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terça-feira, 19 de março de 2013

Neve

He passed a park in Yusuf Pasa that was full of dismantled swings and broken slides; next to it was an open lot where a group of teenage boys were playing football. The high lampposts of the coal depot gave them just enough light, and Ka stopped for a while to watch them. As he listened to them shouting and cursing, and watched them skidding in the snow, and gazed at the white sky and the pale yellow glow of the lamplights, the desolation and remoteness of the place hit him with such force he felt god inside him.

Orhan Pamuk, Snow, Maureen Freely (trad.), Faber & Faber, 2005.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Amávamos ambos a mesma mulher, ele ia à frente e eu, a quem ele não via, ia atrás, e quando entrámos no dédalo de ruas que, a esta hora, até as matilhas de cães vadios abandonam, nesta Istambul silenciosa onde os djinns estão emboscados nas ruínas calcinadas, onde, nos pátios das grandes mesquitas, os anjos se enroscam nos vãos das colunas e nas copas dos ciprestes murmurantes de fantasmas, nesta cidade dos cemitérios cobertos de neve e fervilhando de espectros, ao irmos assim nós dois, roçando os mesmos assassinos à espreita, as mesmas lojas sem fim, os estábulos e os conventos, as fábricas de velas e de curtumes, penso que já não era eu o perseguidor nem ele o perseguido, mas que eu o imitava, e que ele era meu irmão.

Orhan Pamuk, O Meu Nome é Vermelho, Filipe Guerra (trad.), Editorial Presença, 2007


quarta-feira, 10 de março de 2010

Bastaram-me quatro dias a deambular pelas ruas de Istambul para perceber que todos em que brilhe um clarão de inteligência nos olhos ou a sombra da alma na cara são outros tantos assassinos em potência. Só os idiotas são verdadeiramente inocentes.

Orhan Pamuk, O Meu Nome é Vermelho, Filipe Guerra (trad.), Editorial Presença, 2007.

terça-feira, 9 de março de 2010

[E]m qualquer dos casos, constato que, quando amamos uma cidade e a calcorreamos muito, não é apenas a razão mas também o corpo que, anos depois, num momento de melancolia, reconhece por si mesmo as ruas: as pernas levam-nos sozinhas para o alto da nossa colina preferida, através da neve que cai.

Orhan Pamuk, O Meu Nome é Vermelho, Filipe Guerra (trad.), Editorial Presença, 2007.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Agora sou o meu cadáver, um corpo no fundo de um poço. Há muito que soltei o último suspiro, que o meu coração parou de bater, mas, excluindo o patife que me matou, ninguém sabe o que me aconteceu. Ele, porém, esse desprezível pulha, para se certificar de que tinha acabado comigo, prescrutou-me a respiração, vigiou as minhas últimas palpitações, depois deu-me um pontapé nas costelas, em seguida arrastou-me até à beira de um poço para me atirar por cima do parapeito. A minha cabeça, já partida à pedrada, rebentou ao cair no poço; a cara, a testa e as faces esmagaram-se, apagaram-se; os meus ossos partiram-se, a minha boca encheu-se de sangue.

Orhan Pamuk, O Meu Nome é Vermelho, Filipe Guerra (trad.), Editorial Presença, 2007.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Sobre o último livro de um dos meus «vivos» favoritos. Aqui.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O Novo Romance de Pamuk

«En El Museo de la Inocencia, la nueva novela de Orhan Pamuk, un personaje colecciona 4.213 colillas fumadas por la mujer que ama. En la entrada del Museo de la Inocencia, el museo real que Pamuk inaugurará el año que viene en Estambul, habrá una caja de vidrio de cinco metros por tres metros con 4.213 puchos verdaderos dentro. En la novela, Pamuk cuenta la historia de Kemal, que vive durante dos meses y recuerda durante treinta años el romance de primavera que le cambió la vida. En una esquina del barrio de Çukurkuma, en la mitad europea de Estambul, Pamuk ha construido un museo y lo ha llenado con los objetos, las fotos y los sonidos con los que Kemal homenajea a Füsun, la prima lejana y pobre que en 1975 interrumpió la placidez de su vida burguesa.»
Ler mais aqui. Via Ler.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

«Outras Cores» de Orhan Pamuk

No mês de Março de 2009 a Presença editou um livro de ensaios que, depois de lido, me deu vontade de ir a correr à livraria mais próxima (a decente, entenda-se: Barata, Roma) e pedir um exemplar de cada uma das obras de Pamuk que estivessem a vender. Um amigo meu já me tinha falado muito bem de algumas obras dele, mas havia outros que quando eu lhes perguntava (assim como quem avalia a coisa): «E Pamuk, como é?» E eles: «Muito overrated. Aposto que ganhou o Nobel por fazer a ponte entre a cultura ocidental e islâmica, isto é, mais por motivos políticos do que literários.» Depois de ler Outras Cores, tive de deixar de dar ouvidos a estes últimos, pelo menos em matéria literária. Outras Cores: Ensaios sobre a Vida, A Arte, Os Livros e as Cidades é um livro fantástico onde por vezes parece poder caber a vida inteira.
É um prazer poder ler Pamuk a discorrer sobre Os Cadernos do Subterrâneo de Dostoiévsky ou a falar de forma como ele e um seu vizinho, após o terramoto que arrasou Istambul em 1999 passaram alguns dias a calcular o grau de probabilidade que existia de um minarete que se erguia em frente à sua janela cair em cima do seu prédio. Ou as suas idas a jogos de futebol, ou o processo de composição de O Meu Nome é Vermelho. Ou quando nos fala dos barbeiros em Istambul. É daqueles livros que se vai lendo com uma curiosidade que se alimenta a si própria a cada página, e é por isso incessante.
É verdade que o autor passa em revista alguns dos aspectos mais polémicos da sua vida enquanto escritor, como por exemplo a polémica em torno do processo que lhe foi movido na Turquia por se ter referido (a um jornal suíço, creio) ao massacre dos arménios como um acto de genocídio. É verdade que o colorido étnico e do «multiculturalismo» (o que quer que isso seja) está lá todo. Mas não me parece que tenha sido por isso que Pamuk ganhou o Nobel. Este livro demonstra que ele o ganhou talvez, e acima de tudo, porque percebe muito de literatura, porque escreve muito bem, e incorpora na sua escrita aspectos que o integram na grande tradição da literatura ocidental, bem como aspectos especificamente turcos, que lhe advém, claro está, de ser turco, mas naquilo em que ele é muito bom é a observar pessoas, objectos, livros, independentemente da sua origem. Porque, acho eu, são muito poucas as coisas que na verdade separam os homens no tempo e nas circunstâncias: os desígnios, os medos, os desejos, os motivos das pessoas acabam sempre por ser bastante semelhantes, o tempo e o lugar podem impor algumas variações, mas não são determinantes.
Sempre achei altamente improvável que semelhante coisas existisse, mas este é um livro de ensaios emocionante. Se puderem, leiam o Outras Cores. Um dos melhores livros que eu já li.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

À medida que a vida vai ficando mais curta, perguntamo-nos o mesmo com cada vez maior frequência. Escrevi sete romances. Adoraria escrever outros sete antes de morrer. Mas a vida é curta. E que tal desfrutá-la mais? Por vezes, tenho de me forçar a fazê-lo. Porque escrevo? Que significado tem isso? Em primeiro lugar, como disse, é o instinto de estar sozinho num quarto. Em segundo, há em mim um lado competitivo quase pueril, que quer tentar escrever um bom livro mais uma vez. Acredito cada vez menos na eternidade dos autores. Estamos a ler muito poucos dos livros escritos há duzentos anos. As coisas estão a mudar tão depressa que os livros escritos hoje serão provavelmente esquecidos dentro de cem anos. Muito poucos serão lidos. Daqui a duzentos anos, estarão vivos talvez cinco dos livros escritos hoje. Terei a certeza de estar a escrever um desses cinco? Mas, e será esse o sentido da escrita? Porque deveria eu preocupar-me em ser lido duzentos anos depois? Não deveria preocupar-me em viver mais? Precisarei do consolo de ser lido no futuro? Penso em todas essas coisas e continuo a escrever. Não sei porquê. Mas nunca desisto.

Orhan Pamuk, Outras Cores