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sexta-feira, 15 de março de 2013

A vida é um sonho de que jamais conseguimos despertar, uma sucessão de “tempos-seres”, todos igualmente irreais, misteriosamente ligados entre si, não por um “eu” qualquer de que seriam manifestações, mas pela mera recordação de um lugar de origem, de uma ausência que rodeia aquilo a que chamamos vida e que escorre por entre esses momentos como um fio de nada. Na verdade, esta experiência da vida como pura ausência de si mesma e do mundo não é, em Fernando Pessoa, senão o espelho invertido da vertigem ontológica que o jovem autor do Fausto experimentou perante algo de mais original e de mais estranho do que a consciência da nossa ausência de ser, da nossa evanescência. Essa vertigem é-lhe causada pelo facto de existir, ou de forma mais radical, pelo facto em si da existência. O facto de não haver nada, mistério nenhum, por detrás daquilo que já ali está, esteve e estará sempre ali, inspira-lhe não só o espanto fundamental e incomensurável da filosofia, como também um sentimento que a palavra “horror” mal pode exprimir.

Eduardo Lourenço, O Lugar do Anjo, Ensaios Pessoanos. Gradiva, 2004.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Tacere

Toda a arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa. Há duas formas de dizer - falar e estar calado. As artes que não são literatura são as projecções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama.

Fernando Pessoa apud Rosa Maria Martelo, O Cinema da Poesia, Sistema Solar, Documenta, 2012, p. 29.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

      Temo a verdade.
Ignorar é amar. Toda esta terra,
Estes montes (...) não os amara tanto
Se soubera o que são, e enfim os vira
Como os não vejo. Pudesse eu sem termo
Gozar, sofrendo embora a ilusão
Sem que a quebrasse. Como são tristes
Os sonhos meus, inda que lhes pese,
Só porque sonhos são, que não a vida,
Assim serem.

                          *

Só a inocência e a ignorância são
Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?
Que é ser sem no saber? Ser, como pedra,
Um lugar, nada mais.


Fernando Pessoa, Fausto, Tragédia Subjectiva (Fragmentos), Editoral Presença.

sábado, 13 de outubro de 2012

 As relações entre arte e moral são extraordinariamente simples, pois tanto os defensores de que não há qualquer relação, como os seus opositores, têm razão. Objectivamente, não existe qualquer razão entre arte e moralidade, pela simples razão de que arte é arte e moralidade é moralidade, e pela mesma razão por que não existe qualquer relação entre a verdade e a moralidade. No entanto, a moralidade, sendo o esforço para elevar a vida humana, para lhe dar um valor humano, tem consequentemente relações com toda a vida humana. E a vida humana inclui a arte e a verdade.
  As mesmas relações existem entre beleza e verdade. Eu posso, se estiver ao meu alcance, basear um poema esplêndido no pressuposto de que o Sol se move em redor da Terra; nenhuma injúria a Copérnico afectará necessariamente a cadência do meu verso. Todavia, na mesma medida em que utilizo um pressuposto manifestamente errado, assim farei com que o meu poema perca o contacto com a vida – ou seja, ainda que não perca o contacto com a arte, perdê-lo-á com aquilo a que a arte pertence.  
  A minha mentira não prejudicará o efeito artístico do meu poema, mas arruinará o efeito de elevação de que o efeito artístico é apenas um aspecto. É que – e aqui tocamos no chão – elevar é a finalidade da arte mais sublime, e o seu fim é, por conseguinte, idêntico ao da moral. O meu poema pode elevar como um poema; deixará de elevar como produto vivente.

Fernando Pessoa, Heróstrato e a busca da imortalidade, Manuela Rocha (trad.) Assírio & Alvim, 2000.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Sete da tarde

e eu aqui, com o «menino de sua mãe», no plaino abandonado, que a morna brisa aquece. Ele, coitado, de balas trespassado, parece que duas de lado a lado - consta que jaz morto e arrefece. E eu a ponderar se já trabalhei o suficiente para poder conceder a mim mesma ir lá abaixo beber um café.
A ele (ao menino da sua mãe, entenda-se) raia-lhe a farda o sangue. Ficou ali tal qual como os inimigos o apanharam: no plaino onde fulminado caiu e se deixou estar - de braços estendidos, alvo, louro, exangue, corpo travado em plena marcha para se fazer de mármore, porque tenho a certeza que este menino não pode já ser de carne.
Pessoa imputa-lhe a culpa de com um olhar vazio (perdido) fitar o céu. O céu que, de acordo com a predicação que lhe atribui o sujeito poético da enunciação, que não do poema (esse é o agente referido como «o menino da sua mãe»), é cego. O menino da sua mãe não era cego, mas ficou, ou ficaram-no.
E parece que, para piorar a coisa, era jovem, muito jovem. E, ainda pior, o mais precioso tipo de filho - o único. E a mãe (a do Pessoa, parece) dera-lhe um nome (apontamento para designar uma espécie de código entre mãe e filho, o que denota intimidade) e ele o mantivera, mantivera-o, creio, porque se tornam preciosos para os filhos os nomes que as suas mães lhes chamam (or so they say), e este era (notar o sumo cuidado materno despendido e expresso na expressão que se segue) o «menino da sua mãe».
Eu não era o «menino da sua - nem da minha - mãe» porque sou menina e havia mais irmãos, o que pode justificar a menor diligência em empregar nomes afectuosos para denominar os filhos, e sobretudo porque se deu o caso de haver um irmão antes de mim, assim, parecido com este menino do Pessoa, que era moreno, cabelo e olhos escuros, primogénito não filho único, parecido comigo e tudo, que caiu morto, mas não num plaino abandonado aquecido por uma brisa morna, antes num hospital em Londres e, lugar onde regra geral pertencem os meninos, nos braços de sua mãe.
Ao menino de sua mãe, o do Pessoa, cai-lhe da algibeira a cigarreira breve. (O meu irmão não fumava.) A cigarreira do do Pessoa está boa e inteira. Nenhum problema com a cigarreira. Respira saúde, ele é que não. Parece que já não serve (nem para o exército e, extrapolação fácil, nem para a vida). E depois para acabar de nos rachar à machadada o coração, Pessoa vai-nos contar que na outra algibeira, quase a roçar o solo, há a brancura embainhada de um lenço, cuidado de criada velha, que trouxe o jovem soldado, quando ele era menino, ao colo.
Lá longe, em casa, rezavam para que ele regressasse cedo e bem. Desperdiçou-se um rapaz, jaz morto, apodrece. (Filha da putice que, na enunciação de Pessoa, ou na do sujeito poético do poema, como quiserem, para mim às vezes é tudo a mesma coisa, como dizia, filha da putice que é expressa pela paráfrase «malhas que o império tece.») Mais um menino de sua mãe. Ou melhor, menos um menino de sua mãe. Note-se neste passo o talento de Pessoa enquanto poeta: o tipo junta meia dúzia de palavras e sem empregar uma única vez, ao longo de todo o poema, a palavra dor, deixa nele gente que, mal o poema acabe, vai endoidecer de dor. Morrer de dor.
Como se rouba a alguém o que esse alguém tem de mais precioso, eis o assunto deste poema e o que ele nos ensina (ou, o que não é nunca bem a mesma coisa, o que nós aprendemos com ele). Só há, na verdade, um crime, e esse é o roubo, todos os outros são uma variação deste (ouvi isto num filme), repare-se: ao menino da sua mãe, roubaram-lhe a vida. À sua mãe, roubaram-lhe o menino e consequentemente a vida.

Se não roubar depressa este trabalho, rouba-me ele a mim.

O menino da sua mãe

No plaino abandonado
Que a morta brisa aquece,
De balas traspassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa, Ficções do Interlúdio (1914 - 1935), Assírio & Alvim, 1998

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

75 Anos

Mensagem

D. Sebastião, Rei de Portugal

Louco, sim, louco porque quis grandeza
Qual a sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou o meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Fernando Pessoa, Mensagem

(E irem ouvir isto dito por Luís Miguel Cintra?)

sábado, 21 de novembro de 2009

1 de Dezembro

Assinalam-se os setenta e cinco anos da publicação de Mensagem, o único livro de Pessoa publicado em vida. Ler mais aqui.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

«Waiting Trumpeter», 1958, Fotografias de Dennis Stock (VI)






























Há qualquer coisa de maravilhoso nestas fotografias de bastidores de Jazz de Dennis Stock, os jogos de luz na fotografia, a posição dos corpos dos músicos. Qualquer coisa nestas fotografias de antecâmaras que me recorda aqueles versos de Pessoa:
(...)Eu sou um rei/que voluntariamente abandonei/O meu trono de sonhos e cansaços./Minha espada, pesada a braços lassos,/Em mão viris e calmas entreguei;/E meu cetro e coroa — eu os deixei/Na antecâmara, feitos em pedaços//Minha cota de malha, tão inútil,/Minhas esporas de um tinir tão fútil,/Deixei-as pela fria escadaria.//Despi a realeza, corpo e alma,/E regressei à noite antiga e calma/Como a paisagem ao morrer do dia.

domingo, 21 de junho de 2009

Na nossa natureza há, porém, uma provisão, a um tempo maravilhosa e boa, de que o que sofre não conheça nunca a intensidade do que sente pela sua tortura presente, mas principalmente pela dor que depois lhe fica. Com uma atitude quase serena, portanto, Hester Prynne atravessou esta parte do seu suplício, e chegou a uma espécie de cadafalso, na extremidade ocidental da praça do mercado.

Nathaniel Hawthorne, A Letra Vermelha, Fernando Pessoa (Trad.), Assírio e Alvim, 2002.