sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Alguns machados

'...always your heart is like the unwearying axe blade/ struck through a beam by some craftsman who uses his skill/ to shape a ship's timber, and it adds force to his own effort...'

Ilíada, Homero, 3. 60f., Peter Green (trad.)


'A book must be the axe for the frozen sea inside us'

Kafka, Carta Oskar Pollak, 1904

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Visto daqui


Pensei há tempos em tentar fazer uma colagem que expressasse algum aspecto da minha vida na Inglaterra pós-Brexit. A confusão geral reina, a abada dos tories nunca aconteceu, o Jeremy Corbyn (alguém francamente decente em qualquer dos casos) recuperou uma aura de respeitabilidade que garante com maior ou menor eficácia que os Conservatives tão depressa não tentam outra eleição. O verão decorre a uma temperatura de inverno. Uma pessoa percorre o triângulo entre uma ou duas livrarias de casaco north face abotoado até meio dos olhos  e topa com livros do BoJo em secções respeitáveis, versando os ditos livros sobre assuntos que convidam reflexões mais ou menos freudianas - seria o mesmo que ter o Santana Lopes a escrever livros sobre o império romano.


Entretanto alguém despacha a tal colagem, que é aquela que se vê ali acima. Arriscaria ainda o palpite de que esta colagem vai bem com esta série de tweets do James Chapman, que será apelidado de remoaner e scaremonger.  A maior parte das perguntas que ele coloca, no que parece ter sido um momento que aconteceu algures entre o estar lixado da vida e o colapso nervoso, deviam ser óbvias mas continuam sem ser debatidas.

Inglaterra é um país verde e frio durante o verão, uma pessoa senta-se num banco de jardim posto num cemitério a comer a sandes do almoço e a ouvir o Morrissey cantar sobre as escolas de Manchester. Se tudo falhar, há-de sempre haver aquele clip do Oscar Isaac no Inside Lewyn Davis, a cantar o The death of queen Jane, que inclui aqueles versos: If I lose the flower of England, I shall lose the branch too.  


sábado, 5 de agosto de 2017

Um excerto de James Salter, A Sport and a Pastime


Autun, still as a churchyard. Tile roofs, dark with moss. The amphitheatre. The great, central square: the Champ de Mars. Now, in the blue of autumn, it reappears, this old town, provincial autumn that touches the bone. The summer has ended. The garden withers. The mornings become chill. I am thirty, I am thirty-four - the years turn dry as leaves.

James Salter, A Sport and a Pastime, Picador, p. 7

sábado, 8 de julho de 2017

Os comboios deste país, que não está preparado para responder ao calor, circulam sem ar condicionado ou, pior, com o aquecimento ligado. Ao fim do dia, no calor da tarde, os homens com os cartões dos seus locais de trabalho ainda pendurados aos pescoços, livram-se mecanicamente de blazers e gravatas, quando segundos antes, nas plataformas por onde corria uma aragem, permaneciam imóveis e distraidamente profissionais, a aura do dia de trabalho ainda estampada nos rostos. Agora lembram aquela canção de Tom Waits: the downtown trains are full with all those Brooklyn girls. They try so hard to break out of their little worlds.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Filter

Thrown out in a glittering arc
as clear as the winterbourne,
the jug of Murphy's I threw back
goes hissing of the stone.

Whatever I do with all the black
is my business alone.

Don Paterson, Nil Nil

quinta-feira, 13 de março de 2014

Noise

'Noise has one advantage, it drowns out words.' And suddendly he realized that all his life he had done nothing but talk, write, lecture, concoct sentences, search for formulations and ammend them, so in the end no words were precise, their meanings were obliterated, their content lost, they turn into trash, chaff, dust, sand; prowling through his brain, tearing at his head, they were his insomnia, his illness. And what he yearned for at that moment, vaguely but with all his might, was unbounded music, absolute sound, a pleasant and happy all-encompassing, over-powering, window-rattling din to engulf, once and for all, the pain, the futility, the vanity of words. Music was the negation of sentences, music was the anti-word!


Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being, Michael Henry Heim (transl.), Faber & Faber, 1995, p. 90.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Η Πόλις

Είπες· «Θα πάγω σ’ άλλη γη, θα πάγω σ’ άλλη θάλασσα.
Μια πόλις άλλη θα βρεθεί καλλίτερη από αυτή.
Κάθε προσπάθεια μου μια καταδίκη είναι γραφτή·
κ’ είν’ η καρδιά μου — σαν νεκρός — θαμένη.
Ο νους μου ως πότε μες στον μαρασμόν αυτόν θα μένει.
Όπου το μάτι μου γυρίσω, όπου κι αν δω
ερείπια μαύρα της ζωής μου βλέπω εδώ,
που τόσα χρόνια πέρασα και ρήμαξα και χάλασα.»

Καινούριους τόπους δεν θα βρεις, δεν θάβρεις άλλες θάλασσες.
Η πόλις θα σε ακολουθεί. Στους δρόμους θα γυρνάς
τους ίδιους. Και στες γειτονιές τες ίδιες θα γερνάς·
και μες στα ίδια σπίτια αυτά θ’ ασπρίζεις.
Πάντα στην πόλι αυτή θα φθάνεις. Για τα αλλού — μη ελπίζεις—
δεν έχει πλοίο για σε, δεν έχει οδό.
Έτσι που τη ζωή σου ρήμαξες εδώ
στην κώχη τούτη την μικρή, σ’ όλην την γη την χάλασες. 

Κ.Π. Καβάφης


The City

You said: “I’ll go to another country, go to another shore,
find another city better than this one.
Whatever I try to do is fated to turn out wrong
and my heart lies buried as though it were something dead.
How long can I let my mind moulder in this place?
Wherever I turn, wherever I happen to look,
I see the black ruins of my life, here,
where I’ve spent so many years, wasted them, destroyed them totally.”
 
You won’t find a new country, won’t find another shore.
This city will always pursue you. You will walk
the same streets, grow old in the same neighborhoods,
will turn gray in these same houses.
You will always end up in this city. Don’t hope for things elsewhere:
there is no ship for you, there is no road.
As you’ve wasted your life here, in this small corner,
you’ve destroyed it everywhere else in the world. 

Keeley and Sherrard (trad.)


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Livros do ano

Tudo o que não consta desta lista é oficialmente uma merda e pode ser guilhotinado (incluindo tudo o que se publicou no mundo inteiro e eu não li, inclusões na lista podem ser especialmente consideradas mediante o envio de um email com recensões obsequiosas a qualquer volume da minha obra completa que me sensibilizem singularmente para os vossos génios, learn, bitches, se eu estabeleço um sistema em que digo que é bom, estou a pontificar e isso é o que basta para ter kudos). 

The File on H, Kadaré
The Economy of the Unlost, Carson
A Death in the Family, Karl Ove Knausgaard
Os Cães de Tessalónica, Kjell Askildsen
Aimless Love, Billy Collins
Across the Land and the Water, W. G. Sebald
Servidões, Herberto Helder
Broken Hierarchies, Geoffrey Hill (não li, mas mal entrou em casa, desatou a empestar tudo com o cheiro de um dos dois únicos de ambos os tipos de poesia de qualidade que conheço: aquela que é grande e aquela que eu digo que presta).
Oração Fria, Antonio Gamoneda
Laços de Família, Clarice Lispector (desde 1920 livro do ano)
Os Grão-Capitães, Jorge de Sena (livro do ano desde 1919, o último parágrafo de "Homenagem ao Papagaio Verde" epitomiza todos os meus pensamentos sobre quanto é humanidade que para aí respira, alminhas).
The School Among the Ruins, Adrienne Rich
Estradas Secundárias: Doze Poetas Irlandeses, AAVV 
Men in The Off Hours, Carson (desconfio que também já tinha sido livro do ano em 2012) 
The Spirit Level, Heaney (tem um poema que começa assim: no such thing/ as innocent/ bystanding
Le Piccolle Virtù, Natalia Ginzburg (inclui: "Lui e io", "Il mio mistiere" e "I Rapporti Umani"e, se não incluísse também aquele ensaio em que com alguma injustiça diz muito mal de Inglaterra, também chegava).
& etc., Uma Editora no Subterrâneo (também não li, mas tem de constar da lista, a culpa fica com os gajos da Pó dos Livros, única livraria disposta a enviar livros para estrangeirados que conheço, que ainda não mo fez chegar).
Campo Santo, Sebald

Se as listas esperassem mais um pouco, desconfio que o Roots & Branches do Duncan ainda cabia aqui. 
Não me apeteceu fazer itálicos.

sábado, 26 de outubro de 2013

Dilemma

'Thus the sound of speech strives to "express" subjective and objective happening, the "inner" and the "outer" world; but what of this it can retain is not the life and individual fullness of existence, but only a dead abbreviation of it*.' Literature can transcend this dilemma only by keeping faith with unsocial, banned language, and by learning to use the opaque images of broken rebellion as a means of communication.

W. G. Sebald, "Strangeness, Integration and Crisis: On Peter Handke's Play KasparCampo Santo, Anthea Bell (trad.), Sven Meyer (ed.), Penguin Books, 2005, p.67.

*Citação de Ernst Cassirer, Sprache und Mythos (Leipzig e Berlim, 1925, pp-6-7).

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Mycenae Lookout

Cities of grass. Fort walls. The dumbstruck palace.
I'd come to with the night wind on my face,
Agog, alert again, but far, far less

Focused on victory than I should have been -
Still isolated in my old disdain
Of claques who always needed to be seen

And heard as the true Argives. Mouth athletes,
quoting the oracle and quoting dates,
Petioning, accusing, taking votes.

No element that should have carried weight
Out of the grievous distance would translate
Our war stalled in the pre-articulate.

The little violets' heads bowed on their stems,
The pre-dawn gossamers, all dew and scrim
And star-lace, it was more through them

I felt the beating of the huge time-wound
We lived inside. My soul wept in my hand
When I would touch them, my whole being rained

Down on myself, I saw cities of grass,
Valleys of longing, tombs, a wind-swept brightness,
And far-off, in a hilly, ominous place,

Small crowds of people watching as a man
Jumped a fresh earth-wall and another ran
Amorously, it seemed, to strike him down.

Seamus Heaney, 'Mycenae Lookout', The Spirit Level, Faber & Faber, 1996.