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sábado, 12 de novembro de 2011

Laço
























Carregou no botão de enviar e pensou no Carver, que dizia que no final, tudo somado e subtraído, o que resta são palavras e que, assim sendo, é conveniente que (também as que enviamos) sejam as certas. Duas mil e quinhentas palavras é coisa pouca, basta uma palavra errada. Não tanto uma questão de economia como de efeito, portanto (make it count). O que aconteceu é que depois se lembrou de Roberto Calasso, que dizia que tudo o que nos prende, independentemente da qualidade da relação com o que nos prende, é um laço. Que é uma citação inesquecível sobretudo porque Calasso rima com laço. Mas não era isso ainda. Era a outra impressão sobre estas duas, que muitos dos nossos laços são só de palavras, que essa será a intimidade máxima que nos será concedida com as coisas que amamos, os nossos pequenos golpes de imaginação que recriam tempos por onde já não podemos caminhar (traz há dias na cabeça um texto em que conta a primeira vez que te viu, começa com a descrição do que trazias vestido, passa para o modo como acendeste o cigarro [marlboro], quando levantaste o rosto estava já vagamente apaixonada, a história da rapariga que há uns anos viu fugazmente um rapaz num corredor movimentado- o que digo, o laço com um tempo que já não existe, a ténue ponte para as coisas que nos importam, palavras só, é preciso escolhê-las bem, disse Carver). Mas não era isso, a justaposição da ideia de que só as palavras restam e que muitos dos nossos laços são só feitos por elas prefigura uma soma que me fez pensar no poeta Ruy Belo, Homem de Palavra[s].

terça-feira, 30 de agosto de 2011

As fundações teóricas de toda uma corrente da poética


Ou de outra forma a máxima de Ferlinghetti, If you call yourself a poet, sing it, don't state it.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Cidades

digo cidades mas o que quero dizer é sempre, quase sempre invariavelmente, cidade. meia dúzia de ruas às vezes nem sempre nem tanto. levianamente. um lugar ao de leve sem o peso dos pés sobre o coração. à excepção de um ou outro lugar todos os lugares me são um pouco colaterais. vejo isso por exemplo ao projectar-me no futuro (tal como o presente o outro tempo que não existe - segundo saramago). a minha imagem para o futuro. colaterais. isto é. o que tenho em mente não são os lugares mas as pessoas. as pessoas que me pertencem - admitindo que existem aqueles que são definitivamente nossos (quem está no lugar que é olhos fechados no fim do dia). definitivamente meu: mão fechando-se tenaz sobre o braço. corpo projectado para a frente movimento travado. um lugar que não vai a lugar nenhum. isto importa-me nos lugares, como acontece com toda a gente, o que lá acontece não o espaço (excepção feita para certa esquina que em paros está à minha espera, um dédalo de oliveiras perdido na tarde - o lugar em que pensas quando pensas em silêncio), a história que restou assente sobre a ruína. schliemman não foi à anatólia para ver cacos, pedaços de pedra.

um pouco de outro modo como a anedota que suetónio conta sobre augusto (então octaviano, ou tátá jr. como lhe chamaria antónio - o do roma ou o que em roma fora uma bela cabeça de homem - para usar uma expressão utilizada pelo meu professor de cultura romana ao mostrar o slide com a estátua do tipo - pelo menos antes de a perder) que entrando em alexandria depois de áccio pede que lhe deixem ver o túmulo de alexandre

e os alexandrinos

conxstreza conxstreza meu general

que não era, ele não o era general - toda a gente sabia que em batalhas marítimas e terrestres a tendência geral era para lhe dar o enjoo, o nó na tripa, para a guerra havia marco
o louro marco - vipsânio agripa - o seu mercúcio se isto fosse shakespeare

mas como dizia

os gregos levam-no obsequiosamente à necrópole e mostram-lhe alexandre (o que dele restava)
e há um marmelo (ou vários - não sei se a história nos diz quantos) que lhe diz
meu príncipe (não faço ideia se ele por esta altura tinha o título de princeps senatu mas soa bem para efeitos de anedocta), meu príncipe, não queres agora ver os túmulos dos ptolemeus (nunca ptolomeus, como explicou uma vez RF, logo antes de começar a falar de sociedade e política clássica - ptolomeu era o geógrafo da idade média)?
ao que augusto (octaviano na altura) responde
que eu vim aqui para olhar para um Rei não para topar com cadáveres

e assim se iniciou todo um novo capítulo na história da diplomacia greco-romana

igual em toda a parte o que se destrói. ou nada disto. como era, aquela linha de ajf em que ele falava das cidades que nos chegam durante as tempestades. as cidades que nos chegam durante as tempestades. é uma expressão brutal. depois de escrever isto a tua carreira de escritor até pode ir para o raio. até podes nunca a ter tido e não a ter depois. cidades não que nos ocorrem. que nos chegam. o que ias dizer. cidade.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Não sei já falei disto

Há uns meses atrás, na defesa de tese de uma amiga, cujo o tema era qualquer coisa como A Oração no Tratado das Bençãos do Talmude da Babilónia, parte do público foi transportado para o que pode ser descrito de maneira idiota (mas eficaz para efeitos de entendimento da coisa) um momento Disney, quando a minha amiga conta de como Deus criou as letras da Torah, que eram criaturas vivas e preexistentes à criação. Daí toda uma classe de estudiosos ter dedicado a vida à conservação do texto e, para que nenhuma letra perecesse, todas eram contadas. Acho que já falei disto aqui. Há pouco apercebi-me que, para mim, a representação mental que mais se aproxima dessa história é qualquer coisa como isto:


quinta-feira, 2 de junho de 2011

Acordei a pensar em Alcuíno de York

A traduzir um poema grego (moderno) acabei por precisar de cravar ajuda a alguém mais experiente com a língua do que eu. Envio a tradução ao meu professor de grego e envio-a a um tradutor que sei que traduziu o mesmo poema com mais autoritas do que eu. O professor de grego não me dá resposta e eu estou com muito receio da resposta do outro tradutor. Como o senhor não me dá troco ao mail, assim que o apanho no Facebook, tufa. E ele: estou a tentar ligar-te e tu não me atendes. (E eu para com os meus botões, caramba, está assim tão mau que tenha honras de telefonema?)
Lá lhe explico que mudei de número e daí a um bocado o senhor liga-me. Três gotas de suor na testa tipo os bonecos de manga. E ele: aquilo está bom. E eu: a sério? E ele, claro. É muito literal, talvez. E eu: mas era assim que eu o queria. E estamos ali a discutir uma ou outra opção. Quando dou por mim, acabamos a discutir métrica grega antiga. É um tipo que está completamente fora da academia, este tradutor, e não digo isto de forma pejorativa. O que eu estava à espera de ouvir era que a minha tradução era uma porra porque existia a dele, a minha fé nas pessoas por estes dias está neste nível.
Mas ainda há pessoas assim, para quem um interesse em comum não entra na definição do «estás a entrar na minha coutada, vou-te partir os dentes todos com uma pedra» - o nosso meio literário, salvo excepções, em muitas coisas parece-me sofrer muito disto, com a mesquinhez e o azume que tendem a acompanhar este tipo de esquemas de pensamento e acção.
Vai desde a publicação de trocas de emails privados em blogues aquando de polémicas entre poetas e passa non solum sed etiam pela marcação do lançamento de uma revista literária para o mesmo dia à mesma hora que outra. (Não digo isto com azedume nem com a intenção de melindrar ninguém, estou só a usar exemplos, e é mesmo só isso.) Coisas que, em última análise, talvez impeçam que toda uma geração de escritores floresça no seu completo potencial. Talvez porque se perdeu, e ainda bem, o costume de «matar o pai», para usar uma expressão que ouvi a Fernando Pinto do Amaral no lançamento da revista Agio, a tendência talvez seja para as gerações de poetas mais jovens se seccionarem mais entre si. As rivalidadezinhas e os joguinhos de antecâmara. O disse que disse e o etc. Tem tanto de enfadonho quanto de pouco produtivo.
Mas imagino sinceramente que coisas como o princípio do humanismo, ou como um verdadeiro amor à poesia, estejam para sempre fora disto e que sejam antes parecidas com este episódio (e não digo isto habitada por qualquer impressãozinha irritante de superioridade moral). A viva curiosidade de pensar coisas que nos interessam em conjunto. Que talvez se pareça com uma alegria primordial de partilhar o que sei e o que não sei, de crescer, que é afinal o que estamos condenados a fazer quando aprendemos (cf. uma coisa tão velha quanto Cícero, o Da Velhice).

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Leitor

Era miúda quando comecei a ler livros. Sete ou oito anos, à volta disso. Mas acho que só nos começamos a tornar leitores uns anos mais tarde. Tinha uma amiga que me dizia que tinha lido todo o Faulkner aos onze anos, todo o Dostoiévsky entre os treze os dezasseis. Este é um caso excepcional mas também não me parece um bom exemplo para aquilo que seria a formação de um leitor regular. Não sei qual a utilidade de uma criança ler O Som e a Fúria aos onze anos. Aos vinte e dois acredito que muita coisa me tivesse escapado. Muitíssima mesmo.
De um livro guardamos o que nos impressiona e o que nos impressiona é regra geral aquilo que é muito próximo da nossa experiência de vida à data. O que há em O Som e a Fúria que pudesse levar uma criancinha a identificar-se com ele? Estou em crer que quase nada. Há pouco estava a ler este artigo.
Dar livros infantis a miúdos de famílias com rendimentos escassos. Isto parece um pouco fora do âmbito daquilo para que a minha argumentação parece estar a inclinar-se, mas não é. As nossas escolas não formam bons leitores e não sei porquê (sobre este assunto cf. o aluno mediano de Letras, onde por definição deviam estar os leitores, os leitores profissionais se assim quiserem e o que quer que isso seja, e perguntar-lhe que último livro leu e o que achou dele). É urgente criar um potencial de imaginação, desenvolvê-lo atentamente e de forma inteligente e orientada. Estou em crer que a imaginação é o capital que nos resta, para não dizer a última coisa infinita. Quando até nisso se falha...

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Mais ou menos um passo do Talmude da Babilónia

Por tua vontade, Senhor nosso Deus, que seja o ano pleno de pesadas chuvas e quente. Que não parta da casa de Judah um seu governante e que a casa de Israel lhe não peça que uma a outra se sustentem, e não permitas a prece do viajante.
Yoma 53b

sábado, 7 de maio de 2011

Hopper*
























Às vezes penso que as melhores cenas de film noir podiam ter sido todas roubadas a Edward Hopper.

*Imagem roubada em This isn't happiness.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Nadar no Tibre

Horácio, o poeta latino, costumava dizer que as armas dele eram as palavras. Chegou a ter de procurar um jurisconsulto porque o uso que fazia das suas armas o havia metido em sarilhos. O jurisconsulto aconselhou-lhe que deixasse de escrever. Horácio disse-lhe: caro Trebázio, não pode ser, se deixo de escrever deixo de dormir. Ao que Trebázio lhe responde: então deixa-te de sátiras, escreve uma épica, honra Augusto. Horácio contrapõe: Meh, gasp, épica não é o meu tipo de coisa. Sabe-se que Horácio recebeu o perdão de Augusto e viveu em cordiais relações com o imperador, mas nunca aderiu verdadeiramente ao seu plano político, o que é honesto, tendo em conta que na juventude Horácio tinha combatido em Filipos no partido de Bruto e Cássio - Horácio diz ainda a Trebázio que sempre preferiu escrever poesia em contraponto à épica, que é a forma que lhe convinha. Então Trebázio responde: vai nadar para o Tibre, nadar no Tibre é o que tu precisas, isso há-de dar-te sono.
Bom, perdeu-se um potencial nadador da Antiguidade.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Nada serve

Há duas semanas comprou dois livros de Levinas. Nunca chegou a tirar da mesa de cabeceira e a tornar a arrumar nem o Ulysses nem o Concepts of Modern Art. Vai para dois anos que leu o primeiro e deixou a menos de meio o segundo. Tem 24 anos e dentro de treze dias torna-se mestre em literatura grega. Não serve. O que pode querer dizer, como no poema de Sophia, que jamais tornará a servir senhor que possa morrer e que, portanto, não serve ninguém, excluir ou incluir deus nesta especulação é problema de outra ordem, ou simplesmente que não serve. Nada serve. Às vezes nada serve.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Provérbio hebraico:

Abre um livro e serás como um peregrino às portas de uma cidade nova.

Daqui.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Suave mari magno

É uma expressão com que poderíamos falar sobre o modo como a chuva está a cair e nós estamos a ver.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Uma nota sobre José Saramago

Uma vez, falando sobre Beckett, disse-me um professor que no fim de lidos aqueles textos o que ficava era a respiração. Como depois de uma longa corrida, não sobra mais nada, só o arquejar, a noção de um ritmo vital. Com Saramago penso que é um pouco ao contrário, a respiração não é o que fica depois do texto, o que em teoria não se chama mas é chegar ao horizonte de expectativa (ora aqui uma terminologia teórica com a qual poderia compactuar), a respiração contém-se no texto.  
O meu teórico da literatura favorito dizia que o romance era a épica de um mundo sem deus, daí a maior parte dos romances assumirem a forma da biografia ou neles serem relatados factos biográficos. Isto nem sempre é linear, obviamente. Argumenta ele que o objectivo disto é produzir uma imitação de vida, numa busca por uma totalidade entre homem e universo que ficara perdida para sempre, desde que a filosofia viera fazer umas quantas perguntas à poesia (passagem da épica para a tragédia). Saramago subverte isto, porque nos seus textos constantemente se diz «o divino não está fora de nós, não está numa forma fora da vida, o divino somos nós». É maravilhoso isto. Essa é uma coisa de que gosto muito em Saramago, o antropocentrismo. Há romances dele que são muito «renascentistas», descaradamente à Pico della Mirandola: magnum miraculum est homo (De Hominis Dignitate Oratio, tinha 23 anos quando escreveu esta frase Pico). E gosto da maneira como às vezes ele trava a respiração dos seus próprios textos porque há uma intuição que ele vê de relance e que o força a deter-se, como acontece numa conversa que ele encena no Memorial do Convento, vão duas personagens a falar sobre música (Domenico Scarlatti à conversa com Bartolomeu Lourenço de Gusmão?), a música o silêncio o silêncio a música, às tantas o italiano diz: «Disse o italiano, encolhendo os ombros, Fica o silêncio depois da música e depois do sermão, que importa que se louve o sermão e aplauda a música, talvez só o silêncio exista verdadeiramente.» É uma intuição perfeita, entretecida no tecido do texto, quase que nem damos por ela, atravessa-nos como se estivéssemos a respirar, como quem pusesse pé numa música. Isto faz parte da poesia. As melhores coisas em literatura são sempre poesia.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A mulher mais bonita da Dinamarca

É uma cena passada num bar em Copenhaga. Marido e mulher entram nesse bar mas não vão juntos. Há uns meses tinham-se separado, ele arranja outra, ela arranja outro. O verbo é este «arranjar». Estranho que sem grande passionalidade à mistura. Não naquela onda do «tu traíste-me, eu agora vou trair-te de volta». Ela de facto resolve traí-lo de volta, mas porque sabe que é preciso, imagina que pode ser uma maneira de conquistar o seu próprio respeito de volta, sem que deixe de prever que pelo meio o há-de encontrar de novo. Achava na altura que é um filme sobre os golpes que recebemos de coração leve, para os quais conservamos uma dor a que concedemos o nosso riso, como quando rimos de cabeça descoberta no meio da multidão
 [como Ulisses que primeiro chora de cabeça coberta entre os Feaces, mas quando começa a falar de si descobre a cabeça e também nós o vamos descobrindo].
 Pensar que nesse filme vi pela primeira vez isto, representado de uma maneira tão suave: uma dor que não nos humilhasse, uma pequena dor de viver com, aquela que é esse teu modo de franzir o rosto, um baixar de cabeça e seguir em frente, um instante em que ela te detém, puxa-te por um braço, mas tu continuas.
Como estava a dizer, quando descobre que o marido a trai, ela não se lança de joelhos no chão, não arranca os anéis dos dedos ou os cabelos da cabeça. Entra muito suavemente por aquele bar em Copenhaga, em que há-de ouvir o marido dizer que quer beijar a mulher mais bonita da Dinamarca, que é ela, a mulher dele (a Eva Dahlbeck, depois deste filme será para sempre a mulher mais bonita da Dinamarca), mas só para a chatear e porque está bêbedo ele resolve ir beijar outra moça qualquer. E há este segundo que é maravilhoso, porque é onde Bergman a filma com uma ruga a sulcar-lhe o rosto, Eva Dahlbeck na meia idade, tão bonita que nem dá para acreditar, a usar um ar triste de todos os dias, o ar triste que podia ter enquanto de manhã no silêncio da casa arranja as torradas e o café, como quem diz: já estava mesmo à espera que me fizesses isso.
Se isto não acontece assim nesta cena, se não te estou a contar isto como deve de ser,  também não me interessa, já vi o filme há tanto tempo que juro que podia ter acontecido. Isto é, entrámos juntos naquele bar em Copenhaga,  foi já há tanto tempo que tudo podia ter acontecido ou não ter acontecido. Eu não guardei quase nada, só um plano do teu rosto a três quartos ou o pormenor de que és um homem narigudo.  Que dividimos uma tosta e que o barulho de fundo era Jazz, talvez Coltrane de certeza que não era Miles. Hoje não saberia o caminho de volta a esse bar. Mas há esta outra coisa, impressão de uma luz muito silenciosa dentro de uma caixa de música, um sentimento delicado no rosto da Eva Dahlbeck, ela naquele instante é como um daqueles tipos que quotidianamente bebessem café sem açúcar e fossem ao longo dos anos guardando as embalagens de açúcar com que não o adoçam. Guardam de tudo isto um sabor amargo, envolto numa vaga doçura. Assim caminham as personagens de Bergman para concretizarem em coisa uma expressão que sempre me fez rir, porque a acho demasiado pesada, demasiado marcada pelo uso, que quase me soa a falso, caminham para o amor à séria [sic, não a sério], o amor para o resto das suas vidas, até porque estes dois já estão na meia idade. Mas antes, no meio da constância, é preciso que se tenham ferido de morte, é preciso partir tudo para poder caminhar de cabeça descoberta na manhã que se segue (o tipo que filmou isto da maneira mais literal, talvez não da melhor, foi Antonioni, no ano de 1961, em La Notte). Como acontece com aqueles dois, estilhaçados a meio de uma noite de Inverno, num bar em Copenhaga, sem que os tentasse nenhum deus (isso fica para outro filme, um filme com um nome lindo, Nattvardsgästerna), nenhuma palavra melosa, nenhuma indulgência, só um cair de cansaço no fim, é só quando se chega a esse abandono que podemos ver de certeza absoluta se ficámos ou não sós, mais do que isso, se ainda estão juntos. E eles ficam juntos no fim, porque aquele filme é uma comédia, mas Bergman estava a falar a sério. Sempre achei que sim, sabes. Muito honestamente e muito a sério.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Meia dúzia de versos

Ontem li meia dúzia de versos de que queria falar. Até queria ter falado deles mais cedo, mas quando estava a ler fiquei sem post-its

[que é uma coisa que compro em lojas de chineses, às pilhas, como caixas de fósforos, e que semeio por toda a parte, o fundo da minha mochila costuma ser um depósito deles, mas ontem, nada, nem um, o depósito estava vazio, há ainda o pormenor de, na loja onde geralmente os compro, ser invariavelmente atendida por dois miúdos chineses gémeos, que até ao ano passado me falavam em coro, mas este ano pararam  de o fazer, e que regra geral aparecem os dois invariavelmente vestidos com camisolas do Sporting],

e como fiquei sem post-its, levou-me mais tempo a encontrar estes versos de que queria falar. Anyway. É um par de versos que podiam ser aparentemente teóricos, mas acabam por chegar onde querem. Por vezes penso que há certa divisão, não rigidamente imposta e nem sempre existente, entre um tipo de poemas que são mágicos, nós estamos a lê-los e de repente repete-se aquela imagem que, se não foi o que valeu o nobel ao Salvatore Quasimodo, devia ter sido, como dizia, estamos a lê-los e parece que somos trespassados por um raio de sol e de súbito é sera, pelo seu fio de Ariadne somos levados à respiração de uma súbita noite, num movimento que acaba por sabotar o primeiro e mais imediato significado dos versos de Quasimodo (o de que é muito efémera a vida), isto é, somos levados a um lugar em que ficamos mais atentos e alerta, porque acabamos de ver algo que apenas tínhamos entrevisto e agora é posto debaixo dos nossos olhos com toda a nitidez, sem nenhuma palavra a mais (a última vez que me aconteceu isso foi quando li o primeiro poema que abre os Poemas de Juan Luis Panero). Mas estes versos não são deste tipo, a sua índole é outra.
São versos de Louise Glück, em que ela diz "But ignorance/ cannot will knowledge./ Ignorance wills something imagined, which it believes exists.", estes versos, por sua vez, tanto quanto me parece, ligam-se a outros da mesma Louise Glück, "The characters/ are not people./ They are aspects of a dilemma or conflict." Acho que estes dois excertos se ligam porque onde há dilema ou conflito

[coisas que seres de ficção podem projectar, no sentido em que são feitos da matéria da vida mas também do que deles queira fazer quem os imaginou, daí talvez Louise Glück (a.k.a. sujeito poético, mas sempre achei esta terminologia tão da treta) acertar quando diz que as personagens não são pessoas mas aspectos de um dilema ou conflito]

há sempre e também a instintiva, vital pulsação de uma ignorância, de uma impossibilidade de impor uma certeza absoluta, é onde não podemos ter a certeza sobre que cabeça se poderá abater a espada de Dâmocles, se sobre a tua ou sobre a minha. Das muitas forças que levam à poesia, penso que estes versos descrevem, sem chegarem a ser mágicos, aquela que pode ser uma delas, porque há neles um eco da primeira ignorância espantada que nos deixa um dilema ou conflito, que temos de seguir inevitavelmente por definição de nós próprios, dos nossos passos. Por isso alguém já disse, ou poderia dizer, que a poesia é irmã da filosofia (tresanda-me a Aristóteles isto, mas não tenho a certeza), mas numa coisa talvez essencialmente se afaste dela, enquanto uma tendencialmente se inclina para uma racionalização, o que nem sempre sucede mas tendencialmente sim, ou pelo menos é este o seu ponto de partida, a outra pode caminhar por um rasto de cacos e pode nunca sair do caos, e mesmo assim ser tão assertiva como a outra, porque são dois tipos de discurso possíveis do mundo.
Tudo isto para finalmente concluir que muitos dos poemas deste livro de Louise Glück, Averno, me desiludiram tremendamente. Louise Glück tinha um tema excelente em mãos, o rapto de Perséfone e, embora alguns dos poemas sejam muito bons, a maior parte deles morre na praia, desfaz-se em soluções muito fáceis.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Pouca gente

O homem que, um dia, em tribunal, entre o enfadado e o colérico, exclamou "Emma Bovary c'est moi", escreveu também, numa carta a uma senhora chamada Louise Coulet: "Peu de gens devineront combien il a fallu être triste pour ressusciter Carthage". Flaubert fala nesta citação do seu romance realista e, o que é aparentemente paradoxal, histórico, Salammbô. Ao falar desta uma tristeza colocada ao serviço da tarefa de ressuscitar uma cidade inteira, não a imaginação, Flaubert fala de uma coisa vital. 
Conta-nos talvez Políbio, que caminhou por quase tudo o que foi destruição no seu tempo e esteve com Cipião, o Africano, no cerco desta cidade, que (depois de conquistada, mortos os homens e as crianças, violadas as mulheres, tudo lançado ao fogo) o exército romano salgou toda a terra em redor das muralhas, para que nada voltasse a crescer. É um gesto de tanto ódio. 
Do sal, do ódio, da cinza ergue Flaubert o espectáculo feérico de uma cidade inteira, apenas para que esta torne a perecer, a ser arrasada, como se convocar a cidade convocasse de novo o tempo da sua destruição, daí talvez essa precisa tristeza de que ele falava.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O que tu tens da andorinha (II)


«O que tu tens da andorinha/ é a errância pouco austera;/ o que para mim, que me sentia e era/ velho, anunciava uma outra primavera.» Umberto Saba

O que há para amar nestes versos é a maneira como neles se insinuam, sem se anularem, três formas de movimento, o facto de ser tua a errância pouco austera da andorinha, o que com tanta concisão fala da forma leve e quase leviana como te moves e é uma evocação de juventude mas também de inconstância, a forma como isso contrasta comigo, que me «sentia e era velho», eu com a minha imobilidade de pedra de velho, e, afinal e por remate, como deste contraste se ergue a visão inteira e intacta da primavera. Por meio desta densa concisão se demonstra que era Umberto Saba grande poeta. Mas, na verdade, tudo isto serve apenas para dizer que nunca mais é Março.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Cálcis, Macedónia

Em 343, o rei Filipe da Macedónia convidou Aristóteles a tornar-se tutor de Alexandre em Pela. Durante quatro anos, o filósofo encarregou-se da educação de Alexandre e, passado este tempo, Filipe encarregou-o de supervisionar os trabalhos de reconstrução de Estagira, cidade de onde Aristóteles era oriundo e que fora devastada pela guerra.
Cumprida esta tarefa, Aristóteles resolveu regressar a Atenas, onde anteriormente (367) fizera a sua educação. Aqui viria a fundar uma escola que pôde competir com a Academia do seu mestre Platão, e que se passou a chamar Liceu, assim baptizada porque fora dedicada a Apolo Lyceos, deus de pastores, e porque foi edificada no bosque que lhe estava consagrado, na parte Leste de Atenas. O edifício da escola albergava uma imensa biblioteca, um museu de história natural e um jardim zoológico, nas suas dependências ensinava-se botânica, os costumes dos bárbaros, música, matemática, medicina, as constituições das cidades gregas, zoologia, etc. 
Nenhum dos vinte e sete tratados que se diz terem sido escritos por Aristóteles chegou até nós. O que até nós chegou foi o trabalho da, mais coisa menos coisa, sua última década de vida, ou seja, os apontamentos das suas aulas, por ele e pelos seus alunos coligidos. São estes apontamentos que no séc. I a.C. foram publicados por Andronico de Rodes.
Small talk à parte, quando Alexandre morreu em 323, acolhedor não era propriamente o primeiro adjectivo que os macedónios tinham na ponta da língua para caracterizar Atenas e os atenienses - a cidade antes fora conquistada por Filipe.
No meio da boa disposição geral, os atenienses resolveram fazer ao macedónio Aristóteles o que já tinham feito a Sócrates: acusaram-no de impiedade. Ao contrário de Sócrates, que com disposição pacífica bebeu a cicuta, Aristóteles revolveu que não daria aos atenienses a oportunidade «de pecar pela segunda vez contra a filosofia» e mudou-se para Cálcis, na Macedonia.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Ponto de situação

Lugares Mal Situados: Um lugar para se continuar a visitar mesmo depois de ter acabado.

Only a northern song: nada a ver com nada.

domingo, 19 de setembro de 2010

Heptapyla Tebas

Uma coisa que sempre me impressionou sobre a lenda da fundação de Tebas em relação a outras: os cinco habitantes que hão-de ajudar Cadmo a construir a cidade das sete portas brotam do chão, armados até aos dentes. Não chegam foragidos de um sítio, não chegam pressionados pelo oráculo de um deus, mesmo ao contrário de Cadmo não estão em busca de nada. A terra de onde brotará a cidade é o seu princípio e o seu fim. Os tebanos podiam dizer que os seus antepassados eram intrínsecos à terra. Penso que a força disto só podia ter sido pensada por um Grego.