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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Princípio

Ele suicida-se no fim do primeiro conto.

(Nove contos, J. D. Salinger.)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Agora sou o meu cadáver, um corpo no fundo de um poço. Há muito que soltei o último suspiro, que o meu coração parou de bater, mas, excluindo o patife que me matou, ninguém sabe o que me aconteceu. Ele, porém, esse desprezível pulha, para se certificar de que tinha acabado comigo, prescrutou-me a respiração, vigiou as minhas últimas palpitações, depois deu-me um pontapé nas costelas, em seguida arrastou-me até à beira de um poço para me atirar por cima do parapeito. A minha cabeça, já partida à pedrada, rebentou ao cair no poço; a cara, a testa e as faces esmagaram-se, apagaram-se; os meus ossos partiram-se, a minha boca encheu-se de sangue.

Orhan Pamuk, O Meu Nome é Vermelho, Filipe Guerra (trad.), Editorial Presença, 2007.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Princípio...

Pomposo, roliço, Buck Mulligan, veio do alto da escada trazendo uma tigela com espuma de barbear, na qual se cruzavam, em cima, um espelho e uma navalha. O roupão amarelo, solto, sustinha-o por detrás, gentilmente, a brisa suave da manhã. Ergueu a tigela e entoou:
-Introibo ad altare Dei.

...do livro que começo a ler hoje e me vai ocupar nos próximos tempos. Qual é?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Começa assim:

«Eu viajava em cavalos de muda, proveniente de Tiflis. Toda a bagagem do meu carro consistia numa pequena mala cheia até meio pelos meus apontamentos da viagem pela Geórgia. A maior parte desses escritos, felizmente para o leitor, viria a perder-se, mas a mala com o resto dos meus pertences salvou-se, felizmente para mim.»

o romance que acabei de ler ontem.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Há um livro que eu amo que começa assim

Por um tempo amaciado, de degelo, de fins de Novembro, cerca das nove da manhã, o comboio do caminho-de-ferro Petersburgo-Varsóvia aproximava-se a todo o vapor de S.Petersburgo. Estava tão húmido e havia tanto nevoeiro que amanhecia a custo; era difícil distinguir alguma coisa das janelas da carruagem a mais de dez passos à esquerda e à direita da linha. Entre os passageiros, alguns voltavam do estrangeiro; mas o grosso dos viajantes, gente simples e de trabalho, enchia a terceira classe e viajava de lugares muito distantes.

domingo, 18 de outubro de 2009

Princípio

A 15 de Maio de 1796, o general Bonaparte entrou em Milão à frente daquele juvenil exército que acabava de passar a ponte de Lodi e mostrara ao mundo que, passados tantos séculos, César e Alexandre tinham um sucessor. Os milagres de audácia e de génio que a Itália presenciou no decorrer de alguns meses acordaram um povo adormecido; oito dias antes da chegada dos Franceses, os Milaneses não viam neles senão um punhado de salteadores, habituados a fugir diante das tropas de Sua Majestade Imperial e Real; era, pelo menos, o que, três vezes por semana, lhes repetia um jornalzinho do tamanho da palma da mão, impresso em papel sujo.

(Esta obra tem um dos princípios mais belos de todos os tempos, é famoso pelas suas primeiras páginas, de tal forma que Calvino dizia que qualquer jovem sentia «uma súbita paixão pelas primeiras páginas» deste livro. Qual é?)

sábado, 17 de outubro de 2009

Há um livro que eu amo que começa assim

"Leves e de um azul metálico, movidas por uma brisa contrária suave, quase imperceptível, as ondas do Mar Adriático rolavam ao encontro da armada imperial, quando esta, tendo à esquerda as colinas rasas e cada vez mais próximas da costa calabresa, se dirigia para o porto de Brindisi e então, quando a solidão do mar cheia de sol, mas mesmo assim prenunciadora da morte, deu lugar à pacífica alegria da actividade humana, quando as águas, suavemente brilhantes com a proximidade da existência de homens e das suas casas, se povoaram de variadíssimos barcos, uns que também se dirigiam para o porto, outros que dali saíam, então, quando os barcos de pescadores com as suas velas castanhas estavam precisamente a sair dos pequenos molhes de todas as inúmeras aldeias e povoações ao longo da orla salpicada de branco, para se dirigirem à sua pesca nocturna, então a água ficou quase tão lisa como um espelho; como uma madrepérola, abrira-se por cima a concha do céu, anoitecia, e sentia-se o cheiro a lenha das lareiras, sempre que o vento trazia os sons da vida, uma martelada ou um grito, desde a costa até ao mar."

Alguém adivinha de que livro se trata? (A Tatiana está excluída.)

Princípio

O gosto de vaguear pela noite, a horas mortas, era agora o mais querido dos meus prazeres melancólicos. Desde muito novo desenvolvo reais qualidades inventivas em tal género de prazeres: Mas qualidades que sobretudo se revelam no pormenor ou na maneira. De facto, o prazer de errar pela noite é comum a várias criaturas. Sempre desconfiei de misteriosas afinidades entre todas, por mais que as separem os gostos, os vícios, as aparências, a idade, a condição social.

José Régio, Jogo da Cabra Cega, Brasília Editora, 1971.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Princípio

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas recordava-lhe sempre o destino dos amores contrariados. O doutor Juvenal Urbino sentiu-o assim que entrou na casa, ainda mergulhada em penumbra, onde fora de urgência tratar um caso que, para ele, já tinha deixado de ser urgente há muitos anos. O refugiado antilhano, Jeremiah de Saint-Amour, inválido de guerra, fotógrafo de crianças e o seu mais tolerante adversário de xadrez, tinha-se posto a salvo das inquietações da memória com um defumador de cianeto de ouro.

Gabriel Garcia Márquez, O Amor em Tempos de Cólera, Margarida Santiago (trad.), Dom Quixote, 1997.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Princípio

"Ao entardecer de um dia de princípios de Julho, com um tempo invulgarmente quente, um jovem saiu do seu cubículo subalugado a uns moradores da ruela S. e caminhou devagar, como que indeciso, em direcção à ponte K."

Uma Pequena Estação

Uma pequena estação no troço da linha de caminho de ferro que leva à Rússia. Quatro carris paralelos corriam a direito e a perder de vista em ambos os sentidos, entre o cascalho amarelado do leito da via. Ao lado de cada um, como uma sombra suja, o risco escuro marcado no chão pela saída de vapor.
Por trás do edifício da estação, baixo e pintado a óleo, uma estrada larga, em mau estado, conduzia à rampa de acesso à gare. As bermas perdiam-se no chão pisado e só eram reconhecidas pelos dois renques de acácias que, tristes e de folhas sequiosas, estranguladas pelo pó e pela fuligem, delimitavam a estrada de ambos os lados.

Robert Musil, As Perturbações do Pupilo Törless, João Barrento (trad.), Obras I, Dom Quixote, 2005.

Etiqueta Nova

Hoje, o Lavorare Stanca apresenta ao seu vasto publico uma nova etiqueta, intitulada, vá, digamos, «Princípios». A ideia não é original (já a vi para aí algures noutros blogues) e consiste em registar as linhas iniciais daqueles livros que têm princípios que dão vontade de não os largarmos mais. Como para os restantes textos que para aqui são transcritos, não serão copiados inícios de livros que não tenham sido (ou não estejam a ser) lidos por nós.