quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Jane Austen e Shakespeare

Eis aqui uma mulher [Jane Austen], por volta do ano de 1800, a escrever sem ódio, sem amargura, sem medo, sem protestos, sem exaltação. Foi assim que Shakespeare escreveu, pensei, ao olhar para Anthony and Cleopatra; e quando se compara Shakespeare e Jane Austen, verifica-se que o espírito de ambos estava livre de tais obstáculos; e por essa razão algo se desconhece em Jane Austen e em Shakespeare.

Virginia Woolf
, Um Quarto Só Para Si, Maria de Lourdes Guimarães (trad.), Relógio d'Água, 2005


Shakespeare segundo Virginia Woolf

Embora se diga que nada conhecemos sobre o estado de espírito de Shakespeare, mesmo ao dizê-lo estamos a dizer qualquer coisa sobre o seu estado de espírito. Talvez a razão porque sabemos tão pouco de Shakespeare - comparado com Donne ou Ben Johnson ou Milton - seja a de ignorarmos os seus rancores, despeitos e antipatias. Não estamos limitados por qualquer «revelação» que nos recorde o escritor. Todo o desejo de protestar, de gritar, de proclamar uma injúria, de um ajuste de contas, de transformar-nos numa testemunha de uma dificuldade ou ofensa, tudo isso foi por ele posto de parte e destruído. Portanto a sua poesia flui livre e sem entraves. Se alguma vez um ser humano conseguiu que a sua obra alcançasse a realização plena, esse foi Shakespeare. Se alguma vez um espírito foi genial, sem limites, pensei voltando-me outra vez para a estante, esse foi Shakespeare.

Virginia Woolf
, Um Quarto Só Para Si, Maria de Lourdes Guimarães (trad.), Relógio d'Água, 2005


Uma Espécie de Curso sobre Fellini


Em partes no YouTube. Sigam o link.

O Novo Romance de Pamuk

«En El Museo de la Inocencia, la nueva novela de Orhan Pamuk, un personaje colecciona 4.213 colillas fumadas por la mujer que ama. En la entrada del Museo de la Inocencia, el museo real que Pamuk inaugurará el año que viene en Estambul, habrá una caja de vidrio de cinco metros por tres metros con 4.213 puchos verdaderos dentro. En la novela, Pamuk cuenta la historia de Kemal, que vive durante dos meses y recuerda durante treinta años el romance de primavera que le cambió la vida. En una esquina del barrio de Çukurkuma, en la mitad europea de Estambul, Pamuk ha construido un museo y lo ha llenado con los objetos, las fotos y los sonidos con los que Kemal homenajea a Füsun, la prima lejana y pobre que en 1975 interrumpió la placidez de su vida burguesa.»
Ler mais aqui. Via Ler.

Aquiles e Pátroclo

Nem sucessivas e sucessivas migrações de aves
Perfarão a distância que agora nos separa
Mas esta nau não me levará a casa
E seguir-te não será morrer

Daniel Faria
, Poesia, Vera Vouga (edt.), Quasi, 2009 (3a ed.)

(Não me lembro se já copiei algures este poema, de qualquer forma, há pouco lembrei-me dele.)
Nuno Ramos vence prémio PT de Literatura. Ler mais aqui.

(Como Ariadne Costurando Umbrais)

A meada doba e roda a mão fechada
Em seu silêncio de coisa destruída
Como despetalada uma corola aberta
Boca, ferida, cratera
Círculo que resiste à forma da palavra.

A teia é movimento que persiste
Em sua paciência.
Como Ariadne costurando umbrais
Para que Teseu possa vir do nada.

Daniel Faria, Poesia, Vera Vouga (edt.), Quasi, 2009 (3a ed.)

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Estrangement

Within the threes I no longer can see any threes.
The branches are bare of leaves, carried off by wind.
The fruits are sweet, but empty of love.
They do not even satisfy.
What shall happen?
Before my eyes the forest flees,
the birds no longer sing to my ears,
and for me no pasture will become a bed.
I am full with time
yet hunger for it.
What shall happen?

Nightly upon the mountains the fires will burn.
Shall I head out, draw near to them all once again?

I can no longer see on any path a path.

Ingeborg Bachmann, Darkness Spoken: The Collected Poems, Peter Filkins (trad.), Charles Simic (intr.), Zephyr Press, 2006.

Um Quarto só Para Si

Só vos podia oferecer uma opinião quanto a um aspecto sem importância - uma mulher tem de ter dinheiro e um quarto só para si se quiser escrever ficção; e isso, como ides verificar, deixa por resolver o grande problema da verdadeira natureza da mulher e da verdadeira natureza da ficção.

Virginia Woolf, Um Quarto Só Para Si, Maria de Lourdes Guimarães (trad.), Relógio d'Água, 2005






















Não, não é o Kertész. Mas continua a ser uma bela fotografia de alguém a ler. Mais da mesma fotógrafa aqui.

«Ulysses» de Mario Camerini, 1954



















Esta adaptação cinematográfica da Odisseia é divertida mas um pouco fraca. Não tenho, contudo, memória de alguma vez ter visto uma adaptação dos poemas homéricos que rivalizasse com os livros. (Não, nem aquela com o truque baixo das pernas-do-Brad-Pitt-que-não-eram-dele. )
Um bom argumento baseado em determinada obra, nas mãos de um realizador hábil a dirigir grandes actores, tem sempre grandes hipóteses de suplantar o livro que lhe serve de base, diria até que tem obrigação de fazê-lo.
Não o fazer significa que há uma parte de encanto que certos livros conseguem guardar mesmo quando trazidos à vida, o encanto próprio da literatura que é uma coisa que eu ainda não consegui muito bem explicar.
À parte ser um pouco fraca, esta adaptação da Odisseia divertiu-me, afinal de contas, é o Kirk Douglas a fazer de Ulisses e o Anthony Quinn a fazer de Antínoo.

O Criador e a Personagem

Either I'm a Social Animal or...

por estes tempos a blogosfera anda a ganhar blogues (que pelo menos para mim são) muito interessantes. Eis mais um a seguir.

15

Acalma-te erva doce
que cresces da terra,
não toques a suave harmonia
das coisas vivas,
morde a tua medida
porque o meu coração está triste
não pode dar harmonia.

Acalma-te erva verde
não subas para os fossos
com o teu canto de luz,
oh fica debaixo da terra
nua na tua semente
como eu faço e não dou
erva de uma palavra.

Alda Merini, A Terra Santa, Clara Rowland (trad.), Livros Cotovia, 2004

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Lançamento

de Paisagem e Erudição no Humanismo Português. Ver aqui.

my way is in the sand flowing

my way is in the sand flowing
between the shingle and the dune
the summer rain rains on my life
on me my life harrying fleeing
to its beginning to its end

my peace is there in the receding mist
when I may cease from treading these long shifting thresholds
and live the space of a door
that opens and shuts

Samuel Beckett, The Grove Centenary Edition, vol. IV: Poems, Short Fiction, Criticism, Grove Press, New York, 2006

Les Foules

Multitude, solitude: termes égaux et convertibles pour le poète actif et fécond. Qui ne sait pas peupler sa solitude, ne sait pas non plus être seul dans une foule affairée.

Charles Baudelaire, " Les Foules", Le Spleen de Paris

24

Nada mais, estou certa, abafará a minha rima,
......contive durante anos o silêncio na garganta
..............como uma armadilha para um sacrifício,
....................chegou agora o momento de cantar
exéquias ao passado.

Alda Merini, A Terra Santa, Clara Rowland (trad.), Livros Cotovia, 2004

Assírio & Alvim no Chiado

A partir das 19h00 de hoje [dia 7 de Novembro], e até ao dia 31 de Dezembro de 2009, livros, livros e mais livros no Chiado. Livros mais baratos, livros esgotados, livros impossíveis de encontrar, livros de artista, livros de tiragem limitada, e ainda, postais, cartazes e outras surpresas. Um novo projecto temporário da Assírio & Alvim no Chiado, desta vez na Rua do Carmo, 35, loja 12 (antiga Bolsera). De segunda a sexta-feira das 12h00 às 19h00, e ao sábado das 10h00 às 19h00.

Via Cadeirão Voltaire.(Mais uma iniciativa da Assírio & Alvim, que aparentemente tomou a cargo a tarefa de arruinar financeiramente e até ao final deste mês diversos colaboradores deste blogue.)

Uma cena de «Rumble Fish» de Francis Ford Coppola, 1983















A famosa cena dos peixes. Aqui.

Tetro

Há uma anedota que se conta acerca de Coppola: que ele terá dito que tinha feito filmes como O Padrinho num momento de desvio à ideia que originalmente tinha para a sua carreira de cineasta. Ele pretendia, na verdade, fazer filmes inovadores, de baixo orçamento, à margem de Hollywood. Rumble Fish (1983) seria um exemplo paradigmático deste tipo de filmes. Mas parece que também o é este novo Tetro, o primeiro filme em 30 anos com um argumento totalmente escrito pelo cineasta. Estreia dia 19... e eu estou em pulgas. Só não sei se irei ao cinema para ver o Coppola de O Padrinho ou o de Rumble Fish. Mas não interessa, qualquer um dos dois é bom. Ler mais aqui.

12

Para ti escrevi árduas sentenças,
para ti escrevi todo o meu declínio;
aniquilo-me agora, e nada pode salvar
a minha voz devota, apenas um canto
pode transparecer sobre a minha pele
e é um canto de amor que amadurece
esta minha eternidade sem limites.

Alda Merini, A Terra Santa, Clara Rowland (trad.), Livros Cotovia, 2004

domingo, 8 de Novembro de 2009

Poesia e Inteligência

De facto, se me permite que diga isto, acho Frost um poeta melhor do que Eliot. Quer dizer, melhor poeta. Mas creio que Eliot era um homem muito mais inteligente; a inteligência, no entanto, tem pouco que ver com a poesia. A poesia brota de algo mais profundo; é anterior à inteligência. Talvez nem sequer esteja ligada à sabedoria. É algo em si mesma; tem a sua própria natureza. Indefinível.

Jorge Luís Borges em Entrevistas da Paris Review, Selecção e Tradução de Carlos Vaz Marques, Tinta da China, 2009

After Many Years

Time's arrow rests easily in the sun's drawn bow.
As soon as the agave blossoms from the cliffs,
your heart will sway above in the wind that blows
each hour's lenght trough its every tick.

Already a shadow drifts above the Azores
and over your breast's own quaking garnet.
Death is also the moment's conspirator,
and you, towards whom it streaks, the target.

The sea is also spoiled and vain, a mere
shift of its mirror swallowing a handfull of blood,
just as the agave blooms after many years
in the shelter of cliffs, before the druken flood.

Ingeborg Bachmann, Darkness Spoken: The Collected Poems, Peter Filkins (trad.), Charles Simic (intr.), Zephyr Press, 2006.

Atacar Pessoas

Não gosto de atacar pessoas, especialmente agora - quando era jovem, sim, gostava muito, mas à medida que o tempo passa, uma pessoa apercebe-se de que isso não é bom. Quando as pessoas escrevem a favor ou contra qualquer coisa, isso ou dificilmente as ajuda ou as magoa. Acho que um homem pode ser ajudado, bem, o homem pode ser feito ou desfeito pela sua própria escrita, não por algo que os outros digam dele, portanto mesmo que uma pessoa se gabe muito e que as pessoas digam que ela é um génio - bem, ela há-de ser descoberta.

Jorge Luís Borges em Entrevistas da Paris Review, Selecção e Tradução de Carlos Vaz Marques, Tinta da China, 2009

10

Eu era um pássaro
com o branco ventre gentil
alguém me cortou a garganta
...........para se rir,
...........não sei.
Eu era um grande albatroz
e pairava sobre os mares.
Alguém deteve a minha viagem,
sem qualquer caridade de som.
Mas mesmo estendida no chão
eu canto agora para ti
as minhas canções de amor.

Alda Merini, A Terra Santa, Clara Rowland (trad.), Livros Cotovia, 2004

Uma cena de «Annie Hall» de Woody Allen, 1977


(Não gostavam que isto pudesse mesmo acontecer?)

Tango

A guitarra era um instrumento popular quando eu era jovem. Nesse tempo encontrava-se gente a tocar guitarra, sem grande jeito, em quase todas as esquinas de qualquer cidade. Alguns dos melhores tangos foram compostos por gente que não era capaz de os escrever nem de os ler. Mas era gente que tinha, claro, a música na alma, tal como Shakespeare teria dito. Portanto, ditavam esses tangos a alguém; eles eram tocados ao piano e eram escritos e publicados por gente letrada. Lembro-me de ter conhecido uma dessas pessoas, Ernesto Poncio. Escreveu Don Juan, um dos melhores tangos antes do tango ser estragado pelos italianos em La Boca (1) e por aí adiante - quer dizer, quando os tangos vinham dos criollos. Um dia ele disse-me: já estive na prisão muitas vezes, señor Borges, mas sempre por homicídio! Aquilo que ele queria dizer é que não era nem um ladrão nem um chulo.

(1)Bairro italiano em Buenos Aires, habitado por italianos oriundos de Génova.

Jorge Luís Borges em Entrevistas da Paris Review, Selecção e Tradução de Carlos Vaz Marques, Tinta da China, 2009

sábado, 7 de Novembro de 2009

o rapaz olha a chuva alastrando
sobre o vinho derramado no chão
tem agora as mãos geladas
os cabelos escorrendo água
curva-se sobre a terra batida
hesita pensa em apanhar os cacos
tirar do caminho a garrafa
escondê-la
pensa em tornar a descer à vinha
recuperar o que
para uma pequena angústia
fica de vez quebrado

é tão fácil a tentação do nada ter acontecido
do ainda aqui não ter estado
tão fácil a palavra que vestia
os joelhos agora sujos de lama
o vinho precioso perece
mas vai alastrando numa poça

a palavra que lhe apaga a pequena face
também te veda um grito a plenos pulmões
vidro partindo-se como não estar agrilhoado
como não ter ainda percorrido
a distância desta corrida
subindo a encosta
os pés descalços derrapando na lama

*
o rapaz corria
com uma energia que nada esgotava
corria seguro com a garrafa debaixo do braço
um pequeno Hermes mas com uma energia cega
férrea estúpida
por isso certa
verdadeira inesgotável

para nada

ele vê o seu reflexo verde
no vidro partido
o vinho agora perto do sangue
o grito chovendo baixinho
próximo dos ouvidos
inventando no peito o lugar do choro
a forma como
há-de mais tarde encolher os ombros
deixar tombar a cabeça para a frente

Hamlet

Tudo se cala. E subo para o palco.
Encosto o ouvido à porta, pressentindo,
No rumor surdo de uma voz longínqua,
Já o eco de tudo o que me aguarda.

A noite negra fez de mim seu alvo,
Sobre mim cem binóculos lançou.
Abba, ó pai, se acaso, ainda podes,
Ordena que este cális me não caiba.

É certo no entanto que me agrada
O papel que me deu teu duro intento.
Outro drama, porém, preenche a cena:
Dá-me por esta vez a liberdade.

Mas a ordem dos actos foi pesada
E o desfecho também, sem remissão.
Só. E os fariseus, senhor's em todo o lado.
Viver é mais que atravessar um campo.

Boris Pasternak «Versos de Iuri Jivago», O Doutor Jivago (1957) in Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras 165, David Mourão Ferreira (trad.), Fundação Calouste Gulbenkian, Setembro-Dezembro de 2003.