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sexta-feira, 1 de julho de 2011

Os Gregos

Quase tomando o título (embora decerto não propositadamente, de um dos livros mais cool de toda a história da scholarship em cultura clássica), o diário Câmara Clara dedicou um programa aos Gregos. Por momentos senti-me de volta aos últimos meses de 2009 e a um seminário que dava pelo nome de Cultura Bizantina, onde aprendi que os Bizantinos só podem ter sido a principal inspiração para os Groovy Greeks das Horrible Histories.
A minha parte favorita é aquela em que a sra. apresentadora afirma que, se a civilização grega floresceu entre Homero e Aristóteles (sensivelmente do séc. IX-VIII ao séc. IV a.C.), então tinha durado mais ou menos dois séculos e Frederico Lourenço responde que talvez um pouco mais. À parte isso, uma excelente iniciativa.
A Grécia entretanto continua on fire.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

[palavras para alegrar o coração pelo fim-de-semana fora]

"Os poetas da Antologia Grega dizem-nos de maneira inequívoca que, à medida que a pilosidade do adolescente vai aumentando, a sua atracção sexual vai diminuindo. Grande parte dos epigramas subordinados a este tema apresentam-nos um amante desolado e, talvez, um pouco repugnado pela chegada de pêlos vários em partes diferentes do corpo do amado. (Os pêlos públicos, porém, não são objecto de queixa.) O aparecimento da barba é tido como o momento decisivo, a partir do qual o papel do amante "passivo" é, além de indesejável, moralmente condenável. Num poema (XII.228), o amante convence o amado de que a idade em que ele está é a idade própria para aceitar o papel passivo; por outro lado, noutro epigrama (XII.225), há um amante que acusa outro de manter relações com amados demasiados velhos. Os pêlos são referidos de muitas maneiras: como um castigo que Némesis dá aos rapazes arrogantes (XII.186, 193, 229); como a razão pela qual ontem o amado era Troilo e hoje é Príamo (XII.191). "Assim como uma linda flor murcha com o calor, a beleza murcha com um pêlo" (XII.195)."

Frederico Lourenço, "Os Poemas de Estratão de Sardes", in Novos Ensaios Helénicos e Alemães, Lisboa, 2008

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Algumas questões gerais sobre tradução (e um artigo sobre Proust pelo meio)

"The Shape of Time" é um artigo de 2004, da autoria de Peter Brooks sobre Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, publicado no New York Times. O artigo versa em parte sobre a problemática da tradução de Proust para inglês, e o autor fala-nos de diferentes traduções e da qualidade de cada uma, revisitando a história da tradução desta obra para língua inglesa. Impressionou-me a ideia de Cambridge ter feito uma tradução da obra em que cada volume é traduzido por um autor diferente. Acho que isso não resulta, embora traga diversidade de soluções e pluralidade de vozes. Se fossem livros diferentes de um mesmo autor, talvez não me chocasse tanto, mas é apenas um romance, em sete volumes. Foi escrito por uma só pessoa, creio que deve ser traduzido por uma só pessoa. É uma questão de garantir, tanto quanto possível, coerência de estilo e unidade. Em Portugal, Pedro Tamen traduziu, para a Relógio d'Água, todos os sete volumes e fez, sem dúvida, um bom trabalho. Por ex., percebemos na sua tradução o longo fôlego que Proust dava aos seus períodos, é característico de Proust, e Tamen conservou esta característica. Nestes pormenores, é possível avaliar a qualidade do tradutor.
Há outros casos de tradução para português que acho igualmente notáveis, como, por exemplo, o trabalho que Frederico Lourenço realizou na sua tradução de Homero (Livros Cotovia), ele traduziu quer a Odisseia quer a Ilíada e considero isso positivo, dota de uma certa consonância as obras, apesar de não sabermos se Homero existiu e se foi apenas um, e, em qualquer dos casos, ele é um tradutor extraordinário. A qualidade da sua tradução advém-lhe, segundo me parece, de um domínio irrepreensível quer da língua de partida quer de chegada, e de não de estar demasiado preocupado em render ao leitor para quem traduz os detalhes da sintaxe grega (se ali temos um genitivo absoluto, ou um caso de uso de particípio suplementar, etc., etc.) mas sim (e sobretudo) a beleza e o sentido do texto grego, buscando os seus equivalentes em português mas mantendo-se fiel à língua de partida.
Outra tradução de um clássico que assinalo como excelente é o trabalho que Paulo Farmhouse Alberto fez, também para a Livros Cotovia, das Metamorfoses de Ovídio. O tradutor fez uma tradução bastante fiel ao latim mas nunca se descurou em relação à língua de chegada. O resultado, para mim, está ao nível do trabalho de Frederico Lourenço na Ilíada e na Odisseia.
Nos antípodas, e não por falta de qualidade dos tradutores, está a tradução da Eneida da Bertrand. É a única tradução portuguesa desta obra que é cientificamente correcta (e que eu conheço, à parte da de Agostinho da Silva), porque é actual e feita a partir da língua original, contudo, num texto que já de si é por natureza intraduzível (como render a beleza de trechos como Ibant obscuri sola sub nocte per umbram?), a juntar a isto, a tradução não ficou confiada a apenas um tradutor e não é em verso. O que estilhaça a beleza de um texto que já de si é muito problemático de traduzir. Ideal seria que a Livros Cotovia contratasse Pierre Ménard para que ele traduzisse para português a obra maior de Vergílio.
Deixo-vos um excerto, link incluído, do artigo sobre Proust:

''Swann's Way'' contains the passages best known to most readers: the haunting bedtime drama of Marcel deprived of his mother's kiss, and especially the conjuring of an entire childhood world, in Combray, which opens, in the manner of compressed Japanese paper flowers that unfold in water, from the madeleine cake dipped into a cup of tea. It includes as well the 200 pages of ''Swann in Love,'' an apparent digression that in fact lays out the path that Marcel must discover if he is to become a writer, if he is to succeed where the aesthete Swann, through a congenital mental laziness, fails. The need for shaping time, and the model for doing so, are adumbrated here by way of Vinteuil's sonata, which provides the paradigm of temporal organization transcending spoken meanings. ''Never,'' the narrator tells us of the sonata, ''had spoken language been such an inflexible necessity, never had it known such pertinent questions, such irrefutable answers.''