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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Um pátio nas traseiras

Qualquer escritor é útil ou nocivo, um dos dois. É nocivo se escrever uma porcaria, se deformar ou falsificar (mesmo que inconscientemente) para obter um efeito ou um escândalo, se se conformar, sem convicção, com opiniões em que não acredita. É útil se fizer aumentar a lucidez do leitor, se o desembaraçar da timidez ou de preconceitos, fazendo-o ver ou sentir aquilo que não teria visto nem sentido sem ele. Se os meus livros forem lidos e atingirem uma pessoa, uma que seja, e lhe trouxerem qualquer ajuda, nem que seja por um momento, considero-me útil. E, como acredito na duração infinita de todas as pulsões, e que tudo prossegue e se reencontra sob outra forma, essa utilidade pode estender-se muito longe no tempo. Um livro pode dormir cinquenta anos, ou dois mil anos, no canto de uma biblioteca, e de repente eu abro-o, e nele descubro maravilhas ou abismos, uma linha que parece ter sido escrita de propósito para mim. O escritor, nisso, não difere do ser humano em geral: tudo o que dizemos, tudo o que fazemos, produz mais ou menos efeito. É preciso tentar deixar depois de nós um mundo um pouco mais limpo, um pouco mais belo do que era, mesmo que esse mundo seja apenas um pátio nas traseiras ou uma cozinha.

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos: Conversas com Matthieu Galey, Renata Correia Botelho (trad.), Relógio d'Água, 2011.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Classicismo e séc. XIX

Se por classicismo se pretende exprimir que um autor não escreve num estilo baixo ou cheio de acrobacias inúteis, então usemo-lo. Mas essa expressão, que me parece essencialmente escolar, parece oferecer um enterro de primeira classe a todos os escritores de suposto valor e que as pessoas não lêem. Também não vejo bem em que é que a minha «inspiração se aproxima dos autores do séc. XIX», que, de resto, são o contrário dos clássicos. Se se fala de Memórias - Souvenirs Pieux e de Arquivos do Norte, claro, o séc. XIX é o tema desses livros. Mas Adriano só pôde ser escrito depois de 1945, e A Obra ao Negro vinte anos mais tarde. Dito isto, repito que admiro infinitamente certos escritores do séc. XIX (...) Um Tolstói, um Ibsen, um Dostoievsky, um Nietzsche (e todos, é necessário dizê-lo, diferentes uns dos outros) surpreendem pelos seus incríveis recursos de entusiasmo e generosidade. Tem-se a impressão de que poderiam sempre dizer-nos mais do que aquilo que nos disseram. E o seu poder contestatário coloca-os numa eterna vanguarda.

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos: Conversas com Matthieu Galey, Renata Correia Botelho (trad.), Relógio d'Água, 2011.

domingo, 11 de setembro de 2011

Adriano


















Os contemporâneos do jovem Adriano chamavam-lhe O Grego. Talvez nele também existisse a Espanha onde viviam os seus antepassados desde há vários séculos. É preciso ver que Adriano era andaluz, e é obviamente absurdo estar a imaginar, por falta de informação, aquela Espanha anterior a tudo o que sabemos dela. No entanto, um sotaque «espanhol» era reconhecível nele, pois em Roma troçava-se, por esse motivo, do jovem Adriano. E os seus pequenos versos ligeiros, quase sem peso, sobre a morte fazem-me pensar em certos aspectos do temperamento sevilhano, em que a ligeireza alterna com o trágico. Além disso, há aquele culto dos mortos, no sentido trágico, aquela familiaridade apaixonada com a morte. Pensar que apenas ele, sozinho, contrariamente aos costumes imperiais, fez o luto de Plotina, mulher do seu antecessor; que quis edificar ou reconstruir os túmulos de tantos grandes homens da Antiguidade; que mandou construir, para si próprio e para os seus sucessores, aquele enorme mausoléu, mais tarde Castelo de Sant' Angelo, que era um pouco o seu Escorial.
Não, Adriano é muito diferente do Romano habitual. No fundo, é mais austero, sóbrio, com aquela paixão pela caça e um gosto pelas fronteiras e pelos climas bárbaros. Nele coincidem o máximo refinamento helénico e o futuro, o mundo pós-romano que se aproximava. Se o comparar a Augusto, por exemplo, ou a Júlio César, vê-se logo a diferença. Não se parecem em nada: esses são italianos inteligentes.
(...)
A experiência humana de Marco Aurélio é profunda, mas não muito vasta. É a experiência de um moralista resignado, de um alto funcionário escrupuloso e resignado. É muito bonito mas não iria longe em matéria de variedade humana. Ele próprio disse tudo o que havia a dizer sobre o assunto. Coloca o arnês todas as manhãs e retira-o todas as noites. Tomou medicamentos contra as úlceras de estômago. Não seria suficiente para descrever um mundo, ao passo que Adriano, Varius multiplex...

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos: Conversas com Matthieu Galey, Renata Correia Botelho (trad.), Relógio d'Água, 2011.

sábado, 10 de setembro de 2011

Pequena moeda

E, como também disse mais tarde, fiquei muito impressionada com a constatação de que tantos encontros na nossa vida, tantas relações humanas se baseiam simplesmente no facto de se dar uma pequena moeda ou uma nota a alguém, em troca de um selo ou de um jornal da tarde, sem nada conhecer daquela pessoa. Há em tudo isto um elemento puramente automático, que pode tornar-se às vezes romanesco, embora seja bastante raro, pois não se pensa nisto.

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos: Conversas com Matthieu Galey, Renata Correia Botelho (trad.), Relógio d'Água, 2011.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Morto

Sei que caio no inexplicável quando afirmo que a realidade - essa noção tão flutuante -, o conhecimento mais exacto possível dos seres, é o nosso ponto de contacto e a nossa via de acesso às coisas que ultrapassam a própria realidade. No dia em que nos distanciarmos de realidades muito simples, fabulamos e caímos na retórica ou num intelectualismo morto.

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos: Conversas com Matthieu Galey, Renata Correia Botelho (trad.), Relógio d'Água, 2011.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Carpe diem























Os dois descalços na calçada de pedra preta, braços em torno dos ombros. Olham para as sapatilhas penduradas na corda. Um diz: E agora como é que as tiramos de lá? Esta alegria a nada presa que a primavera traz com o seu contágio de todas as cores, de todas as flores, mesmo quando na cidade por estes dias a estação nova parece coisa menor porque tudo devia ser caso melancólico e triste. Nós passamos. Às vezes passamos pelas coisas mais penosas (não as mais dolorosas, nessas submergimos quase histericamente) e é só esta travessia onde o nosso coração não se prende, não se quer prender, porque a sua âncora são outras coisas, porque por vezes ainda somos melhores que as nossas circunstâncias, recusamo-nos a que elas nos definam. Que sejam elas a dizer-nos és isto ou és aquilo. E nós para elas: não, merda, não.
***
No ferry entre Paros e Naxos imaginei que havia uma hora em que podia dizer, respondendo à pergunta de um estranho, écheis óra?, e desprezando o relógio, ochi, den echo óra. Por vezes isto, não estar preso ao tempo, à circunstância, poder só olhar em frente. Uma pausa para respirar rente ao oceano, mesmo onde a orla da espuma rasa a areia. Depois regressaremos. Resistir sem grande alarido, pacientemente.
***
Acho que perdi nesse ferry as últimas dracmas que tinha, em Naxos passei fome antes do regresso. Mas é de outras coisas que tenho medo: como as garras cortadas, o rádio desligado, ficar sem música (o que invalidaria para sempre a hipótese do verso let's dance to keep the fear away). Vital é renunciar a que outros nos façam demasiado tristes com o nosso curvado e amarelo aceno de profunda concordância e manso assentimento. Porque se Heitor ainda disse a Andrómaca, quando pela última vez a viu nas muralhas de Tróia: Mulher maravilhosa, não me entristeças demasiado o coração, não há homem que contra a vontade do destino à própria morte escape. Porque se esse homem não há, nunca houve, então isto é a maneira de dizer, como Marguerite Yourcenar nas últimas linhas de Memórias de Adriano, Entremos na morte de olhos abertos.
Que é como quem diz uiuamos atque amemus, rumoresque senum seueriorum omnes unius aestimemus assis, soles occidere et redire possunt, nobis cum semel occidit breuis lux, nox est perpetua una dormienda.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Marguerite Yourcenar, «Memórias de Adriano»

É estranho, a minha primeira imagem deste livro pertence a outro autor: é a do princípio do poema de Pessoa (sobre Antínoo): «era em Adriano fria a chuva fora», este verso é assim ou é parecido. Imagino o imperador encanecido, fora do seu palácio de mármore, no meio de nevoeiro e da chuva torrencial, a toga enlameada a roçar o chão, os pretorianos aos berros com ele, eh, volte para dentro imperador, ele ombros descaídos,  absorto, uma mão a tentar segurar parte do pano, da outra roendo as unhas, um homem como se fosse um naufrágio. A minha coisa com o livro de Yourcenar: Adriano, se não me falha a memória nisto, esperemos que não, penso que não, era um sábio, era um sofista, um animal político (para efeitos práticos inverta-se aqui a máxima de Aristóteles). O tipo mais poderoso do mundo, este mestre de marionetas que sabe quando está a puxar o fio e quando está a ser puxado, quanto deve condescender ou deixar que sejam com ele condescendente. Tudo calculado: o que ele sabe, o que ele pode saber, a sua vantagem sobre outros. E depois o que acontece é que este homem infinitamente sábio e hábil não se pode defender da vida. Antínoo é a sua terrível lição. A sua prova no labirinto. E Yourcenar conta-nos de como a vida o esmaga, que coisas se lhe escapam por entre os dedos, preciosa areia correndo, nada a pode deter, e de como ainda assim, há qualquer coisa nele que se escapa incólume. Não um ofício de memória, o que pode recordar e reclamar para si como tendo sido ele algures no tempo, é outra coisa, é por isso que o livro de Yourcenar é tão bom. Adriano. Há esta categoria de homens que guardam memórias, para quem a dada altura tudo o que podem recordar está destinado a tornar-se um veneno, o que foi bom e o que foi mau indiferentemente, porque para tudo eles conseguem calcular uma forma de posse. E Adriano até podia ter sido isso. Mas Adriano não é destes, é por isso que Yourcenar lhe escreveu as memórias. Adriano viveu, não para que pudesse guardar uma relação de tudo isso, memórias que a princípio alimentassem o seu desespero e depois a sua mesquinhez, mas viveu, isto é, foi inteiro em tudo quanto foi (Ricardo Reis) e compreendeu que havia uma parte em que apenas podia abdicar. Por isso uma das epígrafes (se não me falha a memória) do livro é: natura deficit, fortuna mutatur, deus omnia cernit, o que numa tradução eventualmente tosca quer dizer: a natureza falha-nos, a sorte muda, do alto um deus tudo observa. Isto que pertence ao deus, Adriano não reclama para si. Grava em mármore a imagem do que pôde amar, do que mais amou e era uma beleza tão terna tão efémera, como quem pudesse disputar com um deus o direito que lhe sobra, o de dizer: «isto é uma imagem de vida, eu sei quanto num corredor qualquer do tempo isto é belo, com uma parte da minha teimosia e arrebatamento nisto contida, e continuará sendo». Quando discutimos sobre o imperecível, o possivelmente imperecível, lembro-me de Marguerite Yourcenar e lembro-me de Adriano.