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sexta-feira, 28 de setembro de 2012
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
sábado, 26 de junho de 2010
Tal era Ulisses
Amigos, não sabemos onde é a escuridão, onde é a aurora,
nem onde desce sob a terra o sol que dá luz aos mortais,
nem onde nasce; mas pensemos rapidamente se nos resta
algum expediente.
Homero, Odisseia, Canto X, vv. 190 - 193, Tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia, 2003
nem onde desce sob a terra o sol que dá luz aos mortais,
nem onde nasce; mas pensemos rapidamente se nos resta
algum expediente.
Homero, Odisseia, Canto X, vv. 190 - 193, Tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia, 2003
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Agamémnon
Depois de a sacra Perséfone ter dispersado em várias
direcções as almas femininas das mulheres,
aproximou-se a alma triste de Agamémnon, filho de Atreu.
Em seu redor outras se congregavam; e outros havia que em casa
de Egisto com ele foram assassinados e seu destino encontraram.
Reconheceu-me assim que bebeu do negro sangue.
Chorou alto e verteu logo copiosas lágrimas,
estendendo para mim as mãos, desejo de me tocar.
Mas nele já não havia força ou vigor, tal como
tinha anteriormente nos seus membros flexíveis.
Rompi a chorar assim que o vi e comoveu-se-me o coração.
Homero, Odisseia, Canto XI, vv. 385 - 395, Tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia, 2003
direcções as almas femininas das mulheres,
aproximou-se a alma triste de Agamémnon, filho de Atreu.
Em seu redor outras se congregavam; e outros havia que em casa
de Egisto com ele foram assassinados e seu destino encontraram.
Reconheceu-me assim que bebeu do negro sangue.
Chorou alto e verteu logo copiosas lágrimas,
estendendo para mim as mãos, desejo de me tocar.
Mas nele já não havia força ou vigor, tal como
tinha anteriormente nos seus membros flexíveis.
Rompi a chorar assim que o vi e comoveu-se-me o coração.
Homero, Odisseia, Canto XI, vv. 385 - 395, Tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia, 2003
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Uma alegoria dos dias
«Vi Sísifo a sofrer grandes tormentos,
tentando levantar com as mãos uma pedra monstruosa.
Esforçando-se para a empurrar com as mãos e os pés,
conseguiu levá-la até ao cume do monte; mas quando ia
a chegar ao ponto mais alto, o peso fazia-a regredir,
e rolava para a superfície a pedra sem vergonha.
Ele esforçava-se de novo para a empurrar: dos seus membros
escorria o suor; e poeira da sua cabeça se elevava.»
Homero, Odisseia (11. 593 – 600),Tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia, 2003 .
tentando levantar com as mãos uma pedra monstruosa.
Esforçando-se para a empurrar com as mãos e os pés,
conseguiu levá-la até ao cume do monte; mas quando ia
a chegar ao ponto mais alto, o peso fazia-a regredir,
e rolava para a superfície a pedra sem vergonha.
Ele esforçava-se de novo para a empurrar: dos seus membros
escorria o suor; e poeira da sua cabeça se elevava.»
Homero, Odisseia (11. 593 – 600),Tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia, 2003 .
terça-feira, 10 de novembro de 2009
«Ulysses» de Mario Camerini, 1954

Esta adaptação cinematográfica da Odisseia é divertida mas um pouco fraca. Não tenho, contudo, memória de alguma vez ter visto uma adaptação dos poemas homéricos que rivalizasse com os livros. (Não, nem aquela com o truque baixo das pernas-do-Brad-Pitt-que-não-eram-dele. )
Um bom argumento baseado em determinada obra, nas mãos de um realizador hábil a dirigir grandes actores, tem sempre grandes hipóteses de suplantar o livro que lhe serve de base, diria até que tem obrigação de fazê-lo.
Não o fazer significa que há uma parte de encanto que certos livros conseguem guardar mesmo quando trazidos à vida, o encanto próprio da literatura que é uma coisa que eu ainda não consegui muito bem explicar.
À parte ser um pouco fraca, esta adaptação da Odisseia divertiu-me, afinal de contas, é o Kirk Douglas a fazer de Ulisses e o Anthony Quinn a fazer de Antínoo.
Um bom argumento baseado em determinada obra, nas mãos de um realizador hábil a dirigir grandes actores, tem sempre grandes hipóteses de suplantar o livro que lhe serve de base, diria até que tem obrigação de fazê-lo.
Não o fazer significa que há uma parte de encanto que certos livros conseguem guardar mesmo quando trazidos à vida, o encanto próprio da literatura que é uma coisa que eu ainda não consegui muito bem explicar.
À parte ser um pouco fraca, esta adaptação da Odisseia divertiu-me, afinal de contas, é o Kirk Douglas a fazer de Ulisses e o Anthony Quinn a fazer de Antínoo.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Algumas questões gerais sobre tradução (e um artigo sobre Proust pelo meio)
"The Shape of Time" é um artigo de 2004, da autoria de Peter Brooks sobre Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, publicado no New York Times. O artigo versa em parte sobre a problemática da tradução de Proust para inglês, e o autor fala-nos de diferentes traduções e da qualidade de cada uma, revisitando a história da tradução desta obra para língua inglesa. Impressionou-me a ideia de Cambridge ter feito uma tradução da obra em que cada volume é traduzido por um autor diferente. Acho que isso não resulta, embora traga diversidade de soluções e pluralidade de vozes. Se fossem livros diferentes de um mesmo autor, talvez não me chocasse tanto, mas é apenas um romance, em sete volumes. Foi escrito por uma só pessoa, creio que deve ser traduzido por uma só pessoa. É uma questão de garantir, tanto quanto possível, coerência de estilo e unidade. Em Portugal, Pedro Tamen traduziu, para a Relógio d'Água, todos os sete volumes e fez, sem dúvida, um bom trabalho. Por ex., percebemos na sua tradução o longo fôlego que Proust dava aos seus períodos, é característico de Proust, e Tamen conservou esta característica. Nestes pormenores, é possível avaliar a qualidade do tradutor.
Há outros casos de tradução para português que acho igualmente notáveis, como, por exemplo, o trabalho que Frederico Lourenço realizou na sua tradução de Homero (Livros Cotovia), ele traduziu quer a Odisseia quer a Ilíada e considero isso positivo, dota de uma certa consonância as obras, apesar de não sabermos se Homero existiu e se foi apenas um, e, em qualquer dos casos, ele é um tradutor extraordinário. A qualidade da sua tradução advém-lhe, segundo me parece, de um domínio irrepreensível quer da língua de partida quer de chegada, e de não de estar demasiado preocupado em render ao leitor para quem traduz os detalhes da sintaxe grega (se ali temos um genitivo absoluto, ou um caso de uso de particípio suplementar, etc., etc.) mas sim (e sobretudo) a beleza e o sentido do texto grego, buscando os seus equivalentes em português mas mantendo-se fiel à língua de partida.
Outra tradução de um clássico que assinalo como excelente é o trabalho que Paulo Farmhouse Alberto fez, também para a Livros Cotovia, das Metamorfoses de Ovídio. O tradutor fez uma tradução bastante fiel ao latim mas nunca se descurou em relação à língua de chegada. O resultado, para mim, está ao nível do trabalho de Frederico Lourenço na Ilíada e na Odisseia.
Nos antípodas, e não por falta de qualidade dos tradutores, está a tradução da Eneida da Bertrand. É a única tradução portuguesa desta obra que é cientificamente correcta (e que eu conheço, à parte da de Agostinho da Silva), porque é actual e feita a partir da língua original, contudo, num texto que já de si é por natureza intraduzível (como render a beleza de trechos como Ibant obscuri sola sub nocte per umbram?), a juntar a isto, a tradução não ficou confiada a apenas um tradutor e não é em verso. O que estilhaça a beleza de um texto que já de si é muito problemático de traduzir. Ideal seria que a Livros Cotovia contratasse Pierre Ménard para que ele traduzisse para português a obra maior de Vergílio.
Deixo-vos um excerto, link incluído, do artigo sobre Proust:
Há outros casos de tradução para português que acho igualmente notáveis, como, por exemplo, o trabalho que Frederico Lourenço realizou na sua tradução de Homero (Livros Cotovia), ele traduziu quer a Odisseia quer a Ilíada e considero isso positivo, dota de uma certa consonância as obras, apesar de não sabermos se Homero existiu e se foi apenas um, e, em qualquer dos casos, ele é um tradutor extraordinário. A qualidade da sua tradução advém-lhe, segundo me parece, de um domínio irrepreensível quer da língua de partida quer de chegada, e de não de estar demasiado preocupado em render ao leitor para quem traduz os detalhes da sintaxe grega (se ali temos um genitivo absoluto, ou um caso de uso de particípio suplementar, etc., etc.) mas sim (e sobretudo) a beleza e o sentido do texto grego, buscando os seus equivalentes em português mas mantendo-se fiel à língua de partida.
Outra tradução de um clássico que assinalo como excelente é o trabalho que Paulo Farmhouse Alberto fez, também para a Livros Cotovia, das Metamorfoses de Ovídio. O tradutor fez uma tradução bastante fiel ao latim mas nunca se descurou em relação à língua de chegada. O resultado, para mim, está ao nível do trabalho de Frederico Lourenço na Ilíada e na Odisseia.
Nos antípodas, e não por falta de qualidade dos tradutores, está a tradução da Eneida da Bertrand. É a única tradução portuguesa desta obra que é cientificamente correcta (e que eu conheço, à parte da de Agostinho da Silva), porque é actual e feita a partir da língua original, contudo, num texto que já de si é por natureza intraduzível (como render a beleza de trechos como Ibant obscuri sola sub nocte per umbram?), a juntar a isto, a tradução não ficou confiada a apenas um tradutor e não é em verso. O que estilhaça a beleza de um texto que já de si é muito problemático de traduzir. Ideal seria que a Livros Cotovia contratasse Pierre Ménard para que ele traduzisse para português a obra maior de Vergílio.
Deixo-vos um excerto, link incluído, do artigo sobre Proust:
terça-feira, 11 de agosto de 2009
A representação de três poetas na Antiguidade, ou como ir da Épica ao Romance
Na Odisseia encontramos representados dois aedos, Demódoco, o aedo cego que vivia na corte dos Feaces, e que alguns estudiosos defendem ser uma projecção de Homero, e Fémio, filho de Térpio, que cantara à força para os pretendentes e que acaba por ser poupado por Ulisses aquando da chacina dos restantes pretendentes de Penélope.
Quando Alcínoo pela primeira vez se refere ao aedo Demódoco, fá-lo nos seguintes termos:
(…) E chamai ainda o divino aedo,
Demódoco, pois a ele concedeu o deus o apanágio de nos
deleitar, quando aquilo canta que lhe inspira o coração.*
Demódoco, sendo cego, é conduzido pelo arauto e sentado num trono adornado de prata no meio dos convivas, junto dele é colocado um cesto e uma mesa e é-lhe servida uma taça de vinho, a lira é pendurada num prego, perto da sua cabeça.
O aedo ocupava um lugar próprio na corte dos Feaces, tem um arauto que o guia para junto dos convivas e que lhe mostra como pode chegar à sua lira. São-lhe servidas comida e bebida antes de executar a sua arte. Diz-se que os deuses lhe haviam concedido ao mesmo tempo o bem e o mal: privaram-no da vista, mas, em compensação, outorgaram-lhe o dom do canto. É possível inferir que todos na corte dos Feaces entendem que Démodoco possui um dom divino que, de certa forma, o torna um homem sagrado entre os restantes, um ser inspirado pelos deuses. O canto, diz-se, tal como o banquete, sacia o coração .
É nos mesmos moldes que Fémio suplica a Ulisses que o poupe. Diz-lhe:
Peço-te de joelhos, ó Ulisses, que me respeites e te apiedes de mim.
Para ti próprio virá a desventura, se matares o aedo:
eu mesmo, que canto para os deuses e para os homens.
Sou autodidacta e um deus me pôs no espírito cantos
de todos os géneros: sou a pessoa certa para cantar ao teu lado,
como se fosse um deus. Por isso não desejes degolar-me.
Dignas de nota são as palavras do v. 345, acima citado. Fémio prevê para Ulisses a desventura, caso o mate, pois ele canta para os deuses e para os homens e um deus [lhe] pôs no espírito cantos. Mais uma vez, o poeta surge como ser inspirado, é funesto (podemos inferi-lo) matá-lo pois possui um dom divino.
Por outro lado, nas palavras de Fémio (nos vv. 348 – 349) está implícita uma outra qualidade que era tida pelos aedos: o dom de, pela fama que o canto espalha, imortalizar os feitos de um homem, daí ser lícito Fémio comparar-se a um deus, visto que a imortalidade e a concessão da imortalidade eram um atributo e dádiva considerados divinos. O canto tinha o poder de eternizar um feito, daí os aedos serem tão respeitados. Praticar um gesto que merecesse ser imortalizado pelo canto era a ambição de qualquer herói homérico, porque lhes concedia o lugar de imortalidade possível: a memória dos homens.
Esta noção de que existem feitos que merecem ser imortalizados pelo canto e de que todo o herói deve ambicionar praticá-los é muito própria do mundo homérico. A estes heróis homéricos, Petrónio contrapõe, talvez até conscientemente, Encólpio, o seu anti-herói.
Também no Satyricon encontramos um poeta, Eumolpo, mas este surge numa situação bem diferente destes dois aedos. Também o seu comportamento é bastante distante do destes dois seres inspirados pelos deuses. Eumolpo pertence a um mundo em que já não é possível um poeta ser considerado divino. Tal é atestado no momento da sua primeira aparição. No §90, enquanto o poeta recita o poema sobre a tomada de Tróia, a Troiae halosis, alguns transeuntes que passeavam pelo pórtico atiraram pedras a Eumolpo, enquanto este recitava. E ele, que já conhecia o aplauso acolhido pelo seu engenho, cobriu a cabeça e tratou de fugir para fora do templo.
Um cenário bem diferente portanto daqueles em que se movimentavam Demódoco e Fémio, que possuíam um espaço próprio e eram acolhidos e respeitados pelos homens que se movimentavam nos mesmos espaços que eles, para usar as expressões de Lukács, toda e qualquer acção sua era a well-fitting garment for the world. Existia uma relação de adequação entre estas personagens e o mundo em que se movimentavam. O mesmo não se poderá dizer de Eumolpo, que é uma personagem que enquanto poeta não tem um espaço próprio no mundo em que se movimenta, correndo o risco de se tornar uma figura marginal. Repare-se palavras que Encólpio lhe dirige na sequência deste episódio:
– Ouve lá: onde pretendes tu chegar com essa tua mania? Andas comigo há menos de duas horas e já mais vezes falaste à maneira dos poetas que dos humanos! Por isso não admira que as pessoas te persigam à pedrada. Também eu deveria carregar os bolsos de calhaus, para te fazer saltar o sangue da cabeça, sempre que te desse para sair dos eixos.
(…)
– Muito bem; se deres hoje trégua à tua bílis, podemos jantar os dois.
O canto não é o bem que os deuses lhe concederam, é uma mania sua. A linguagem dos poetas não pertence à fala dos humanos e, certamente, tal afirmação da parte de Encólpio não vai no sentido de sublinhar o carácter divino do acto de cantar, uma vez que acrescenta que não o admira que as pessoas o persigam à pedrada e afirma que ele próprio devia fazer o mesmo. Repara-se que, neste ponto do romance, Eumolpo está a cantar um tema homérico, tarefa de que imediatamente abdica mediante a oferta de um jantar.
Ainda para demonstrar que já não estamos num tempo em que a forma de expressão adequada aos actos dos homens seja a épica homérica, da qual o aedo era um símbolo, uma vez que a narrava, é o facto de Eumolpo não atingir notoriedade como poeta mas como contador de histórias, como a atestam a narração do episódio autobiográfico do rapaz de Pérgamo e a história da matrona de Éfeso. Nenhuma das narrativas é acolhida com uma chuva de calhaus e ninguém diz ao poeta que ele esteja a sair dos eixos. Será correcto afirmar que o canto aqui surge evoluindo (ou decaindo, depende da perspectiva) para uma forma narrativa, que podemos considerar como no âmbito da linguagem dos humanos, e portanto tolerável.
Porque as condições do seu mundo não são já as da épica homérica (mundo fechado, de totalidade imanente), o acto de narrar em verso um facto homérico deixa de ser possível a Eumolpo, sob pena de ser apedrejado pelos seus contemporâneos, o que demonstra que este tempo já não é o da sensibilidade da épica. Porém, a narrativa de uma história, acto identificado com a linguagem quotidiana mas também forma própria do romance e da novela, é bem acolhida.
Quando Alcínoo pela primeira vez se refere ao aedo Demódoco, fá-lo nos seguintes termos:
(…) E chamai ainda o divino aedo,
Demódoco, pois a ele concedeu o deus o apanágio de nos
deleitar, quando aquilo canta que lhe inspira o coração.*
Demódoco, sendo cego, é conduzido pelo arauto e sentado num trono adornado de prata no meio dos convivas, junto dele é colocado um cesto e uma mesa e é-lhe servida uma taça de vinho, a lira é pendurada num prego, perto da sua cabeça.
O aedo ocupava um lugar próprio na corte dos Feaces, tem um arauto que o guia para junto dos convivas e que lhe mostra como pode chegar à sua lira. São-lhe servidas comida e bebida antes de executar a sua arte. Diz-se que os deuses lhe haviam concedido ao mesmo tempo o bem e o mal: privaram-no da vista, mas, em compensação, outorgaram-lhe o dom do canto. É possível inferir que todos na corte dos Feaces entendem que Démodoco possui um dom divino que, de certa forma, o torna um homem sagrado entre os restantes, um ser inspirado pelos deuses. O canto, diz-se, tal como o banquete, sacia o coração .
É nos mesmos moldes que Fémio suplica a Ulisses que o poupe. Diz-lhe:
Peço-te de joelhos, ó Ulisses, que me respeites e te apiedes de mim.
Para ti próprio virá a desventura, se matares o aedo:
eu mesmo, que canto para os deuses e para os homens.
Sou autodidacta e um deus me pôs no espírito cantos
de todos os géneros: sou a pessoa certa para cantar ao teu lado,
como se fosse um deus. Por isso não desejes degolar-me.
Dignas de nota são as palavras do v. 345, acima citado. Fémio prevê para Ulisses a desventura, caso o mate, pois ele canta para os deuses e para os homens e um deus [lhe] pôs no espírito cantos. Mais uma vez, o poeta surge como ser inspirado, é funesto (podemos inferi-lo) matá-lo pois possui um dom divino.
Por outro lado, nas palavras de Fémio (nos vv. 348 – 349) está implícita uma outra qualidade que era tida pelos aedos: o dom de, pela fama que o canto espalha, imortalizar os feitos de um homem, daí ser lícito Fémio comparar-se a um deus, visto que a imortalidade e a concessão da imortalidade eram um atributo e dádiva considerados divinos. O canto tinha o poder de eternizar um feito, daí os aedos serem tão respeitados. Praticar um gesto que merecesse ser imortalizado pelo canto era a ambição de qualquer herói homérico, porque lhes concedia o lugar de imortalidade possível: a memória dos homens.
Esta noção de que existem feitos que merecem ser imortalizados pelo canto e de que todo o herói deve ambicionar praticá-los é muito própria do mundo homérico. A estes heróis homéricos, Petrónio contrapõe, talvez até conscientemente, Encólpio, o seu anti-herói.
Também no Satyricon encontramos um poeta, Eumolpo, mas este surge numa situação bem diferente destes dois aedos. Também o seu comportamento é bastante distante do destes dois seres inspirados pelos deuses. Eumolpo pertence a um mundo em que já não é possível um poeta ser considerado divino. Tal é atestado no momento da sua primeira aparição. No §90, enquanto o poeta recita o poema sobre a tomada de Tróia, a Troiae halosis, alguns transeuntes que passeavam pelo pórtico atiraram pedras a Eumolpo, enquanto este recitava. E ele, que já conhecia o aplauso acolhido pelo seu engenho, cobriu a cabeça e tratou de fugir para fora do templo.
Um cenário bem diferente portanto daqueles em que se movimentavam Demódoco e Fémio, que possuíam um espaço próprio e eram acolhidos e respeitados pelos homens que se movimentavam nos mesmos espaços que eles, para usar as expressões de Lukács, toda e qualquer acção sua era a well-fitting garment for the world. Existia uma relação de adequação entre estas personagens e o mundo em que se movimentavam. O mesmo não se poderá dizer de Eumolpo, que é uma personagem que enquanto poeta não tem um espaço próprio no mundo em que se movimenta, correndo o risco de se tornar uma figura marginal. Repare-se palavras que Encólpio lhe dirige na sequência deste episódio:
– Ouve lá: onde pretendes tu chegar com essa tua mania? Andas comigo há menos de duas horas e já mais vezes falaste à maneira dos poetas que dos humanos! Por isso não admira que as pessoas te persigam à pedrada. Também eu deveria carregar os bolsos de calhaus, para te fazer saltar o sangue da cabeça, sempre que te desse para sair dos eixos.
(…)
– Muito bem; se deres hoje trégua à tua bílis, podemos jantar os dois.
O canto não é o bem que os deuses lhe concederam, é uma mania sua. A linguagem dos poetas não pertence à fala dos humanos e, certamente, tal afirmação da parte de Encólpio não vai no sentido de sublinhar o carácter divino do acto de cantar, uma vez que acrescenta que não o admira que as pessoas o persigam à pedrada e afirma que ele próprio devia fazer o mesmo. Repara-se que, neste ponto do romance, Eumolpo está a cantar um tema homérico, tarefa de que imediatamente abdica mediante a oferta de um jantar.
Ainda para demonstrar que já não estamos num tempo em que a forma de expressão adequada aos actos dos homens seja a épica homérica, da qual o aedo era um símbolo, uma vez que a narrava, é o facto de Eumolpo não atingir notoriedade como poeta mas como contador de histórias, como a atestam a narração do episódio autobiográfico do rapaz de Pérgamo e a história da matrona de Éfeso. Nenhuma das narrativas é acolhida com uma chuva de calhaus e ninguém diz ao poeta que ele esteja a sair dos eixos. Será correcto afirmar que o canto aqui surge evoluindo (ou decaindo, depende da perspectiva) para uma forma narrativa, que podemos considerar como no âmbito da linguagem dos humanos, e portanto tolerável.
Porque as condições do seu mundo não são já as da épica homérica (mundo fechado, de totalidade imanente), o acto de narrar em verso um facto homérico deixa de ser possível a Eumolpo, sob pena de ser apedrejado pelos seus contemporâneos, o que demonstra que este tempo já não é o da sensibilidade da épica. Porém, a narrativa de uma história, acto identificado com a linguagem quotidiana mas também forma própria do romance e da novela, é bem acolhida.
*As citações incluídas neste texto são retiradas das edições da Livros Cotovia da Odisseia e do Satyricon, traduções, respectivamente, de Frederico Lourenço e Delfim F. Leão
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