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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Poem Unlimited

δούπησεν δὲ πεσών, ἀράβησε δὲ τεύχε’ ἐπ’ αὐτῷ.
αἵματί οἱ δεύοντο κόμαι Χαρίτεσσιν ὁμοῖαι
πλοχμοί θ’, οἳ χρυσῷ τε καὶ ἀργύρῳ ἐσφήκωντο.
οἷον δὲ τρέφει ἔρνος ἀνὴρ ἐριθηλὲς ἐλαίης
χώρῳ ἐν οἰοπόλῳ, ὅθ’ ἅλις ἀναβέβροχεν ὕδωρ,
καλὸν τηλεθάον· τὸ δέ τε πνοιαὶ δονέουσι
παντοίων ἀνέμων, καί τε βρύει ἄνθεϊ λευκῷ·
ἐλθὼν δ’ ἐξαπίνης ἄνεμος σὺν λαίλαπι πολλῇ
βόθρου τ’ ἐξέστρεψε καὶ ἐξετάνυσσ’ ἐπὶ γαίῃ·
τοῖον Πάνθου υἱὸν ἐϋμμελίην Εὔφορβον
Ἀτρεΐδης Μενέλαος ἐπεὶ κτάνε...

Ilíada 17

And he fell with a thud, and over him his armor clanged. In blood was his hair drenched that was like the hair of the Graces, and his tresses that were braided with gold and silver. And as a man rears a lusty sapling of an olive in a lonely place where water wells up abundantly, a noble sapling and fair-growing; and the breezes of all the winds make it quiver, and it burgeons out with white blossoms; but suddendly the wind coming with a mighty tempest tears it out of its hollow, and lays it low on the earth, even so did Menelaus, son of Atreus, slay Panthous' son, Euphorbus of the good ashen spear...

Tradução de A. Murray (Loeb, 1925).

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Reality is a sound, you have to...




Em Berna há um cemitério ainda bem dentro dos limites da cidade onde a cidade sepultou um destacamento de soldados franceses que morreram a defendê-la durante a primeira guerra. Cada cruz tem gravada uma indicação com o nome e com a data em que morreram. À saída da Bod está há meses um placard a tapar um prédio em construção. Esse prédio vai ser uma extensão da biblioteca central e o placard tem fotografias do que o edifício vai conter, entre elas está o retrato de Wilfred Owen. Estes rapazes, Wilfred Owen, o destacamento francês em Berna, que tiveram facas e baionetas e espingardas levaram uma vida civil antes de tudo isso, interrompida no seu curso por uma erupção doida de loucura homicida. Mas antes de tudo isto foram saloios imberbes lá na terra, apaixonaram-se pela miúda da mercearia, sonharam com as mamas da vizinha da frente, cometeram pequenos roubos, andaram descalços pelos caminhos, eram analfabetos ou estudaram em Oxford e gostavam de escrever poesia, mas nenhum deles viveu para ver os posters da Sarah Bernhardt em versão art-déco.
Durante as últimas semanas tenho andado a ouvir a gravação do Memorial, a adaptação da Ilíada da Alice Oswald. Chama-se Memorial porque a ideia básica é a de que este livro seja uma lista de nomes de soldados da guerra de Tróia (alguns fazem parte do cast da Ilíada outros não) e ela vai narrando através de símiles, de comparações quotidianas (é uma coisa que Homero também faz) o elenco das mortes na Ilíada. De um dos primeiros soldados a tombar ela fala dos quarenta black ships que ele comandava e diz depois qualquer coisa como this was thousands of years ago, now he is under the depth of black earth e a distância no tempo e o escuro criam uma impressão de uma profundidade absoluta. Mas há depois imagens que são interrupções, que abrem outro espaço, que são desapropriadas para aquilo que ela está a narrar, de repente entra em linha de conta todo um mundo doméstico, para uma imagem de um soldado que tomba ela fala às tantas de uma mãe que toda a noite trabalha a fiar o algodão, ela fala das suas poor spider hands (fio, mãos de aranha) e no último verso dessa parte diz she sooths the scales to a standstill, e nós não estamos à espera desta suavidade de algodão, balanças e ponto parado. E há momentos em que ela recua demasiado, demasiado para fora do lugar da acção, isso acontece para falar de Pátroclo, por exemplo, em que ela conta um episódio da infância dele que fica de fora da Ilíada, os versos são qualquer coisa como um som demasiado alto & women came rushing at the door, in a courtyard two children were playing, a quarrel broke, one had killed the other, that was Patroklos, nicknamed “Innocent”, he grew up behind his cousin’s high pitched voice, ou algo assim. A violência gráfica do poema nunca é estética, a relação de Alice Oswald com gregos mortos em combate há milhares de anos não tem nada de estético, ou o que a violência tem de estético acontece acidentalmente, emerge da linguagem, do ritmo e desse todo outro mundo possível que está escondido sobre os símiles que apontam para uma possibilidade de vida quotidiana. Há um ponto em que ela descreve um rapaz e diz dele a big ambitious boy, arrogant farmhand, fresh from the fields. E antes ela fala de all his crazy violence, all his crazy impatience. Iphidamas se a memória não me falha era o nome dele. Ela cria-lhes nestes detalhes toda uma vida antes e depois fecha-os em close-up mas eles pura e simplesmente já não cabem naquele momento, nós sabemos quem eles foram e o que eles foram não é o que eles são no presente narrativo. Isto cria um problema muito estranho do ponto de vista de como nos relacionamos com estas personagens e de como elas configuram a narrativa (porque a acção existe só em função delas, mas a função que elas servem é desaparecer). E no entanto, elas não existem no movimento patético (em queda) que vai de imaginarmos a vida delas antes, ou de sabermos alguma coisa dessas vidas (o soldado que se apaixona por Cassandra – she was Priam’s most beautiful, most neurotic daughter and he had no money so he offered Priam his life in order to marry her, everyone was laughing when he died, only Cassandra did not laugh), e o ponto em que morrem. Elas existem completamente antes e o presente, o tempo de acção que justifica que elas apareceram e que determina o seu curto tempo no espaço da acção, não faz qualquer sentido, é uma forma de amechania. As personagens de Alice Oswald em Memorial não cabem em Memorial. Extravasam por todos os lados com ela a tentar contê-los, há neles toda a vida que ficou sem eles. Como se um plano que ficasse vazio, uma cadeira vazia numa sala em frente a uma parede branca. Como se entre a história deles, a história que os particulariza, e aquele momento, se criasse uma falha que não permite que um momento e outro comuniquem. Esta tensão entre os eixos de tempo na sequência narrativa faz com que o livro só possa emergir como um todo a partir de uma disrupção constante, não é um poema que exista na sequência, existe numa sucessão de interrupções. E no entanto há um efeito estranho de harmonia, uma harmonia intermitente, desproporcional.
Há um verso de Anne Carson em Autobiography of Red em que ela diz “reality is a sound, you have to tune into it, not just keep yelling at it”. Memorial é um livro muito especial, um livro muito único e é provavelmente um dos grandes poemas escritos na Europa nos últimos anos.
Quando Anne Carson escreve “reality is a sound, you have to...” ela ignora a possibilidade de que às vezes, em certos lugares, a única coisa que podemos fazer é continuar a gritar à espera de que a realidade se afine a partir disso.

sábado, 7 de julho de 2012

Aquiles lamenta a morte de Pátroclo


«Porquê lágrimas?» disse a mãe. «Fui até Deus.
E Ele fez o que pediste.
Foi a tua voz que Ele ouviu, suplicando-lhe “Senhor,
Até que sintam a minha falta, deixai os Gregos arder.”»
E ouviu-o, entre os soluços dele, dizer:
«Verdade. Mostrai-Lhe a minha gratidão.
Não esqueças de guardar para ti uma pequena parte.
Eu matei Pátroclo.
Eu matei-o. Matei-o. Matei-o.»
«Eee… eee… eee… eee… eee…» um som aterrador.
Algo como eu ou tu nunca ouvimos.
«Ele era o melhor. Melhor do que eu. Mais corajoso do que eu.
Mais honrado do que eu. Valia duas vezes a minha vida.
Ele escutava. Ele aconselhava. Para todos tinha tempo.
Para homens e mulheres em quem eu nem reparei.
E eu matei-o. Matei-o.»
Aquele som aterrador. Aquelas pancadas.
«Não estava lá para o ajudar quando morreu.
Não estava lá para o ajudar quando morreu.
Aquiles não estava lá. Ele não estava lá
para ajudar o seu próximo, o seu coração, o seu companheiro amado
quando Heitor o matou.
Sei que Deus disse que eu morrerei
pouco depois de matar Heitor – se for capaz.
E, mãe, podes estar certa de que sou capaz.»

‘Why tears?’ his mother said. ‘I went to God.
And He has done all that you asked.
It was your voice He heard, begging Him: ‘Lord,
Until they feel my lack, let the Greeks burn.’”
And heard him, in between his sobs, say:
‘True. Give Him my thanks.
Be sure to keep a little for yourself.
I have killed Patroclus.
I have killed him. I have killed him. I have killed him.’
‘Eee … eee … eee … eee … eee…’ a terrifying noise.
The like of which, the likes of you and me, have never heard.
‘He was my best. Better than me. Braver than me.
More honorable than me. Worth twice my life.
He listened. He advised. Had time for everyone.
For men and women that I failed to see.
And I have killed him. I have killed him.’
That terrifying noise. Those slaps.
‘I was not there to help him when he died.
Achilles was not there. He was not there
To help his next, his heart, his dear companion
When Hector killed him.
I know that God has said that I shall die
Soon after killing Hector – if I can.
And, mother, yes, be certain that I can.’

Christopher Logue, Logue’s Homer: War Music, Faber & Faber, 2001

domingo, 24 de junho de 2012

Diz Zeus a Hera

'First Heart,' God said, 'do not forget
I am at least a thousand times
Raised to that power a thousand times
Stronger than you, and your companion gods.
What I have said will be, will be,
Whether you know of it, or whether not.
Sit down. Sit still. Ad no more mouth.
Or I will kick the breath out of your bones.'

And Hera did as she was told.

It was so quiet in Heaven that you could hear
The north wind pluck a chicken in Australia.

Christopher LogueKings in Logue's Homer: War Music, Faber & Faber, 2001

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Queria que lesses isto

Para os heróis que combatiam em Tróia, a vida não era algo que exigia ser salvo. Nem sequer dispunham de uma palavra para dizer «salvação», a não ser pháos, «luz». Salvação era uma reafirmação passageira de algo que é. Não tencionavam salvar o que existia, nem salvar-se do que existia. O que existia não era susceptível de ser salvo. A vida era insanável, devia ser aceite tal como era, na sua malignidade e no seu esplendor. Só podiam desejar manter-se ainda por algum tempo na crista da vaga, antes de voltarem a precipitar-se na sombra do íngreme abismo. A palavra que mais frequentemente qualificava a morte era aipýs, «íngreme». Morte era a precipitação, mal se ultrapassava o auge da aparição.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia*, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

*Este livro foi um maravilhoso presente (embora o ande a ler há mil anos). A Ilíada continuará sempre a ser o meu livro número um. Sempre, sempre.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Sarpédon

















«Vai tu agora, ó Febo amado, e limpa o negro sangue
de Sarpédon; tira-o do meio dos dardos e depois leva-o
para muito longe. Dá-lhe banho nas correntes do rio
e unge-o com ambrósia, veste-o com roupas imortais.
Entrega-o a dois pressurosos portadores para o levarem,
Sono e Morte, dois irmãosm eles que rapidamente
o porão na terra fértil da ampla Lícia,
onde seus irmãos e parentes lhe prestarão honras fúnebres,
com sepultura e estela: pois essa é a honra devida aos mortos.»

Homero, Ilíada, Frederico Lourenço (trad.), Livros Cotovia, 2005

Sarpédon, filho de Zeus, rei da Lídia, quase se torna uma excepção entre os homens: o pai, momentos antes de ele morrer, pensa arrebatá-lo do combate contra Pátroclo. Mas Hera chama-o à razão: se Zeus salvasse o filho, iria contra o destino que lhe tinha sido fixado. E Zeus, curvado por pesada dor, deixa que a morte se abata sobre Sarpédon, lançando em seguida uma chuva de sangue sobre a terra.
O episódio da Ilíada demonstra (se considerado anacronicamente) que o destino para os gregos era uma instituição democrática: uma lei à qual nem os deuses escapavam. É também dos poucos momentos na Ilíada em que imaginamos Zeus de pescoço curvado.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Ainda a propósito de cavalos e de Aquiles

Há na Ilíada um ciclo em que a morte dos maiores heróis da obra é sucessivamente predita: Pátroclo prediz a morte de Heitor pouco antes de ser morto por este, Heitor prediz a morte de Aquiles aquando do combate com este. Também um dos cavalos de Aquiles, Xanto, lhe anuncia a morte próxima.
Homero cria na morte o motivo que une todas as suas personagens: a morte, a dor da perda de um ente querido, são coisas que indiferentemente unem os homens, é por isso que há aquela cena final, em que o pai (Príamo) e o assassino do seu filho (Aquiles) choram os dois juntos na mesma tenda. Nada os divide naquele instante: nem o destino, nem a idade, nem o facto de um ser grego e o outro troiano. São os dois a mesma coisa, a mesma matéria: homens e condenados a perder o que mais amaram, o que mais quiseram.
Príamo, o ancião, rei de Tróia, chora na tenda de Aquiles não só um filho muito amado, mas o melhor dos guerreiros troianos, o seu sucessor natural, o símbolo máximo da cidade de Tróia, o príncipe que se devia ter tornado rei.
Aquiles, vendo Príamo, recorda-se de seu pai, Peleu, e sabe que o destino que pesa sobre si, aquele que lhe foi fixado, é igual ao de Heitor, e sabe que o seu pai, longe de Tróia, na Ftia, irá conhecer a mesma dor de Príamo. (Na Ilíada nem os deuses têm capacidade de escapar ao que é fixado pelo destino, nem Zeus pode salvar o seu filho, Sarpédon, da morte em Tróia.)
Eis como Homero nos deixa com dois inimigos reduzidos à igualdade.
A máxima tragédia de Aquiles é que ele sempre fora um inadaptado, um elemento que não se podia identificar e, logo, não se podia ligar a outros. Filho de um mortal, Peleu, e de uma deusa, Tétis, ele, pela sua força, pela sua beleza, pela sua velocidade, não era um homem. Mas aquilo que o separava dos homens não era suficiente para fazer dele um deus, logo, ele não era uma coisa nem outra, não pertencia nem a um mundo nem a outro.
No exército dos aqueus, ele tem um superior hierárquico, um homem mais poderoso que ele, Agamémnon. Mas Agamémnon não o excede em força, até pode ser mais poderoso, mas não mais forte, na prática, Aquiles é o líder natural do contigente dos gregos, e é por isso que se retira do exército assim que contrariado pelo rei de Micenas. Não é uma causa comum o que o trouxe até Tróia, mas uma profunda ânsia de glória.
O momento final de Aquiles na Ilíada é o único momento em que ele sabe onde está, quem é, o que será depois. E que esse momento lhe tenha sido trazido por um seu inimigo natural é um dos aspectos que fez da Ilíada um livro perfeito, um livro imortal.
*
Quando pela primeira vez estudei a Ilíada numa cadeira de literatura grega ,o meu professor na altura, Frederico Lourenço, começou a aula dizendo aquele cliché: a Ilíada é o primeiro livro da história do Ocidente. E imediatamente acrescentou: para primeiro livro, não valia a pena ser uma coisa tão elaborada. Tinha razão.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Algumas questões gerais sobre tradução (e um artigo sobre Proust pelo meio)

"The Shape of Time" é um artigo de 2004, da autoria de Peter Brooks sobre Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, publicado no New York Times. O artigo versa em parte sobre a problemática da tradução de Proust para inglês, e o autor fala-nos de diferentes traduções e da qualidade de cada uma, revisitando a história da tradução desta obra para língua inglesa. Impressionou-me a ideia de Cambridge ter feito uma tradução da obra em que cada volume é traduzido por um autor diferente. Acho que isso não resulta, embora traga diversidade de soluções e pluralidade de vozes. Se fossem livros diferentes de um mesmo autor, talvez não me chocasse tanto, mas é apenas um romance, em sete volumes. Foi escrito por uma só pessoa, creio que deve ser traduzido por uma só pessoa. É uma questão de garantir, tanto quanto possível, coerência de estilo e unidade. Em Portugal, Pedro Tamen traduziu, para a Relógio d'Água, todos os sete volumes e fez, sem dúvida, um bom trabalho. Por ex., percebemos na sua tradução o longo fôlego que Proust dava aos seus períodos, é característico de Proust, e Tamen conservou esta característica. Nestes pormenores, é possível avaliar a qualidade do tradutor.
Há outros casos de tradução para português que acho igualmente notáveis, como, por exemplo, o trabalho que Frederico Lourenço realizou na sua tradução de Homero (Livros Cotovia), ele traduziu quer a Odisseia quer a Ilíada e considero isso positivo, dota de uma certa consonância as obras, apesar de não sabermos se Homero existiu e se foi apenas um, e, em qualquer dos casos, ele é um tradutor extraordinário. A qualidade da sua tradução advém-lhe, segundo me parece, de um domínio irrepreensível quer da língua de partida quer de chegada, e de não de estar demasiado preocupado em render ao leitor para quem traduz os detalhes da sintaxe grega (se ali temos um genitivo absoluto, ou um caso de uso de particípio suplementar, etc., etc.) mas sim (e sobretudo) a beleza e o sentido do texto grego, buscando os seus equivalentes em português mas mantendo-se fiel à língua de partida.
Outra tradução de um clássico que assinalo como excelente é o trabalho que Paulo Farmhouse Alberto fez, também para a Livros Cotovia, das Metamorfoses de Ovídio. O tradutor fez uma tradução bastante fiel ao latim mas nunca se descurou em relação à língua de chegada. O resultado, para mim, está ao nível do trabalho de Frederico Lourenço na Ilíada e na Odisseia.
Nos antípodas, e não por falta de qualidade dos tradutores, está a tradução da Eneida da Bertrand. É a única tradução portuguesa desta obra que é cientificamente correcta (e que eu conheço, à parte da de Agostinho da Silva), porque é actual e feita a partir da língua original, contudo, num texto que já de si é por natureza intraduzível (como render a beleza de trechos como Ibant obscuri sola sub nocte per umbram?), a juntar a isto, a tradução não ficou confiada a apenas um tradutor e não é em verso. O que estilhaça a beleza de um texto que já de si é muito problemático de traduzir. Ideal seria que a Livros Cotovia contratasse Pierre Ménard para que ele traduzisse para português a obra maior de Vergílio.
Deixo-vos um excerto, link incluído, do artigo sobre Proust:

''Swann's Way'' contains the passages best known to most readers: the haunting bedtime drama of Marcel deprived of his mother's kiss, and especially the conjuring of an entire childhood world, in Combray, which opens, in the manner of compressed Japanese paper flowers that unfold in water, from the madeleine cake dipped into a cup of tea. It includes as well the 200 pages of ''Swann in Love,'' an apparent digression that in fact lays out the path that Marcel must discover if he is to become a writer, if he is to succeed where the aesthete Swann, through a congenital mental laziness, fails. The need for shaping time, and the model for doing so, are adumbrated here by way of Vinteuil's sonata, which provides the paradigm of temporal organization transcending spoken meanings. ''Never,'' the narrator tells us of the sonata, ''had spoken language been such an inflexible necessity, never had it known such pertinent questions, such irrefutable answers.''

terça-feira, 28 de julho de 2009

A Ilíada

Há vários livros de que gosto muito. Mas a Ilíada é o livro da minha vida. Em 2005, acabada de chegar à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para estudar Clássicas e enquanto esperava que saísse a (excelente) tradução do Professor Frederico Lourenço, que saíu nesse mesmo ano de 2005, comprei uma edição da Hachette Illustrated para poder ir vendo a iconografia relacionada com a obra.
Esta edição da Hachette reproduz alguma da vasta iconografia relacionada com a Ilíada e com a Odisseia e também alguma parte do texto de ambas as obras. Mesmo tendo traduzido alguns cantos a partir do original, o que me levou, muitas horas e algum sofrimento depois, a decorar acidentalmente um ou outro passo mais ou menos como está no grego, e mesmo tendo muitos passos em português guardados na cabeça, não sei porquê, a minha memória dos vv. 338 - 343 do canto IX é em inglês e desse mesmo livro da Hachette. É uma estranha estranha fala de um dos maníaco-depressivos mais famosos de todos os tempos. Neles diz Aquiles:

Why hath he assembled/ And led an army here, this son of Atreus?/Why, was it not for fine-haired Helen's sake?/ Are Atreu's sons alone of living men/ To love their wives? No, every good sound man/ Loveth his own and cared for her, as I -/ I also, loved mine own with my heart, / Though she was but the captive of my spear*.

Paul Demont (Org.), Troy: The Iliad and the Odyssey, Hachette Illustrate, Hachette, 2004.
*A tradução do texto, incluída no livro, é de William Marris, tradutor da edição da Ilíada de 1934 da Oxford University Press.