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sábado, 12 de novembro de 2011

Laço
























Carregou no botão de enviar e pensou no Carver, que dizia que no final, tudo somado e subtraído, o que resta são palavras e que, assim sendo, é conveniente que (também as que enviamos) sejam as certas. Duas mil e quinhentas palavras é coisa pouca, basta uma palavra errada. Não tanto uma questão de economia como de efeito, portanto (make it count). O que aconteceu é que depois se lembrou de Roberto Calasso, que dizia que tudo o que nos prende, independentemente da qualidade da relação com o que nos prende, é um laço. Que é uma citação inesquecível sobretudo porque Calasso rima com laço. Mas não era isso ainda. Era a outra impressão sobre estas duas, que muitos dos nossos laços são só de palavras, que essa será a intimidade máxima que nos será concedida com as coisas que amamos, os nossos pequenos golpes de imaginação que recriam tempos por onde já não podemos caminhar (traz há dias na cabeça um texto em que conta a primeira vez que te viu, começa com a descrição do que trazias vestido, passa para o modo como acendeste o cigarro [marlboro], quando levantaste o rosto estava já vagamente apaixonada, a história da rapariga que há uns anos viu fugazmente um rapaz num corredor movimentado- o que digo, o laço com um tempo que já não existe, a ténue ponte para as coisas que nos importam, palavras só, é preciso escolhê-las bem, disse Carver). Mas não era isso, a justaposição da ideia de que só as palavras restam e que muitos dos nossos laços são só feitos por elas prefigura uma soma que me fez pensar no poeta Ruy Belo, Homem de Palavra[s].

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Fim

Cadmo trouxera para a Grécia «dádivas dotadas de mente»: vogais e consoantes unidas em sinais minúsculos, «modelo gravado de um silêncio que não se cala»: o alfabeto. Com o alfabeto, os Gregos passariam a ser ensinados a viver os deuses no silêncio da mente e não na sua presença plena e normal, como ainda lhe coubera a ele, no dia das suas núpcias. Pensou no seu reino destruído: filhas e netos assassinados e assinos, feridos com água fervente, trespassados, afogados. Tebas também era um montão de ruínas. Mas já ninguém podia destruir aquelas letras minúsculas, aquelas pegadas de mosca que Cadmo, o fenício, espalhara pela terra grega, para onde os ventos o tinham empurrado em busca de Europa, raptada por um touro surgido do mar.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Queria que lesses isto

Para os heróis que combatiam em Tróia, a vida não era algo que exigia ser salvo. Nem sequer dispunham de uma palavra para dizer «salvação», a não ser pháos, «luz». Salvação era uma reafirmação passageira de algo que é. Não tencionavam salvar o que existia, nem salvar-se do que existia. O que existia não era susceptível de ser salvo. A vida era insanável, devia ser aceite tal como era, na sua malignidade e no seu esplendor. Só podiam desejar manter-se ainda por algum tempo na crista da vaga, antes de voltarem a precipitar-se na sombra do íngreme abismo. A palavra que mais frequentemente qualificava a morte era aipýs, «íngreme». Morte era a precipitação, mal se ultrapassava o auge da aparição.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia*, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

*Este livro foi um maravilhoso presente (embora o ande a ler há mil anos). A Ilíada continuará sempre a ser o meu livro número um. Sempre, sempre.

domingo, 3 de outubro de 2010

Belo o que lhes agrada e justo o que lhes convém

Alcibíades não nos deixou nenhuma revelação acerca de Esparta. Mas falou com Tucídides. E em Tucídides parece que a miragem de Esparta se dissipou completamente. Conhece e avalia as acções dos Espartanos do interior, como se a engrenagem estivesse diante dos seus olhos movida por duas alavancas poderosas: a mentira e a força. Antes de serem exterminados pelos Atenienses os habitantes de Melos confiavam na ajuda dos Espartanos. Os enviados atenienses tentaram em vão sugerir-lhes o quão ruinosa era a esperança naqueles que «mais claramente do que quaisquer outros que nós conhecemos consideram belo o que lhes agrada e justo o que lhes convém».

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

sábado, 2 de outubro de 2010

Outra Esparta

Entre os Gregos, a maior e mais antiga filosofia está em Creta e em Esparta, e é lá que está a maior parte dos sofistas da Terra: mas eles negam e fingem ser ignorantes, para que não pareça que era pela sua filosofia que sobressaíam entre os Gregos, mas apenas na luta e na bravura, temendo que os outros, se soubessem em que coisa são excelentes, se dedicassem ao mesmo exercício que eles: a sapiência. São de tal modo dissimulados que enganam os 'espartanos' das outras cidades, que, para os imitarem, furam as orelhas, colocam tiras de couro nas pernas, frequentam os ginásios e usam vestes curtas, pensando que a supremacia dos Espartanos entre os Gregos é devida a tudo isso. Pelo contrário, os Espartanos, quando querem falar livremente com os seus sofistas, e estão fartos de se esconder, expulsam da sua terra esses 'espartanos' ou outros estrangeiros que lá se encontrem para poderem estar com os sofistas sem os estrangeiros darem conta; para além disso, não permitem que nenhum jovem parta para outras cidades, e o mesmo fazem os Cretenses, para que não desperdicem os ensinamentos que receberam.
Ecco, o «contracanto» de Sócrates a Protágoras.
In Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Sobre estas duas absolvições

Ésquilo escreveu duas trilogias que têm no seu centro uma absolvição: a Oresteia e as Danaides. A primeira chegou até nós completa, da outra restam apenas a tragédia inicial, as Suplicantes, e alguns fragmentos. Na Oresteia, Atena absolve Orestes de um crime que Orestes cometeu: o matricídio. Na outra, Afrodite absolve Hipermnestra da acusação de não ter cometido um crime, de não ter morto o seu esposo. Sobre estas duas absolvições se funda a Atenas clássica.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Estas coisas nunca aconteceram

As Núpcias de Cadmo e Harmonia de Roberto Calasso, que tem das melhoras epigrafes de sempre: «Estas coisas nunca aconteceram, mas existem sempre.» (Salústio, Dos Deuses e do Mundo.)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Pélops

Pélops não é um único, como Teseu ou Cadmo. Não é um grande guerreiro, nem um herói, nem um inventor. É apenas o portador de um talismã. A unicidade que não existe nele acolhe-a no seu corpo. A sua omoplata de marfim é a ligação artificial com o divino, cobre a falta originária do homem. O que reveste aquele vazio e se articula com o corpo de Pélops condensa um imenso poder. Esse poder vai muito para além do portador, e transmite-se como um excesso às gerações seguintes.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

Os cavalos de Ares

Pélops olhava para os seus admiráveis cavalos e pensava que Ares é um deus poderoso mas não comparável a Posídon, que estilhaça os rochedos para abrir caminho aos seus animais - e os faz emergir da espuma das ondas.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

O décimo quarto

Em redor da entrada do palácio de Enomau, na colina de Cronos, em Olímpia, estavam espetadas três cabeças humanas. Pélops transpôs aquele limiar como estrangeiro, como o décimo quarto pretendente de Hipodamia.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Uma perífrase tão eficaz

A felicidade é uma característica da vida que exige o desaparecimento da vida para existir. Se a felicidade é uma qualidade global do homem, então é necessário esperar que a vida desse homem se cumpra com a morte.
Este paradoxo não é autónomo, é apenas um dos muitos paradoxos da globalidade, a que os gregos foram altamente sensíveis. O seu fundamento está gravado na língua: télos, a palavra grega por excelência, é ao mesmo tempo «perfeição», «cumprimento» e «morte». Na voz de Sólon falava a desconfiança dos Gregos em relação à cegueira de quem é feliz e a sua paixão pela lógica. Nunca se viu uma perífrase tão eficaz para dizer uma verdade que, na sua forma directa, seria demasiado crua, e que talvez nem sequer fosse uma verdade: que a felicidade não existe.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

domingo, 29 de agosto de 2010

Um laço

...continuava a ser um laço, porque tudo o que de forte nos assalta é um laço...

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Ama-me mais uma vez, Atena, o mais possível.

Na noite mais desesperante para os Aqueus, quando se encontram encerrados nos seus barcos devido ao assalto dos sitiados, quando, juntamente com Diomedes, está para partir na arriscada missão de ir colher algum segredo ao acampamento inimigo, chega a Odisseu o grito de uma garça invisível. É Atena que revela a sua presença. Então, Odisseu dirige-se à deusa que sempre esteve a seu lado. Pronuncia poucas palavras secas e íntimas, menos de metade daquelas que, logo a seguir, Diomedes lhe dirigirá. Odisseu não recorda antecedentes paternos nem promete sacrifícios. Diz à deusa: «Ama-me mais uma vez, Atena, o mais possível»

Roberto Calasso
, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

sábado, 14 de agosto de 2010

Ao contrário das personagens dos romances

Ao contrário das personagens dos romances, vinculadas a um único gesto, as figuras dos mitos passam por muitas vidas e muitas mortes. Mas em cada uma dessas vidas e dessas mortes estão compreendidas, e repercutem-se, todas as outras.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Hesitação

Apolo e Diónisos vivem muitas vezes à beira dessa linha, na parte divina e na parte humana, e geram a hesitação nos homens, aquele sair de si próprios a que parecem dar ainda mais importância do que ao facto de serem homens, mais ainda do que à própria vida.

Roberto Calasso
, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Atenas ama os culpados

Um toque de trompa, à noitinha, provocava uma tentação entre os bebedores. «O Rei bebe, a Rainha ri». Mas bebiam sem falar, sem cantar, sem orar. Muitos estavam recolhidos, sob muitos tectos, cada qual com a sua caneca. E no entanto havia o mesmo silêncio que o arauto ordenava durante o sacrifício. As crianças tinham também a sua mesa e a sua caneca, mas calavam-se. Um hóspede invisível estava entre eles: Orestes, o impuro, que um dia procurara refúgio em Atenas. Ninguém ousara acolhê-lo, mas também ninguém ousara escorraçá-lo. Atenas ama os culpados. Sentado sozinho a uma mesa, com uma caneca só para ele, o matricida bebera em silêncio. E assim se passara o primeiro dia de festa, o Coe.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Quando Ariadna fixou o seu olhar no estrangeiro

«Como em Creta, é costume as mulheres assistirem aos jogos, Ariadna, que estava presente, ficou estupefacta ao ver aparecer Teseu, e admirou a sua bravura quando ele venceu todos os adversários, um após o outro». Quando Ariadna fixou o seu olhar no estrangeiro, Creta acabou. Antes de ser traída, Ariadna traíu a sua ilha.

Roberto Calasso
, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

sábado, 31 de julho de 2010

Uma diferença entre as duas partes

De todos estes factos nasceu a história: o rapto de Helena e a guerra de Tróia e, ainda antes, a expedição da nau Argos e o rapto de Medeia, elos da mesma cadeia. Um apelo oscilava entre a Ásia e a Europa: a cada oscilação, uma mulher e, com ela, um bando de predadores, passavam de uma margem para a outra. Mas Hérodoto observou que havia, porém, uma diferença entre as duas partes: «Ora, o rapto de mulheres é considerado obra de malfeitores, mas preocupar-se com mulheres raptadas é obra de insensatos, porque é evidente que, se elas não tivessem querido, não teriam sido raptadas». Os Gregos não se comportaram como sábios: «Por causa de uma mulher de Esparta, preparam uma grande expedição e, quando chegaram à Ásia, aniquilaram o poder de Príamo». Desde então, nunca mais cessou a guerra entre a Ásia e a Europa.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990

terça-feira, 15 de junho de 2010