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sábado, 9 de março de 2013

A descoberta da arte do desenho

Na casa térrea e húmida de Butadès, oleiro
grego, na alcova da filha, Dibutadès, entrou; por
toda a noite ficou o amante.
Ele ia partir, pelo alvor da madrugada para outra
cidade.

A luz de uma candeia
lançava sombras, centelhas
na parede junto ao leito. Enlaçados trocaram juras,
votos, mas não se resignavam um e outro ao rosto da
ausência.

O jovem - Plínio, o Antigo, não refere o seu nome -
em volúpia, ainda por inteiro não ardida,
cingiu-a de novo, e uma vez mais, para a guardar através
do amor que queria em desmesura no
leito da despedida.

Dibutadès perdia-se de dor na imagem do amante, que
já sentia afastar-se na distância, como uma pétala
dobrada, pálida cor a luz da cera desfazia. Nesse instante
de muita tristeza percebeu no chão uma goiva, com a
qual o pai abria sulcos no barro para dar forma às figuras
negras. Pegou nela, e reclinada sobre o ombro
amado
estendeu o braço para a sombra que
o corpo de vertigem e tom de prata magoada fazia. E
lançou-o na parede. Riscou o contorno até se tornar
vívido e real «Porque vais para a cidade,

longe. Fico com o espelho da tua sombra. O meu olhar
tem todas as noites o cofre onde guardo, de ti,
a raiz do teu corpo.»

João Miguel Fernandes JorgeSobre Mármore, Teatro de Vila Real, Outubro de 2010.

terça-feira, 5 de março de 2013

Ruckriem, relevos de corpo

O corpo sempre foi eloquente em
relação à paisagem. Cede-lhe
arbitrário movimento por entre árvores
e pedras. Mas
terá a paisagem alguma vez cantado a sua presença,
quando do chão se eleva e se move ou suspende o
passo e permanece em mortal escultura? E

se fundem com as folhas secas, com o húmus da terra
as formas?

O braço alonga-se, o rosto recebe uma gota de
sombra, o torso guarda leve tremura,
uma sensação de vertigem desce dos cimeiros ramos
converte o corpo num êxtase. Os relevos
hão-de apodrecer
sobre as folhas do outono
irrompe a peonia branca, bravia

o corpo na paisagem também vai morrer por esquecimento -
desaparece no horizonte o arco-irís.

*Neue Nationalgalerie

João Miguel Fernandes JorgeSobre Mármore, Teatro de Vila Real, Outubro de 2010.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O mítico caçador

Choram os escravos a morte do atleta. Gravaram-
-lhe a cabeça de anelado cabelo, tranquilo porte
em taça negra. Hoje, pousou-a o hermafrodita, modelada
em fluxo de fogo, tensão e harmonia
pousou-a junto da estátua de Meleagro, caçador.
Não sabe de melhor
imagem, sequer a de Apolo lykeios, de grande pénis
o esculpiram. O
túmulo estava perto. A
amazona depôs o arco, as setas
entre a terra rasa sobre o corpo morto - que foi ágil
na palestra -, e o mármore
que dá forma ao herói. O véu de cinza cobre-a por
inteiro e os passos, enquanto dança.

Os companheiros de ginásio levam consigo o cráter. Os
sentidos sabem as figuras
vermelhas que se estendem ao redor
representam a sua intimidade, em homenagem
ao vencedor - a morte roubou-o
mas no desenho da taça ainda podem festejar a
nudez; coroa de flores
o rapaz eleva sobre
o amante. Vão beber a mistura de vinhos e
sentir o aroma suave das abelhas; o perdido desejo que
foi de muitos há-de voltar por uma noite mais
de orgia - matriz da história,

vinho de mel humano sobre a fonte da história.

*Pergamonmuseum

João Miguel Fernandes JorgeSobre Mármore, Teatro de Vila Real, Outubro de 2010.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Numa rua do casco antigo de Évora

A escada esboroava-se na noite dos meus passos,
contou-me como aos dezasseis anos, mal acabara de os
fazer, pela primeira vez uma mulher se oferecera - a
saia e a blusa, o seio pleno, curva de todo o corpo em dádiva -
num andar cimeiro de uma rua do casco antigo de

Évora. A noite caía fria e pesada (era dezembro pelas
férias do natal), os botões na pressa dos dedos,
o cinto, o nó cego ao desatar um sapato.
Um cheiro intenso a perfume espanhol e a tabaco,
coisas que se não esquecem, como a extensão do mar ou

a estrada que vai de Évora a Viana.
Diante da porta arrombada da memória, o relato do
encontro nocturno (seguiram-se outros na cidade desse inverno)
surge entre papéis rasgados e figuras entre-
vistas semelhantes ao traço que restou num fragmento

de terracota, vísceras
espalhadas ao redor
pelo saque da vida demolida de uma casa.
E quando a noite cai, fria e áspera pelo dezembro do natal de
Évora, outro e outro rapaz ainda hoje sobem os degros em

ruína desse prédio da cidade velha. Uma luz oculta sobre a
cama - as mãos prendem em arremetida posse
os ferros da cabeceira que trazem, descoloridas,
as armas coroadas do reino - reflecte,
mais do que veloz prazer,

a imagem de como desenharam alguns pintores de Évora -
Frei Carlos ou Francisco Henriques - de quem não
restou nenhum esboço prévio.

João Miguel Fernandes Jorge, Sobre Mármore, Teatro de Vila Real, Outubro de 2010.

domingo, 11 de março de 2012

XI

Vêm do céu e da terra
jogam ao suicídio. Por
partes avançam e suspendem
a virtude. Acordam a
flor das dunas que se torna
útil contra a sombra dos
venenos.
Prendem-se a fios de seda, a
cores desviadas da folha de
papiro. Quem são?
E recordam coisas vulgares,
brincos de orelha com
verdadeiras pérolas. Coisas
que são a sua íntima pobreza
e a sua riqueza ferida.
Figuras que lembram
os verdes tanques de Anúbis, o
gosto oblíquo por gregos,
trácios, ilírios. À
boca de cena tudo se
assinala de passagem: aquilo
que se possui através das
diversas partes do verso, a
acalmia da morte que se
ergue pelo nascer do sol
desde a primeira hora do
abandono da casa. Trazem
os nomes inscritos na
tábua dos dias. E, creio
que mais nada.

João Miguel Fernandes Jorge, A Jornada de Cristóvão de Távora: Segunda Parte, Colecção Forma, Editoral Presença, 1986.

domingo, 4 de março de 2012

V

Falam-me tantas vezes nos versos directos,
nos versos que surgem de uma necessidade
de inventar uma urgência e de produzir, eu
direi sempre criar, uma realidade. Quase,
esses versos, trazem em si a semelhança
do nadador perdido que quer salvar a vida.
Mais do que pelo olhar da primeira vez, eu
sou movido pela intensidade da última visão.
E quero prender à maior objectividade o que
está no meu limite
o rosto, a maneira infinita e mais misteriosa
onde só importa a cor
como se a personalidade, o seu destino fosse,
somente, lugar de partida.
É ainda toda a vida, mas já são restos e eu
encontro-os na semelhança de meu pai,
e em mim próprio, no que irá restar de todos
nós depois da morte.

Ninguém pode tomar estes versos nos seus dedos
e dar-lhe forma acabada.
Suspendê-los na parede de minha casa.
Trazê-los até à mesa onde trabalho e onde
os traços da tinta entram, por momentos, na
nossa vida.

João Miguel Fernandes Jorge, A Jornada de Cristóvão de Távora: Primeira Parte, Colecção Forma, Editoral Presença, 1986.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Com o espírito da casa

Acabei hoje o sabonete cujo uso iniciaste aquando
o teu último banho cá em casa. Ficaram coisas que
te pertencem e que não sei se deva guardar,
a saber: um candeeiro, um desenho, uma fotografia.
Outras coisas ficaram
alguns discos e já não sei que livro. Não ferem
tanto. Há ainda a memória da pele, o amarelo dos
olhos e algumas expressões do teu português falado.
Mas estas últimas coisas já se confundem com o
espírito da casa, quero dizer-te coma poeira da
casa.

João Miguel Fernandes Jorge, A Jornada de Cristóvão de Távora: Primeira Parte, Colecção Forma, Editoral Presença, 1986.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Fragmentos de uma carta

É insuportável falar de como és
ou foste temido acima das palavras.
Os meus dias, o meu cuidado
quando os instantes querem ser contados: a
fuga e a vida eu levei para longe, o
mero desejo de mostrar que sirvo
para alguma coisa.
À minha volta há quase tudo o que não li,
reparto-me num equilíbrio semelhante ao
das escritas nas casas de comércio. A
euritmia do cifrado tem de corresponder à
balança dos pagamentos e das vendas.
O sistema da troca: as coisas estão fora
da localização exacta dos
livros de capa negra onde
tudo é igual e diferente. Porque
pertence ao que foi dito de uma vez,
ao que foi preciso cada vez como se
fosse possível prolongarmos um tempo sem
medida. E o que disseste
viria porventura a inventar a
minha vulgaridade,
o que descobre.


João Miguel Fernandes Jorge, A Jornada de Cristóvão de Távora Primeira Parte, Colecção Forma, Editoral Presença, 1986.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A frágil voz

Não o ignoro, mas a verdade é que
o esqueci há muito.
Pousava o capacete na cadeira ao lado
daquela em que se sentava
e quando não havia cadeira
deixava-o docilmente no chão
como se de peça muito amada se tratasse;
era parte do seu armado corpo,
no início das defesas e correrias da vida.
Também eu, ainda hoje, me
engano sobre o exacto sentido do verbo.
Ouve, presta toda a atenção que puderes à
frágil voz,
por um instante ela explica o interesse
da acção, as necessidades da intriga: sofrer
quer apenas dizer
estamos demasiado longe da mesma realidade.

João Miguel Fernandes Jorge, Não é Certo este Dizer, Presença, Colecção Forma, 1997.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

En route to the absolute male

Además, los animales irracionales afirman
interiormente que las cosas son como son:
vejo-o na figura de Pentesileia sendo ferida
por Aquiles: o lado rasgado e o sangue surge
como el rugido en los leones, rude
e manso como el sacudir de la cola
en los perros: homem de excesso, perguntei-
-lhe muitas vezes o que defendia
«e que estamos nós aqui a fazer?»
Riu-se com a letra gigante dos actos
usuais.

O quadro naturalista que na sua intensidade de
verdes e de verdes aguados declina raparigas
iluminadas sobre o verde
e rouba aos campos todas as flores que podem os braços
sustentar, a
pequena tela num recanto da parede, a
meia-altura, sobre um armário encimado por
grossa parede de granito. Dois castiçais com velas
uma lamparina de azeite de três bicos
respectivas pinças e quebra-luz. No meio, uma jarra
de faiança branca, mais flores, uma voz mansa, uma voz
doce, excelente para conspirar.

Festões verdes e doirados estão a par
sobre outro armário. Na parede, noutra parede, claro,
uma pintura que mais parece na casa de um poeta
trágico de Pompeia: o registo do sacrifício de
Ifigénia em Áulis, na dimensão das anteriores
meninas com flores; natureza muito carregada de flores
os festões são assim, verdes e dourados como já vos
disse: uma das desvantagens das pessoas
eloquentes - como eu - é que não conseguem crédito
tão depressa como aquelas que cantam alto
as suas próprias canções.

João Miguel Fernandes Jorge, Não é Certo este Dizer, Presença, Colecção Forma, 1997.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Esse mundo de sombras

E
contudo
esse mundo de sombras a que também pertenço
existe. Sinto-o. Às vezes
aflora nos meus olhos e
murmura ao vagar dos dedos
palavras, obscuros traços que não entendo, e
a ideia de vir um dia a compreendê-los faz-me
temer. Também tu, eu sei,
ouves as vozes desse mundo
e reconheces que
a viagem para o exacto lugar onde se encontram
começa, começou há muito.

João Miguel Fernandes Jorge, Não é Certo este Dizer, Presença, Colecção Forma, 1997.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Sobre uma meditação de Synésius

Nada sei da solidão. Hypatia de Alexandria
eloquente e creio que bela apenas me ensinou
as virtudes geométricas teoremas axiomas alguns
severa como era das verdades do paganismo.
Depois Atenas. Onde a sabedoria?
Os que navegam sob um vento favorável
os que batidos pela tempestade onde para eles
as doutrinas dos que ensinaram
em Atenas não a elegância do discurso
mas a filosofia na força do pensado
na virtude da obra no exemplo do vivido. Onde?
Que possa acreditar?
Estarei morto?
Ou será o exílio?
O inverno e o verão têm o mesmo fim: a fertilidade da terra.
A coragem do navegante não existe só na tempestade
também na calma tem o seu lugar. E como é difícil este
século o quarto
o corpo habita ainda um ponto do mundo e ninguém
comanda já o silêncio ou melhor o progresso (do
cosmos ou dos godos?).
Não nos voltaremos a ver porque da solidão nada sei.

Cyrene envia-me. Aqui estou Arcadius para deixar na tua fronte
uma coroa de ouro para deixar no teu coração o sinal da filosofia.
Cyrene cidade grega venerada célebre mil vezes
no canto de antigos sábios Cyrene grande ruína.
Arcadius a tua vontade imperador
fará meu país digno da sua antiguidade
a palavra espera o país livre. Quando?
Que coisa nos aguarda senão correr para a
ruína? Eu queria o exército só composto
por romanos. O legislador não deve dar armas
senão aos que se alimentam na prática das suas leis
o mais imprudência. Quero dizer-me guerreiro
animado pela filosofia invoco aqui um deus supremo
mostrando-te Arcadius
a filosofia associada ao império.
Porque da solidão não nos voltaremos a ver.

Sem perigo nos plainos da Líbia festas e prazeres
o estudo da ciência a caça um ou outro poema
entre os gregos a memória de algum sábio Hypatia
sobre todos os gregos e egípcios Hypatia a quem chamo mãe
irmã amiga da longe Alexandria auxílio
na construção de quadros astronómicos escritos
sob o céu luminoso pelas noites de Cyrene.
Nos plainos da Líbia só se ouve o eco testemunho
da minha voz dividida pelos platónicos de Atenas
de Alexandria
adoptando a essência divina dos cristãos.
Assim vou permanecendo eu Synésius sábio rico feliz
admirado quase bispo de Ptolemaïs.

Divido o meu tempo entre o estudo e o prazer
porque não passarei de novo o mar até Atenas?
E fizeram-me de facto hoje bispo. Não nos voltaremos a ver.

Quem corre hoje na arena é feliz por certo
e quem estica o arco para lançar a flecha e
o que deixa tombar sobre as espáduas longa
cabeleira por certo bem feliz será o que é
célebre entre os rapazes entre as raparigas
pela beleza do seu rosto. Quanto a mim escuto hoje apenas
a fé de Niceia.

Não nos voltaremos a ver porque prisioneiro
das muralhas já só sei espiar os sinais do fogo
e rondar com o meu cavalo toda a surpresa do bárbaro
na máquina que fabrico a guerra continua as praças
foram tomadas pela fome pela fadiga eu que passava
as noites sem sono a espiar o curso dos astros
durmo apenas breves momentos medidos pelo som
da clepsidra (deu-ma Hypatia mesmo no inferno lembrarei
Hypatia). Caiu o culto velho caiu o culto novo.

Estamos em fuga tomados feridos vendidos como escravos
no entanto coloco diante de mim os vasos sagrados
as colunas do santuário a santa mesa e permanecerei vivo
sou um bispo casado mas um ministro de deus
por ele a minha vida
por ele nem a memória da data da minha morte
quando desaparecer sob ruínas sob ruínas.

João Miguel Fernandes Jorge, Obra poética, vol. 2 (Turvos Dizeres/Alguns círculos), Presença, Lisboa, 1987.

sábado, 16 de abril de 2011

XII

Para ganhar algum dinheiro
além do que lhe dão aos fins-de-semana,
o filho mais
novo da casa trabalhou durante as férias

deste verão na colheita da maçã
num pomar próximo. Cansado,
ao fim do dia de agosto - Pai, a
mais vermelha maçã

a mais perfeita, a mais doce maçã
ficou no ramo mais alto, não pude
apanhá-la. Ao regressar ainda a
olhei. O último raio de sol confundia

o rubro da cor, a líquida polpa
o cheiro, quase um cantar - Pai, o corvo,
com o bico preto,
desfazia-a, estava a feri-la sob o esplendor negro da asa.

João Miguel Fernandes Jorge/João Cruz Rosa, Mãe-do-Fogo, Relógio d'Água, 2009

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Ermo,
o sol dá lugar às lágeas
lisas da noite, açoitada de vento.
Prende a imobilidade da morte
sob o vaguear incessante, asas
do anjo, a vida do insecto,
cobre plantado na coroa do outeiro.

João Miguel Fernandes Jorge, Pelo Fim da Tarde, Quetzal Editores, 1989

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Uma porta anuncia
o deserto, a memória, o desejo.
Rasgada folha que resta no livro.

João Miguel Fernandes Jorge, Pelo Fim da Tarde, Quetzal Editores, 1989

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Guardem, também, silêncio as
flores do limoeiro, a laranjeira.
Não sou uma única voz
na manhã do dia que findara.

João Miguel Fernandes Jorge, Pelo Fim da Tarde, Quetzal Editores, 1989
Voltou o rosto
e viu o outro: a cabeça
baixa, os braços estendidos,
mãos sobre os joelhos.
Contemplou-o sob o peso da
amargura.
Disse-lhe o nome.
Uma única palavra,
áspera corda na claridade da noite.

João Miguel Fernandes Jorge, Pelo Fim da Tarde, Quetzal Editores, 1989

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Vivi nesta casa muitos anos.
Agora mudaram já decerto a fechadura
e as pequenas coisas que fazem uma casa.
As chaves já não as trago
ao lado dos meus gestos.

Mudaram os móveis
deitaram foram as cortinas
e as paredes
trazem agora um calendário novo.

Uma casa é sempre
caliça cheiros alianças.
Eu avanço sobre o silêncio de
ainda
esperar por ti.

João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, Na Regra do Jogo, 1982
Aqui a vida é uma poeira arrastando.
As lanças deixam ficar por toda a parte
alguma coisa do seu calor
mesmo se o nevoeiro envolve o corpo.

Suporto o sol a trajectória do tiro
o agasalho farrapo onde embalo a noite
do acampamento
é o próprio frio desdobrando a mesquinha

morte. Morte chega aos olhos a tua cor
e apaga-os.
Os ratos. Os ratos brancos e cegos de
Mafra estão aqui nestes corredores e

nestas pedras. Carregando de poeira
aqui a vida todos a trazem à altura do
coração e a perdem nos caminhos e dizem
aos vossos destinos

mas o destino aqui não se lê nem escreve.
Histórias de coragem e expiação
contadas almas que cumpriram o tempo do
medo comum a paz impraticável ou o verso.

João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, Na Regra do Jogo, 1982

sábado, 30 de janeiro de 2010

Parti para o movimento da água
para o nome deste barco
premeditado incêndio de um corpo
de vigília e festas.

A aspereza é o nome
o acordado corpo
a incerteza o escreve.

João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, Na Regra do Jogo, 1982