alugado e cujas paredes teria derrubado para poder ter vista para os dois lados da rua, Domingos Leite Pereira esperava a passagem do rei para, alegadamente a mando de Castela, matar D. João IV (*). O rei lá foi à procissão, e voltou, imagino, para o regaço da sua Luisinha de Gusmão, no fim da dita. Então não houve tiroteio? Pois não. Alegadamente, Domingos Leite Pereira ter-se-á arrependido à última da hora, ao ver uma "majestade divina" pairando sobre o rei e que lhe teria paralisado os membros, impedindo-o de alvejar o Bragança - o que veio mesmo a calhar à propaganda quinto-imperista, que se fartou de escrever sobre isto. Confessou isto tudo em interrogatório, ou pelo menos assim diz a a crónica oficial, que acrescenta que o regicida frustrado, terá entoado loas a D. João IV, qual Saulo, aliás Paulo, depois da Estrada de Damasco.

Domingos Leite Pereira terá então fugido para Madrid, onde alegadamente terá prometido a Filipe IV que tentaria de novo matar o homem - e aqui não bate a bota com a perdigota: então se a criatura viu a tal majestade divina sobre o rei e lhe entoou louvores, então porque raio resolve que afinal vai tentar matar o homem de novo, o tal a quem entoou louvores e que viu ser protegido pelo seu Deus? Bom, mas é assim que reza a crónica oficial, e quem sou eu para contrariar Frei Francisco Brandão. (o Camilo arranjou uma versão muito melhor, mas o Camilo é o Camilo, eu sou eu).

Seja como for, em finais de Julho de 1647 Domingos Leite Pereira está de novo em Portugal, alegadamente para tentar matar D. João IV, outra vez. A tentativa não passa disso mesmo. Traído pelo companheiro, Roque da Cunha, é preso no dia 31 de Julho de 1647. Parece que confessou logo tudo, inclusive a história da majestade divina, que tão bem aproveitada seria pela propaganda do Quinto Império. Foram encontradas no lugar do crime que não aconteceu a escopeta e as balas embebidas em veneno. O que é muito conveniente, e revelador de que o moço era bastante distraído. Como a justiça naqueles tempos era célere, talvez demasiado célere, foi executado com requintes de crueldade no dia 21 de Agosto de 1647, apenas 2 meses depois do crime que não chegou a cometer.

O lugar onde não aconteceu o atentado está hoje em parte visível na Rua dos Fanqueiros, pois a rainha D. Luísa de Gusmão mandou que as casas fossem derrubadas e ali se fizesse um convento. Hoje apenas restam partes da igreja do convento, destruído em 1755.


A crónica oficial do acontecimento saiu logo em 1647, e é uma delícia propagandística. Recomendo vivamente os passos em discurso directo, sobretudo os atribuídos a D. João IV.

Um dos muitos textos que então se escreveram sobre o caso foi um sermão de Frei Luís de Sá, lente na Universidade de Coimbra, e que tem este delicioso título:

«Sermão que pregou o doutor Fr. Luís de Saa religioso da ordem de S. Bernardo, Lente da Cadeira de S. Thomas, e Gabriel da Universidade de Coimbra na procissão solemne que o Reverendíssimo Cabido do próprio bispado instituiu. Pro gratiarum actione, de Deus haver livrado a sua Majestade da admirável treição, que contra ele por ordem de Castela se tinha maquinado em dia de Corpus Christi


Foi pronunciado em Coimbra em 8 de Setembro de 1647, e publicado no mesmo ano - naquela época não se brincava em serviço, não havia cá as molezas e procrastinações dos nossos dias. Transcrevo dois parágrafos, modernizando a ortografia, mas conservando os casos em que a escrita denuncia formas de pronunciar diferentes das contemporâneas.

«Eu não me espanto por não ter este Salmo Autor ao certo, porque como é de um ânimo agradecido, e há tão poucos no mundo, não é novo não se lhe saber o nome, e acrescento que visto não ter este Salmo conhecidamente Autor, levado do protentoso milagre porque vimos render hoje as graças a esta santa Sé Catedral de Coimbra, com pública procissão, tão autorizada, que são estas palavras do Anjo Custódio do nosso Rei e Reino, falando expressamente com ele no Santíssimo dia de Corpus, defronte de nossa Senhora da Palma de Lisboa, quando Castela toda sempre falsa, com parte de Portugal traidor, capitaneados ambos do Diabo merediano, intentaram fazer alvo de suas setas, e tiros no pino do meio dia, a quem ia coberto do escudo da maior verdade, a custódia e âmbula do Santíssimo Sacramento.

Querem dizer as palavras do Anjo Custódio deste Reino falando com o Sereníssimo Rei nosso senhor Dom João o IV. A verdade do Senhor vos servira de escudo em toda a vida, não tendes que temer sombras nocturnas, nem setas que se derijam contra vós todos os dias: não façais caso de conselhos, e juntas de traidores, que no segredo da noite se maquinam contra vossa pessoa, que são acções de quem vive em trevas co juízo; finalmente tende grande ânimo, quando ao pino do meio dia vos virdes cometer do Diabo merediano com incurso diabólico.»


Fonte: impresso na Biblioteca Nacional, com a cota TR5661/19p

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(*) Portugal estava, recorde-se, em estado de guerra com Espanha, na sequência do 1.º de Dezembro de 1640, situação que se arrastaria por mais dois reinados, e só terminaria com a paz de 1668, e o reconhecimento da independência por parte de Espanha.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Às vezes um verso (ou dois)

diz-me o que é esta mensagem distante que suplica
que pranto escuto às vezes quando és só uma lágrima

Vicente Aleixandre
, Antologia de Vicente Aleixandre, Selecção, tradução e notas de José Bento, Editorial Inova, 1977

"Meet John Doe" de Frank Capra, 1941

Sempre

Estou sozinho. As ondas; praia, escuta-me.
De fronte, os delfins ou a espada.
A certeza de sempre, os não-limites.
Esta delicada cabeça não amarela,
esta pedra de carne que soluça.
Areia, areia, teu clamor é meu.
Por minha sombra não existes como seio,
não finjas que as velas e que a brisa,
que um aquilão, um vento furibundo
vai empurrar teu sorriso até à espuma,
ao sangue roubando os seus navios.

Amor, amor, detém teus pés impuros.

Vicente Aleixandre, Antologia de Vicente Aleixandre, Selecção, tradução e notas de José Bento, Editorial Inova, 1977

Neste artigo se conta de como Coetzee veio a beber cházinho com a menina encarregada de lhe censurar os livros

Princípio

Vim a Comala porque me disseram que vivia aqui o meu pai, um tal Pedro Páramo. Foi a minha mãe quem mo disse. E eu prometi-lhe que viria vê-lo quando ela morresse. Apertei-lhe as mãos como sinal de que o faria pois ela estava à beira da morte e eu disposto a prometer-lhe tudo.

Juan Rulfo, Pedro Páramo, Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues (trad.), Cavalo de Ferro, 2007.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Segunda-feira, quarta-feira e sexta-feira

Eu era.
Eu fui.
Mas não sou.

Eu era...
(Oh fauce maravilhosa
a do cipreste e sua sombra!
Ângulo de lua cheia.
Ângulo de lua sozinha.)

Eu fui...
A lua estava a brincar
ao dizer que era uma rosa
(Com uma capa de vento
meu amor jogou-se às ondas.)

Mas não sou...
(Junto à vidraça partida
cozo minha roupa lírica.)

Federico García Lorca, in Canções de Lua, Obra Poética, José Bento (trad.), Relógio d'Água, 2007.

In the shadow of the Patriarch

All dictators, from Creon onwards, are victims.­ --Gabriel García Márquez

I.

Many years later, in the course of writing his memoirs, Gabriel García Márquez was to remember that distant afternoon in Aracataca, in Colombia, when his grandfather set a dictionary in his lap and said, "Not only does this book know everything, it’s the only one that’s never wrong." The boy asked, "How many words are in it?" "All of them," his grandfather replied.

A lua surge

Quando sai a lua
perdem-se os sinos
e aparecem as sendas
impenetráveis.

Quando sai a lua,
o mar cobre a terra
e o coração sente-se
ilha no infinito.

Ninguém come laranjas
sob a lua cheia.
É preciso comer
fruta verde e gelada.

Quando sai a lua
de cem rostos iguais,
a moeda de prata
soluça na algibeira.


Federico García Lorca, in Canções de Lua, Obra Poética, José Bento (trad.), Relógio d'Água, 2007.

Uma cena de "Gilda" de Charles Vidor, 1946

Baco

Verde rumor intacto.
A figueira estende-me nos seus braços.

Como uma pantera, sua sombra,
espreita minha lírica sombra.

A lua conta os cães.
Engana-se e começa de novo.

Ontem, amanhã, negro e verde,
rondas meu cerco de loureiros.

Quem te amaria como eu
se mudasses o meu coração?

...E a figueira grita-me e avança
terrível e multiplicada.

Federico García Lorca, in Três Retratos com Sombra, Obra Poética, José Bento (trad.), Relógio d'Água, 2007