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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Colar da Pomba de Damasco (Mahmud Darwish)


alif . ا
em Damasco
_____ as pombas voam
__________ sobre uma cerca de seda
_______________ duas
____________________ a duas

bâ' . ب
em Damasco
_____ vejo toda a minha língua
______escrita num grão de trigo
______com agulha de mulher
______e corrigiu-a a perdiz da Mesopotâmia.

tâ' . ت
em Damasco
_____ estão bordados os nomes dos cavalos dos árabes
_____ desde os Dias da Ignorância1
______até ao Fim dos Tempos
______ou depois
______com fios de ouro

ṯâ' . ث
em Damasco
_____ o céu anda
_____ pelas ruas velhas
_____ descalço, descalço
_____ acaso precisam os poetas
_____ de inspiração
_____ ou de metro
_____ ou de rima?

jîm . ج
em Damasco
_____ dorme o estrangeiro
_____ de pé em cima da sombra
_____ como minarete no leito da eternidade
_____ sem saudade de país nenhum
_____ ou de ninguém

ḥâ' . ح
em Damasco
_____ prosegue o verbo no imperfeito
_____ as suas ocupações omíadas2:
_____ caminhamos para o nosso amanhã confiantes
_____ no Sol do nosso ontem.
_____ nós e a eternidade,
_____ habitantes deste lugar!

ḫâ' . خ
em Damasco
_____ rodam as conversas
_____ entre o violino e o alaúde
_____ à volta das questões das existências
_____ e dos fins:
_____ àquela que matou um amante renegado,
_____ para ela o Limite da Árvore de Lótus3!

dâl . د
_____ em Damasco
_____ Iussuf rasga
_____ com o nei4
_____ as suas costelas
_____ por nada
_____ senão que
_____ não achou com ele o seu coração

ḏâl . ذ
em Damasco
_____ voltam as palavras à sua origem,
_____ a água:
_____ não é poesia a poesia
_____ e não é prosa a prosa
_____ e tu dizes: não te deixarei
_____ mas toma-me para ti
_____ e toma-me contigo!

râ' . ر
em Damasco
_____ dorme uma gazela
_____ ao lado de uma mulher
_____ em cama de orvalho
_____ e então tira-lhe a roupa
_____ e cobre-se com o Barrada5!

zay . ز
em Damasco
_____ um pardal pica
_____ o trigo que deixei
_____ sobre a minha mão
_____ e deixa-me um grão
_____ para me mostrar amanhã
_____ a minha manhã!

sîn . س
_____ em Damasco
_____ um jasmim namorisca comigo.
_____ não me deixes
_____ e anda nas minhas pegadas
_____ e então o jardim tem cíumes de mim.
_____ não te aproximes
_____ do sangue da noite na minha Lua.

šîn . ش
em Damasco
_____ passo a noite com o meu sonho leve
_____ sobre uma flor de amendoeira que graceja:
_____ sê realista
_____ para que eu floresça segunda vez
_____ à roda da água do nome dela
_____ e sê realista
_____ para que eu atravesse o sonho dela!

ṣâd . ص
em Damasco
_____ apresento a minha alma
_____ a si mesma:
_____ aqui mesmo, sob dois olhos amendoados
_____ voamos juntos gémeos
_____ e adiamos o nosso passado comum

ḍâd . ض
em Damasco
_____ suavizam-se as palavras
_____ e então ouço a voz do sangue
_____ em veias de mármore:
_____ arranca-me ao meu filho,
_____ diz-me a cativa,
_____ ou tornar-te-ás comigo em pedra!


ṭâʾ . ط
em Damasco
_____ conto as minhas costelas
_____ e faço voltar o meu coração ao seu trote
_____ talvez a que me fez entrar
_____ na sua sombra
_____ me tenha matado
_____ e não me dei conta

ẓāʾ . ظ
em Damasco
_____ a estrangeira devolve a sua liteira
_____ à caravana:
_____ não regressarei à minha tenda
_____ não pendurarei a minha guitarra
_____ depois desta tarde
_____ na figueira da família

ʿayn . ع
em Damasco
_____ os poemas são translúcidos
_____ não são palpáveis
_____ e não são mentais
_____ mas o que diz o eco
_____ ao eco

ġayn . غ
em Damasco
_____ a nuvem seca em uma época
_____ e cava um poço
_____ para o Verão dos amantes na várzea do Qâsyûn6
_____ e o nei cumpre os seus usos
_____ na saudade que nele há
_____ e chora em vão

fâ' . ف
em Damasco
_____ registo no caderno de uma mulher:
_____ todos os
_____ narcisos que há em ti
_____ te desejam
_____ e não há muro à tua volta que te proteja
_____ da noite do teu encanto excessivo

qâf . ق
em Damasco
_____ vejo como se encolha a noite de Damasco
_____ devagarinho devagarinho
_____ e como com as nossas uma deusa se torna
_____ una!

kâf . ك
em Damasco
_____ canta o viajante em segredo:
_____ não voltarei de Damasco
_____ vivo
_____ nem morto
_____ mas nuvem
_____ que alivia o peso de borboleta
_____ da minha alma fugitiva.

Mahmûd Darwish
Tradução: André Simões

NOTAS
Cada estrofe tem por título as letras do alfabeto árabe, até ao kaf.

1A jahiliyya, o período pré-islâmico.
2Alusão ao Califado Omíada de Damasco (661-750).
3Trata-se da Árvore de Lótus que marca o fim do Sétimo Céu, ou seja: a última fronteira, aquela que ninguém pode passar (Alcorão 53:14).
4O nay é um género de flauta oriental.
5Trata-se de um rio que atravessa Damasco.
6Trata-se de um rio que atravessa Damasco.


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Two short poems about nature

You and I are in words.
We belong to the same book.
The ashes upon you are mine,
and in the shadows we are
the only two witnesses, victims,
two short poems about nature
waiting for the devastation to finish its feast.

Mahmud Darwish, de "The Raven's Ink", in Unfortunately it was Paradise: Selected Poems, Munir Akash et al. (trad.), Frienses Corporation (Printer), s.d.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

but I resemble nothing

but I resemble nothing
As if there were no room on earth
for those pitiful, sick lyricists, descendants of demons, who
when they dream their beautiful dreams,
breach all borders and teach love poetry to parrots.

Mahmud Darwish, de "Mural", in Unfortunately it was Paradise: Selected Poems, Munir Akash et al. (trad.), Frienses Corporation (Printer), s.d.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

De "I see what I want to See"

We believed in what we learned from words.
Poetry was exhaled from the fruit of our nights,
and from herding our goats on their way to pasture.
Dawn was blue, tender and dewy,
and our dreams were modest, the size of our houses:
we see honey in the carobs and gather it.
We dream that the sesame seeds on the terraces
are heaped up, and we swift them.
We see in the dream what we then face at dawn.
The lover's scarf was the dream.
Yet we did not raise our fig tree
so the southern invaders could hang us upon it. 

Mahmud Darwish, Unfortunately it was Paradise: Selected Poems, Munir Akash et al. (trad.), Frienses Corporation (Printer), s.d.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

The last train has stopped

The last train has stopped at the last platform. No one is there
to save the roses, no doves to alight on a woman made of words.
Time has ended. The ode fares no better than the foam.
Don't put faith in our trains, love. Don't wait for anyone in the crowd.
The last train has stopped at the last platform. But no one 
can cast the reflection of Narcissus back on the mirrors of night.
Where can I write my latest account of the body's incarnation?
It's the end of what was bound to end! Where is that which ends?
Where can I free myself of the homeland in my body?
Don't put faith in our trains love. The last dove flew away.
The last train has stopped at the last platform. And no one was there.

Mahmud Darwish, Unfortunately it was Paradise: Selected Poems, Munir Akash et al. (trad.), Frienses Corporation (Printer), s.d.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Nem menos, nem mais


Sou uma mulher. Nem menos, nem mais.
Vivo a minha vida como ela é
fio a fio
e fio a minha lã para vesti-la, não
para acabar a história de Homero ou o seu Sol
e vejo o que vejo
tal como é, na sua aparência.
e no entanto fixo o olhar uma
e outra vez na sua sombra
para sentir o pulso da perda,
e escrevo um amanhã
sobre as folhas de um ontem: não há voz
apenas o eco.
Gosto da ambiguidade necessária nas
palavras daquele que viaja de noite em direcção ao que já se foi
da ave sobre as colinas das palavras
sobre as açoteias das aldeias.
Sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Faz-me voar a flor de amendoeira,
no mês de Março, da minha varanda,
saudosa de um dizer distante:
– Toca-me, para que eu leve os meus cavalos à água das nascentes.
Choro sem razão aparente, e amo-te
a ti como és, sem obrigação
sem ser em vão.
e dos meus ombros levanta-se o dia sobre ti
e quando te abraça desce uma noite sobre ti
e eu não sou isto nem aquilo
não, não sou Sol nem Lua
sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Sê tu o Qays da nostalgia
se assim queres. É que eu
eu gosto de ser amada como sou
não uma imagem
colorida no jornal, ou uma ideia
entoada no poema entre os cervos...
ouço o grito de Laila longínquo
a partir do quarto de dormir: – Não me deixes
prisioneira de uma rima nas minhas noites das tribus
não me deixes com eles como uma história...
sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Eu sou quem sou, como
tu és quem és: moras em mim
e eu moro em ti sobre ti para ti
amo a claridade necessária no nosso mistério partilhado
sou tua quando transbordo da noite
mas não sou uma terra
não sou uma viagem
sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Cansa-me
o ciclo da Lua mulher
adoece a minha guitarra
corda
a corda
sou uma mulher,
nada menos
nada mais!

Mahmûd Darwîsh, O leito de uma estranha (1999)
Tradução do árabe: André Simões

sexta-feira, 16 de março de 2012

Para não dizerem que não alimento os miúdos com cultura clássica


سَيَمْتَدُّ هَذا الْحِصارُ إلى أَن يُنَقِّحَ
سادةُ "أُولِمْب" إلياذةَ الخالِدة

(de "Estado de Sítio", 2002)
Mahmûd Darwîsh


durará este cerco até deixarem
os senhores do Olympo de polir a Ilíada imortal
Tradução: André Simões

terça-feira, 12 de outubro de 2010

al-Ilyâda


durará este cerco até deixarem
os senhores do Olimpo de polir a Ilíada imortal

(de "Estado de Sítio", 2002)

Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões





سَيَمْتَدُّ هَذا الْحِصارُ إلى أَن يُنَقِّحَ

سادةُ "أُولِمْب" إلياذةَ الخالِدة

sayamtadu hâḏâ l-ḥiṣâru 'ilâ 'an yunaqqiḥ
sâdatu 'Ûlimb 'Ilyâḏata l-ḫâlida

sexta-feira, 11 de junho de 2010

"Aula do Kama Sutra" - Darwish dito por ele mesmo




Com um copo com embutidos de lazúli
espera por ela

Sobre o lago em volta da tarde e o perfume de flores
espera por ela

Com a paciência do cavalo pronto para descer a montanha
espera por ela

Com o bom gosto do príncipe magnífico
espera por ela

Com sete almofadas cheias de nuvens leves
espera por ela

Com o fogo do incenso mulher enchendo o lugar
espera por ela

Com o cheiro do sândalo homem em redor do dorso dos cavalos
espera por ela

E não tenhas pressa, e se ela chegar depois da hora
então espera por ela

E se ela chegar antes da hora
então espera por ela

E não assustes os pássaros que estão nas suas tranças
e espera por ela

Para que ela se sente descansada como um jardim no cimo da sua beleza
e espera por ela

Para que respire este ar estranho no seu coração
e espera por ela

Para que levante o vestido das suas coxas, nuvem por nuvem
e espera por ela

E trá-la à varanda para ver uma lua afogada em leite
espera por ela

E oferece-lhe água antes do vinho, e não
olhes para as perdizes gémeas a dormir sobre o seu peito
e espera por ela

E toca-lhe a mão devagarinho quando
pousa o copo sobre o mármore
como se lhe levasses orvalho
e espera por ela

Fala com ela como uma flauta
com a corda assustada de um violino
como se fôsseis os dois testemunhas do que o amanhã vos prepara
e espera por ela

Ilumina-lhe a noite anel por anel
e espera por ela
até que a noite te diga:
não ficaram senão vós dois no mundo

Portanto leva-a com cuidado para a tua morte desejada
e espera por ela


Mahmûd Darwîsh
Tradução do árabe: André Simões

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Salmo 3

no dia em que as minhas palavras foram
terra
fui amigo de espigas de trigo

no dia em que as minhas palavras foram
fúria
fui amigo de grilhões

no dia em que as minhas palavras foram
pedra
fui amigo de arroios

no dia em que as minhas palavras foram
revolta
fui amigo de terramotos

no dia em que as minhas palavras foram
cabaças azedas
fui amigo do optimismo

quando as minhas palavras se tornaram
mel
as moscas cobriram-me
os lábios

Mahmûd Darwîsh, aqui. Tradução de André Simões.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Mahmud Darwish

Mahmud Darwish, poeta que o André tem vindo a traduzir, sai no número 107 da «magazine of new writing», a Granta. Vou tentar deitar-lhe a mão e logo vos conto.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

lama


um pouco de absoluto do azul infinito
basta
para aliviar a opressão deste tempo
e limpar a lama deste lugar

Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões
versão preliminar

قَليلٌ مِن المُطْلَق الأَزْرَقِ اللانهائيِّ
يكفي
لِتَخْفيف وَطْأةِ هذا الزمان
وتنظيف حَمْأةِ هذا المكان