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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Se nada se repete igual
todas as coisas são últimas coisas.
Se nada se repete igual,
todas as coisas são também as primeiras.

(em memória unitiva de Antonio Porchia)

Roberto Juarroz, Poesia Vertical, Arnaldo Saraiva (trad.), 1998.
O ser começa entre as minhas mãos de homem.
O ser,
todas as mãos,
qualquer palavra que se diga no mundo,
o trabalho da tua morte,
Deus que não trabalha.

Mas o não ser também começa entre as minhas mãos de homem.

O não-ser,
todas as mãos,
a palavra que se diz fora do mundo,
as férias da tua morte,
a fadiga de Deus,
a mãe que nunca terá filho,
meu não morrer ontem.

Mas as minhas mãos de homem onde começam?

Roberto Juarroz, Poesia Vertical, Arnaldo Saraiva (trad.), 1998.
O meu olhar espera-me nas coisas,
para me olhar a partir delas
e me despojar do meu olhar.
A minha memória espera-me nas coisas
para me provar que não existe o olvido.

E as coisas apoiam-se em mim,
como se eu, que não tenho raiz,
fosse a raiz que lhes falta.

Será que talvez as coisas
também esperem por mim?

Será que tudo o que existe
se espera fora de si?

Será afinal que os meus braços
estão abertos para me abraçar?

Roberto Juarroz, Poesia Vertical, Arnaldo Saraiva, Campo das Letras, 1998

domingo, 13 de junho de 2010

Há poucas mortes inteiras.
Os cemitérios estão cheios de fraudes.
As ruas estão cheias de fantasmas.

Há poucas mortes inteiras.
Mas o pássaro sabe em que ramo último poisa
e a árvore sabe onde termina o pássaro.

Há poucas mortes inteiras.
A morte é cada vez mais insegura.
A morte é uma experiência da vida.
E às vezes são precisas duas vidas
para poder completar uma morte.

Há poucas mortes inteiras.
Os sinos dobram sempre o mesmo.
Mas a realidade já não oferece garantias
não basta viver para morrer.

Roberto Juarroz, Poesia Vertical, Arnaldo Saraiva (trad.), 1998.