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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Inferno

Chamar-te-ei, e tudo será igual à serenidade
das contínuas leis de morte que governam o acaso,
menos a tua imagem de fogo e sombra
corroendo as débeis células do meu corpo.

Luís Quintais, Mais Espesso que a Água, Livros Cotovia, 2008

Jardim

Viste, escutaste
o pavão
que ensombrecia
o dia
profusamente?

Um veneno, um veneno
que é a imerecida
cor
deste canto.

Luís Quintais, Mais Espesso que a Água, Livros Cotovia, 2008

Depois da escrita

Eu convoco o lugar onde ninguém está, onde o olhar é
raro, e o ruído
é a plana e fugaz vontade do pensamento.

Será esta a vertigem, o abandonado court de ténis após as
chuvas de uma da tarde de maio,
a linguagem mais branda de uma poça de água na
imperfeita sintética superfície.

Eu começo depois da escrita, toda a escrita começa depois
da escrita.

Luís Quintais, Mais Espesso que a Água, Livros Cotovia, 2008

terça-feira, 8 de junho de 2010

Tédio

À mesa do tédio sentado
sei que o tédio
é a terra na qual
cresce a flor da ameaça,
esse símbolo deslocado
com que entendo
a primitiva técnica
de escrita e arremesso.

Luís Quintais, Mais Espesso que a Água, Livros Cotovia, 2008

Gaguez

Todas as línguas do mundo se sujaram.
Fomos condenados à gaguez triunfal
pela qual procuramos ainda dizer
o que nos foi recusado.

Na mínima dor colhemos
os frutos que alimentam o nosso sangue,
a corrente que nos prende
à furiosa morte.

A metáfora da alma
será ainda a melhor dádiva
deste corpo tão eficiente e tão pobre.
Assim nos saciamos.

Luís Quintais, Mais espesso que a água, Livros Cotovia, 2008