sábado, 5 de Dezembro de 2009

No meu peito a ferida torna a abrir
quando as estrelas caem e se tornam parte do meu corpo
quando o silêncio cai abaixo dos passos dos homens.

Estas pedras afundando-se no tempo, até onde me
irão arrastar com elas?
O mar, o mar, quem o poderá drenar até à extinção?
Vejo a cada madrugada mãos acenando ao vulto e ao
falcão
atado como estou à rocha que o sofrimento tornou minha,
vejo árvores respirando a serenidade opaca da morte
e os sorrisos - nunca inteiros - das estátuas.

(mais ou menos) Yorgos Seferis

Versão minha a partir de Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971.
O chão geme sob os seus passos — os da mulher — quando dança e ela sorri enquanto dança, apesar do frio que faz, de Agosto ser tão frágil que quase o esquecemos, de depois de amanhã tudo voltar ao corropio regular, a gravata azul, pela semana fora, os dias iguais. Mesmo as nossas caras são, regra geral, iguais de um dia para o outro. O tempo é subtil, alvenaria negativa subtil é o seu ofício. Desfaz as pedras lentamente, por dentro faz coisas que passam desapercebidas, subitamente rui a ala direita, o corpo seriamente soçobrante, a arfar, com medo, e ainda a face reconhecível, só um pouco diferente: o tempo caiu sobre ela pesadamente, visivelmente, anos passaram num instante numa dor no peito, um lado da cara arruinado, a perna amotinada, ou foi lá dentro, uma dor cá dentro, uma mínima ruína, um acréscimo ameaçador, a desarmonia do contraponto no número igual. Como se um traço de sangue riscasse a pauta até então tocada repetidamente em compasso regular. Tocam outras teclas, ociosas pela falta de uso, ou só há muito tempo atrás, uma criança traquinas só para ver o que acontece, antes da ruína se tornar manifesta. Só nisto os contemporâneos estão em desvantagem: não há um nome para amaldiçoar. A desgraça vai e vem como as estações do ano.
Talvez por isso eu desça pela manhã. Não sou um homem amargo. O gato olha para mim, deitado sobre o dicionário de grego aberto. Fecha os olhos, a minha mão na cabeça desperta um ronronar, abre os olhos, um resfolegar pesado, contente.
Só há fome. O frio salda-me por dentro. Sou indiferente, amigável, ausente. Sou velho ainda. Ainda não. Sei o frio nas mãos. Sei a fome nas mãos. Escrevo por frio e fome.

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Quid πλατανὼν opacissimus?
Como uma árvore envolveu-te o sono em folhas verdes
na luz serena respiraste como uma árvore
na primavera clara vi o teu rosto:
pálpebras cerradas, as pestanas ao de leve roçando a água.
Na erva macia os meus dedos tocaram os teus.
Segurei por um momento o teu pulso
e senti noutro lugar a dor do teu coração.

Sob o plátano, perto da água, entre loureiros
o sono moveu-te e dispersou-te
em meu redor, perto de mim, sem que eu te pudesse tocar
totalmente -
indivisíveis como tu e o teu silêncio;
vendo a tua sombra alastrar e diminuir,
perder-se entre outras sombras, em outro mundo
esse que te deu a liberdade de partir e, contudo, te prendeu.

A vida que nos foi dada viver, vivêmo-la.
Guarda o teu lamento para aqueles que, tão pacientes, mantém a sua espera
perdidos no loureiro negro sob os plátanos maciços
e para esses, apenas esses, que falam para o interior de cisternas e poços
e se afogam num círculo de voz.

Guarda o teu lamento para o companheiro que partilhou as nossas privações o nosso suor
e se precipitou em direcção ao sol como um corvo para lá das ruínas
sem esperança de dividir connosco a recompensa.

Concede-nos, sono aparente, a serenidade.

(mais ou menos) Yorgos Seferis

Versão minha a partir de Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971.

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É antigo o porto. Não posso continuar a esperar
pelo amigo que partiu para a ilha dos pinheiros
ou pelo amigo que partiu para a ilha dos plátanos
ou pelo amigo que partiu para mar aberto.
Eu faço ressoar os canhões enferrujados, faço ressoar os remos
para que o meu corpo possa reviver e decidir.
As velas guardam apenas o cheiro
salgado da outra tempestade.

Se escolher permanecer só, tudo por que esperei
foi solidão, não este tipo de espera,
a minha alma repartida no horizonte,
estas linhas, estas cores, este silêncio.

A estrela da noite leva-me de volta à antevéspera:
Ulisses esperando os mortos entre os asfódelos.
Quando aqui ancorámos entre os asfódelos esperávamos encontrar
o profundo vale que viu Adónis ferido.

(mais ou menos) Yorgos Seferis

Versão minha a partir de Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971

sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

The Last Emperor


(Documentário sobre Akira Kurosawa. Em partes no YouTube.)

quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

Tamerlane and Other Poems
















O primeiro livro de Edgar Alan Poe. Leiloado. Aqui.

The Container of the Uncontainable

Good Friday

Bells
like coins falling sound today all over the city
between each peal a new space opens
like a drop of water on the earth: the moment has come,
..................raise me up.

George Seferis
, Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971
Uma carta de Baudelaire.

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Vou começar a coleccionar «housisms»




















Disappointment is anger for wimps

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Sometimes your blood froze like the moon
in the limitless night your blood
spride its white wings over
the black rocks, the shapes of trees and houses,
with a little light from our childhood years.

George Seferis, Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971.

(Livro acabado de chegar, o carteiro deixou-o plantado à porta de casa.)

Colóquio Memória e Sabedoria

9, 10 e 11 de Dezembro na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Programa aqui.

As Janelas

Nestas salas escuras, onde vou passando
dias pesados, para cá e para lá ando
à descoberta das janelas. - Uma janela
quando abrir será uma consolação. -
Mas as janelas não se descobrem, ou não hei-de conseguir
descobri-las. E é melhor talvez não as descobrir.
Talvez a luz seja uma nova subjugação.
Quem sabe que novas coisas nos mostrará ela.

Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis (trad.), Relógio d'Água, 1994

75 Anos

Mensagem

D. Sebastião, Rei de Portugal

Louco, sim, louco porque quis grandeza
Qual a sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou o meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Fernando Pessoa, Mensagem

(E irem ouvir isto dito por Luís Miguel Cintra?)

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Um Fogo na Floresta

Mais um blogue para a barra lateral.

um parágrafo de "Dangling Man"

o sol fora coberto neve começava a cair
espargida sobre os poros negros do cascalho
e jazendo em finas tiras nos telhados inclinados
eu podia ver à distância do cimo deste terceiro andar
não longe havia chaminés
o seu fumo cinzento mais claro do que o cinzento do céu
e mesmo à minha frente renques de habitações pobres
armazéns cartazes luminosos bueiros sinais eléctricos
a arder palidamente carros estacionados carros
em movimento ocasionalmente o raro esboço de uma árvore
esses eu inspeccionei com a cabeça contra o vidro
era minha obrigação olhar e colocar a mim mesmo
a invariável questão onde uma partícula de algo algures
ou no passado que testemunhe a favor do homem
não poderia haver dúvidas de que esses cartazes
ruas trilhos casas frios e cegos estavam relacionados
com a vida interior e no entanto dizia a mim próprio
a dúvida era necessária havia vidas organizadas em torno
desses caminhos e casas e elas as casas
digo eram o análogo o que o homem criou
elas eram-no também por meios transcendentais
isso eu não conseguia conceder
tem de haver uma diferença entre coisas e pessoas
e até mesmo entre actos e pessoas
de outro modo as pessoas que aqui viviam
eram na verdade um reflexo das coisas
entre as quais viviam sempre procurei evitar culpá-las
daí a minha leitura diária dos seus jornais
nos seus negócios e políticas nas suas tabernas filmes
assaltos divórcios homicídios eu tentava constantemente
encontrar sinais inequívocos da sua humanidade comum

(recriação poética de um parágrafo de Dangling Man de Saul Bellow)

Ainda a propósito de cavalos e de Aquiles

Há na Ilíada um ciclo em que a morte dos maiores heróis da obra é sucessivamente predita: Pátroclo prediz a morte de Heitor pouco antes de ser morto por este, Heitor prediz a morte de Aquiles aquando do combate com este. Também um dos cavalos de Aquiles, Xanto, lhe anuncia a morte próxima.
Homero cria na morte o motivo que une todas as suas personagens: a morte, a dor da perda de um ente querido, são coisas que indiferentemente unem os homens, é por isso que há aquela cena final, em que o pai (Príamo) e o assassino do seu filho (Aquiles) choram os dois juntos na mesma tenda. Nada os divide naquele instante: nem o destino, nem a idade, nem o facto de um ser grego e o outro troiano. São os dois a mesma coisa, a mesma matéria: homens e condenados a perder o que mais amaram, o que mais quiseram.
Príamo, o ancião, rei de Tróia, chora na tenda de Aquiles não só um filho muito amado, mas o melhor dos guerreiros troianos, o seu sucessor natural, o símbolo máximo da cidade de Tróia, o príncipe que se devia ter tornado rei.
Aquiles, vendo Príamo, recorda-se de seu pai, Peleu, e sabe que o destino que pesa sobre si, aquele que lhe foi fixado, é igual ao de Heitor, e sabe que o seu pai, longe de Tróia, na Ftia, irá conhecer a mesma dor de Príamo. (Na Ilíada nem os deuses têm capacidade de escapar ao que é fixado pelo destino, nem Zeus pode salvar o seu filho, Sarpédon, da morte em Tróia.)
Eis como Homero nos deixa com dois inimigos reduzidos à igualdade.
A máxima tragédia de Aquiles é que ele sempre fora um inadaptado, um elemento que não se podia identificar e, logo, não se podia ligar a outros. Filho de um mortal, Peleu, e de uma deusa, Tétis, ele, pela sua força, pela sua beleza, pela sua velocidade, não era um homem. Mas aquilo que o separava dos homens não era suficiente para fazer dele um deus, logo, ele não era uma coisa nem outra, não pertencia nem a um mundo nem a outro.
No exército dos aqueus, ele tem um superior hierárquico, um homem mais poderoso que ele, Agamémnon. Mas Agamémnon não o excede em força, até pode ser mais poderoso, mas não mais forte, na prática, Aquiles é o líder natural do contigente dos gregos, e é por isso que se retira do exército assim que contrariado pelo rei de Micenas. Não é uma causa comum o que o trouxe até Tróia, mas uma profunda ânsia de glória.
O momento final de Aquiles na Ilíada é o único momento em que ele sabe onde está, quem é, o que será depois. E que esse momento lhe tenha sido trazido por um seu inimigo natural é um dos aspectos que fez da Ilíada um livro perfeito, um livro imortal.
*
Quando pela primeira vez estudei a Ilíada numa cadeira de literatura grega ,o meu professor na altura, Frederico Lourenço, começou a aula dizendo aquele cliché: a Ilíada é o primeiro livro da história do Ocidente. E imediatamente acrescentou: para primeiro livro, não valia a pena ser uma coisa tão elaborada. Tinha razão.

Os Cavalos de Aquiles

Assim que viram Pátroclo morto,
tão denodado, e forte, e jovem no durar,
os cavalos de Aquiles começaram a chorar;
a sua imortal natureza se indignava
com esta obra da morte que contemplava.
Sacudiam as suas cabeças e as longas crinas moviam,
batiam na terra com as suas patas e carpiam
Pátroclo que sentiam sem alma - exterminado -
uma carne agora vil - seu espírito dissipado -
indefeso - a respiração parada -
da vida devolvido ao grande Nada.

Zeus viu as lágrimas dos imortais
cavalos e entristeceu. «No casamento de Peleu»
disse «não devia assim sem pensar ter feito eu;
antes meus cavalos vos não tivéssemos oferecidos
infelizes! Que procuráveis lá entre o caído
no brinquedo do destino que é a mísera humanidade.
Vós a que nem a morte arma cilada, nem a muita idade
precárias calamidades vos tiranizam. Nas suas provações também
vos envolvem os humanos.» As suas lágrimas porém
pela perpétua calamidade da morte
derramam os dois animais de nobre porte.

Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis (trad.), Relógio d'Água, 1994

Para começar bem o dia

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Nos próximos dias eu serei um homem muito feliz

que o homem rema cortando a água
e se recorda da expressão da tua cara
o impulso dos braços é o último gesto honesto
e transporta consigo o salto cortado entre degraus
a multidão o encontro na escada
o susto entrecortado da mulher
que deixa resvalar a mão no ombro do amante

perto
longe

de repente repetida nas mãos
a luz dos meses mais cruéis

A vida desejável

- As pessoas não sabem como as canções de amor podem ser perigosas - avisou, às ocultas, o áureo ovo de Russel. - Os movimentos que as revoluções produzem no mundo nascem dos sonhos e visões no coração de um camponês, numa colina. Para eles a terra não é terreno explorável mas a mãe viva. O ar rarefeito da academia e da arena produz o romance de seis xelins, a canção de music-hall. A França produz a mais bela flor de corrupção em Mallarmé mas a vida desejável só se revela aos pobres de coração, a vida dos feaces de Homero.

James Joyce, Ulisses, João Palma-Ferreira (trad.), Livros do Brasil, 2000

Em que língua gritas tu, meu pesadelo

Em que língua gritas tu, meu pesadelo,
meu fantasma? Cem vezes seguidas
Nina Simone a cantar Sinnerman.
Don't you see I need you, rock?
E querias que cantasse contigo.

Sempre cantámos canções e atingimos
depois a plenitude, o silêncio: não cantamos,
não nos tocamos, não dizemos nada
que não seja útil. A tua última frase
com sintaxe (enrolaste a palavra dentro
de uma palmeira azul) pareceu-me
feliz, dentro do género surreal-charrado.

Eu podia mandar desenhá-la a desenhadores
desempregados, pôr moldura e tudo,
em vez destas letras que, de cada vez
que se formam intuitivamente no papel,
logo lançam reflexos nos meus joelhos.

Um assobio, uma pequena linha de seiva
e os dois com falta de paciência, leva-me,
poesia, na escada do desacerto e faz
de mim um lavador de pés, um menino
moldavo a limpar vidros nos semáforos.

Ao olhares bem de frente uma cara
de apatia, podias voltar à velha história
do espelho, e dizer isso em verso coxo,
mas não era nada disso, a apatia
eras tu, não outra pessoa, não eu, não
o meu espelho. Ah, eu já não te digo
nada, já não te canto nada como dantes.

Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

Simone de Beauvoir



































Fotografada por Henri Cartier-Bresson.

(Revelar Ideias?)

A arte tem de nos revelar ideias, essências espirituais sem forma. A suprema questão sobre uma obra de arte é saber qual a profundidade de vida de onde emerge. A pintura de Gustave Moureau é a pintura de ideias. A mais profunda poesia de Shelley, as palavras de Hamlet põem os nossos espíritos em contacto com a sabedoria eterna, o mundo de ideias de Platão. Tudo é resto é especulação de estudantes para estudantes.

James Joyce, Ulisses, João Palma-Ferreira (trad.), Livros do Brasil, 2000

«Rashomon» de Akira Kurosawa, 1950


Com uma banda sonora excelente, com uma interpretação extraordinária de Toshirô Mifune, um filme fantástico, tão artesanal na forma como foi filmado que mais parece uma peça de teatro.

domingo, 29 de Novembro de 2009

...
Sustento, erguendo as mãos, todos os astros.
...

Luís Miguel Nava, Poesia Completa: 1979 - 1994, Publicações D. Quixote, 2002

Orlando Tinha Razão

No canto IX de Orlando Furioso, Orlando vence o rei da Frísia, que possuía uma arma de fogo, um arcabuz. É a arma com que este combate e Orlando tem muitas dificuldades em derrotá-lo. Assim que vence o rei, Orlando apressa-se a atirar ao mar a arma com que este se batia, exclamando que uma arma de fogo destrói qualquer hipótese de valentia.
Em Sete Samurais, de Akira Kurosawa, um dos samurais é um guerreiro perfeito, de tal modo que o mais experiente e líder dos sete, ao vê-lo, lhe tece todos os elogios e compreende imediatamente que este se trata de um homem unicamente interessado na arte da guerra. Mais tarde, em combate, a este samurai (salvo o erro Kyuzo) é confiada a tarefa de se infiltrar no campo do inimigo e trazer consigo uma das espingardas que este possuía. Kyuzo desaparece e tarda em voltar. Todos começam a pensar que ele está morto. Até que ele regressa trazendo a espingarda e dizendo que matara um dos inimigos ao executar a tarefa. Kyuzo será morto numa das sequências finais do filme, não num combate corpo a corpo, mas à traição, com um tiro de espingarda.
Orlando tinha razão.

Sem Outro Intuito

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava, Poesia Completa: 1979 - 1994, Publicações D. Quixote, 2002

sábado, 28 de Novembro de 2009

«Crows» de Akira Kurosawa, 1990


Esta é uma das curtas-metragens que compõem o filme Dreams de Akira Kurosawa. (Martin Scorsese é Van Gogh.)

Cheguei a ter medo de te perder

Cheguei a ter medo de te perder,
tu não chegaste sequer a ter medo.
Este silêncio de já não termos palavras
ouve-se nas outras palavras que trocamos.

Miserável mundo nosso e alheio,
igual ao que todos disseram da sua época,
e pior, porque este vivemos nós
e conhecemos nós, cada um conforme pode.

Já morreram os ídolos todos da infância
e os da adolescência vão a caminho,
sobrevivente é o teu olhar cego
(hoje já só há um dos Righteous Brothers).

Na feira de velharias uma caixa
para tabaco com uma rosa verde.
Tem o preço ainda em escudos, uma falha
num dos cantos, uma pequena cruz de cal.

Permaneces aí, à lareira, lendo livros vivos
e o seu turbilhão de palavras profundas.
Nunca mais chega o medo de nos perdermos
eco um do outro em ricochete de silêncios.

Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

(Noutro dia um amigo apanhou-me a ler este livro e perguntou-me se me estava a divorciar.)