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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Racionalização

© Odile Podpovitny


Preparar o jantar. Cortar cogumelos, pimentos, ficar nos dedos com o picante do pimento, levar os dedos à boca, medir a duração dessa impressão onde todo um sentido se colapsa. Este era o sabor. Entre todas estas coisas neste preciso instante fica-se sozinho. Tudo o que no quotidiano é limbo arrasta-se latentemente e manifesta-se à hora do jantar. Não trouxe esta navalha comigo, já cá estava. Alguém antes de mim naufragou aqui. Parece que não posso ter conhecimento disto e ter justificação para caminhar e carregar comigo esta impressão de grande pedra pesada, uma vontade de atirar a cabeça para trás, tocar-te com a língua na testa. E há aqui ruas de pedra, dias de sol, caras conhecidas. Os movimentos sobre o papel como no cinema movimentos desfocados e riscados sobre uma tela. Os movimentos nas ruas desta cidade às vezes como uma esgrima, os dedos tacteiam a massa branca do ar, pelo altura do dorso os postes e vedações pretos, a gata desconhecida, a estreiteza fibrosa deste fio de lã, a malha solta, a aspereza rugosa desse banco de jardim, há nas minhas mãos marcas da relva porque neste bocado de parque me estendo ao comprido e conspiro comigo. Compro o almoço, no bolso trago uma moeda fria que ponho na máquina de café, misturo-lhe água e volto para vir bebê-lo à rua, estendo esta hora até chegar à sombra e gente vai e vem e falam todas as línguas possíveis, línguas que nunca tinha ouvido antes, que não tinha como ter imaginado. Uma menina muito pequena com uns olhos muito escuros, com um cabelo cortado à rapaz, vai pela mão da irmã. Ela é tão incrivelmente pequena, tão incrivelmente frágil. Eu não vou por mão nenhuma, tenho a mão cortada, não a que me dá o pão mas a outra, a que escreve isto. Sem esta mão que perdi não teria como escrever. O meu corpo ao contrário da moeda no bolso do casaco não é uma moeda fria é uma moeda quente, troca-se, esquiva-se, traduz-se noutras coisas, noutros objectos como eu perecíveis, biodegradáveis. Os meus dedos postos dentro de uma sala tacteiam o negrume destas teclas, parei há muito de escrever à mão porque não me podia ler, não podia decifrar a merda de caligrafia que tenho, mas trago sempre comigo quatro ou cinco canetas, um caderno, trago-os mesmo quando sei que não os vou usar, troco-os de mala, enrolo-os completamente, enfio-os pelos bolsos, canetas e cadernos, não me consigo separar destas coisas, são agora o meu amuleto contra mau-olhado como prescrito num aprumo profético de beco cego e sem saída de tia velha, são a minha carta meteorológica, o que posto à altura do peito há-de parar a última bala, que lá há-de ficar presa como na bíblia que o herói na última cena por sorte tinha no bolso quando dispararam sobre ele à queima-roupa. Dentro da mão que martela estas teclas corre sangue, não o de nenhum dos meus antepassados. O meu. E este computador fecha-se como uma concha e fecho-o com palavra-passe como em tempos fechei à chave os meus cadernos, esses que em tempos deitei fora, com que nunca mais me encontrei depois e não encontrarei. Aprendemos cedo que o que nos pertence deve ser protegido. Para depois nos desprotegermos temos de sofrer a vergonha de sermos vistos como imprudentes, anormais, inadaptados. O que me importa proteger que não possa antes preferir dar? Posso proteger só o que em mim é mau para que assim defenda os outros em minha companhia? Ou proteger a maldade que tenho para que me defenda de outros? Há dias em que me olho ao espelho e percebo a minha morte, percebo esse instante na minha cara. Todas estas coisas estão juntas no mesmo enredo, corpo, cadernos, computador, canetas, chave de casa, música na casa do vizinho, cadeado da bicicleta, coisas que chegam por correio, agarro-me a elas como à última tábua mas suspeito que não são a identidade que me resta, apenas esta comunicação a intervalos, o calor possível a tirar das coisas, pus-me sobre a linha de partida e à espera, uma fúria, erínia, há-de encontrar-me na meta, ou mesmo até correr todo o tempo comigo. Ainda não consegui chegar à humildade que me resta. Todas estas coisas estão no mesmo enredo e seria lógico esperar que coladas juntas fizessem sentido. Martelo uma a uma cada palavra até chegar a meio desta frase, arrasto-a mais para o meio, ela pesa como um boi, tamborilo-a com os dedos, o ritmo enrola-se no ouvido, mas ela continua a não fazer sentido aqui. Virei-a para todos os lados. Apertei-a como a um botão, dei-lhe um murro cego, como a um interruptor que pudesse abrir uma porta automática. Era ainda sobre esta cara a que mão adequada adequará a carícia. Espero o que me seja próprio, proporcional, o que me deva caber e por detrás desta expressão não há nada, apenas um cabeçalho erodido onde deviam estar dados de contacto, ou por trás desta expressão há a minha vontade, a minha imensa ternura pelo que me rodeia, pela parte do mundo que me é familiar, aquela a que por invisíveis cabos e cordas e amarras estou ligada como esse barco nesse porto a meio dessa tempestade. Como num núcleo de energia atómica no centro de uma temperatura de milhares de graus escondidos sobre o metal mais frio. Posso e meto por esta rua, pelo ângulo mais agudo desta esquina. Pouso esta caneta. O que no meu corpo é ângulo vai sempre resvalar para aresta, é agulha, fica latente mas traiçoeiramente espera até poder furar até ao osso. Porque pode. O motivo que explica a existência do pulso é ele ser não porque dura e cumpre a função de durar mas primeiro e sobretudo porque é pulso. A alegria da elasticidade do mais eléctrico impulso esta palavra que como uma moeda é pesada sobre a língua, tem o seu corpo e o seu preço. Sobre esse preço calculo quanto pode valer o meu acordo, a minha concórdia para manter esta comunicação. Não o pagarei, tu também não o pagarás. Ele existe só para que saibamos que há entre nós e os outros coisas que valem. Para que possamos pôr nisto um contracto, uma linguagem que traduza um equilíbrio que não podemos definir com exactidão. Começámos por distinguir o que era precioso a partir do que era próximo, do que só tinha um valor abstracto, a partir da distância estabelecemos que quanto mais longe mais caro, porque desconhecido, porque raro. Tu perguntaste-me porquê pena e disseste que eu não tinha justificação, que não sabia explicar porquê e era preciso ter um motivo. A minha única grande razão tem sido sempre pelo motivo da coisa em si. Surpreendo-te com uma cara de rapaz de sacristia, absorto, concentrado, desonesto, suave, a sorrir como um inocente. Era agora que me devias dar o devido valor.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Best of



Pus a sacar um best of do Donovan, o Bob Dylan inglês, depois de ver um vídeo do Bob Dylan sentadinho ao lado do Donovan, e o Donovan a roer as unhas e a chupar um cigarro com um ar de foda-se-já-alguém-me-tirava-este-gajo-da-frente. A única música que conheço do Donovan é o Hurdy Gurdy Man, usada na banda sonora do Zodiac e que me lembra inevitavelmente do Marc Ruffalo a fazer de Bullit e de serial killers em San Francisco. Serial killers e música peace and love é uma combinação estranha, e daí talvez não.
Ontem à noite ainda estive a ler Almudena Guzmán. Ela publicou o primeiro livro com 17 anos. Não é um livro mau e a poeta que ela veio a ser já para ali andava em embrião, parece-me. Estar a ler Almudena Guzmán lembrou-me de uma das tardes em que fui a Cambridge ouvir o West e, à espera do autocarro de volta, estava a ler um poema do García Montero sobre uma montra de uma loja de móveis. Nesse poema ele fala de como todas as lojas de móveis contêm milhares de casas em potência, fala sobre comprar coisas a prestações, sobre a alegria de construir coisas em conjunto, uma felicidade classe média e suburbana. Não me lembro do resto do poema mas lembro-me que não acabava bem. Quando levantei os olhos em Parkside 16 e ainda antes de chegar o X5 vi que à minha frente havia um Family Law Practician. De repente há uma continuidade qualquer, completamente aleatória, completamente acidental, entre o que estamos a fazer e o que nos rodeia. Há qualquer coisa de agradável e obsceno nisto.
O poder mais misterioso que possuímos é o de criar um sentido, uma continuidade, uma ligação entre o que connosco está em trânsito e os lugares do nosso trânsito. Calada não tenho uma nacionalidade, não tenho uma língua, a ler não sou a mulher que escapou da linha de sentido anterior que corre entre a realidade e o que só existe dentro da minha cabeça. Essa linha de sentido anterior, interior, e a realidade contra, a soma dessas duas coisas, isso, é o que eu sou. É por isso que somos misteriosos, que há em nós qualquer coisa de inexplicável, de indizível, de perigoso, porque existimos mais violentamente nesse ponto inarticulado que está entre o que sabemos que somos e a realidade, a maneira como acontecemos, como somos afectados e afectamos o que nos rodeia e essas duas coisas se moldam, não existem uma sem a outra.
Jogadores de cricket, os prédios castanhos ao alto, qualquer coisa de decadentemente estival, de estância balnear nestas cidades de estudantes que fecham para o verão. E desaparecer no meio das pessoas. Ressurgir três horas mais tarde numa cidade mais adiante com uma impressão de avião a despenhar-se, é só o autocarro a entrar na cidade, a estranheza de uma cidade que chega no meio da noite. Um regresso resguardado, clandestino, de rapariga que continuamente puxa a saia para baixo do joelho, sabendo que ao andar ela vai tornar a subir e que bocado te tiram se te virem as pernas, nenhum. Que estas são as coisas que possuo, este corpo e esta meia dúzia de gestos, de restos de cigarros e papéis nos bolsos, estes lugares, inscrições em tabuinhas. Lugares nefastos, fome, cansaço, unhas que crescem e se partem, saltos altos que se partem num passo em falso, uma pressa resoluta de chegar. Há-de haver uma altura em que terei de olhar para trás e para a frente e articular todas estas coisas, fazer delas sentido, como instrumentos velhos descobertos em escavações arqueológicas podem vir a fazer música muitos séculos depois e imagens em vasos estilhaçados em cacos podem ser restauradas, reunidas, muito tempo depois de separadas. Só que nós não sabemos o quanto temos de aldrabar o padrão para dele tirar música.
Um dia estás deitado na tua cama, estás a caminho dos trinta e vês-te com sessenta e pensas que daí a trinta hás-de estar morto e a maior parte das coisas que te parecem agora importantes são reconduzidas a outra escala. E sabes de quantas coisas precisas de abdicar para seres capaz de sobreviver a ti próprio, quanto é preciso escavar para preservar o núcleo intacto. Começas a contar isto e aquilo e também aquilo, nada disto importa. E o pulso começa a acelerar, há para aí um histérico aí bem dentro que diz Mas que caralho, que núcleo intacto, eu sei que não quero deixar ir de nada, tudo o que é meu de viver sobre perceber quanto espaço há e quanto tempo e mais para debaixo ainda do amplexo curto dos braços, de toda a merda que diariamente escavo como um escravo e às vezes senhor destas coisas, destes poderes curtos, curtos em toda a parte para onde me vire e para onde olhe e belos porque destruição como eu. Porque haveria eu de ceder, não é ceder, é deitar fora (conceder é outra coisa) um palmo que fosse do que quero viver. E assim a suar, com um sabor de chumbo na boca, levantar-me com os olhos dilatados, tentar chegar ao fundo disto e não me parece organizado.
É que nunca me demonstraram com aguda contundência, o sentido que possa haver em cortar razoavelmente no que tenho para viver no que quero viver para quem e para quê ao certo?, e não estou a falar de um trabalho, de lojas de móveis, do que temos de fazer para sobreviver, estou a falar de estar vivo ao certo, desta meia dúzia de poemas, de atravessar de uma cidade à outra com uma moeda na boca, a corda deposta ao pescoço, a chave do cadeado num bolso, da música com os headphones grandes, do que ainda trazes para me contar, este e aquele poema, varandas debaixo do calor em Granada, o próximo livro, o acelerar do passo, já que começaste agora
continua por favor
para a frente é que é Lis

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A angústia do guarda-redes depois do penálti






































Sim, já tinha postado esta fotografia antes, que é a imagem da capa da Penguin do Livro do Desassossego.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

sábado, 16 de fevereiro de 2013

sorriso histriónico



Charlot
Numa destas últimas noites vi na televisão alguns filmes antigos de Chaplin, a saber, dois ou três episódios nas trincheiras da primeira guerra mundial e um filme mais extenso, “The Pilgrim”, que, retoma, com menos felicidade que noutros casos, o tema recorrente de um Chaplin sem culpas procurado pela polícia. Não sorri nem uma única vez. Surpreendido comigo mesmo, como se tivesse faltado a uma jura solene, dei-me ao trabalho de tentar recordar, tanto quanto me seria possível oitenta anos depois, que risos, que gargalhadas me terá feito soltar Charlot nos dois cinemas populares de Lisboa que frequentava quando tinha seis ou sete anos. Não recordei grande coisa. Os meus ídolos nessa época eram dois cómicos suecos, Pat e Patachon, que esses, sim, eram, para mim, autênticos campeões da gargalhada. Continuando a reflectir com os meus botões, sempre bons conselheiros porque em princípio não mudam de casa nem de opinião, cheguei à inesperada conclusão de que Chaplin, afinal, não é um cómico, mas um trágico. Repare-se como tudo é triste, como tudo é melancólico nos seus filmes. A própria máscara chaplinesca, toda ela em branco e negro, pele de gesso, sobrancelhas, bigode, olhos como pingos de alcatrão, é uma máscara que em nada destoaria ao lado das representações plásticas clássicas do actor trágico. E há mais. O sorriso de Chaplin não é um sorriso feliz, pelo contrário, aventuro-me a dizer, sabendo ao que me arrisco, que é tão inquietante que ficaria bem na boca de qualquer drácula. Se eu fosse mulher, fugiria de um homem que me sorrisse assim. Aqueles incisivos, demasiado grandes, demasiado regulares, demasiado brancos, assustam. São um esgar no enquadramento rígido dos lábios. Sei de antemão que pouquíssimos vão estar de acordo comigo. O caso é que, uma vez que foi decidido que Chaplin é um actor cómico, ninguém lhe olha para a cara. Creiam no que lhes digo. Olhem-no de frente sem ideias feitas, observem aquelas feições uma por uma, esqueçam por um momento a dança dos pezinhos, e digam-me depois o que viram. Chaplin levaria todos os seus filmes a chorar se pudesse.

José Saramago, retirado daqui.