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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Alguém aceita uma alma
como um fenómeno natural;
sabes que o país é um luto,
um caos conquistado.

A madeira negra,
a madeira vermelha e
a garrafa de leite
são uma medida vertical, útil.
Exprimem o triângulo da dor;
às vezes observam e persistem
como uma infância que recria, ao ar
livre, o seu telhado e o seu país, porque
a família fixa com pateras
as suas pequenas facas.

Toda a gente se deita com toda a gente,
e o homem com a mulher - do outro
lado da rua.

Gérard de Cortanze, O Movimento das Coisas, Isabel Aguiar Barcelos (trad.), Campo das Letras, 2002
Ela oscila e regressa,
a emoção.
Que é uma curva geométrica.
Ela é presa transtornada dos movimentos
contrários, da cabeça
conhecendo apenas a base pontiaguda.
Ela permanece de pé. Integra
o desequilíbrio, e nada vem pintar
a sua inscrição espacial, nada que não seja
quadrado ou redondo: uma lâmina da barba,
madeira exótica, tábuas, um
lintel, um precioso líquido sobre
a figura adormecida cheia de vento.

Gérard de Cortanze, O Movimento das Coisas, Isabel Aguiar Barcelos (trad.), Campo das Letras, 2002

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Ele dizia que a flecha não tinha podido atingi-lo
além do desgosto
que a bruma era uma queimadura(...)

Gérard de Cortanze, O Movimento das Coisas, Isabel Aguiar Barcelos (trad.), Campo das Letras, 2002
Permanece aberta diante de mim,
incansável.
No teu destino de reflexos. Na
tua tristeza profunda. Saberás
um dia bruscamente transpor este
universo de invernos,
este espaço de corredores de escudos de raptos?
Quem saberá dar-te este voo suave, ou esta
terna pálpebra de prados e de altas noites, ou
esta metamorfose dos silêncios nos teus rins?
Quem? Entre a nova onda mascarada?
Em aparência, em hortênsia, em cinzas?

Gérard de Cortanze, O Movimento das Coisas, Isabel Aguiar Barcelos (trad.), Campo das Letras, 2002

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Nas suas cabeças:
mastros, um cardume
de xarrocos,
um regresso com a urgência do
sangue.
Com um terror súbito:
sabes por que
amaste?

Gérard de Cortanze, O Movimento das Coisas, Isabel Aguiar Barcelos (trad.), Campo das Letras, 2002
Fora, os dramas do dentro são
renúncias heróicas,
lutas em que se fala do Homem
e do seu gosto pela Simetria.

Gérard de Cortanze, O Movimento das Coisas, Isabel Aguiar Barcelos (trad.), Campo das Letras, 2002

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Em ti desejava captar
a águia e os seus instintos.
Poder pintar o nevoeiro
da claridade solar.

Sinto que em ti palpita
o meu pensamento.

Depois do silêncio
virá uma fuga húmida.
Depois da tua natureza: uma curva
que respira. Os teus lábios
livres - purificados.

Gérard de Cortanze, O Movimento das Coisas, Isabel Aguiar Barcelos (trad.), Campo das Letras, 2002

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Há gritos inúteis.
Por isso, devo sondar
os movimentos,
as aventuras,
as intuições,
as montanhas verdes desdobradas...
Hoje, senti
nos meus ossos
cinco almas ferozes e confusas.
Mas não te despertei.
Dormias, entre
lençóis de tesouras entraçadas.
Dormias.
Não me atrevi a tocar-te.
As chamas e os olhares
destas cinco almas ferozes
e confusas teriam
jantado à tua mesa - e o drama
da obscuridade deve escapar-te.

Gérard de Cortanze, O Movimento das Coisas, Isabel Aguiar Barcelos (trad.), Campo das Letras, 2002