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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Em qualquer parte

Contra pequenos mundos inteiros, o poeta floresce em qualquer parte (...)

Gil de Carvalho, algures em A Phala

sexta-feira, 18 de junho de 2010

we look into hunger's face the face of fire face of death
the worst of all - the face of betrayal

and only our dreams have not been humiliated

1982

Zbigniew Herbert, The Collected Poems 1956 - 1998, Alissa Valles, Ecco, 2007

sábado, 22 de maio de 2010

Ritsos dixit

Creio que não é tarefa do poeta o acto de falar sobre poesia, exceptuando diante da poesia, ainda que fosse ele o mais indicado e autorizado para nos dar o fio de Ariadne que nos conduzisse pelo profundo segredo da poesia. É verdade que tem autoridade, sim, mas à sua maneira e na sua língua - a língua da poesia é sintética e a da crítica é analítica, o que significa que esta última é profundamente distinta da língua da poesia. De modo que, quando se pede a um poeta que fale sobre a sua obra em vez de com a sua obra, é quase como se lhe pedíssemos que mudasse de identidade. Além disso, já o disse em outras ocasiões: «A poesia, no exacto grau em que é poesia, diz-nos sempre muito mais, e di-lo de forma muito melhor, do que o muito que nós podemos falar sobre ela.»

Yannis Ritsos no prefácio a Μαρτυρίες, Praga, 15 de Outubro de 1962

quinta-feira, 20 de maio de 2010

κι ὁ μὸχτος/τοῦ νοῦ μου ἀρμενιστὴς στὴ μέση ἀπ' τ' ἄστρα

...I held the great pearl in my hand, took spring
into my heart, and felt the scarlet roses
of my fever suddenly become
a crown, felt my black bed become a ship,
the unhurried ship of God, and my struggle
the navigator of my mind among the stars...

Angelos Sikelianos, Selected Poems, Edmund Keeley e Philip Sherrard (trad.), Denise Harvey, 1996

domingo, 14 de março de 2010

...o sono é um pretexto para a morte
o campo onde o milagre
continua

Carlos Nogueira Pinto, Segundo Livro de Ishtar, Limiar, 1994

segunda-feira, 1 de março de 2010

(...) an yet

then sometimes, come May, swirls settle in the glass classroom
rains of flickering fire fell clinging to the clothed bodies
of hospital nuns , doctors, and to our sick, naked as they are
from my hiding place I tremble in the whirling wind out there
............................................................................[and I tremble less

Giancarlo Majorino in "Di'--allora dico", Italian Poetry: 1950 to 1990, Ridinger and Renello (eds.), Dante University Press, 1996.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Lines Writen in Dejection

When have I last looked on
The round green eyes and the long wavering bodies
Of the dark leopards of the moon?
All the wild witches, those most noble ladies,
For all their broom-sticks and their tears,
Their angry tears, are gone.
The holy centaurs of the hills are vanished;
I have nothing but the embittered sun;
Banished heroic mother moon and vanished,
And now that I have come to fifty years
I must endure the timid sun.

W.B. Yeats, The Wild Swans at Cole, publicado pela primeira vez em 1917.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Ele dizia que a flecha não tinha podido atingi-lo
além do desgosto
que a bruma era uma queimadura(...)

Gérard de Cortanze, O Movimento das Coisas, Isabel Aguiar Barcelos (trad.), Campo das Letras, 2002

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O menino da sua mãe

No plaino abandonado
Que a morta brisa aquece,
De balas traspassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa, Ficções do Interlúdio (1914 - 1935), Assírio & Alvim, 1998

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

People will forget Shakespeare.
He will lie with George Formby
and me, here where the swine root.
Later, the solar system
will flare up and fall into
space, irretrievably lost.

For the loss, as for the life,
there will be no excuse, there
is no justification.

Thom Gunn, Collected Poems, Faber and Faber, 1993

sábado, 20 de fevereiro de 2010

The George Bests of the moral domain

Being human is something you have to get good at, like playing the trombone or tolerating bores, and the vicious are those who have never got the hang of it. They are tenderfoots in the art of living, as botching and crackhanded as a dog waltzing on its hindlegs. The virtuous, by contrast, are those who are successful in the business of living, and what Christians call saints are the virtuosi, the George Bests or Pavarottis of the moral domain.

Terry Eagleton, Sweet Violence: the idea of the tragic, Blackwell Publishing, 2003

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Ulisse

Nella mia giovinezza ho navigato
lungo le coste dalmate. Isolotti
a fior d’onda emergevano, ove raro
un uccello sostava intento a prede,
coperti d’alghe, scivolosi, al sole
belli come smeraldi. Quando l’alta

marea e la notte li annullava, vele
sottovento sbandavano più al largo,
per fuggirne l’insidia. Oggi il mio regno
è quella terra di nessuno. Il porto
accende ad altri i suoi lumi; me al largo
sospinge ancora il non domato spirito,
e della vita il doloroso amore.

Umberto Saba, Mediterranee, 1947

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Mas todos os infernos conhecidos do homem são-no somente enquanto pré-histórica e profética antecipação.

María Zambrano, O Sonho Criador, Maria João Neves (trad.), Assírio & Alvim, 2006.
Sento-me, deito-me, levanto-me,
tudo em pensamento.
Em nenhum lugar tenho paz,
Com meu conflito me atormento.

Andreas Tscherning, Melancholey Redet Selber, Rostock, 1655. Citado por Walter Benjamin em Origem do Drama Trágico Alemão, traduzido por João Barrento.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Como dizia Petrarca

Not far into his twenties, Petrarch left Italy and attached himself to the papal court in Avignon. From there in 1333 he visited Paris and Liège, and at Liège he discovered the speech for Archias, which he copied out in his own hand. Eighteen years later, when a Florentine friend offered him more speeches of Cicero's, he thanked him with a copy of Pro Archia, which he describes in his covering letter (Variae 45)as 'a speech full of wonderful compliments to poets'. There speaks the first poet since Statius to be crowned on the Capitol, who in the adress he composed for the occasion in 1341 quoted Cicero's view that poets are born by divine favour, not made (Pro Archia 18).

Michael D. Reeve, "Classical Scholarship", The Cambridge Companion to Renaissance Humanism, Jill Kraye (ed.), Cambridge University Press, 1996.

A melhor explicação que li acerca disto (poets are born ... not made), ainda que seja uma explicação cum grano salis, continua a ser a de Platão no Íon. Olho para trás, e já devem ter passado uns cinco anos desde que o li, mais coisa menos coisa, e esse texto continua a parecer-me uma maravilhosa reflexão acerca do que é um poeta, do que é o ofício de poeta, cum grano salis e tudo. O Pro Archia é outra coisa, nunca me esqueço de que é retórica.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

[palavras para alegrar o coração pelo fim-de-semana fora]

"Os poetas da Antologia Grega dizem-nos de maneira inequívoca que, à medida que a pilosidade do adolescente vai aumentando, a sua atracção sexual vai diminuindo. Grande parte dos epigramas subordinados a este tema apresentam-nos um amante desolado e, talvez, um pouco repugnado pela chegada de pêlos vários em partes diferentes do corpo do amado. (Os pêlos públicos, porém, não são objecto de queixa.) O aparecimento da barba é tido como o momento decisivo, a partir do qual o papel do amante "passivo" é, além de indesejável, moralmente condenável. Num poema (XII.228), o amante convence o amado de que a idade em que ele está é a idade própria para aceitar o papel passivo; por outro lado, noutro epigrama (XII.225), há um amante que acusa outro de manter relações com amados demasiados velhos. Os pêlos são referidos de muitas maneiras: como um castigo que Némesis dá aos rapazes arrogantes (XII.186, 193, 229); como a razão pela qual ontem o amado era Troilo e hoje é Príamo (XII.191). "Assim como uma linda flor murcha com o calor, a beleza murcha com um pêlo" (XII.195)."

Frederico Lourenço, "Os Poemas de Estratão de Sardes", in Novos Ensaios Helénicos e Alemães, Lisboa, 2008

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O que quero problematizar em tudo isto:

Le beau peut-il être triste? La beauté a-t-elle partie liée avec l'éphémère et donc avec le deuil? Ou bien le bel objet est-il celui qui revient inlassablement après les destructions et les guerres pour témoigner qu'il existe une survivance à la mort, que l'immortalité est possible?

Julia Kristeva, Dépression et Mélancolie, Éditions Gallimard, 1987

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Questão arrumada

O principal problema para se relacionar com a poesia é ser supérfluo o que se possa dizer acerca dela. E, contudo, a consciência de nada haver para dizer acumula um sem fim de textos onde, de cada vez, mais uma continua a infinda fala sobre essa questão: a poesia.
E começa por aqui: a poesia não é uma questão. É tão-só o uso que por alguns é feito das palavras.

Joaquim Manuel Magalhães, Rima Pobre, Editorial Presença, 1999

domingo, 31 de janeiro de 2010

Em tempos sombrios

Mas até nos tempos mais sombrios temos o direito de esperar ver alguma luz, e é bem possível que essa luz não venha tanto das teorias e dos conceitos como da chama incerta, vacilante, e muitas vezes ténue, que alguns homens e mulheres conseguem alimentar em quase todas as circunstâncias e projectar em todo o tempo que lhes foi dado viver neste mundo (...).

Hannah Arendt, Homens em Tempos Sombrios, Ana Luísa Faria (trad.), Relógio d'Água, 1991

domingo, 24 de janeiro de 2010

...e fu per sempre/con le chose che chiudono in un giro/ sicuro come il giorno, e la memoria/ in sé le cresce, sole vive d'una/ vita che dispari soterra: insieme/ coi volti familiari che oggi sperde/ non più il sonno ma un'altra noia...

Eugenio Montale, «Vechi versi»