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terça-feira, 28 de maio de 2013

On raconte aussi que Jésus, fils de Marie, et Jean, fils de Zacharie - que le salut soit sur eux - se rencontrant un jour, Jean dit à Jésus: "Que t'arrive-t-il por que tu viennes ainsi à ma rencontre en riant, si visiblement plein de confiance? - "Que t'arrive-t-il", répliqua Jésus, "que tu vie viennes à ma rencontre renfrogné, comme si tu étais désespéré?" Le Dieu Très-Haut leur dit alors secrètement ces paroles: "Celui d'entre vous deux qui m'aime le plus est celui qui me fais le plus de confiance."

Ahmad at-Tîfâshî (1184-1253), As delícias dos corações ou o que se não encontra em outro livro
(trad. do árabe por René R. Khawam)

sábado, 12 de janeiro de 2013

O autocarro dos pesadelos باص الكوابيس


(massacre de Sabra e Chatila, 1982)

O autocarro dos pesadelos

vi-os deitar as minhas tias em sacos de plástico negro
e nos cantos dos sacos acumulava-se o sangue morno delas
(mas eu não tenho tias)
soube que tinham matado Natacha – a minha filha de três anos
(mas eu não tenho filha)
disseram-me que eles tinham violado a minha mulher antes de lhe arrojarem o corpo
pelas escadas e de o deixarem na rua
(mas eu não sou casado)
foram de certeza os meus óculos que foram esmagados debaixo das botas deles
(mas eu não uso óculos!)
...

dormia eu em casa dos meus pais e sonhava em viajar até à casa dela, e quando
acordei:
vi os meus irmãos
pendurados no telhado da igreja da Ressurreição.
dizia o Senhor por piedade: esta é a minha dor.
e eu recolhia o orgulho dos enforcados e dizia: não, esta é a nossa dor!
...

a dor ilumina e torna-se-me mais querida que os meus pesadelos
...

não fugirei para norte
Senhor
não me contes entre os que procuram refúgio

– fecharemos estas contas mais tarde –

agora tenho de ir dormir:
não quero chegar atrasado ao autocarro dos pesadelos
o que vai para Sabra e Chatila...

Najwân Darwîsh
Tradução (preliminar) do árabe: André Simões

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O arauto


وأبْـخَـرَ قَصَّ حَديثاً له     فَقالَ الحضورُ:  فَسا ذا الحَدَث
فَقُلْتُ لَهُم: بادِروا بِالقيامِ     فَإنَّ الفُساءَ نَذيرُ الحَدَث

Um tipo com mau hálito falou,     e disseram os presentes: – E não é que ele bufou!
E disse-lhes eu: –  Depressa, fugi!     É que bufa é o arauto da merda!


Ibn Ṣâra de Santarém (1043-1123)


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

alvorada

وَبَشَّرَ بِالصُّبْحِ بَرْدُ النَّسيمِ     وسُكْرُ النَديمِ وضُعْفُ السِّراجِ

anunciam a alvorada o fresco da brisa
e a bebedeira de um amigo e o morrer da lâmpada

Ibn âra de Santarém (1043-1123)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Colar da Pomba de Damasco (Mahmud Darwish)


alif . ا
em Damasco
_____ as pombas voam
__________ sobre uma cerca de seda
_______________ duas
____________________ a duas

bâ' . ب
em Damasco
_____ vejo toda a minha língua
______escrita num grão de trigo
______com agulha de mulher
______e corrigiu-a a perdiz da Mesopotâmia.

tâ' . ت
em Damasco
_____ estão bordados os nomes dos cavalos dos árabes
_____ desde os Dias da Ignorância1
______até ao Fim dos Tempos
______ou depois
______com fios de ouro

ṯâ' . ث
em Damasco
_____ o céu anda
_____ pelas ruas velhas
_____ descalço, descalço
_____ acaso precisam os poetas
_____ de inspiração
_____ ou de metro
_____ ou de rima?

jîm . ج
em Damasco
_____ dorme o estrangeiro
_____ de pé em cima da sombra
_____ como minarete no leito da eternidade
_____ sem saudade de país nenhum
_____ ou de ninguém

ḥâ' . ح
em Damasco
_____ prosegue o verbo no imperfeito
_____ as suas ocupações omíadas2:
_____ caminhamos para o nosso amanhã confiantes
_____ no Sol do nosso ontem.
_____ nós e a eternidade,
_____ habitantes deste lugar!

ḫâ' . خ
em Damasco
_____ rodam as conversas
_____ entre o violino e o alaúde
_____ à volta das questões das existências
_____ e dos fins:
_____ àquela que matou um amante renegado,
_____ para ela o Limite da Árvore de Lótus3!

dâl . د
_____ em Damasco
_____ Iussuf rasga
_____ com o nei4
_____ as suas costelas
_____ por nada
_____ senão que
_____ não achou com ele o seu coração

ḏâl . ذ
em Damasco
_____ voltam as palavras à sua origem,
_____ a água:
_____ não é poesia a poesia
_____ e não é prosa a prosa
_____ e tu dizes: não te deixarei
_____ mas toma-me para ti
_____ e toma-me contigo!

râ' . ر
em Damasco
_____ dorme uma gazela
_____ ao lado de uma mulher
_____ em cama de orvalho
_____ e então tira-lhe a roupa
_____ e cobre-se com o Barrada5!

zay . ز
em Damasco
_____ um pardal pica
_____ o trigo que deixei
_____ sobre a minha mão
_____ e deixa-me um grão
_____ para me mostrar amanhã
_____ a minha manhã!

sîn . س
_____ em Damasco
_____ um jasmim namorisca comigo.
_____ não me deixes
_____ e anda nas minhas pegadas
_____ e então o jardim tem cíumes de mim.
_____ não te aproximes
_____ do sangue da noite na minha Lua.

šîn . ش
em Damasco
_____ passo a noite com o meu sonho leve
_____ sobre uma flor de amendoeira que graceja:
_____ sê realista
_____ para que eu floresça segunda vez
_____ à roda da água do nome dela
_____ e sê realista
_____ para que eu atravesse o sonho dela!

ṣâd . ص
em Damasco
_____ apresento a minha alma
_____ a si mesma:
_____ aqui mesmo, sob dois olhos amendoados
_____ voamos juntos gémeos
_____ e adiamos o nosso passado comum

ḍâd . ض
em Damasco
_____ suavizam-se as palavras
_____ e então ouço a voz do sangue
_____ em veias de mármore:
_____ arranca-me ao meu filho,
_____ diz-me a cativa,
_____ ou tornar-te-ás comigo em pedra!


ṭâʾ . ط
em Damasco
_____ conto as minhas costelas
_____ e faço voltar o meu coração ao seu trote
_____ talvez a que me fez entrar
_____ na sua sombra
_____ me tenha matado
_____ e não me dei conta

ẓāʾ . ظ
em Damasco
_____ a estrangeira devolve a sua liteira
_____ à caravana:
_____ não regressarei à minha tenda
_____ não pendurarei a minha guitarra
_____ depois desta tarde
_____ na figueira da família

ʿayn . ع
em Damasco
_____ os poemas são translúcidos
_____ não são palpáveis
_____ e não são mentais
_____ mas o que diz o eco
_____ ao eco

ġayn . غ
em Damasco
_____ a nuvem seca em uma época
_____ e cava um poço
_____ para o Verão dos amantes na várzea do Qâsyûn6
_____ e o nei cumpre os seus usos
_____ na saudade que nele há
_____ e chora em vão

fâ' . ف
em Damasco
_____ registo no caderno de uma mulher:
_____ todos os
_____ narcisos que há em ti
_____ te desejam
_____ e não há muro à tua volta que te proteja
_____ da noite do teu encanto excessivo

qâf . ق
em Damasco
_____ vejo como se encolha a noite de Damasco
_____ devagarinho devagarinho
_____ e como com as nossas uma deusa se torna
_____ una!

kâf . ك
em Damasco
_____ canta o viajante em segredo:
_____ não voltarei de Damasco
_____ vivo
_____ nem morto
_____ mas nuvem
_____ que alivia o peso de borboleta
_____ da minha alma fugitiva.

Mahmûd Darwish
Tradução: André Simões

NOTAS
Cada estrofe tem por título as letras do alfabeto árabe, até ao kaf.

1A jahiliyya, o período pré-islâmico.
2Alusão ao Califado Omíada de Damasco (661-750).
3Trata-se da Árvore de Lótus que marca o fim do Sétimo Céu, ou seja: a última fronteira, aquela que ninguém pode passar (Alcorão 53:14).
4O nay é um género de flauta oriental.
5Trata-se de um rio que atravessa Damasco.
6Trata-se de um rio que atravessa Damasco.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Nem menos, nem mais


Sou uma mulher. Nem menos, nem mais.
Vivo a minha vida como ela é
fio a fio
e fio a minha lã para vesti-la, não
para acabar a história de Homero ou o seu Sol
e vejo o que vejo
tal como é, na sua aparência.
e no entanto fixo o olhar uma
e outra vez na sua sombra
para sentir o pulso da perda,
e escrevo um amanhã
sobre as folhas de um ontem: não há voz
apenas o eco.
Gosto da ambiguidade necessária nas
palavras daquele que viaja de noite em direcção ao que já se foi
da ave sobre as colinas das palavras
sobre as açoteias das aldeias.
Sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Faz-me voar a flor de amendoeira,
no mês de Março, da minha varanda,
saudosa de um dizer distante:
– Toca-me, para que eu leve os meus cavalos à água das nascentes.
Choro sem razão aparente, e amo-te
a ti como és, sem obrigação
sem ser em vão.
e dos meus ombros levanta-se o dia sobre ti
e quando te abraça desce uma noite sobre ti
e eu não sou isto nem aquilo
não, não sou Sol nem Lua
sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Sê tu o Qays da nostalgia
se assim queres. É que eu
eu gosto de ser amada como sou
não uma imagem
colorida no jornal, ou uma ideia
entoada no poema entre os cervos...
ouço o grito de Laila longínquo
a partir do quarto de dormir: – Não me deixes
prisioneira de uma rima nas minhas noites das tribus
não me deixes com eles como uma história...
sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Eu sou quem sou, como
tu és quem és: moras em mim
e eu moro em ti sobre ti para ti
amo a claridade necessária no nosso mistério partilhado
sou tua quando transbordo da noite
mas não sou uma terra
não sou uma viagem
sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Cansa-me
o ciclo da Lua mulher
adoece a minha guitarra
corda
a corda
sou uma mulher,
nada menos
nada mais!

Mahmûd Darwîsh, O leito de uma estranha (1999)
Tradução do árabe: André Simões

sexta-feira, 16 de março de 2012

Para não dizerem que não alimento os miúdos com cultura clássica


سَيَمْتَدُّ هَذا الْحِصارُ إلى أَن يُنَقِّحَ
سادةُ "أُولِمْب" إلياذةَ الخالِدة

(de "Estado de Sítio", 2002)
Mahmûd Darwîsh


durará este cerco até deixarem
os senhores do Olympo de polir a Ilíada imortal
Tradução: André Simões

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Yes, but he did it only three times

"So Nur al-Din, who was drunk, went to her, took her legs, and pressed them to his sides, while she locked her arms around his neck and began to give him adept and passionate kisses, and he at once undid her trousers and took her virginity. When the little maids saw what happened, they cried out and screamed, while Nur al-Din, fearing the consequences of his action, got up and fled.
When the vizier's wife heard the cries, she came out of the bath in a hurry to see what was causing the commotion in the house. She came up to the two maids and said, «Woe to you, what is the matter?» They replied, «Our lord Nur al-Din came and beat us, and since we were unable to stop him, we fled, while he entered Anis al-Jalis's chamber and embraced her for a while, but we don't know what he did afterward, except that he came out running.» The vizier's wife went into Anis al-Jalis's chamber and asked her, «O my daughter, what happened to you?» Anis al-Jalis replied, «O my lady, as I was sitting here, a handsome young man suddenly came in and asked me, 'Aren't you the one whom my father bought for me?' and I replied 'Yes', for, by God, my lady, I thought that he was telling the truth. Then he came up and embraced me.» The vizier's wife asked, «Did he do you know what to you?» Anis al-Jalis replied, «Yes, but he did it only three times.» The vizier's wife said, «I hope that you will not have to pay for this!» and she and the maids began to cry and beat their faces, for they feared that Nur al-Din's father would kill him."
As Mil e Uma Noites: História da escrava Anis al-Jalis e de Nur al-Din Ali ibn Khaqan
Trad. Husain Haddawy

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

The creation of life for Zayd on Saturday morning

So let us return to what is contrary to fact. We say that when God (exalted be He!) foreknows that Zayd will be killed Saturday morning, for example, then we [ask], "Would the creation of life for Zayd on Saturday morning be possible or not possible?" The truth is that it is possible and impossible, that is, it is possible by considering it itself if nothing else is taken into account. [The creation of life for Zayd on Saturday morning] is impossible, however, owing to another, not in itself, namely if in addition to [Zayd considered in himself] one takes into account [his being killed] itself and the knowledge itself, since [God's knowledge] would have been turnet into ignorance [if the creation of life for Zayd were to occur on Saturday morning], but it is impossible that [God's knowledge] is turned into ignorance. So it has to become evident that it is possible in itself, but impossible owing to a necessary impossibility in relation do another.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

al-Ilyâda


durará este cerco até deixarem
os senhores do Olimpo de polir a Ilíada imortal

(de "Estado de Sítio", 2002)

Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões





سَيَمْتَدُّ هَذا الْحِصارُ إلى أَن يُنَقِّحَ

سادةُ "أُولِمْب" إلياذةَ الخالِدة

sayamtadu hâḏâ l-ḥiṣâru 'ilâ 'an yunaqqiḥ
sâdatu 'Ûlimb 'Ilyâḏata l-ḫâlida

sexta-feira, 11 de junho de 2010

"Aula do Kama Sutra" - Darwish dito por ele mesmo




Com um copo com embutidos de lazúli
espera por ela

Sobre o lago em volta da tarde e o perfume de flores
espera por ela

Com a paciência do cavalo pronto para descer a montanha
espera por ela

Com o bom gosto do príncipe magnífico
espera por ela

Com sete almofadas cheias de nuvens leves
espera por ela

Com o fogo do incenso mulher enchendo o lugar
espera por ela

Com o cheiro do sândalo homem em redor do dorso dos cavalos
espera por ela

E não tenhas pressa, e se ela chegar depois da hora
então espera por ela

E se ela chegar antes da hora
então espera por ela

E não assustes os pássaros que estão nas suas tranças
e espera por ela

Para que ela se sente descansada como um jardim no cimo da sua beleza
e espera por ela

Para que respire este ar estranho no seu coração
e espera por ela

Para que levante o vestido das suas coxas, nuvem por nuvem
e espera por ela

E trá-la à varanda para ver uma lua afogada em leite
espera por ela

E oferece-lhe água antes do vinho, e não
olhes para as perdizes gémeas a dormir sobre o seu peito
e espera por ela

E toca-lhe a mão devagarinho quando
pousa o copo sobre o mármore
como se lhe levasses orvalho
e espera por ela

Fala com ela como uma flauta
com a corda assustada de um violino
como se fôsseis os dois testemunhas do que o amanhã vos prepara
e espera por ela

Ilumina-lhe a noite anel por anel
e espera por ela
até que a noite te diga:
não ficaram senão vós dois no mundo

Portanto leva-a com cuidado para a tua morte desejada
e espera por ela


Mahmûd Darwîsh
Tradução do árabe: André Simões

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Colar da Pomba de Damasco



alif . ا

em Damasco

_____ as pombas voam

__________ sobre uma cerca de seda

_______________ duas

____________________ a duas


bâ' . ب

em Damasco

_____ vejo toda a minha língua

______escrita num grão de trigo

______com agulha de mulher

______e corrigiu-a a perdiz da Mesopotâmia.


tâ' . ت

em Damasco

_____ estão bordados os nomes dos cavalos dos árabes

_____ desde os Dias da Ignorância1

______até ao Fim dos Tempos

______ou depois

______com fios de ouro


ṯâ' . ث

em Damasco

_____ o céu anda

_____ pelas ruas velhas

_____ descalço, descalço

_____ acaso precisam os poetas

_____ de inspiração

_____ ou de metro

_____ ou de rima?


jîm . ج

em Damasco

_____ dorme o estrangeiro

_____ de pé em cima da sombra

_____ como minarete no leito da eternidade

_____ sem saudade de país nenhum

_____ ou de ninguém


ḥâ' . ح

em Damasco

_____ prosegue o verbo no imperfeito

_____ as suas ocupações omíadas2:

_____ caminhamos para o nosso amanhã confiantes

_____ no Sol do nosso ontem.

_____ nós e a eternidade,

_____ habitantes deste lugar!


ḫâ' . خ

em Damasco

_____ rodam as conversas

_____ entre o violino e o alaúde

_____ à volta das questões das existências

_____ e dos fins:

_____ àquela que matou um amante renegado,

_____ para ela o Limite da Árvore de Lótus3!


dâl . د

_____ em Damasco

_____ Iussuf rasga

_____ com o nei4

_____ as suas costelas

_____ por nada

_____ senão que

_____ não achou com ele o seu coração


ḏâl . ذ

em Damasco

_____ voltam as palavras à sua origem,

_____ a água:

_____ não é poesia a poesia

_____ e não é prosa a prosa

_____ e tu dizes: não te deixarei

_____ mas toma-me para ti

_____ e toma-me contigo!


râ' . ر

em Damasco

_____ dorme uma gazela

_____ ao lado de uma mulher

_____ em cama de orvalho

_____ e então tira-lhe a roupa

_____ e cobre-se com o Barrada5!


zay . ز

em Damasco

_____ um pardal pica

_____ o trigo que deixei

_____ sobre a minha mão

_____ e deixa-me um grão

_____ para me mostrar amanhã

_____ a minha manhã!


sîn . س

_____ em Damasco

_____ um jasmim namorisca comigo.

_____ não me deixes

_____ e anda nas minhas pegadas

_____ e então o jardim tem cíumes de mim.

_____ não te aproximes

_____ do sangue da noite na minha Lua.


šîn . ش

em Damasco

_____ passo a noite com o meu sonho leve

_____ sobre uma flor de amendoeira que graceja:

_____ sê realista

_____ para que eu floresça segunda vez

_____ à roda da água do nome dela

_____ e sê realista

_____ para que eu atravesse o sonho dela!


ṣâd . ص

em Damasco

_____ apresento a minha alma

_____ a si mesma:

_____ aqui mesmo, sob dois olhos amendoados

_____ voamos juntos gémeos

_____ e adiamos o nosso passado comum


ḍâd . ض

em Damasco

_____ suavizam-se as palavras

_____ e então ouço a voz do sangue

_____ em veias de mármore:

_____ arranca-me ao meu filho,

_____ diz-me a cativa,

_____ ou tornar-te-ás comigo em pedra!



ṭâʾ . ط

em Damasco

_____ conto as minhas costelas

_____ e faço voltar o meu coração ao seu trote

_____ talvez a que me fez entrar

_____ na sua sombra

_____ me tenha matado

_____ e não me dei conta


ẓāʾ . ظ

em Damasco

_____ a estrangeira devolve a sua liteira

_____ à caravana:

_____ não regressarei à minha tenda

_____ não pendurarei a minha guitarra

_____ depois desta tarde

_____ na figueira da família


ʿayn . ع

em Damasco

_____ os poemas são translúcidos

_____ não são palpáveis

_____ e não são mentais

_____ mas o que diz o eco

_____ ao eco


ġayn . غ

em Damasco

_____ a nuvem seca em uma época

_____ e cava um poço

_____ para o Verão dos amantes na várzea do Qâsyûn6

_____ e o nei cumpre os seus usos

_____ na saudade que nele há

_____ e chora em vão


fâ' . ف

em Damasco

_____ registo no caderno de uma mulher:

_____ todos os

_____ narcisos que há em ti

_____ te desejam

_____ e não há muro à tua volta que te proteja

_____ da noite do teu encanto excessivo


qâf . ق

em Damasco

_____ vejo como se encolha a noite de Damasco

_____ devagarinho devagarinho

_____ e como com as nossas uma deusa se torna

_____ una!


kâf . ك

em Damasco

_____ canta o viajante em segredo:

_____ não voltarei de Damasco

_____ vivo

_____ nem morto

_____ mas nuvem

_____ que alivia o peso de borboleta

_____ da minha alma fugitiva.


Mahmûd Darwish
Tradução: André Simões
Versão preliminar


NOTAS

Cada estrofe tem por título as letras do alfabeto árabe, até ao kaf.


1A jahiliyya, o período pré-islâmico.

2Alusão ao Califado Omíada de Damasco (661-750).

3Trata-se da Árvore de Lótus que marca o fim do Sétimo Céu, ou seja: a última fronteira, aquela que ninguém pode passar (Alcorão 53:14).

4O nay é um género de flauta oriental.

5Trata-se de um rio que atravessa Damasco.

6Trata-se de um rio que atravessa Damasco.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

janela


não sobrou nada:
só a ferida da memória.
e o ponto de encontro
e o cheiro das folhas em livros usados.

da janela:
uma canção entoa um amor antigo.

Como se fosse escrever o livro dos mortos -
torna-se a noite no seu costume.

Como se para brincar com uma tristeza que o acompanha -
dança sozinho na noite.

Hassan Najmi
(Marrocos - n. 1959)

Tradução: André Simões
Revisão: Nádia Bentahar
النافذة

لم يبق شيء:
جرح الذكرى فقط.
ومكان اللقاء.
ورائحة الورق في كتب مستعملة.

من النافذة:
صوت أغنية حب قديم.

كأنما سيكتب كتاب الموتى -
صار الليل عادته.

كأنما ليداعب حزنا يرافقه -
يرقص وحيدا، في الليل

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Pêssegos


Ó tu que dás pêssegos à tua amada,
_____ bem-vinda a que traz alegria às almas.
Imita a mama da donzela a sua redondeza,
_____ mas envergonha as cabeças das pilas.

Muhja al-Qurṭubiyya
Tradução: André Simões


يا متحفا بالجوخ أحبابه_____ أهلا به من مثلج للصـدور
حكى ثدي الغيد تفليكـــه_____ لكنه أخزى رؤوس الأيـور

---
De Muhja quase nada se sabe. Foi contemporânea de Wallâda, em Córdova. Era de origem humilde, filha de um vendedor de figos. Foi protegida de Wallâda, que lhe proporcionou educação literária. Há quem diga que foi mais do que protegida, e que não foi só literária a educação que recebeu da princesa. Ficou conhecida pela sua língua afiada.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Bebedeira


Não esquecerei certa noite passada
_____deitado a beber de dois odres.
E dormi bêbedo entre um e outro,
_____
menino que finge que dorme entre dois peitos.

Abû Tammâm de Calatrava
Tradução: André Simões

لم أَنْسَ ليلاً قِطْعةٌ وأنــــــا __ مُتَّكئٌ لاِصْطِحابِ زَقَّــيْنِ
وَنَمْتُ سَكْرانَ بَينَ ذاكَ وذا
_ تَناوُمَ الطِّفْلِ بَينَ ثَدْيَـيْنِ

---

Trata-se de uma khamriyya, um poema sobre vinho (khamr), tema muito popular na poesia árabe clássica.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Encontro




Quando anoitecer espera pela minha visita
pois a noite é quem mais guarda segredo.
O que sinto por ti é tal que se fosse o Sol, não nascia,
e a lua cheia não se erguia e as estrelas deixavam de girar.

Tradução: Nádia Bentahar e André Simões


ترقّب إذا جنّ الظلم زيارتـــــــــــــي ______ فإنّي رأيت الليل أكتم للســـــــرّ
وَب منك ما لو كانَ بالشمسِ ل تلح ______ وبالبدر ل يطلع وَبالنجم ل يسرِ

---
Wallâda bint al-Mustakfî (994-1091) foi filha Muḥammad III al-Mustafkī, que foi Califa de Córdova entre 1024 e 1025. Mesmo depois do assassinato do pai, manteve uma posição de relevo em Córdova, liderando o mais importante salão literário da cidade. Ficou imortalizada pela poesia que lhe dedicou Ibn Zaydûn, um dos grandes poetas do al-Ândalus, e com quem manteve uma ardente e quase escandalosa relação amorosa, até se separarem por motivos obscuros. Da obra de Wallâda só sobram alguns fragmentos, quase todos satíricos.

domingo, 28 de março de 2010

Bebedeira no convento

A poesia estrófica constitui o principal contributo do al-Ândalus na História da literatura árabe. Aqui nascem e desenvolvem-se duas formas: a moaxa (موشح : muwaššaḥ) e o zejel (زجل). Ao contrário da qaṣīda, baseada na prosódia quantitativa e de estrutura monorrimática e monoestrófica, a poesia estrófica estrutura-se, como o nome indica, em estrofes polirrimáticas e baseadas no acento intensivo.

O principal destes géneros estróficos é a moaxa, que acabará por ser exportada e apreciada em todo o mundo árabe, e que de resto continua hoje a ser cultivada, ainda que em moldes diferentes.

A moaxa é composta por 5 ou 6 estrofes, cada uma constituída por uma secção com rima independente, o ġuṣn (غـُصْن ، أغـْصان ou بيت ، أبيات), e outra, o qufl (قـُفْل ، أقـُفال), com rimas e estrutura iguais à kharja (خرجة), o qufl que encerra o poema. A rima do ġuṣn por vezes é interna, ente cada hemistíquio. Uma estrofe adicional, a maṭlaʿ (مَطـْلَع), encabeça a composição, reproduzindo a métrica da carja. Na sua ausência, a moaxa é chamada "careca". A kharja (do verbo kharaja, "sair"), que encerra o poema, pode ser em árabe clássico, árabe dialectal ou romance moçárabe.

Para os estudos românicos é especialmente relevante a kharja em língua moçárabe - o romance falado pelos cristãos (mas não só) do al-Ândalus. Mau grado as dificuldades inerentes aos alfabeto árabe e hebraico, que é como nos chegaram escritas, devido à ausência de escrita de vogais breves, são de uma importância fundamental para o estudo desse romance, na medida em que são os únicos textos que dele nos chegaram (descontando as palavras soltas em obras gramaticais e botânicas).

Em seguida apresento uma tradução provisória de uma moaxa do Cego de Tudela (s. XII), com kharja moçárabe, que assinalo em itálico.

Transliteração da kharja, com o texto moçárabe em itálico:

'amânu 'amânu yâ lamalîḥ ġâri
burkî tû kirš bi-l-lâhi matâri

0 (maṭlaʿ)

Uma destas noites fomos a um convento para a vinhaça,

por entre guardas e camaradas.


1

A correr, uma menina nos trouxe vinho.

Recebeu-nos com hospitalidade e respeito,

e jurou pelos Evangelhos:


“Não o vesti senão com pez,

e no fogo não foi posto nenhuma vez!”


2

E eu disse-lhe: tu, ó mais formosa de todas,

acaso tens a bebida no copo?

Ela disse: “Isso não nos incomoda de todo,


Pois assim o bebemos nos escritos

dos monges e dos bispos.”


3

Confesso-vos, ó gente nobilíssima,

estou preso de paixão por Ahmad:

tem uns olhos que matam de indiferença.


Escondi a paixão em segredo no meu íntimo,

mas as minhas lágrimas desvelaram os meus segredos.


4

As lágrimas do amante desvelaram a paixão,

pois a sua face é como a Lua cheia no horizonte;

tem olhos que matam as criaturas.


E quantos ferozes leões foram mortos

e para os caídos do amor não há vingança.


5

Uma miúda foi encantada por ele,

ficou doente com a rejeição e o orgulho,

recitou e cantou-lhe:


“Piedade, piedade, ó formoso!, diz:

por Deus, porque [me] queres tu matar?


-

(Tradução minha a partir do original árabe e moçárabe.)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Tições ardentes

ʿA'ixa al-Iskandarâniya (s. XII) mantinha um salão literário conhecido como ar-rawḍ (o jardim). Um dia um dos poetas enviou-lhe um poema, onde dizia que o seu coração eram ardia por ela. ʿA'ixa, que não era mulher de se ficar, respondeu-lhe assim:

Se no teu coração há tições ardentes então não espalhes os seus segredos

pois receio o seu fogo no jardim ou nas suas flores


ʿA'ixa al-Iskandarâniya
Tradução: André Simões
tradução provisória


إذا كانَ قَـلْبُكَ ذا جاحِم فلا تَبْعَشَنَّ بِأسرارِهِ

فإني لأشْفِقُ من نارِهِ على الرَوضِ أو بَعْضَ أزْهارِهِ

segunda-feira, 15 de março de 2010

Those were the days



«Sometimes indeed the battle did not take place, as the hostile [Arabic] tribes agreed instead to have their dispute settled by a poetry contest.»


Robert Irwin, The Penguin Anthology of Classical Arabic Literature, Penguin, 1999, p. 18

sábado, 13 de março de 2010

Wallâda de Córdova, ou de como já não se fazem princesas como dantes


Wallāda bint al-Mustakfī (994-1091) foi filha de Muḥammad III al-Mustakfī, um dos últimos califas de Córdova (1024-1025). Contam os seus contemporâneos que era de uma beleza extraordinária, de longos cabelos dourados e pele suave. Mesmo depois do assassinato do pai, em 1025, manteve-se à tona na sociedade de Córdova, liderando o mais importante salão literário da cidade. Passou, no entanto, à História pela sua moral pouco condizente com os preconceitos sobre a mulher muçulmana, e pelos poemas de carácter explicitamente amoroso ou satírico.

Não tendo nunca casado, manteve várias relações amorosas, das quais a mais conhecida e frutuosa do ponto de vista literário foi com o poeta Ibn Zaidūn. Desta relação nasceram alguns dos mais belos textos da literatura árabe - e também alguns dos mais malcriados. Na verdade a relação terminou de forma tempestuosa, por razões pouco conhecidas. Segundo algumas versões, Ibn Zaidūn teria traído a princesa com uma escrava negra. Outras fontes insinuam que não foi uma escrava, mas um escravo. Certo é que Wallāda rifou Ibn Zaidūn, e trocou-o pelo seu arqui-inimigo político, o vizir Ibn ʿAbdūs. Também desta ruptura haveria de nascer uma soberba e famosa obra literária, a "carta cómica" de Ibn Zaidūn, onde regurgita uma crítica ferocíssima ao rival.

Mas concedamos a palavra à princesa Wallāda, que pouco depois de mandar Ibn Zaidūn dar uma volta lhe dedicou este simpático poema:


É verdade que Ibn Zaidûn tem um cu
que adora as vergas nas ceroulas.
Se ele tivesse visto um caralho sobre uma palmeira,
ter-se-ia transformado no pássaro ababil.

Traduzo directamente do original árabe, com revisão de Nadia Bentahar. Optei por transformar os hemistíquios em versos independentes, por razões estéticas. A referência ao "pássaro ababil" é ordinaríssima e remete para a Sura do Elefante (105), que relata como o exército dos abissínios foi dizimado por pássaros ababil, que o deixaram como "um campo devorado".