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sábado, 16 de fevereiro de 2013

sorriso histriónico



Charlot
Numa destas últimas noites vi na televisão alguns filmes antigos de Chaplin, a saber, dois ou três episódios nas trincheiras da primeira guerra mundial e um filme mais extenso, “The Pilgrim”, que, retoma, com menos felicidade que noutros casos, o tema recorrente de um Chaplin sem culpas procurado pela polícia. Não sorri nem uma única vez. Surpreendido comigo mesmo, como se tivesse faltado a uma jura solene, dei-me ao trabalho de tentar recordar, tanto quanto me seria possível oitenta anos depois, que risos, que gargalhadas me terá feito soltar Charlot nos dois cinemas populares de Lisboa que frequentava quando tinha seis ou sete anos. Não recordei grande coisa. Os meus ídolos nessa época eram dois cómicos suecos, Pat e Patachon, que esses, sim, eram, para mim, autênticos campeões da gargalhada. Continuando a reflectir com os meus botões, sempre bons conselheiros porque em princípio não mudam de casa nem de opinião, cheguei à inesperada conclusão de que Chaplin, afinal, não é um cómico, mas um trágico. Repare-se como tudo é triste, como tudo é melancólico nos seus filmes. A própria máscara chaplinesca, toda ela em branco e negro, pele de gesso, sobrancelhas, bigode, olhos como pingos de alcatrão, é uma máscara que em nada destoaria ao lado das representações plásticas clássicas do actor trágico. E há mais. O sorriso de Chaplin não é um sorriso feliz, pelo contrário, aventuro-me a dizer, sabendo ao que me arrisco, que é tão inquietante que ficaria bem na boca de qualquer drácula. Se eu fosse mulher, fugiria de um homem que me sorrisse assim. Aqueles incisivos, demasiado grandes, demasiado regulares, demasiado brancos, assustam. São um esgar no enquadramento rígido dos lábios. Sei de antemão que pouquíssimos vão estar de acordo comigo. O caso é que, uma vez que foi decidido que Chaplin é um actor cómico, ninguém lhe olha para a cara. Creiam no que lhes digo. Olhem-no de frente sem ideias feitas, observem aquelas feições uma por uma, esqueçam por um momento a dança dos pezinhos, e digam-me depois o que viram. Chaplin levaria todos os seus filmes a chorar se pudesse.

José Saramago, retirado daqui.


sábado, 26 de janeiro de 2013


Como este verbete há de certeza centenas no ficheiro, senão milhares, portanto não se compreende por que estará o Sr. José a olhar para ele com uma expressão tão estranha, que à primeira vista parece atenta, mas que é também vaga e inquieta, possivelmente é este o modo de olhar de quem, aos poucos, sem desejo nem recusa, se vai desprendendo de algo e ainda não vê onde poderá deitar a mão para tornar a segurar-se. Não faltará quem venha apontar supostas e inadmissíveis contradições entre inquieto, vago e atento, são pessoas que se limitam a viver assim como assim, pessoas que nunca se encontram com o destino pela frente.

José Saramago, Todos os Nomes, Editoral Caminho, 1997.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

três perguntas

Agora iam juntos, calhados com a chuva, tão molhados que nem mesmo um palheiro confortável os faria parar, só em casa. A noite precipitava-se, vinha depressa. A poente apenas havia uma última luz baça que enfim se avermelhava, e ainda lá estava já se apagara, tornou-se a terra como um poço negro, silenciosa e cheia de ecos, como é grande o mundo nesta hora de anoitecer. O ranger das rodas ouviu-se melhor, a respiração do animal, sacudida, era tão inesperada como um segredo subitamente dito em voz alta, e até o roçar das roupas molhadas parecia uma conversação seguida, murmurada, sem pausas, um falar de boa companhia. Em todas aquelas léguas ao redor, não se via uma luz. A mulher persignou-se, fez o sinal da cruz sobre o rosto do filho. A estas horas é melhor que se defenda o corpo e se proteja a alma, começam a vir aos caminhos as assombrações, passam num remoinho ou sentam-se numa pedra à espera do viajante a quem farão as três perguntas para que não há resposta, quem és, donde vens, para onde vais.

José Saramago, Levantado do Chão, Editorial Caminho, 2010.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Uma nota sobre José Saramago

Uma vez, falando sobre Beckett, disse-me um professor que no fim de lidos aqueles textos o que ficava era a respiração. Como depois de uma longa corrida, não sobra mais nada, só o arquejar, a noção de um ritmo vital. Com Saramago penso que é um pouco ao contrário, a respiração não é o que fica depois do texto, o que em teoria não se chama mas é chegar ao horizonte de expectativa (ora aqui uma terminologia teórica com a qual poderia compactuar), a respiração contém-se no texto.  
O meu teórico da literatura favorito dizia que o romance era a épica de um mundo sem deus, daí a maior parte dos romances assumirem a forma da biografia ou neles serem relatados factos biográficos. Isto nem sempre é linear, obviamente. Argumenta ele que o objectivo disto é produzir uma imitação de vida, numa busca por uma totalidade entre homem e universo que ficara perdida para sempre, desde que a filosofia viera fazer umas quantas perguntas à poesia (passagem da épica para a tragédia). Saramago subverte isto, porque nos seus textos constantemente se diz «o divino não está fora de nós, não está numa forma fora da vida, o divino somos nós». É maravilhoso isto. Essa é uma coisa de que gosto muito em Saramago, o antropocentrismo. Há romances dele que são muito «renascentistas», descaradamente à Pico della Mirandola: magnum miraculum est homo (De Hominis Dignitate Oratio, tinha 23 anos quando escreveu esta frase Pico). E gosto da maneira como às vezes ele trava a respiração dos seus próprios textos porque há uma intuição que ele vê de relance e que o força a deter-se, como acontece numa conversa que ele encena no Memorial do Convento, vão duas personagens a falar sobre música (Domenico Scarlatti à conversa com Bartolomeu Lourenço de Gusmão?), a música o silêncio o silêncio a música, às tantas o italiano diz: «Disse o italiano, encolhendo os ombros, Fica o silêncio depois da música e depois do sermão, que importa que se louve o sermão e aplauda a música, talvez só o silêncio exista verdadeiramente.» É uma intuição perfeita, entretecida no tecido do texto, quase que nem damos por ela, atravessa-nos como se estivéssemos a respirar, como quem pusesse pé numa música. Isto faz parte da poesia. As melhores coisas em literatura são sempre poesia.

domingo, 2 de janeiro de 2011

os pensamentos traduzidos

entreguemo-nos à aparente clareza dos actos, que são os pensamentos traduzidos, ainda que na passagem destes para aqueles sempre algumas coisas se tirem e se acrescentem, o que finalmente virá a significar que sabemos tão pouco do que fazemos como do que pensamos.
José Saramago, História do Cerco de Lisboa, Caminho, 2008 (8ª edição).

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Olhou e tornou a olhar

olhou e tornou a olhar, o universo murmura sob a chuva, meu Deus, que doce e suave tristeza, e que não nos falte nunca, nem mesmo nas horas de alegria.
José Saramago, História do Cerco de Lisboa, Caminho, 2008 (8ª edição).

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Estar doido

Devo estar doido, murmurou, repetindo palavras de há treze dias. Gostaria de encontrar, nesta confusão, um sentimento que prevalecesse sobre os outros, de modo a poder responder, mais tarde, se lho vierem a perguntar, E como é que você se sentiu na terrível situação, Senti-me preocupado, ou indiferente, ou divertido, ou temeroso, ou envergonhado, em verdade não sabe o que sente, só deseja que as quatro horas cheguem depressa, o encontro fatal com o leão que o espera de boca aberta enquanto os romanos aplaudem, são assim os minutos, ainda que em geral se afastam para nos deixarem passar depois de nos rasparem a pele, mas sempre haverá um para devorar-nos. Todas as metáforas sobre o tempo e a fatalidade são trágicas e ao mesmo tempo inúteis, pensou

José Saramago, História do Cerco de Lisboa, Caminho, 2008 (8ª edição).

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Pensou, pessoanamente

pensou, pessoanamente, Se eu fumasse, acenderia agora um cigarro, a olhar o rio, pensando como tudo é vário e vago, assim, não fumando, apenas pensarei que tudo é vário e vago, realmente, mas sem cigarro, ainda que o cigarro, se o fumasse, por si mesmo exprimisse a variedade e a vaguidade das coisas, como o fumo, se fumasse. O revisor demora-se à janela, ninguém o chamará 
José Saramago, História do Cerco de Lisboa, Caminho, 2008 (8ª edição).

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

ou se é a impossibilidade

então vai-se ao tempo que passou, que só ele é verdadeiramente tempo, e tenta-se reconstituir o momento que não soubemos reconhecer, que passava enquanto reconstituíamos outros, e assim por diante, momento após momento, todo o romance é isso, desespero, intento frustrado de que o passado não seja coisa definitivamente perdida. Só ainda não se acabou de averiguar se é o romance que impede o homem de esquecer-se, ou se é a impossibilidade do esquecimento que o leva a escrever romances.
José Saramago, História do Cerco de Lisboa, Caminho, 2008 (8ª edição).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A diferença inicial que separa a noite da madrugada

Quando só uma visão mil vezes mais aguda do que a pode dar a natureza seria capaz de distinguir no oriente do céu a diferença inicial que separa a noite da madrugada, o almuadem acordou. Acordava sempre a esta hora, segundo o sol, tanto lhe fazendo que fosse verão como inverno, e não precisava de qualquer artefacto para medir o tempo, nada mais que uma mudança infinitesimal na escuridão do quarto, o pressentimento da luz apenas adivinhada na pele da fronte, como um ténue sopro que passasse sobre as sobrancelhas ou a primeira e quase imponderável carícia que, (continuem a ler por vós, que isto está na pág. 17)

José Saramago, História do Cerco de Lisboa, Caminho, 2008 (8ª edição).
Lobo Antunes tem um momento parecido com este, ao dizer, nem me lembro já onde, «acordo ao som da luz».

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Almuadem

A verdade histórica, aprenda-o, é que os almuadens eram escolhidos entre os cegos, não por humanitária política de emprego ou encaminhamento profissional fisiologicamente adequado, mas para que não pudessem devassar a intimidade dos pátios e açoteias que, do alto da almádena, em figura. O revisor já não se recorda de como o soube, certamente o terá lido em livro digno de confiança, que o tempo não emendou, por isso pode insistir agora que os almuadens eram cegos, sim senhor. Quase todos. Apenas, quando em tal lhe acontece pensar, não consegue repelir de si uma dúvida, se a esses homens não lhes furariam os olhos lúcidos, como se fazia e talvez se faça ainda aos rouxinóis, para que da luz não conhecessem outra manifestação que uma voz ouvida nas trevas, a sua, ou, porventura, a daquele Outro que não sabe mais que repetir as palavras que vamos inventando, estas com que tentamos dizer tudo, bendição e maldição, até o nome que não terá nunca, inominável.

José Saramago, História do Cerco de Lisboa, Caminho, 2008 (8ª edição).

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922 - 2010)

Disse o italiano, encolhendo os ombros, Fica o silêncio depois da música e depois do sermão, que importa que se louve o sermão e aplauda a música, talvez só o silêncio exista verdadeiramente.

José Saramago, Memorial do Convento, p. 169.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Caim - Lenda

As declarações de Saramago, que parecem ter estancado definitivamente qualquer possibilidade de se vir a falar do seu novo livro, o objecto em concreto e a história que nele se conta, levam-me a pensar num texto bastante afastado desta polémica.

«Lenda»

Abel e Caim encontraram-se depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e reconheceram-se de longe, porque eram ambos muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, fizeram uma fogueira e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando declina o dia. No céu aparecia uma ou outra estrela, que ainda não recebera nome. À luz das chamas, Caim reparou na marca da pedra na testa de Abel e deixou cair o pão que ia levar à boca e pediu que lhe fosse perdoado o seu crime.
Abel respondeu:
- Tu mataste-me ou fui eu que te matei?Já não me lembro; aqui estamos juntos como dantes.
- Agora sei que na verdade me perdoaste – disse Caim -, porque esquecer é perdoar. Eu tratarei também de esquecer.
Abel disse devagar:
- É verdade.Enquanto dura o remorso, dura a culpa.

Jorge Luís Borges, in Elogia da Sombra, Obras Completas: 1952 - 1972, Fernando Pinto do Amaral (trad.), Editorial Teorema, 1998.

P.S. A minha opinião alinha nos pontos essenciais com esta.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Novidades Editoriais para Outubro

Há novos livros de Saramago e Lobo Antunes a sair em Outubro, ler aqui. Tal como outros colegas, vejo-me forçada a discordar dos críticos que falam em crise no panorama literário português.