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segunda-feira, 21 de maio de 2012

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11 (Príncipe Míchkin depois da morte de Nastássia Filíppovna, tirado daqui)

Mas nós os que dos peixes somos
os que com a tormenta afinal todos nos perdemos
temos por simples pátria a língua portuguesa
e por isso por arma temos estar de pé
opor ao sol a face incorrigível
e darmos palavra aos que não têm voz
pois ao silêncio os têm submetidos
Poema de palavras não de paz mas de pavor
construção linguística difícil aparentemente
eu que em troca da vida e do triunfo me tornei teu ínfimo
                                                                                  cultor
sob essa superfície de impassível frialdade
sei que se oculta a voz não da humanidade
palavra do mais dúbio dos significados
mas dos homens que dostoievski viu ofendidos e
                                                            humilhados
Quente e humana embora na aparência fria
que a todos se destine a poesia.

De Ruy Belo, Transporte no Tempo

Versos que me trouxeram à memória um texto de Benjamin, Sobre a Linguagem em Geral e sobre a Linguagem Humana, em que nos é dito, por um lado, que a natureza sofre porque vive na ausência de linguagem. Por outro, o silêncio da natureza é reflexo da mais profunda tristeza, mas é para sua redenção que existem a vida e a linguagem do homem na natureza, e não só a do poeta, como por vezes se supõe
A poesia pode também dar voz ao que, pela opressão, se cala.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Notas de Benjamin

Desde há séculos que se constata que a ideia da morte está a perder omnipresença e força evocadora na consciência colectiva.

(...)

Hoje os burgueses, habitantes áridos de eternidade, vivem em espaços depurados da morte e são, quando se aproximam do fim, arrumados pelos herdeiros em lares ou hospitais. Ora é precisamente ao morrer que o indivíduo transmite, em primeira mão, não apenas os seus conhecimentos mas, sobretudo, a experiência da sua vida - isto é a matéria com que se constroem as histórias. Assim como no interior do indivíduo, agonizante, desfila uma sequência de imagens - quadros de situações por ele vividas, sem se ter dado conta - também o inesquecível aflora, de repente, na sua fisionomia e no seu olhar, conferindo autoridade a tudo o que lhe dizia respeito. Na hora da morte, até o maior pobre-diabo possui essa autoridade perante os vivos que o rodeiam. Esta autoridade está presente na origem da narrativa.

Walter Benjamin, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Relógio D'Água, 1992.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Uma ténue força

«Entre as mais notáveis características do espírito humano», diz Lotze, «conta-se…, no meio de tantas formas particulares de egoísmo, a ausência generalizada de inveja de cada presente em relação ao seu futuro». Esta reflexão leva a que a imagem da felicidade a que aspiramos esteja totalmente repassada do tempo que nos coube para o decurso da nossa própria existência. Uma felicidade que fosse capaz de despertar em nós inveja só existe no ar que respiramos, com pessoas com quem pudéssemos ter falado, com mulheres que se nos pudessem ter entregado. Por outras palavras: na ideia que fazemos da felicidade vibra também inevitavelmente a da redenção. O mesmo se passa com a ideia do passado de que a história se apropriou. O passado traz consigo um index secreto que remete para a redenção. Não passa por nós um sopro daquele ar que envolveram os que vieram antes de nós? Não é a voz a que damos ouvidos um eco de outras já silenciadas? As mulheres que cortejamos não têm irmãs que já não conheceram? A ser assim, então existe um acordo secreto entre as gerações passadas e a nossa. Então, fomos esperados sobre esta Terra. Então, foi-nos dada, como a todas as gerações que nos antecederam, uma ténue força messiânica a que o passado tem direito.

Walter Benjamin, O Anjo da História: Obras Escolhidas de Walter Benjamin, João Barrento (ed. & trad.), Assírio & Alvim, Lisboa, 2010

sábado, 11 de dezembro de 2010

Quando pedrado com mescalina

Walter Benjamin escreveu coisas como: «Escreve minha ovelhinha escreve.»; «Canção da ovelhinha é a moldura/ Canção da escrita é a imagem/ dorme minha ovelhinha dorme»; «Ovelha meu soninho ovelha.»

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Sento-me, deito-me, levanto-me,
tudo em pensamento.
Em nenhum lugar tenho paz,
Com meu conflito me atormento.

Andreas Tscherning, Melancholey Redet Selber, Rostock, 1655. Citado por Walter Benjamin em Origem do Drama Trágico Alemão, traduzido por João Barrento.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Angelus Novus



Sobre Angelus Novus (1920), quadro de Paul Klee que esteve em sua posse durante anos, Walter Benjamin disse: Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar do local em que se mantém imóvel. Os seus olhos estão escancarados, a boca está aberta, as asas desfraldadas. (Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política)

Benjamin

O dom de atiçar através do passado a chama da esperança pertence apenas ao historiógrafo perfeitamente convencido que diante do inimigo, e no caso deste vencer, nem sequer os mortos estarão em segurança. E este inimigo não tem cessado de vencer.

- Walter Benjamin, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa, Relógio D'Água, 1992.