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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O que tu tens da andorinha (II)


«O que tu tens da andorinha/ é a errância pouco austera;/ o que para mim, que me sentia e era/ velho, anunciava uma outra primavera.» Umberto Saba

O que há para amar nestes versos é a maneira como neles se insinuam, sem se anularem, três formas de movimento, o facto de ser tua a errância pouco austera da andorinha, o que com tanta concisão fala da forma leve e quase leviana como te moves e é uma evocação de juventude mas também de inconstância, a forma como isso contrasta comigo, que me «sentia e era velho», eu com a minha imobilidade de pedra de velho, e, afinal e por remate, como deste contraste se ergue a visão inteira e intacta da primavera. Por meio desta densa concisão se demonstra que era Umberto Saba grande poeta. Mas, na verdade, tudo isto serve apenas para dizer que nunca mais é Março.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Primavera

Primavera que a mim me não agradas, quero
de ti dizer que passando a esquina
de uma rua, o teu presságio me feria
como uma lâmina. A sombra ainda leve
dos ramos nus na terra ainda
nua perturba, como se também eu pudesse
devesse
renascer. A tumba
parece insegura quando tu te apressas, antiga
primavera, que mais do que qualquer estação
cruelmente ressuscitas e matas.

Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Mediterrânea

Penso num longíquo mar, num porto, nas secretas
ruas desse porto; no que outrora neles era,
e no que hoje aqui sou, e aos deuses as mãos
suplicantes ergo, para que me não castiguem
por uma última vitória que desejo tanto
(mas o coração, por doçura, mal sentia);

penso na sereia sombria
- beijos, embriaguez, delírio -; penso em Ulisses
que aí de um leito triste se levanta.

Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Contovello

Um homem rega o campo. Depois desce
tão inclinada no monte uma escadinha,
e que parece, quando avança, vizinha,
do vazio. O mar a seus pés num corropio.

Aparece de novo. Afadiga-se ainda à volta
do retalho de cinzenta terra, juncada
de tojo, à flor da rocha. Sentado
na taberna, bebo este àspero vinho.

Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Três cidades

1 Milão

Entre as tuas pedras e as tuas brumas estou
em vilegiatura. Descanso na Piazza
del Duomo. Em lugar
de estrelas
todas as noites se acendem palavras.

Nada descansa tanto da vida como
a vida.

2 Turim

Regressarei à cercadura amável
dos teus montes, às ruas que se prolongam
como sons vibrantes. Logo depois num estranho
silêncio fugirei de reuniões, de amigos.
Mas procurarei o soldado Salamano,
o mais duro em palavras, o mais agarrado
ao dever, que em si mostra a tua virtude como um espelho.

Procurarei a oficina onde ele vai ficando velho.

3 Florença

Para abraçar o poeta Montale
- bem generosa é a sua tristeza - estou
na cidade que me foi querida. É como
se cada pedra que o pé pisa fosse
o meu coração, a minha dor
de outrora. Mas não sinto saudade.Nasce
- outra constelação - uma outra idade.

Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Lugar de Fruta

Verduras, fruta, cores da bela
estação. Algumas cestas onde à sede
se revelam doces polpas cruas.

Entra um miúdo com as pernas nuas,
altivo, mas logo foge.
.................................Escurece
a humilde lojeca, envelhece qual
uma mãe.
..................................E lá fora, ele, ao sol,
afasta-se ligeiro com a sua sombra atrás.

Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O que tu tens da andorinha, disse-o Umberto Saba

O que tu tens da andorinha
é a errância pouco austera;
o que para mim, que me sentia e era
velho, anunciava uma outra primavera.

Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Uma recordação

Não durmo. Vejo uma estrada, um bosquezito,
que o meu coração com uma ânsia aperta;
para onde íamos, sós e em mútua descoberta,
eu e um outro rapazito.

Era Páscoa, o ritual longo e singular
dos velhos. E se a atracção por mim não fosse certa
- pensava - e se amanhã não voltar?
E de facto não voltou. Que enorme dor,
que espasmo a noite trouxera;
que uma amizade (soube-o depois) não era,
antes aquilo era amor;

o primeiro; e que felicidade, que enganos
eu tive, entre as colinas e o mar de Trieste,
Mas porque não durmo, hoje, com este
episódio, que creio, foi há quinze anos?

Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Entre tantas novidades de rentrée

Poesia – uma antologia de Il Canzoniere, de Umberto Saba (selecção, tradução, introdução e notas de José Manuel de Vasconcelos).

(Entre tantos outros livros, anunciados para os próximos meses, que despertam interesse, caramba, o que eu quero ler este!)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Ulisse

Nella mia giovinezza ho navigato
lungo le coste dalmate. Isolotti
a fior d’onda emergevano, ove raro
un uccello sostava intento a prede,
coperti d’alghe, scivolosi, al sole
belli come smeraldi. Quando l’alta

marea e la notte li annullava, vele
sottovento sbandavano più al largo,
per fuggirne l’insidia. Oggi il mio regno
è quella terra di nessuno. Il porto
accende ad altri i suoi lumi; me al largo
sospinge ancora il non domato spirito,
e della vita il doloroso amore.

Umberto Saba, Mediterranee, 1947