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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Estado da coisa

Ouvir um idiota perorar sobre poesia. Dar-lhe o ouvido. Cortar a orelha e depositá-la nas suas mãos. Fixá-lo com um olhar inquisidor, torcidamente agradecido. (Estou sempre tão grata por um sistema que me ilumine, etc.). E acarinhar a intenção de lhe pregar esse susto. Demorar os olhos em cima deste homem. Tu continuas a carregar perguntas, tens cada vez menos respostas. E se andas, não aumentas, não evoluis. Mas como qualquer outro carregas contigo coisas. Uma hierarquia de desrazões. Quanto mais explicações, menos motivos. No coração de cada ideia há uma pedra, preta e compacta porque absorveu toda a luz em redor. Tu estendeste a mão e estavas à espera de que houvesse calor.
A fábula é sempre a mesma. Querias falar e estavas à espera de que alguém te ouvisse. Mas não há língua que chegue para este grito, ouvido em que ele encaixe completamente. Isto é sobre uma comunicação interrompida. A história de um erro. Esmurrar a parede com a chave e estar à espera que o que se abrisse fosse porta.

sábado, 9 de março de 2013

Subir

Subir a correr as escadas até ao último andar da biblioteca em ritmo de perseguição (sed ninguém no encalço, bibliotecas sempre me inspiraram movimentos sneaky, uma vontade de murmurar tudo, um tom conspiracional). Só no topo, olhando para as escadas de incêndio visíveis pelas janelas é que percebo que o edifício é circular porque foi planeado como uma torre. Estou aqui há quase um ano e só agora vejo isso. Aquilo que numa biblioteca pode ser um certo ambiente monástico pode também ser entendido como atmosfera prisional (ia escrever "vaga" antes de "atmosfera" mas refriei-me a tempo, não é vaga coisa nenhuma). A definição é útil porque se aplica a outros contextos, a outros ambientes. O acto de subir testa outra coisa, a ideia de que para ler e para escrever não basta resistência (sublinhar resistência) mental é também preciso resistência física (li isto algures esta semana, não sei onde). Com longa resistência se preparou para resistir e talvez que não o cumpra. Talvez que venha a ceder como madeira seca. Ou talvez que o cumpra cinicamente. Com um jeito de pés pisando vidro moído e rosto impassível. Uma imagem sobre resistência. Se bem que aqui o evidente seria mesmo evocar uma educação pela pedra.
Alguns dos livros aqui estão presos em closed stack, mas a pedido podem passear pela cidade, serem-te confiados por um breve período de algumas horas, de dias até, mas a maior parte deles não pode ser levada contigo para casa. Podem ficar por alguns dias na reading room, reservados em teu nome, mas não podem sair. Vêm numa carrinha azul. Há um gabinete à entrada do edifício. Mostras a um dos bibliotecários o teu cartão. Ela procura os livros que pediste na noite anterior ao closed stack. Os teus livros viajam de noite. Encontram-se contigo de manhã. Andas a ler sobre _____. After virtue. Fiction and the Figures of Life. Singing the dead: a model for epic evolution. Guilt by descent: moral inheritance and decision making in Greek Tragedy. Os teus livros viajam de noite. A sua viagem de noite aos poucos é a tua cara nos autocarros em que de noite, sempre de noite, fazes a viagem de volta. Apropriação. Uma coisa que vais escavando em ti. Frase a frase. Esperas que o significado, a soma de todas as leituras, faça um padrão e do padrão surja um sentido. Mas no processo não aprendes. Não há nada em ti que possa já cair na tentação de ser educado. Ou nada que sequer a queira. Esta foi a última coisa que aprendeste. Mas tens saudades desse tempo. Bibes e sangue a correr do nariz no princípio da primavera, cadeiras baixas, pacotes de leite com chocolate e maçãs ao fim da tarde. Esse mundo desapareceu e aquilo que dele querias de volta nunca existiu. Ou existiu apenas na medida em que a tua visão forçou uma mentira fundacional. Mito insignificante da origem. A identidade é outra coisa. É assim com a maior parte das pessoas. Estes livros que estavam presos cumprem um certo percurso na cidade a uma hora clandestina. Dão entrada na biblioteca às onze da manhã para que os possas levantar depois de almoço. Mas às vezes às dez para as dez já aqui estás porque da janela consegues ver chegar a carrinha. Grandes caixas de plástico azul ficam na rua estreita apenas durante alguns momentos. São deixadas sem vigilância. Left unattended. Como bagagens num aeroporto. Caiu sobre elas a neve de Fevereiro, cai sobre elas a abundante chuva de Março. Aqui o tempo é monótono de variadas maneiras. Homens de capuz carregam-nas para dentro. Qualquer coisa de fúnebre nisto. As academias fecharam os livros. Fecharam os livros para (em versão em que se insinue a mais evidente suspeita, troque-se a "para" por "a pretexto de") os guardar. Do not leave your luggage unattended. De todos os livros nas caixas, terás de separar, só poderás amar alguns. Coabitar com alguns. Mas muitos destes são aqueles livros que são já completamente prisioneiros, que nunca foram livres. (De quantas coisas são reféns as coisas que escrevemos?) Não sabemos se é nosso dever tratá-los com pena ou suspeita, ou ambas. Fora desta cidade, na tua cidade, deixaste para trás uma república de livros livres. Livros que tu fizeste. Livros que fizeste com amigos, livros feitos por amigos. Livros feitos por pequenas casas. Livros impressos ilegalmente. Livros sem um código que o teu cartão com código de barras pudesse redimir por umas horas de uma gaiola onde os fechassem. Livros perigosos, completamente livres, completamente livros. Livros para a felicidade clandestina como em Clarice Lispector. Que podem produzir o efeito físico de subir três andares de um golpe. Há aqui alguns livros assim. Mas estão presos. O teu encontro com eles é premeditado. Das 9 às 21.50 durante os dias de semana. Seguem uma regra para serem lidos. Tu mesma os andas a ler de um ponto de vista da convenção. Não, isto não é verdade. Lembras-te do_____ a semana passada? Sim, mas isso foi inesperado. Nenhum outro livro fala dele. Ele estava até meio escondido na estante (não estava nada, estás a exagerar). As torres altas, ocres, mais altas do que a cúpula deste edifício. Os pequenos quintais mal-tratados. O chá com leite às cinco da tarde. O mau hálito do chá com leite às cinco e meia. Padres anglicanos de batina branca e preta, passando na gala do empedrado, enquadrados pelas linhas amarelas das ciclovias. Cheiro de laranja nas mãos (escapuliste-te para comer, trá-las dentro de um saco de plástico na mochila, são inesgotáveis, nunca mais acabam, o saco é sem fundo, o som de laranja em árabe soa ao nome da nacionalidade com que te identificas). 

O tempo do voo das pernas tem uma relação proporcional directa com a escassez crescente de ar nos pulmões: os únicos livros que interessam são esses. 

Isto é óbvio não devia ser preciso dizê-lo e dizê-lo não exime da possibilidade de incorrer em erro, em violência, injustiça cega e colaborante, da hipótese de clandestinidade, a mão que isto escreve ou que com isto se possa identificar. A mesma que na manhã se estende para os livros que vieram do arquivo. Aquela que deixando a torre e que saindo para a noite que cai (Apolo chegou como chega a noite, recordou-me Miguel não sei quando ou talvez Joana e quando o fui reler, eles eram já parte desse verso, reunidos por um pequeno instante, esses amigos chegavam-me como Apolo que chega como chega a noite, todas as noites Apolo sob a forma da noite, eis o quão perigoso isto é) cantarola no escuro, militantemente, quase militarmente, aquela coisa que Caetano canta em espanhol com insinuante sotaque de português do Brasil: "como és mejor el verso aquél que no podemos recordar".

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Neve



Os óculos congelaram-se enquanto pedalava pela neve. Uma carrinha com andaimes parou à minha frente no semáforo à saída de Parks Road. Rapazes de calças vermelhas e casacos encerados. Esqueci-me de um livro dentro da mala, só me lembrei dele há pouco. Custou-me duas libras. É da NYRB Classics (nunca li um livro deles que fosse mau - eles publicaram Grief Lessons e An Apartment in Athens - muito agradecida). Dentro da 2Pound Bookshop o livreiro passeia-se de manga curta, exibe  os biceps indistintamente às miúdas e às velinhas que entram na loja a fazer tempo para o chá no Morton's em frente, mas este passeia-se de manga curta ao abrigo do ar condicionado, não como o motorista do autocarro das 2 da manhã em Luton, cá fora a carregar as malas, como se o ar quente do autocarro o entediasse. Dentro dos limites do aeroporto os controladores aéreos a encherem de sal as pistas. É uma da manhã e o judeu sentado à minha frente, de costas para mim, lê a Torah ao filho, os dois de kippahs grandes negras, os dois vestidos de preto, o que podia não querer dizer nada do grau de ortodoxia. Mas ler a Torah ao filho (doze, treze anos?, loiro, sardento, indistintamente britânico ao contrário do pai) à uma da manhã diz. Caio no sono e volto com os murmúrios deles. Mudam do hebraico para o inglês. O livro não era Neve. Esse foi o livro de que ia à procura. Passo, acelero. António Variações (!) no iPod. Detesto fazer a rotunda no princípio de Cowley. Mais com mau tempo. Estas coisas não se repetem. Acontecem. De cada vez. Vinha comigo, o tempo todo aquela imagem dos rapazes que durante uma semana agitaram um ninho de vespas no cruzamento de um pinhal. A paciência para montar uma armadilha, para cercar devagar, lentamente, as coisas que o meu desejo escolheu. Não o meu prazer nisso. A paciência que não é o mesmo que disciplina mental, o desejo que não é o mesmo que prazer. É esta coisa pesada que é carregada por tudo, pela minha energia, pelo traço mais verdadeiro e comprometido da minha habilidade para a alegria, pela minha amargura ligada ao que recuso, pela minha consciência dos outros, pelo meu desprezo, pelo meu amor árduo, estéril, desenganado sempre pelas mesmas coisas, estavam comigo onde sempre estive, vieram comigo, continuarão sempre comigo. Como Pierre Bonnard, que pintou vezes sem conta, sem conta, numa cegueira de repetição, não a repetição que vai despindo a coisa do seu significado, mas a repetição que espessa, que afina, a mesma mulher, no mesmo quarto, entre as mesmas coisas. Eu lembro-me daquela mesa escura, de correr as persianas de tarde e de me sentar em impotência, vendo-me a partir tudo, a rasgar tudo. De devagar me acalmar, de perceber finalmente que cada um carrega o seu grito, o longo sopro em cujo fluxo todos fomos apanhados. Os rapazes agitando o ninho de vespas, correndo descalços pelo caminho. E corrijo-me lentamente pela repetição do erro. Até que um deles acaba por tropeçar. A cada passo dado em falso um milímetro de correcção. O meu corpo endurecido que não aprende por cortesia mas antes para que não o chateiem. Para que o deixem em paz. Que não aprende, que finge que aprende. Que isto se confunda com civilização é às vezes toda a obediência à lei de que sou capaz. E é-me agradável até o murmúrio de vozes que enche a atmosfera, como luzes que piscam, que repete a luz mortiça de candeeiros a petróleo, uma imagem que vem detrás, que é um modo de voltar ao lugar de onde vim. O que em mim se sentisse contente pelo grau de proporcionalidade entre pirueta & aplauso. Ou murmurando dizer que afinal isto não funciona assim. Esta máquina não funciona assim.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Desencorajar os outros leões

According to Pliny (Natural History 8.47), the Greek historian Polybius reported that he and Scipio Aemilianus, who destroyed Carthage in 146 B.C., saw man-eating lions crucified there as a deterrent to other lions.

J. C. McKeown, A Cabinet of Roman Curiosities: Strange Tales and Surprising Facts from the World's Greatest Empire, Oxford University Press, 2010

Atendendo ao actual momento do Sporting, há uma série de graçolas que me ocorrem envolvendo esta história, mas vou abster-me de as fazer.

Podia ser o meu mote

ζῇ τε καὶ βλέπει φάος (Ésquilo, v. 299 dos Persas).

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Dois ou três gestos

Fazer café de manhã demora dois ou três gestos. O metal da cafeteira aquece demasiado com a água quente e queima-lhe sempre as mãos. Esquece-se sempre da pega, nas costas dela, suspensa por um pego na porta da cozinha.
A conclusão lógica é a de que há coisas assim, demasiado cedo para pensarmos que existem.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Ladies rolling their eyes







































(Às vezes pergunto-me se seria possível que as Ladies de Atenas [não me interessa para isto saber se elas estavam sempre trancadas no gineceu] também revirassem os olhos quando o poeta Sófocles, já nonagenário - consta que morreu aos noventa e picos num naufrágio, passava por elas, distraído ou apressado, em direcção à ágora?)

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Macro, Phlebas

Há verdadeiramente dias destes em que me arrasto de cansaço. Um olhar parado pousando em todas as coisas. É Agosto. Para dizer que morre de calor, o gato põe-se de barriga para cima, catatónicas patas para o ar, língua de fora. A pior coisa na passagem definitiva de um trabalho sobre historiografia para um trabalho sobre literatura, sobre mitologia, é a noção de que as personae sobre quem trabalho deixam de existir. As probabilidades de algum nome escrito na pedra me vir dizer que estiveram vivas são consideravelmente menores. Visito as minhas últimas notas, estapafúrdias de tão pormenorizadas, sobre o imenso, interminável texto da Embaixada. Uma delas diz que Macro, prefeito do Pretório em Roma no ano de 38, anos antes prefeito das Vigílias, morreu antes de ser acusado formalmente de maiestas (traição ao estado, na época imperial era uma acusação que dava ao imperador o pretexto para se desfazer de rivais em potência). Como sabemos isto? Ele doa à sua cidade a soma para construção de um anfiteatro. Uma cidadezinha chamada Alba Fucens. No anfiteatro fica uma inscrição que nos diz que se pagou a obra por sua disposição testamentária. Se ele doou o dinheiro ainda não tinha sido acusado formalmente de nada. É suicidado nesse ano. Provavelmente quê? Outubro, Novembro, no máximo. Muito provavelmente em meados de Outubro. Os seus bens não foram penhorados e vendidos em hasta pública, logo, é altamente improvável que ele tivesse sido acusado fosse do que fosse. Macro que chegou a puxar os cordelinhos na corte de Tibério. De quem Suetónio nos diz que era tão ambicioso que chegou a ceder os favores da sua esposa a Calígula de modo a aumentar a sua influência junto do jovem imperador. Qualquer coisa nisto tudo que me lembra T. S. Eliot: Gentile or Jew, o you who turn the wheel and look to windward, consider Phlebas, who was once tall and handsome like you.
A pior coisa de se passar da historiografia para a literatura é também a melhor.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Óculos

Usei os mesmos óculos durante mil dias. Pousava-os na estante ao lado da cama no fim do dia, inevitavelmente tornava a tactear à procura deles de manhã. Esqueci-me deles talvez em dezenas de sítios, segui as mais idiotas pistas mentais para os recuperar. Os meus expedientes teriam causado o teu riso. Comecei a usá-los por causa de um homem chamado Anatole, estou certa disso. Uma vez, uma única, deixei-os para trás em fuga de um sítio. Tive de voltar em pontas de pés para os ir buscar. Nos primeiros dias pesavam-me no nariz, uma sensação de desconforto equilibrada pelo facto de pela primeira vez em meses ver claramente as coisas em meu redor. Levava a caixa em que me foram vendidos para toda a parte. Com o tempo deixei-me disso. Através deles vi talvez uma vintena de cidades, os dois gatos, o amado, o fundo da rua sempre ligeiramente desfocado, o Jardim das Delícias de Bosch no Prado, as letras de tamanho médio no cais do outro lado do metropolitano. Não os tirava sequer para jogar ténis. No primeiro dia em que os usei, pude finalmente ver distintamente a cara da professora de literatura latina, beleza famosa entre os alunos de clássicas. Conformei-me à ideia de que eram inevitáveis no dia em que, olhando para o fundo do corredor, confundi o Edgar com a professora de literatura portuguesa contemporânea. Às vezes tirava-os só para olhar em meu redor e ver tudo desfocado. Nos primeiros dias tinha receio de embater contra qualquer coisa com eles na cara, sabes, como quando vais a andar na rua distraído e, bang, em cheio num poste. Com eles postos na cara vi Notorious, Fanny Och Alexander, Cenas de um Casamento, Pierrot le Fou, Ladrões de Bicicletas, centenas de filmes. Hoje partiram-se. Como se fossem qualquer outro objecto vulgar vulgar vulgar, feito de ferro e vidro, que terei de deitar fora antes de se tornar lixo em qualquer canto de uma gaveta.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Sr. Mendonça

Por vezes atraso-me um pouco para ir beber café e quando chego lá abaixo fico sentada ao pé do Sr. Mendonça e da esposa, um casal de reformados. O Sr. Eliseu, empregado do café (ficaria bem se eu agora acrescentasse há mais de quarenta anos, mas a verdade é que não faço a mínima ideia e não quero atraiçoar o Sr. Eliseu), atende-os quase sempre primeiro, o que só me chateia quando estou com pressa, ou quando cheguei primeiro que eles e não trouxe um livro ou outra companhia e estou a reparar nesses pormenores.
Como a maior parte dos homens em Babilónia, o Sr. Mendonça foi primeiro procônsul e depois escravo. A isto talvez importasse acrescentar que quase que posso apostar que o seu proconsulado se deu algures até um ano antes da segunda metade da década de setenta do século passado e que, segundo ele, a escravatura se deu depois. Digo isto por causa de uma ou outra diatribe saudosista a atirar para o neflibata em que ele às vezes se lança, sobretudo quando na mesa atrás dele se senta um animado grupo de antigos profissionais liberais, hoje em dia todos reformados, que à data do proconsulado do Sr. Mendonça deviam estar todos do outro lado da barricada. Anyway.
O Sr. Mendonça hoje não está em dia de diatribes e dedica-se a outro costume, o de ler A Bola. E o que ele lê ostensivamente não são as notícias de desporto mas a secção de anúncios ordinarotes do jornal. A esposa, que está com o Correio da Manhã em mãos, mas claramente indignada com o marido, muda também para a página equivalente no jornal dela. Vai daí, ele põe um ar escandalizado e diz-lhe que uma mulher séria e uma mãe de família não lê coisas daquelas. Eu bebo o meu café e desando.
Há estas pessoas que de vez em quando vejo juntas, que calculo que estão juntas há décadas, que não consigo perceber se se enervam mutuamente porque já não têm nada a dizer uma à outra mas permaneceram juntas pelo hábito e agora o desporto que lhes resta é envenenar as respectivas existências ou se se enervam mutuamente porque ainda gostam bastante uma da outra.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Carpe diem























Os dois descalços na calçada de pedra preta, braços em torno dos ombros. Olham para as sapatilhas penduradas na corda. Um diz: E agora como é que as tiramos de lá? Esta alegria a nada presa que a primavera traz com o seu contágio de todas as cores, de todas as flores, mesmo quando na cidade por estes dias a estação nova parece coisa menor porque tudo devia ser caso melancólico e triste. Nós passamos. Às vezes passamos pelas coisas mais penosas (não as mais dolorosas, nessas submergimos quase histericamente) e é só esta travessia onde o nosso coração não se prende, não se quer prender, porque a sua âncora são outras coisas, porque por vezes ainda somos melhores que as nossas circunstâncias, recusamo-nos a que elas nos definam. Que sejam elas a dizer-nos és isto ou és aquilo. E nós para elas: não, merda, não.
***
No ferry entre Paros e Naxos imaginei que havia uma hora em que podia dizer, respondendo à pergunta de um estranho, écheis óra?, e desprezando o relógio, ochi, den echo óra. Por vezes isto, não estar preso ao tempo, à circunstância, poder só olhar em frente. Uma pausa para respirar rente ao oceano, mesmo onde a orla da espuma rasa a areia. Depois regressaremos. Resistir sem grande alarido, pacientemente.
***
Acho que perdi nesse ferry as últimas dracmas que tinha, em Naxos passei fome antes do regresso. Mas é de outras coisas que tenho medo: como as garras cortadas, o rádio desligado, ficar sem música (o que invalidaria para sempre a hipótese do verso let's dance to keep the fear away). Vital é renunciar a que outros nos façam demasiado tristes com o nosso curvado e amarelo aceno de profunda concordância e manso assentimento. Porque se Heitor ainda disse a Andrómaca, quando pela última vez a viu nas muralhas de Tróia: Mulher maravilhosa, não me entristeças demasiado o coração, não há homem que contra a vontade do destino à própria morte escape. Porque se esse homem não há, nunca houve, então isto é a maneira de dizer, como Marguerite Yourcenar nas últimas linhas de Memórias de Adriano, Entremos na morte de olhos abertos.
Que é como quem diz uiuamos atque amemus, rumoresque senum seueriorum omnes unius aestimemus assis, soles occidere et redire possunt, nobis cum semel occidit breuis lux, nox est perpetua una dormienda.