sábado, 30 de abril de 2011

Gift silver poem

I know that all this is worthless and that the language
I speak doesn't have an alphabet
Since the sun and the waves are a syllabic script
which can be deciphered only in the years of sorrow and exile

And the motherland a fresco with successive overlays

frankish or slavic which, should you try to restore,

you are immediately sent to prison and

held responsible

To a crowd of foreign Powers always through
the intervention of your own


As it happens for the disasters


But let's imagine that in an old days' threshing-floor
which might be in an apartment-complex children
are playing and whoever loses

Should, according to the rules, tell the others
and give them a truth
Then everyone ends up holding in his
hand a small
Gift, silver poem.

Odysséas Elytis,The tree of Light and the Forteenth Beauty, tradução de Marios Dikaiakos.
Quando a minha mulher era viva, eu costumava pensar que quando ela morresse teria mais espaço para mim. Imagine-se só toda a sua roupa interior, pensava eu, que enche três gavetas inteiras da cómoda. Vai haver espaço para as minhas moedas de cobre numa das gavetas, para as minhas caixas de fósforos na outra gaveta e para as minhas rolhas na terceira. Isto agora está um caos, pensava eu.
E então ela morreu, já faz muito tempo. Era uma pessoa exigente, mas que descanse em paz, uma vez que me deixou em paz finalmente. Esvaziei gavetas e prateleiras e armários de tudo quanto ela deixara, e fiquei com imenso espaço vazio, mais do que seria capaz de usar. E o que está vazio, vazio está. Por isso, desfiz-me de um par de armários. Mas o resultado é que em vez de dois armários vazios fiquei com o quarto inteiro mais vazio. Foi uma imprudência da minha parte, mas ocorreu, como disse, há muito tempo, e nessa altura eu era bastante mais novo.

Kjell Askildsen, Um Repentino Pensamento Libertador, tradução de Mário Semião, Ahab Edições, Porto, 2010

Já não me lembro onde roubei isto

Política & Amor

«O que é a pátria, perguntou-se. Não é um ser a quem devamos reconhecimento e que fique infeliz e nos amaldiçoe se lhe faltarmos. A pátria e a liberdade são como o meu capote, que é uma coisa que me é útil, que eu tenho que comprar, é certo, quando não o recebi como herança do meu pai; mas, finalmente, eu amo a pátria e a liberdade porque me são úteis. Se não me servem para nada, se tenho que as transportar como um capote em pleno Agosto, para quê comprá-las, ainda por cima a tal preço? Vanina é tão bela! E tem um espírito tão singular! Haverá quem tente agradar-lhe; ela vai esquecer-me. Qual é a mulher que se limitou a ter um só amante? Estes príncipes romanos, que eu desprezo enquanto cidadão, têm sobre mim tais vantagens! Devem ser capazes de se fazer amar! Ah, se eu partir, ela vai esquecer-se de mim e eu perdê-la-ei para sempre.»

Stendhal, Vanina Vanini. Assírio & Alvim. 2002.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Save Me

Da sorte

Calígula, imperador de Roma, escreveu em 40 uma carta ao seu legado na Síria em que lhe recomendava vivamente o suicídio. Petrónio, o senhor em causa (não é o mesmo que escreveu o Satyricon), tentara evitar a revolta que se daria na sua província caso cumprisse a ordem do seu imperador e atrasara a execução da ordem que dele recebera, a saber, erguer uma colossal estátua do dito, disfarçado de Zeus Epifânio no Templo em Jerusalém, o que constituía a máxima violação do carácter sagrado, para os Judeus, da terra da Palestina e implicava a imediata dessacralização desse que era o mais sagrado dos lugares, o Templo.
Ora Josefo conta-nos (Antiguidades Judaicas, Livro 18, §305) que o navio que transportou esta carta foi tão lento a navegar que Petrónio só recebeu a missiva depois de já ter recebido uma outra, que lhe dava conta de que Gaio tinha sido morto em Roma por Quereia & Co.

Pátria

os devoradores de cultura podem sair pela esquerda alta
fiquem os amantes obscuros e o único os raros
todos os nus
porque a língua portuguesa não é a minha pátria
a minha pátria não se escreve com as letras da palavra pátria

António José Forte, in «Desobediência Civil», Uma Faca nos Dentes, Pareceria A. M. Pereira, 2003.

Tempo

...time carries us forward by the momentum of those feeling inside us of which we ourselves are least conscious...

Lawrence Durrell, The Alexandria Quartet, Faber & Faber, 2009

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Uma faca nos dentes

...gente que nunca escreveu uma linha que fez mais pela palavra que toda uma geração de escritores.

António José Forte, Uma Faca nos Dentes, Pareceria A. M. Pereira, 2003.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

"it's not to be listened to before midnight"

Boas notícias

Os Óculos de Ouro de Giorgio Bassani, editados pela Quetzal. Para quando a edição das Cinque Storie Ferraresi?

Ensaio sobre a cicuta, melhor dizendo

Mais informações, aqui.

Regresso

Voltei a esse lugar
onde nunca tinha estado.
Do que não foi, nada mudado.
Sobre a mesa (de oleado
aos quadrados) meio vazio
encontrei o mesmo copo
nunca cheio. Tudo
permanece tal e qual
eu o não tinha deixado.

Giorgio Caproni, em Il Muro della Terra (1975), tradução de David Mourão-Ferreira em Vozes da Poesia Europeia, vol. III, Colóquio-Letras, n.º 165, Fundação Calouste Gulbenkian, Setembro-Dezembro de 2003.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Pedradas

Também eu tentei falar.
Sem saber talvez a língua.
Todas as frases erradas.
Em resposta: só pedradas.

Giorgio Caproni, em Il Muro della Terra (1975), tradução de David Mourão-Ferreira em Vozes da Poesia Europeia, vol. III, Colóquio-Letras, n.º 165, Fundação Calouste Gulbenkian, Setembro-Dezembro de 2003.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Heart of experience

In the harbour of Alexandria the sirens whoop and wail. The screws of ships crush and cruch the green oil-coated waters of the inner bar. Idly bending and inclining, effortlessly breathing as if in the rythm of the earth's own systole and diastole, the yachts turn their spars against the sky. Somewhere in the heart of experience there is an order and a coherence which we might surprise if we were attentive enough, loving enough, or patient enough. Will there be time?

Lawrence Durrell, The Alexandria Quartet, Faber & Faber, 2009

***

Queria falar sobre esta meia-dúzia de linhas, sobretudo das últimas. Desta coisa que é um homem muito distraidamente observar navios na barra de um porto e disto chegar à vida. Sempre pensei que a vida é aquilo com que nos encontramos do outro lado do espelho de um livro. A vida com todas as coisas que nela se contêm. O ritmo de respiração que Durrell imprime ao planar dos navios sobre a água é coisa que se vai encontrar inevitavelmente com a noção de que algures no coração da experiência (i.e.: todas as coisas em que acontecemos e as que nos acontecem) há uma ordem, uma coerência (não algo que faça as coisas fazerem sentido, The Alexandria Quartet até aqui parece ser o romance da errância, do sem sentido) que talvez possamos surpreender, ser surpreendidos por.
Ou seja, nas palavras de Durrell, para mim, fica implícito o que é olharmos de determinado ponto no tempo para a vida e ver que ela é uma trama, a história que escrevemos, que a cada passo guardamos connosco, esses diários que teimosamente vais escrevendo ou simplesmente a memória (por isso estou convencida que a vida é o mais literário dos géneros e não por um sentido de repugnante imitatio vitae que pudesse servir a gabarolice idiota de a estar escrevendo para alimentar o egozinho e aquilo com que nos pudemos ou queremos parecer quando nos expomos, nos partilhamos ou nos vendemos a outros, com outros).
Esta ordem que há na vida, só a surpreenderemos, diz Durrell, se formos suficientemente atentos, suficientemente amáveis ou suficientemente pacientes. Todas estas coisas são espaços de silêncio, onde crescemos por combate, em agonia. Por vezes não há tempo, é coisa que não se alcançará. Mas Durrell não se pergunta se o alcançará, pergunta se terá tempo, porque ele sabe que está en train de.
Pensei depois que esta visão de uma ordem e coerência que está no coração da experiência é uma coisa que só as palavras (partindo do princípio que é por palavras que pensamos) podem iluminar, se alguma vez pudermos ver essa ordem, essa coerência que está nas coisas (que intuo não sei porquê que até pode ser sem redenção, esta espécie de coisa que um corredor de longa distância correndo contra outro e perdendo recebe sem consolo mas reconhece como se fosse justa derrota, ordem de coisas) será no espaço silencioso em nós do que podemos intuir nos outros, ler nos outros e isso é literatura.
É por isso que uma páginas mais à frente Durrell escreve: I see now that what we found enigmatic about the man was due to a fault in ourselves. Mas quando ele diz de Pursewarden que ele é a man tortured beyond endurance by the lack of tenderness in the world, ele exclui a possibilidade de Pursewarden ter visto essa ordem que está no coração da experiência ou está a minar o seu próprio raciocínio? Porque a meu ver (não me interessa estar para aqui a palrar sobre o porquê, mas digamos que a trama da vida não existe sem os outros e a tenderness não existe sem o número dois) são coisas demasiado próximas para serem pensadas isoladamente.

Numbers

'Then how long will it last, this love?' (in jest).
'I don't know.'
'Three weeks, three years, three decades...?'
'You are like all the others ... trying to shorten eternity with numbers,' spoken quietly, but with intense feeling.

Lawrence Durrell, The Alexandria Quartet, Faber & Faber, 2009

Quartos com vista

Aqui.

domingo, 24 de abril de 2011

"Ich habe fertig" (sic)

Situation

From a woman she had become a situation.

Lawrence Durrell, The Alexandria Quartet, Faber & Faber, 2009

Sárszeg

Tocavam os sinos. Dlim-dlão, intérminos, tocavam os sinos de Sárszeg. Para a missa da manhã, às trindades, nos enterros, nos inúmeros enterros. Na Rua Széchenyi, havia três funerárias que se sucediam, e duas oficinas de marmorista. Quem aqui chegasse pela primeira vez, e ouvisse estes toques ensurdecedores, e visse estas funerárias e oficinas de marmorista, iria julgar que as pessoas, aqui, não viviam, só morriam.


Dezső Kosztolányi, Cotovia, Publicações D. Quixote, 2005.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Anos 70
























Época em que os franceses realizaram thrillers em que entrava Alain Delon com melancólico bigode. (Apesar do melancólico bigode, Alain Delon continuava a vencer o prémio de mancebo-mais-bem-parecido-de-gabardina-bege, que primeiro conquistou em 1967, no Le Samourai.)

Nome

Chamavam-lhe assim há muito, Cotovia, há muito tempo, quando ela ainda cantava. Desde então, o nome ficara-lhe colado, e usava-o como roupa de criança que já não lhe servia.


Dezső Kosztolányi, Cotovia, Publicações D. Quixote, 2005.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A literatura e a vida, ou outra coisa

«Para escrever, talvez seja preciso que a língua materna seja odiosa, mas de tal maneira que uma criação sintática nela trace uma espécie de língua estrangeira e que a linguagem inteira revele seu fora, para além de toda sintaxe. Acontece de felicitarem um escritor, mas ele bem sabe que está longe de ter atingido o limite que se propõe e que não pára de furtar-se, longe de ter concluído seu devir. Escrever é também tornar-se outra coisa que não escritor. Aos que lhe perguntam em que consiste a escrita, Virginia Woolf responde: Quem fala de escrever? O escritor não fala disso, está preocupado com outra coisa.»

Gilles Deleuze, "A literatura e a vida", in Crítica e Clínica, São Paulo: Ed. 34, 2004.

Ensaio sobre a cicuta: trailer

terça-feira, 19 de abril de 2011

cidade

I

em desequilíbrio para o primeiro oscilar do corpo
a queda veio mais tarde e pesada queda como
se fosses de pedra e todo o peso tombasse cego
se abatesse sobre o chão estás em desassossego
posta o que é coisa muito próxima da desgraça
na medida em que serve sua evocação
pensas, para com os botões da camisa
(vestiste-a apenas para urdir este verso),
que todas as coisas intoleráveis albergam
em si um peso insustentável mesmo e sobretudo
aquelas que não poderiam ser postas em balança

II

pesadas como açúcar ou quilo de farinha
que metafísicas angústias de comezinhas coisas
vão sendo com ironia arredadas todos o sabemos
e a pensar nestas coisas te consomes mordiscas
o lábio sem querer na boca o sabor acre do
sangue tentas o assobio assim o cortante som
atravessando o espaço viajando de uma ponta
a outra da noite onde poderia chegar o eco
a lugares de pedra a sítios onde nunca estiveste
e o som deixando-os iluminados como luzes trespassando
a lonjura o que o negro espesso do olhar alcança

III

divertes-te presa no diadelo que inventaste
tua gaiola de pássaro e sem phala insistes
naquele assobio com que calceteiros saúdam
as raparigas da primavera pérfido som nos lábios
de uma rapariga depois fechas os olhos
róis um pouco as unhas és reconduzida
de novo à altura que tens e estás sem phala

IV

sem phala e às vezes sem querer falar
de todo nem para enunciar o mais perene
desejo a mais urgente necessidade não falar
não dizer nada demissão de contacto
mas depois o coração preso no pulso desacelera
mordes os lábios pensas que somos quase
próximos como irmãos gente do mesmo sangue


V

mas por vezes fechas os olhos atravessas
a cidade este amparo terno dos lugares
que nos alcançam quase como a impressão
de dois corpos quando a lado adormecem
se apagam como longos dias redundando
em cansaço e sono de púrpura assim às vezes
na solidão no extremo silêncio no extremo
cansaço na perfeita aporia profunda desolação

VI

assim às vezes o meu espanto terno e triste
ante as coisas de pedra feitas saudade
de todos os lugares onde estive de quartos onde
dormi de passeios onde com ou sem tristeza
pensei que é sem peso a minha sombra
de como senti que o nó que me prende
à terra mãe pela garganta me prende
e senti pela primeira vez e muito jovem

VII

e senti pela primeira vez e muito jovem
a sede de abdicar como ambição como
aquele archeiro grego e experiente que
na lonjura não vê mas sabe do outro que
é o mais forte o calcanhar abdicar como
quem baixa a voz para acompanhar a mais
suave nota na canção favorita abdicar
e pude finalmente misturar-me contigo
misturar-me com as coisas que me rodeiam


VIII

falo-te das ruas concretas vermelhas e castanhas
dessa cidade em que entrei ainda não tocada
por amargo desespero essa que seguirá confundindo
segando baralhando e tornando a dar os fios
com que a vida se trama talvez até regressarmos
à simplicidade do primeiro som à primeira letra
talvez só analogia possível de princípio porque
nunca nada fica em branco uma vez nomeado
talvez só analogia de princípio um pouco como
de deus o jovem espanto diante das letras da Torah

Tatiana Faia

Le Dernier Métro, François Truffaut, 1980

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Auden, Entrevista à Paris Review, 1972





















Entrevistador: Do you have any aids for inspiration?
Auden: I never write when I’m drunk.
(...)
Entrevistador: Have you read, or tried to read, Finnegans Wake?
Auden: I’m not very good on Joyce. Obviously he’s a very great genius—but his work is simply too long.
Gamado daqui.

domingo, 17 de abril de 2011

Monograma


















Hei-de lamentar-te sempre – ouves-me – a ti
apenas, no Paraíso

O destino, como agulheiro, em outra direcção
há-de virar as linhas das palmas das mãos
O tempo há-de conceder um momento

De que outro modo, desde que os homens amaram

O céu simularia nossas entranhas
A inocência golpearia o mundo
Com a foice do negrume da morte

II

Lamento o sol e lamento o tempo que vem
Sem nós e canto todos os que passaram
Se isto é verdade

Os corpos falados e os barcos que docemente deslizam
As guitarras que tremeluzem debaixo de água
O «acredita em mim» e o «não»
Um no ar e outro em música
Ambos pequenos animais, as nossas mãos
Que tentaram tocar-se em segredo
Os vasos de flor na sombra dos portões abertos do jardim
E as partes do mar que se uniram
Para lá dos muros de pedra, para lá das vedações
A anémona que permaneceu na tua mão
E a sua púrpura por três vezes por três dias tremeu acima
da queda de água

Se isto é verdade canto
A trave de madeira a imaginada tapeçaria quadrada
Na parede, a sereia de soltos cabelos
O gato que nos estudou na penumbra
A criança com incenso e com vermelha cruz
A hora em que anoitece sobre as rochas inacessíveis
Lamento a veste que me toca e o mundo que me alcançou

III

Falo também de mim e de ti
Porque te amo e por amor sei
Entrar como a lua cheia
De toda a parte, em torno do teu pequeno pé nos lençóis inacabáveis
Como colher o jasmim – e eu tenho o poder
De fazer soprar o vento e levar-te adormecida
Através das passagens da lua e das secretas colunas do mar
Hipnotizada árvore de prateadas aranhas
Ouviram falar de ti as ondas
Como acaricias, como beijas
Em redor do pescoço na enseada
Como sussurras o «quê» e o «eh»
Sempre nós a luz e a sombra
Sempre tu a pequena estrela e sempre eu a escura nau
Sempre tu o porto e sempre eu a lanterna à direita
O cais molhado e o brilho incidindo nos remos
Alto na casa de muitas vinhas
As rosas amarradas e a água que refresca
Sempre tu a estátua de pedra e sempre eu a sombra que cresce
Tu a persiana pendente eu o vento que a abre
Porque te amo e te amo
Sempre tu a moeda e eu a devoção que lhe dá valor

Tanta a noite, tanto o clamor do vento
Tanta a neblina do ar, tanta a quietude
Em torno do mar déspota
Arca celeste plena de estrelas
Tanta a tua respiração mínima

Que já nada mais me resta
Entre estas quatro paredes, o tecto, o chão,
Excepto chamar-te e acertar-me a minha própria voz
Sentir o teu odor e os homens temerem
Porque os homens temem
o que não foi tentado e o estrangeiro e é cedo, ouves-me
É ainda cedo neste mundo meu amor

Para falar de ti e de mim

IV

É ainda cedo neste mundo, ouves-me
Ainda não amansaram as feras, ouves-me
O meu sangue desperdiçado e aguçado, ouves-me, faca
Como carneiro correndo através dos céus
Quebrando o rasto de cometas
Sou eu, ouves-me
Amo-te, ouves-me
Abraço-te e levo-te e visto-te
O branco vestido de Ofélia,
Onde me abandonas e onde vais e quem, ouves-me,

Segura a tua mão acima da destruição

Das chamas enormes e da lava vulcânica
E virá o dia, ouves-me,
Em que nos hão-de sepultar, e um milhão de anos mais tarde
Quando formos fósseis reluzentes, ouves-me
Para serem polidos pela indiferença, ouves-me,
Dos homens
E quando ela nos lançar em milhares de pedaços
Nas águas um por um, ouves-me
Eu conto meus amargos seixos, ouves-me
E o tempo é uma grande igreja, ouves-me
Onde outrora as imagens
Dos santos
Choraram verdadeiramente, ouves-me
Os sinos dobram alto, ouves-me
Atravesso um vau profundo
Anjos esperam com velas e fúnebres salmos
Eu não vou a lugar nenhum, ouves-me
Um de nós apenas ou ambos, ouves-me
Esta flor da tempestade e, ouves-me
Do amor
De uma vez por todas a apanharemos
E não tornará a ser flor em parte nenhuma, ouves-me
Noutra terra, noutra estrela, ouves-me
Não existe chão, não existe ar
Que tenhamos tocado, o mesmo, ouves-me

E nunca nenhum jardineiro foi tão afortunado

Que tivesse gerado de semelhante inverno e de semelhantes ventos de norte, ouves-me
Semelhante flor, só nós, ouves-me,
No meio do mar,
Apenas pelo desejo do amor, ouves-me
Erigimos uma ilha inteira, ouves-me
Com grutas e cabos e fragas em flor
Ouve, ouve
Aquele que fala no meio das águas e aquele que grita – ouves?
Sou eu que chamo e sou eu que grito, ouves-me
Amo-te, amo-te, ouves-me

V

De ti falei em tempos antigos
Com sábias amas e rebeldes veteranos
De onde vem a tua tristeza feroz
O brilho da água que no teu rosto cintila
E porque, diz-se, tenho de vir até ti
Eu que não quero o amor mas quero o vento
Mas quero do descoberto e vertical mar o galope

E ainda ninguém tinha ouvido falar de ti
Nem o ditamno nem o cogumelo selvagem
Nas terras altas de Creta, ninguém
Só deus concede e conduz minha mão para ti

Aqui, ali, cuidadosamente a toda a volta
Da margem do rosto, da enseada, do cabelo
Na colina que ondula para a esquerda

O teu corpo na atitude de um solitário pinheiro
Olhos de orgulho e diáfana
Profundidade, na casa com uma velha cristaleira
De amarelas rendas e madeira de cipreste
Sozinho espero para ver onde primeiro surgirás
Ao alto na varanda ou sob as pedras do jardim
Com o cavalo do santo e o ovo da páscoa

Como um mural destruído
Grande como te quis a pequena vida
Para conter numa pequena vela o efervescente brilho vulcânico

Assim nunca ninguém terá visto ou ouvido
Nada acerca de ti na devastação de casas delapidadas
Nem o antepassado sepultado no extremo do jardim
De ti, nem a velha com todas as suas ervas

De ti, só eu e talvez a música
Que em mim se esconde mas que regressará mais forte
De ti, o não crescido peito de doze anos
Virado para o futuro e para a vermelha cratera
De ti, um odor acre encontra o corpo
E como um alfinete perfura a memória
E aqui o solo, aqui as pombas, aqui a nossa terra antiga


VI

Vi muitas coisas e à minha mente a terra parece mais bela
Mais bela na respiração de ouro
A aguçada pedra, mais bela
O escuro azul dos istmos e os telhados que pontuam as ondas
Mais belos os raios onde passas sem pisar
Invicta como a deusa de Samotrácia sobre os cumes do mar

Assim eu te vi e isso basta
Porque tudo e o tempo serão exonerados
No rasto da tua passagem
A minha alma como golfinho verde prossegue

E brinca com o branco e com o azul

Vitória, vitória onde fui vencido
Antes do amor e próximos
No hibisco, na flor-de-maracujá
Vai, vai e deixa-me perder-me

Só, e deixa o sol ser como recém-nascido que seguras
Só, e deixa-me ser como pátria que se lamenta
Como a palavra que enviei para por ti segurar a folha do loureiro
Só o vento forte e só o perfeito
Seixo sob a pálpebra da profunda penumbra
O pescador que pescou e de novo lançou ao tempo o Paraíso

VII

No Paraíso assinalei uma ilha
Semelhante a ti e uma casa junto ao mar
Com uma cama larga e uma porta estreita
À profundidade lancei um eco
Para que a cada manhã me veja quando acordo

Em parte para te ver passar através das águas
Em parte para te chorar no Paraíso

Odysséas Elytis

*********

A versão que aqui apresento é minha, feita a partir do original grego. Importa avisar que o meu conhecimento do grego moderno é ainda incipiente, e que é muito provável que em alguns pontos existam imprecisões ou mesmo erros. Onde a minha dúvida persistiu, comparei a minha versão com traduções inglesas. O original grego pode ser lido aqui. Monograma foi originalmente publicado em 1972.

Caminhos de Floresta

There are books the sentences of which resemble highways, or even motor roads. But there are also books the sentences of which resemble rather winding paths which lead along precipices concealed by thickets and sometimes even along well-hidden and spacious caves. These depths and caves are not noticed by the busy workmen hurrying to the fields, but they gradually become known and familiar to the leisured and attentive wayfarer. For is not every sentence rich in potential recesses? May not every noun be explained by a relative clause which may profoundly affect the meaning of the principal sentence and which, even if omitted by a careful writer, will be read by the careful reader? Cannot miracles be wrought by such little words as "almost," "perhaps," "seemingly"? May not a statement assume a different shade of meaning by being cast in the form of a conditional statement? And is it not possible to hide the conditional nature of such a statement by turning it into a very long sentence and, in particular, by inserting into it a parenthesis of some length?

Leo Strauss. Persecution and the Art of Writing. Chicago University Press: 1952



Paulo Tavares: «um e-mail sem resposta»

Reproduzo um e-mail de Paulo Tavares para Francisco Vale, editor da Relógio d'Água, publicado originalmente aqui. Estas situações não são invulgares com a editora em questão. Sei-o por experiência própria. Não são, também, exclusivas da editora em questão, sendo estranhamente vulgares no panorama editorial português.

Caro Francisco Vale,

No final de Março de 2010, um ano depois de eu ter deixado um original de poesia na Relógio d’Água, e depois de um período de seis meses em que fiz vários telefonemas para tentar obter uma resposta vossa, o senhor ligou-me, dizendo que o original lhe tinha suscitado interesse, mas que, em virtude do excesso de publicações para aquele período, só em Setembro desse ano poderíamos combinar a publicação do original em questão. Ficou o Francisco Vale de me contactar em Setembro, para combinarmos uma reunião.

No entanto, em Setembro não me ligou. No final de Outubro, liguei eu para a Relógio d’Água. De lá até ao presente mês (estamos em Abril, tendo passado mais de dois anos desde que vos entreguei o original), foi seguramente mais de uma dezena de vezes aquelas em que tentei entrar em contacto com o senhor, pois, segundo me informaram, era a única pessoa que me poderia dizer alguma coisa. A sua secretária, sempre lacónica, foi-me dizendo que o Francisco Vale me ligaria de volta nesse dia ou no dia a seguir, sem que tal alguma vez se tivesse vindo a verificar. Deixei-vos o meu contacto também em diversas circunstâncias. Neste largo período, passei duas ou três vezes pela Relógio d’Água, uma dela com o senhor nas instalações, tendo-me sido dito que não me poderia receber, mas que me ligaria ainda nesse dia. Perpetuando o absurdo, nunca me chegou a ligar. Julgo que estaria à espera que eu ganhasse alguma percepção do ridículo da situação e nunca mais vos incomodasse.

Acontece, Francisco Vale, que o incómodo é todo meu. Se continuei a telefonar para a RA e a insistir numa resposta, foi porque considero que todo o autor a merece (já nem digo no máximo de seis meses, como o senhor escreveu algures), independentemente de ser positiva ou negativa, e porque julgo não ser pedir muito o brio profissional e algum sentido de responsabilidade. Talvez as pessoas se resignem com a falta de resposta de editoras ditas de referência como a do senhor (que advoga uma coisa em livros e artigos e depois pratica outra) e acabem por desistir de obter um feedback junto delas, achando que tal é “normal”, ou que o problema fundamental reside nas suas próprias obras, e, infelizmente, contribuindo também assim para a naturalização deste tipo de comportamento.

Mais do que repúdio, Francisco Vale, é decepção aquilo que sinto em relação à Relógio d’Água e ao senhor. E, dito isto, tendo numa das últimas vezes que telefonei para a vossa editora solicitado a devolução do original, continuo sem um contacto da sua parte que me explique e justifique a passagem de um interesse de publicação a uma total ausência de resposta, explicação essa que julgo fundamental para encerrar este caso.

Sem mais, subscrevo-me,

Cordialmente,

Paulo Tavares

sábado, 16 de abril de 2011

Countdown

Para se ensaiar sobre a cicuta.

Les Dionysiaques n'auront pas lieu

In posing the alternatives "Dionysos or Christ", [Nietzsche] selected —whether correctly or incorrectly— the 
god who struck him as compatible with his radical atheism.
Karl Kerényi. Dionysos: Archetypal Image of Indestructible Life


Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος, καὶ ὁ Λόγος ἦν πρὸς τὸν Θεόν, καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος. 
No princípio era o Verbo, e o Verbo era junto do Deus, e Deus era o Verbo.
Evangelho Segundo João. 1.1

 Διόνυσος δὲ νυκτὸς ἀπήγαγε τὴν Ἀριάδνην εἰς τὸ ὄρος τὸ καλούμενον Δρίος, καὶ
ἐν ἀρχῇ μὲν ἠφανίσθη ὁ θεός, μετὰ δὲ ταῦτα καὶ ἡ Ἀριάδνη ἄφαντος ἐγενήθη.
Diónysos conduziu Ariadna para a montanha chamada Drío, e
No princípio desapareceu o Deus, e depois disso Ariadna desapareceu também.
Diodoro Sículo. Bibliotheca Historica. 5.51.4



Se demorasse mais tempo a fazer um primeiro post ainda me arriscava a que a Tatiana, Zé, & Co. me expulsassem. Consta-me ainda que há uma Ariadna neste blog.

Boa

XII

Para ganhar algum dinheiro
além do que lhe dão aos fins-de-semana,
o filho mais
novo da casa trabalhou durante as férias

deste verão na colheita da maçã
num pomar próximo. Cansado,
ao fim do dia de agosto - Pai, a
mais vermelha maçã

a mais perfeita, a mais doce maçã
ficou no ramo mais alto, não pude
apanhá-la. Ao regressar ainda a
olhei. O último raio de sol confundia

o rubro da cor, a líquida polpa
o cheiro, quase um cantar - Pai, o corvo,
com o bico preto,
desfazia-a, estava a feri-la sob o esplendor negro da asa.

João Miguel Fernandes Jorge/João Cruz Rosa, Mãe-do-Fogo, Relógio d'Água, 2009

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Isto é para ti, o resto está no YouTube



"It's a Wonderful Life didn't do very well (...) But it's my favorite picture and was Frank Capra's."

Obrigada, Judite

“Não dormem aqueles a que devo o que sou; meu avô arranjou a fortuna que tenho e que não aumentei, pelo contrário; devia pôr de parte tudo que não dá lucro, foi o que ele me disse pouco antes de morrer, e não tive tempo nem força para isso; velho, tinhas razão; eu te procuro nos indecisos edifícios de névoa da memória e de ti o que encontro é só silêncio, um silêncio que parece nem respira e que de quando em vez por entre o árduo fôlego consente umas palavras antigas e serenas, de quem usou a vida para saber a verdade, talvez tão-só a sombra da verdade, mas uma sombra verdadeira, não ilusória como a de quase todos nós, teus descendentes; escuto tua voz vaga entrecortada de asma e a tua saudade dum mundo que morreu acende mal e brevemente, vem-me a ilusão de procurar um firme estádio neste mundo quando tudo mudou e vai ficar para quem?”

Almeida Faria, A Paixão, Editorial Caminho, 1986 (8ª edição)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Assim

Carpe diem























Os dois descalços na calçada de pedra preta, braços em torno dos ombros. Olham para as sapatilhas penduradas na corda. Um diz: E agora como é que as tiramos de lá? Esta alegria a nada presa que a primavera traz com o seu contágio de todas as cores, de todas as flores, mesmo quando na cidade por estes dias a estação nova parece coisa menor porque tudo devia ser caso melancólico e triste. Nós passamos. Às vezes passamos pelas coisas mais penosas (não as mais dolorosas, nessas submergimos quase histericamente) e é só esta travessia onde o nosso coração não se prende, não se quer prender, porque a sua âncora são outras coisas, porque por vezes ainda somos melhores que as nossas circunstâncias, recusamo-nos a que elas nos definam. Que sejam elas a dizer-nos és isto ou és aquilo. E nós para elas: não, merda, não.
***
No ferry entre Paros e Naxos imaginei que havia uma hora em que podia dizer, respondendo à pergunta de um estranho, écheis óra?, e desprezando o relógio, ochi, den echo óra. Por vezes isto, não estar preso ao tempo, à circunstância, poder só olhar em frente. Uma pausa para respirar rente ao oceano, mesmo onde a orla da espuma rasa a areia. Depois regressaremos. Resistir sem grande alarido, pacientemente.
***
Acho que perdi nesse ferry as últimas dracmas que tinha, em Naxos passei fome antes do regresso. Mas é de outras coisas que tenho medo: como as garras cortadas, o rádio desligado, ficar sem música (o que invalidaria para sempre a hipótese do verso let's dance to keep the fear away). Vital é renunciar a que outros nos façam demasiado tristes com o nosso curvado e amarelo aceno de profunda concordância e manso assentimento. Porque se Heitor ainda disse a Andrómaca, quando pela última vez a viu nas muralhas de Tróia: Mulher maravilhosa, não me entristeças demasiado o coração, não há homem que contra a vontade do destino à própria morte escape. Porque se esse homem não há, nunca houve, então isto é a maneira de dizer, como Marguerite Yourcenar nas últimas linhas de Memórias de Adriano, Entremos na morte de olhos abertos.
Que é como quem diz uiuamos atque amemus, rumoresque senum seueriorum omnes unius aestimemus assis, soles occidere et redire possunt, nobis cum semel occidit breuis lux, nox est perpetua una dormienda.

Não é o meu gato, mas podia ser

X, 120

O mundo
está nas imediações do nada,
a desordem
é um prenúncio,
e o inferno
torna-se indispensável
em certas semanas
monótonas.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Editorial Caminho, 2010.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ideia romântica

Simplificação: Aristóteles, que escreve na Retórica que a maior parte das pessoas são estúpidas e só não praticam o mal se não puderem (livro I, livro II, passim), também escreveu na Ética a Nicómaco que não se pode escolher o bem em causa própria sem ter o bem de outros como fim. A primeira coisa não invalidava a possibilidade da justiça e do bem. Aristóteles deveria querer dizer não que se lixassem os estúpidos e os maus, mas que o potencial para o bem era intrínseco à vida em comunidade. (Platão é outra conversa.) Quintiliano, por sua parte (Institutio Oratoria, Livro II?), defendia que à maior parte das pessoas a maior parte das coisas podia ser explicada e por elas compreendida. A mesma ideia estaria eventualmente implícita na formulação de Aristóteles e penso que é por isso que o seu primeiro juízo não invalida o segundo. Em ambos acho que fica implícita outra ideia, base destas, que é a noção, romântica talvez, de que o coração dos homens, para o bem e para o mal, é muito vasto.
Ainda assim, implícita na ideia de que a justiça se exerce com outros e visa o bem de outros, está a sua contrária, a de que injustiça também se exerce com outros e para o mal de outros. How fucked up is that?

a rua das musas

Numa palavra, o que eu desejaria (porque gosto de ser franco em assuntos de tanta importância para o meu País) é que se algumas travessas e becos desta cidade fossem transformados, a expensas do público, em aposentos das musas (como em Roma e Amesterdão existem as ruas das mulheres), reservados aos nossos belos talentos e guarnecidos do necessário: autores, revisores, tipografias, impressores, vendilhões, lojas e armazéns, abundância de águas-furtadas e outros instrumentos e acessórios do espírito. A vantagem disto seria, é evidente, passarmos a ter um repositório seguro para as nossas melhores produções, que passam hoje de mão em mão em simples folhas impressas ou manuscritas, com o risco de se perderem (o que seria forte pena) ou, pelo menos, de se verem sujeitas, tal o seu desnudamento, a sofrer, como as mulheres belas, os mais graves insultos.

Jonathan Swift, «Carta de Aviso a um Jovem Poeta», Preceitos para Uso do Pessoal Doméstico e Outros Textos, tradução de João Fonseca Amaral, Editorial Estampa, Lisboa, 1986

Três poemas meus

Na edição online da Modo de Usar & Co.

Colaboradora nova

Bem-vinda, Ariadne.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Conservatives

Except for those conservatives who insist on Mosaic authorship of the Pentateuch (thereby giving Moses the unique privilege of recording is own death in Deut. 34.5-8), scholars of all critical schools agree that the Exodus account as it stands today is a composite, a literary construct [...]

Carol A. Redmount, "Bitter Lives", The Oxford History of the Biblical World, Oxford University Press, 1998

Eu interpreto, tu interpretas, ele interpreta

The eighteenth-century holy woman Giovanna Solimani permitted pilgrims to insert special keys in her hands’ wounds and to turn them, reportedly facilitating the pilgrims’ own recovery from rationalist despair.

David Foster Wallace, "Backbone", in The New Yorker, 07/03/11.

O resto está aqui.

De Alexandria

[...]
I think of you - indeed mostly of you,
In whom a writer would only name and lose
The dented boy's lip and the close
Archer's shoulder
[...]

Lawrence Durrell, Selected Poems, Peter Porter (ed.), Faber & Faber, 2006

"The Last Picture Show" de Peter Bogdanovich, 1971

Cidade que se preze tem arquivo e daimon

If Mnemjian is the archives of the City, Balthazar is its Platonic daimon — the mediator between its gods and its men.


Lawrence Durrell, The Alexandria Quartet, Faber & Faber, 2009

segunda-feira, 11 de abril de 2011

"Confessions of a dangerous mind" de George Clooney, 2002

Nadar no Tibre

Horácio, o poeta latino, costumava dizer que as armas dele eram as palavras. Chegou a ter de procurar um jurisconsulto porque o uso que fazia das suas armas o havia metido em sarilhos. O jurisconsulto aconselhou-lhe que deixasse de escrever. Horácio disse-lhe: caro Trebázio, não pode ser, se deixo de escrever deixo de dormir. Ao que Trebázio lhe responde: então deixa-te de sátiras, escreve uma épica, honra Augusto. Horácio contrapõe: Meh, gasp, épica não é o meu tipo de coisa. Sabe-se que Horácio recebeu o perdão de Augusto e viveu em cordiais relações com o imperador, mas nunca aderiu verdadeiramente ao seu plano político, o que é honesto, tendo em conta que na juventude Horácio tinha combatido em Filipos no partido de Bruto e Cássio - Horácio diz ainda a Trebázio que sempre preferiu escrever poesia em contraponto à épica, que é a forma que lhe convinha. Então Trebázio responde: vai nadar para o Tibre, nadar no Tibre é o que tu precisas, isso há-de dar-te sono.
Bom, perdeu-se um potencial nadador da Antiguidade.

Para os românticos que visitam este blogue

o ofício da musa

Enfim, será da maior sabedoria começar por conseguir, a tempo, um bom ofício para a sua musa, de acordo com a habilidade e aptidões dela: pode ser leiteira, cozinheira, ou mulher a dias; quero dizer, alugar a pena a um partido que lhe garanta salário e protecção; e quando se tratar da saída de um livro seu (como isso demorará) arranje um daqueles amigos importunos que lhe arranque as produções com simpática violência; as quais, de acordo com o combinado, deverá entregar «digito male pertinaci»: é uma atitude decente, como prova de modéstia, porque convém tanto a um autor tomar parte na publicação das suas obras como a uma mulher, em trabalhos de parto, desembaraçar-se sozinha.

Jonathan Swift, «Carta de Aviso a um Jovem Poeta», Preceitos para Uso do Pessoal Doméstico e Outros Textos, tradução de João Fonseca Amaral, Editorial Estampa, Lisboa, 1986

On Ithaca Standing (1937)

Tread softly, for here you stand
On miracle ground, boy.
A breath would cloud this water of glass,
Honey, bush, berry and swallow.
This rock is then more pastoral, than
Arcadia is, Illyria was.

Here the cold spring lits on sand.
The temperature of the toad
Swallowing under a stone whispers: 'Diamonds,
Boy, diamonds, and juice of minerals!'
Be a saint here, dig for foxes, and water,
Mere water springs in the bones of the hands.

Turn from the earth of the hero. Think:
Other men have their emblems, I this:
The hearts dark anvil and the crucifix
Are one, have hammered and shall hammer
A nail of flesh, me to an island cross,
Where the kestrel's arrow falls only,
The green sea licks.

Lawrence Durrell, Selected Poems, Peter Porter (ed.), Faber & Faber, 2006

domingo, 10 de abril de 2011

Meet the People's Front of Judae


Life of Brian dos Monty Python's, realizado por Terry Jones (1979).

The King of Comedy (1983)


Ainda Lumet

Eduardo Pitta pergunta-se, em Da Literatura, se terá morrido, em Sidney Lumet, o último clássico. É daquelas perguntas que são injustas para nomes como Godard, Ettore Scola, Martin Scorsese, Stanley Kubrick, ou mesmo um realizador que acho que pertence muitíssimo à mesma tradição de Lumet, que é Clint Eastwood (que como todos sabemos a seguir ao último dos Dirty Harry foi raptado por ET's e condenado a realizar filmes no mínimo bons até ao fim dos seus dias). Diria ainda que, só para citar nomes de língua inglesa, tenho muita esperança no trabalho de realizadores como James Gray, Christopher Nolan ou os irmãos Coen, só para citar alguns. Creio que todos estes se hão-de tornar clássicos, se é que não o são já (os Coen pela quantidade e pela qualidade acho que estão para lá de confirmados). Além disso, os clássicos na verdade nunca morrem.

Mad as hell


Sidney Lumet (1924-211), Network, 1976.

Sidney Lumet

sábado, 9 de abril de 2011

Mischa, Jascha, Toscha, Sascha

Li algures que houve um showdown de virtuosos - violinistas, bem entendido - nos anos 50 entre os Estados Unidos e a União Soviética. Parece que a coisa se resumiu a ver quem tinha os melhores judeus de Odessa.

o sacerdócio da poesia

Na verdade, como outrora ser poeta e sacerdote eram uma e a mesma função, a aliança desses ministérios mantém-se, felizmente, nas mesmas pessoas; esta, suponho, a única razão defensável para o chamamento que eles tanto prezam, quero dizer, o modesto título de «divino poeta». Seja como for, por jamais ter assistido a uma cerimónia de ordenação no sacerdócio da poesia, confesso não ter a menor ideia da coisa, pelo que nada mais posso dizer aqui.

Jonathan Swift, «Carta de Aviso a um Jovem Poeta», Preceitos para Uso do Pessoal Doméstico e Outros Textos, tradução de João Fonseca Amaral, Editorial Estampa, Lisboa, 1986

Voltar

Porque uma estúpida (instintiva, anterior à inteligência) vontade nos une a tudo o que nos prende (porque como dizia Calasso tudo o que nos prende é um laço), quando morrer farei como Sophia, e voltarei aqui para reclamar todos os instantes que não vivi junto do mar. Não tanto por estúpida teimosia quanto por uma ideia de plenitude imperfeita, que me liga aos lugares, às pessoas que amo, com uma ternura um pouco dilacerada, solene no sentido de leal e não no sentido de chata, insone, quase triste às vezes porque a sei condenada.
Nesta teimosia e sentido de plenitude imperfeita, aquilo que de outra forma fez Agustina escrever que a poesia é a mais estranha das actividades humanas porque é a única que é consagrada ao conhecimento da morte (aquilo que às vezes te dá a impressão que vais a andar e podias de repente sair do teu corpo, encarares-te de frente e dizeres não importa, porque eu sou do mundo e o mundo é meu, aquele que se contém nas paredes da minha vida), esse sentido de teimosia e compromisso, plenitude imperfeita, é também o que coloca a poesia um instante antes da inteligência, é o que a afasta para sempre da retórica, é o que lhe permite passar para outros géneros e sobretudo para o mais literário dos géneros, a vida.

Nemea (1940)

A song in the valley of Nemea:
Sing quiet, quiet quiet here.

Song for the brides of Argos
Combing the swarms of golden hair:
Quiet quiet, here.

Under the rolling comb of grass,
The sword outrusts the golden helm.

Agamemnon under tumulus serene
Outmiles the jury of skeletons:
Cool under tumulus the lion queen:

Only the drum can celebrate,
Only the adjective outlive them.

A song in the valley of Nemea:
Song quiet, quiet, here.

Tone of the frog in the empty well,
Drone of the bald bee on the cold skull,

Quiet. Quiet. Quiet.

Lawrence Durrell, Selected Poems, Peter Porter (ed.), Faber & Faber, 2006

De Bloom

O mundo que nasce é de imediato atacável, e assim está bem.
Bloom, contou Anish a Shankra, não gosta que os factos
de uma semana rimem entre si. Agrada-lhe a surpresa,
tanto mais quando ela surge no último instante.
Às 23 horas e cinquenta minutos
o dia ainda tem 10 minutos para explodir
indiscretamente. Nada é firme antes de terminar.
E depois de terminar, tudo morreu. A firmeza
e a imortalidade não existem porque são o mesmo
e nenhuma existe.


Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Canto VII, est. 71, Editorial Caminho, 2010.

Mais um

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Matrimonio all'italiana (2)



Queria pôr aqui a cena do frigorífico (quando o Mastroianni diz à Sophia Loren para dançar à luz do frigorífico: mais romântico), mas não a encontrei. Esta é a cena final. Este filme é uma light-hearted heart destruction italian style com final feliz. O filme inteiro está aqui.

Uma variação sobre Sócrates

Pertenço infelizmente àquela casta de idiotas que acha que qualquer forma de conhecimento que se possa adquirir é sempre limitada (nunca saberemos tudo de tudo, académica e vivamente falando) e que o que sabemos nunca deve ser feito ou julgado forma de poder, vantagem ou nobilitas sobre terceiros. O pouco que sei, a mim, serve-me para medir mais a minha ignorância do que para enfiar em relevo o aprendido, limitado que sei que está à partida, pois que nunca será tudo. Desta forma, de volta a Sócrates e à Apologia de Sócrates: só sei que nada sei. Na escola aprendi grego, com o meu tio a jogar à malha, ambas as coisas por acaso me têm dado jeito e alegria, nunca vi em nenhuma delas sobre outros vantagem e no dia em que tiver de o fazer, acabou, desisto. No que podemos saber está a alegria da partilha, da troca, o que sabemos torna-se pesado cadáver quando o queremos lançar à cara de outros como um peso, como humilhação por não o saberem. O que é realmente a sabedoria e onde está?, porque não está aí.

Finis

There is a great heart-break in an evening sea;
Remoteness in the sudden naked shafts
of light that die, tremulous, quivering
Into cool ripples of blue and silver...
So it is with these songs:
........................................the ink has dried,
And found its own perpetual circuit here,
Casts its own net
Of little, formless mimicry around itself,
And you must turn away smile...
..................................................and forget.

Lawrence Durrell, Selected Poems, Peter Porter (ed.), Faber & Faber, 2006

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Da autojustificação

Ésquilo estava errado

Estr. 2

Certa vez um homem criou

___em sua casa um pequeno leão privado do leite materno

______[mas ainda desejoso de mamar,

no prelúdio da sua vida 720

era dócil, amigo dos pequenos,

e causa de alegria para os anciãos.

Muitas vezes o segurava nos braços

como a um filho recém-nascido

e ele, de olhos brilhando postos na mão, abanava a cauda

______[com a necessidade do ventre. 725


Ant. 2

Com o passar do tempo mostrou

___a natureza herdada de seus pais: em agradecimento aos que o criaram,

juntamente com uma horrenda matança de gado, 730

preparou, sem ser convidado, um festim,

a casa ficou manchada de sangue,

uma dor inelutável para os seus habitantes,

imensa desgraça de muitas mortes –

por desejo de um deus um sacerdote da Ruína foi criado na casa. 735


Ésquilo, Agamémnon, 717-736 (a tradução é minha a partir do texto grego fixado por M.L. West)


Bem-vindos

Ontem juntaram-se-nos mais dois colaboradores o Miguel Monteiro e o AJTR. As boas-vindas em nome da gestão deste tasco. Falando em tasco, isto quase que consegue ser melhor que o Casablanca dobrado.

Ténis

terça-feira, 5 de abril de 2011

la valetta

I

na pouca luz conversam
palavras acesas candeias
os rostos vagos indefinidos
submersos na música gasta a agulha
contra o disco que oscila na sua órbita
um deles faz desaparecer na mão uma moeda
um truque distraidamente despendido
as mãos do outro apontam para o vazio
conversam esgrimem combatem
às vezes um deles levanta um pouco a voz
asa pequena asa sem golpe se insinua
o cigarro entre os dedos segurado conversam

II

manhã outro quarto desenhado noutra
cidade ainda ensonada deitando fora
o que restava do chá na caixa de lata
uma folha dourada se desperdiça
contra o fundo negro da caixa entre
negras aparas o desenho preciso do que fora
perdendo a planta agora arrancada
lançada para o cesto de papéis o cheiro
das aparas chá preto o rosto do outro
luminoso concreto num recorte contra
o negro assim a memória fala e por vezes
mas muito raramente insiste em cantar

III

la valetta como duas ruas que descem e se bifurcam
num plano de mar ao fundo nem sempre sabes
porque insistes na próxima cidade digamos
um hábito de prelúdio e fuga como se a vida fosse
coisa de ser convertida em música o vício de
constantemente deixar cada coisa para trás
uma conversa que o caminho não rasga corta
interrompe uma pausa de dois segundos
como luz respirando nas acesas candeias
das palavras se descolam as paredes vermelhas
de veludo o bar dois homens conversando


IV

dele o rosto quase feminino loura barba
um viking cuja voz é de água ténue traço
mas irrespirável cada palavra selada sala
se alguma vez por um braço fosses levada
pelo escuro aos tropeções esta seria
a impressão mais tarde guardada hesita
demasiado quando fala garatuja num papelucho
descorçoados versos coisas sem sentido
coordenadas de um lugar para mais tarde
ou para nunca para nunca é onde fica
o inferno dos indecisos e eles amam-no
descorçoados versos escritos com a vaga
graça com que a corça pisa a proximidade
da água mas o rapaz escreve-os furtivo
como se não os sentisse ligados à vida
queixume sem consequências onde não
poderia sequer guardar a própria sombra

V

a mágoa esconde-se noutro lugares
às vezes não nos prende a ninguém
aloja-se nas articulações no branco
silêncio dos ossos no correr do sangue
segue desenha-se próximo da próxima
cidade contém-se no modo como
o corpo hesita num movimento preso
entre uma e outra esquina os gatos
de la valetta contra o ocre das paredes
estendem-se ao sol levantam-se
como tigres preguiçosos para ensaiar
a travessia de uma rua por indolente
instinto se movem como se no seu
movimento te concedessem alguma coisa
a irreversibilidade de um ritmo lento
uma forma terna de música um modo
de pisar o ritmo secreto que não guardas

VI

a travessia de uma rua virada para poente
como um laço ele segura na mão o cigarro
distraído sacode para o chão a cinza
semeia um rasto o vermelho de tabaco e papel
ardendo risca o escuro um risco cava-se na testa
mentalmente revolves esse gesto já distante
uma coisa que te foi dada e de novo negada
por indecisão uma discreta saudade do futuro

VII

por isso a próxima cidade porque o lugar
onde as coisas acontecem é sem raiz
e não pode ser aqui tem de estar no corpo
que se mova ou na mala de novo feita e desfeita
a saia com a rectidão de um gesto dobrada
uma parafernália de coisas que te rodeiem
objectos ditos indispensáveis a argumentação
da conversa não era objectiva como velha
fotografia guardada no bolso e já muito
amachucada estes amuletos que guardamos
não para falar da nossa vida mas para a manter
confinada como toda a conversa indispensável
que inevitavelmente confina com o silêncio
com a noite com a inarticulável sílaba
que exercesse sobre ti a cordial terna
conquista de uma breve certeza que te levantasse
um pouco do chão mas escapa-se sempre
com o mesmo vagar que te provoca
com o mesmo vagar de outrora
aquele que pressentiste nos gatos de malta

Tatiana Faia

O carro alegórico


«The soul of man, says Socrates, is not homogeneous, but has three parts, and he compares it to a team which we have to picture as a fighting chariot of the ancient world, with two horses and a charioteer. (...) When Eros enters the equation too, when the tripartite soul begins to love and catches sight of the beloved, the ill-matched team runs completely out of control. The bad horse races away like a beserker, has to be whipped frequently and forcibly restrained, leaving its sides sore and its mouth bleeding, until in the end it humbly obeys the charioteer and, like the good horse, hesitantly and modestly approaches the beloved. Once the beloved is wooed and won he or she, feeling love in return, will allow touching and kissing, and will finally sink down on a bed. And only now, so says Socrates and so writes Plato, "as they lie together, the unruly horse of the lover has something to say to the charioteer on the shared bed, and demands a little enjoyment in return for his many troubles."»


Patrick Süskind, Anthea Bell (trans.), On Love and Death, London: Old Street Publishing, 2006.

Winter elegy

how quick: the quiet avarice in whitening:
blackening, vanishing into furrows in the road a crow flock crumbles.
How clear my breath is on the pane. Fractured with violet, fields
wide, gaping. Parched ponds as docile
as if touched by gentle hands,
not bandages of frost.
The hills grow cold over the crowns of apples and alders,
in the window a light is lit in the distance. Sparks of warmth wander
into the ashes of dusk,
unthinking I break of a hunk of bread:

and we, how quick, into furrows of time, into mute
and like stones

Marzana Bogumila Kielar, New European Poets, traduzido do polaco por W. Martin, Kevin Pruffer (eds.), Graywolf Press, 2008

segunda-feira, 4 de abril de 2011

In saints not in mere lovers

I think often, and never without a certain fear, of Nessim's love for Justine. What could be more comprehensive, more surely founded in itself? It coloured his unhappiness with a kind of ecstasy, the joyful wounds which you'd think to meet in saints and not in mere lovers. Yet one touch of humour would have saved him from such dreadful comprehensive suffering. It is easy to criticize, I know. I know.

Lawrence Durrell, The Alexandria Quartet, Faber and Faber, 2009

Boas influências

















"There's something I want to say first: Stendhal wanted the following engraved on his tombstone: 'He adored Cimarosa, Mozart and Shakespeare.' On the same lines, I would like the inscription: 'He adored Shakespeare, Chekov and Verdi'." Luchino Visconti

eu sei que não devia, mas não resisti

Árvore

Uselessness

As for me I am neither happy nor unhappy; I lie suspended like a air or a feather in the cloudy mixtures of memory. I spoke of the uselessness of art but added nothing truthful about its consolations. The solace of such work as I do with with brain and heart lies in this - that only there, in the silences of the painter or the writer can reality be reordered, reworked, and made to show its significant side. Our common actions in reality are simply the sackcloth covering which hides the cloth-of-gold - the meaning of the pattern. For us artists there waits the joyous compromise through art with all that wounded or defeated us in daily life; in this way, not to evade destiny, as the ordinary people try to do, but to fulfil its true potential - the imagination.

Lawrence Durrell, The Alexandria Quartet, Faber and Faber, 2009

Ponto 0 - Iniciação

Aqui chegado, cumpridos meticulosa e esforçadamente os rituais iniciáticos, cabem-me agora o dever e a nobre responsabilidade de seguir a conduta e as leis por que a Irmandade se rege.
Sendo o meu primeiro juramento o de contribuir para o Labor apenas com o que de substancial, pertinente e dignificante haja no Mundo e que o meu julgo considere ou o meu engenho congemine.
Começo com bons auspícios para o devir e um agradecimento sentido à nossa Grã-mestra Tatiana Faia, de cuja benemérita boca recebi a senha que me permitiu aqui entrar.

Abre-te, Sésamo (+ palavra-chave ultra-secreta)!

domingo, 3 de abril de 2011

Ninguém pára colaborador novo

Neste domingo, em que trabalhar efectivamente me cansa, inicio as partilhas aqui no blogue. Com alegria no coração, como convém, e - bónus! - a letra a acompanhar.

Novo layout

A fotografia é do Ricardo Ávila.

Temos dois colaboradores novos

Com este também me dou bem, Amândio Reis.

Temos um colaborador novo

E um meu querido amigo, José Bértolo.

Ciclo da vida

Começar Claire Fisher, acabar Ruth Fisher.

sábado, 2 de abril de 2011

A força do que se espera indefinidamente

Da energia humana ninguém sabe nada ainda. Ela converte os homens em joguetes fantásticos, dá-lhes voz e razão, segreda-lhes as verdades ocultas no cosmos, e enche-lhes o vazio cérebro de respostas sublimes ao próprio destino. E faz com que a terra produza frutos maravilhosos, entre os quais a força do que se espera indefinidamente.

Agustina Bessa-Luís, Conversações com Dmitri e Outras Fantasias, Relógio d'Água, 1992

Qualquer coisa de mitológico























Agustina Bessa-Luís, Conversações com Dmitri e Outras Fantasias, Relógio d'Água, 1992

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Ténis




























Ontem, no treino de ténis (é verdade eu não passo só os dias em frente ao computador a fazer traduções de grego intervaladas por posts neste blogue e a adquirir o que um amigo meu em tempos canonizou na fórmula bronzeado de biblioteca), tive a estúpida sorte de fazer dois pontos a um tipo que é muito melhor jogador do que eu. O rapaz está ciente da sua superioridade, eu também e nunca nenhum de nós se tinha chateado com isso. Mas ontem com os dois pontos o tipo perdeu a cabeça e ao segundo ponto vira-se do fundo do court e diz: bem, que kaga.
E eu tenha a certeza que ele disse kaga com kapa porque foi uma coisa com um tremor de lábios e um encolher de frustração quase adolescente. Eu estava tão chateada que a minha primeira reacção foi replicar-lhe em adolescente jargão, vai apanhar morangos, amigo. E não propriamente apanhar morangos. Mas depois sou arrebatada por este momento de estúpida melancolia. Estou a bater a bola para o ponto seguinte e penso, bom, isto é a vida. Vais passar a vida a apanhar com bolas que não terás como bater em resposta, bolas que mesmo que as tenhas batido como devias vão morrer na rede, vais passar a vida a correr para bolas que morrerão à tua frente num último embate seco no chão, all the world is a stage dizia Shakespeare, mas Shakespeare nunca tinha visto um jogo de ténis, porque se o mundo inteiro é um palco, ele poderia ter dito, a vida inteira é um jogo de ténis.
Perdi o ponto seguinte e o jogo, o que me chateia à brava (há na minha turma um tipo que é o Mercúcio, perder com o Mercúcio não me chateia, mas este rapaz é um Iago e chateia-me saber que o Iago sentiu que lhe tinha sido feita justiça ao derrotar-me, a mim que não sou par para ele, talvez para uma ovelha munida de uma raquete, mas não para ele), o mundo tornou a fazer-lhe sentido. E quando não fizer?