Na casa térrea e húmida de Butadès, oleiro
grego, na alcova da filha, Dibutadès, entrou; por
toda a noite ficou o amante.
Ele ia partir, pelo alvor da madrugada para outra
cidade.
A luz de uma candeia
lançava sombras, centelhas
na parede junto ao leito. Enlaçados trocaram juras,
votos, mas não se resignavam um e outro ao rosto da
ausência.
O jovem - Plínio, o Antigo, não refere o seu nome -
em volúpia, ainda por inteiro não ardida,
cingiu-a de novo, e uma vez mais, para a guardar através
do amor que queria em desmesura no
leito da despedida.
Dibutadès perdia-se de dor na imagem do amante, que
já sentia afastar-se na distância, como uma pétala
dobrada, pálida cor a luz da cera desfazia. Nesse instante
de muita tristeza percebeu no chão uma goiva, com a
qual o pai abria sulcos no barro para dar forma às figuras
negras. Pegou nela, e reclinada sobre o ombro
amado
estendeu o braço para a sombra que
o corpo de vertigem e tom de prata magoada fazia. E
lançou-o na parede. Riscou o contorno até se tornar
vívido e real «Porque vais para a cidade,
longe. Fico com o espelho da tua sombra. O meu olhar
tem todas as noites o cofre onde guardo, de ti,
a raiz do teu corpo.»
João Miguel Fernandes Jorge, Sobre Mármore, Teatro de Vila Real, Outubro de 2010.
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sábado, 9 de março de 2013
terça-feira, 5 de março de 2013
Ruckriem, relevos de corpo
O corpo sempre foi eloquente em
relação à paisagem. Cede-lhe
arbitrário movimento por entre árvores
e pedras. Mas
terá a paisagem alguma vez cantado a sua presença,
quando do chão se eleva e se move ou suspende o
passo e permanece em mortal escultura? E
se fundem com as folhas secas, com o húmus da terra
as formas?
O braço alonga-se, o rosto recebe uma gota de
sombra, o torso guarda leve tremura,
uma sensação de vertigem desce dos cimeiros ramos
converte o corpo num êxtase. Os relevos
hão-de apodrecer
sobre as folhas do outono
irrompe a peonia branca, bravia
o corpo na paisagem também vai morrer por esquecimento -
desaparece no horizonte o arco-irís.
*Neue Nationalgalerie
João Miguel Fernandes Jorge, Sobre Mármore, Teatro de Vila Real, Outubro de 2010.
relação à paisagem. Cede-lhe
arbitrário movimento por entre árvores
e pedras. Mas
terá a paisagem alguma vez cantado a sua presença,
quando do chão se eleva e se move ou suspende o
passo e permanece em mortal escultura? E
se fundem com as folhas secas, com o húmus da terra
as formas?
O braço alonga-se, o rosto recebe uma gota de
sombra, o torso guarda leve tremura,
uma sensação de vertigem desce dos cimeiros ramos
converte o corpo num êxtase. Os relevos
hão-de apodrecer
sobre as folhas do outono
irrompe a peonia branca, bravia
o corpo na paisagem também vai morrer por esquecimento -
desaparece no horizonte o arco-irís.
*Neue Nationalgalerie
João Miguel Fernandes Jorge, Sobre Mármore, Teatro de Vila Real, Outubro de 2010.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
O mítico caçador
Choram os escravos a morte do atleta. Gravaram-
-lhe a cabeça de anelado cabelo, tranquilo porte
em taça negra. Hoje, pousou-a o hermafrodita, modelada
em fluxo de fogo, tensão e harmonia
pousou-a junto da estátua de Meleagro, caçador.
Não sabe de melhor
imagem, sequer a de Apolo lykeios, de grande pénis
o esculpiram. O
túmulo estava perto. A
amazona depôs o arco, as setas
entre a terra rasa sobre o corpo morto - que foi ágil
na palestra -, e o mármore
que dá forma ao herói. O véu de cinza cobre-a por
inteiro e os passos, enquanto dança.
Os companheiros de ginásio levam consigo o cráter. Os
sentidos sabem as figuras
vermelhas que se estendem ao redor
representam a sua intimidade, em homenagem
ao vencedor - a morte roubou-o
mas no desenho da taça ainda podem festejar a
nudez; coroa de flores
o rapaz eleva sobre
o amante. Vão beber a mistura de vinhos e
sentir o aroma suave das abelhas; o perdido desejo que
foi de muitos há-de voltar por uma noite mais
de orgia - matriz da história,
vinho de mel humano sobre a fonte da história.
*Pergamonmuseum
João Miguel Fernandes Jorge, Sobre Mármore, Teatro de Vila Real, Outubro de 2010.
-lhe a cabeça de anelado cabelo, tranquilo porte
em taça negra. Hoje, pousou-a o hermafrodita, modelada
em fluxo de fogo, tensão e harmonia
pousou-a junto da estátua de Meleagro, caçador.
Não sabe de melhor
imagem, sequer a de Apolo lykeios, de grande pénis
o esculpiram. O
túmulo estava perto. A
amazona depôs o arco, as setas
entre a terra rasa sobre o corpo morto - que foi ágil
na palestra -, e o mármore
que dá forma ao herói. O véu de cinza cobre-a por
inteiro e os passos, enquanto dança.
Os companheiros de ginásio levam consigo o cráter. Os
sentidos sabem as figuras
vermelhas que se estendem ao redor
representam a sua intimidade, em homenagem
ao vencedor - a morte roubou-o
mas no desenho da taça ainda podem festejar a
nudez; coroa de flores
o rapaz eleva sobre
o amante. Vão beber a mistura de vinhos e
sentir o aroma suave das abelhas; o perdido desejo que
foi de muitos há-de voltar por uma noite mais
de orgia - matriz da história,
vinho de mel humano sobre a fonte da história.
*Pergamonmuseum
João Miguel Fernandes Jorge, Sobre Mármore, Teatro de Vila Real, Outubro de 2010.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Numa rua do casco antigo de Évora
A escada esboroava-se na noite dos meus passos,
contou-me como aos dezasseis anos, mal acabara de os
fazer, pela primeira vez uma mulher se oferecera - a
saia e a blusa, o seio pleno, curva de todo o corpo em dádiva -
num andar cimeiro de uma rua do casco antigo de
Évora. A noite caía fria e pesada (era dezembro pelas
férias do natal), os botões na pressa dos dedos,
o cinto, o nó cego ao desatar um sapato.
Um cheiro intenso a perfume espanhol e a tabaco,
coisas que se não esquecem, como a extensão do mar ou
a estrada que vai de Évora a Viana.
Diante da porta arrombada da memória, o relato do
encontro nocturno (seguiram-se outros na cidade desse inverno)
surge entre papéis rasgados e figuras entre-
vistas semelhantes ao traço que restou num fragmento
de terracota, vísceras
espalhadas ao redor
pelo saque da vida demolida de uma casa.
E quando a noite cai, fria e áspera pelo dezembro do natal de
Évora, outro e outro rapaz ainda hoje sobem os degros em
ruína desse prédio da cidade velha. Uma luz oculta sobre a
cama - as mãos prendem em arremetida posse
os ferros da cabeceira que trazem, descoloridas,
as armas coroadas do reino - reflecte,
mais do que veloz prazer,
a imagem de como desenharam alguns pintores de Évora -
Frei Carlos ou Francisco Henriques - de quem não
restou nenhum esboço prévio.
João Miguel Fernandes Jorge, Sobre Mármore, Teatro de Vila Real, Outubro de 2010.
contou-me como aos dezasseis anos, mal acabara de os
fazer, pela primeira vez uma mulher se oferecera - a
saia e a blusa, o seio pleno, curva de todo o corpo em dádiva -
num andar cimeiro de uma rua do casco antigo de
Évora. A noite caía fria e pesada (era dezembro pelas
férias do natal), os botões na pressa dos dedos,
o cinto, o nó cego ao desatar um sapato.
Um cheiro intenso a perfume espanhol e a tabaco,
coisas que se não esquecem, como a extensão do mar ou
a estrada que vai de Évora a Viana.
Diante da porta arrombada da memória, o relato do
encontro nocturno (seguiram-se outros na cidade desse inverno)
surge entre papéis rasgados e figuras entre-
vistas semelhantes ao traço que restou num fragmento
de terracota, vísceras
espalhadas ao redor
pelo saque da vida demolida de uma casa.
E quando a noite cai, fria e áspera pelo dezembro do natal de
Évora, outro e outro rapaz ainda hoje sobem os degros em
ruína desse prédio da cidade velha. Uma luz oculta sobre a
cama - as mãos prendem em arremetida posse
os ferros da cabeceira que trazem, descoloridas,
as armas coroadas do reino - reflecte,
mais do que veloz prazer,
a imagem de como desenharam alguns pintores de Évora -
Frei Carlos ou Francisco Henriques - de quem não
restou nenhum esboço prévio.
João Miguel Fernandes Jorge, Sobre Mármore, Teatro de Vila Real, Outubro de 2010.
domingo, 11 de março de 2012
XI
Vêm do céu e da terra
jogam ao suicídio. Por
partes avançam e suspendem
jogam ao suicídio. Por
partes avançam e suspendem
a virtude. Acordam a
flor das dunas que se torna
útil contra a sombra dos
venenos.
Prendem-se a fios de seda, a
cores desviadas da folha de
papiro. Quem são?
E recordam coisas vulgares,
brincos de orelha com
verdadeiras pérolas. Coisas
que são a sua íntima pobreza
e a sua riqueza ferida.
Figuras que lembram
os verdes tanques de Anúbis, o
gosto oblíquo por gregos,
trácios, ilírios. À
boca de cena tudo se
assinala de passagem: aquilo
que se possui através das
diversas partes do verso, a
acalmia da morte que se
ergue pelo nascer do sol
desde a primeira hora do
abandono da casa. Trazem
os nomes inscritos na
tábua dos dias. E, creio
que mais nada.
João Miguel Fernandes Jorge, A Jornada de Cristóvão de Távora: Segunda Parte, Colecção Forma, Editoral Presença, 1986.
domingo, 4 de março de 2012
V
Falam-me tantas vezes nos versos directos,
nos versos que surgem de uma necessidade
de inventar uma urgência e de produzir, eu
direi sempre criar, uma realidade. Quase,
esses versos, trazem em si a semelhança
do nadador perdido que quer salvar a vida.
Mais do que pelo olhar da primeira vez, eu
sou movido pela intensidade da última visão.
E quero prender à maior objectividade o que
está no meu limite
o rosto, a maneira infinita e mais misteriosa
onde só importa a cor
como se a personalidade, o seu destino fosse,
somente, lugar de partida.
É ainda toda a vida, mas já são restos e eu
encontro-os na semelhança de meu pai,
e em mim próprio, no que irá restar de todos
nós depois da morte.
Ninguém pode tomar estes versos nos seus dedos
e dar-lhe forma acabada.
Suspendê-los na parede de minha casa.
Trazê-los até à mesa onde trabalho e onde
os traços da tinta entram, por momentos, na
nossa vida.
João Miguel Fernandes Jorge, A Jornada de Cristóvão de Távora: Primeira Parte, Colecção Forma, Editoral Presença, 1986.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Com o espírito da casa
Acabei hoje o sabonete cujo uso iniciaste aquando
o teu último banho cá em casa. Ficaram coisas que
te pertencem e que não sei se deva guardar,
a saber: um candeeiro, um desenho, uma fotografia.
Outras coisas ficaram
alguns discos e já não sei que livro. Não ferem
tanto. Há ainda a memória da pele, o amarelo dos
olhos e algumas expressões do teu português falado.
Mas estas últimas coisas já se confundem com o
espírito da casa, quero dizer-te coma poeira da
casa.
João Miguel Fernandes Jorge, A Jornada de Cristóvão de Távora: Primeira Parte, Colecção Forma, Editoral Presença, 1986.
quinta-feira, 1 de março de 2012
Fragmentos de uma carta
É insuportável falar de como és
ou foste temido acima das palavras.
Os meus dias, o meu cuidado
quando os instantes querem ser contados: a
fuga e a vida eu levei para longe, o
mero desejo de mostrar que sirvo
para alguma coisa.
À minha volta há quase tudo o que não li,
reparto-me num equilíbrio semelhante ao
das escritas nas casas de comércio. A
euritmia do cifrado tem de corresponder à
balança dos pagamentos e das vendas.
O sistema da troca: as coisas estão fora
da localização exacta dos
livros de capa negra onde
tudo é igual e diferente. Porque
pertence ao que foi dito de uma vez,
ao que foi preciso cada vez como se
fosse possível prolongarmos um tempo sem
medida. E o que disseste
viria porventura a inventar a
minha vulgaridade,
o que descobre.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
A frágil voz
Não o ignoro, mas a verdade é que
João Miguel Fernandes Jorge, Não é Certo este Dizer, Presença, Colecção Forma, 1997.
o esqueci há muito.
Pousava o capacete na cadeira ao lado
daquela em que se sentava
e quando não havia cadeira
deixava-o docilmente no chão
como se de peça muito amada se tratasse;
era parte do seu armado corpo,
no início das defesas e correrias da vida.
Também eu, ainda hoje, me
engano sobre o exacto sentido do verbo.
Ouve, presta toda a atenção que puderes à
frágil voz,
por um instante ela explica o interesse
da acção, as necessidades da intriga: sofrer
quer apenas dizer
estamos demasiado longe da mesma realidade.
João Miguel Fernandes Jorge, Não é Certo este Dizer, Presença, Colecção Forma, 1997.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
En route to the absolute male
Además, los animales irracionales afirman
João Miguel Fernandes Jorge, Não é Certo este Dizer, Presença, Colecção Forma, 1997.
interiormente que las cosas son como son:
vejo-o na figura de Pentesileia sendo ferida
por Aquiles: o lado rasgado e o sangue surge
como el rugido en los leones, rude
e manso como el sacudir de la cola
en los perros: homem de excesso, perguntei-
-lhe muitas vezes o que defendia
«e que estamos nós aqui a fazer?»
Riu-se com a letra gigante dos actos
usuais.
O quadro naturalista que na sua intensidade de
verdes e de verdes aguados declina raparigas
iluminadas sobre o verde
e rouba aos campos todas as flores que podem os braços
sustentar, a
pequena tela num recanto da parede, a
meia-altura, sobre um armário encimado por
grossa parede de granito. Dois castiçais com velas
uma lamparina de azeite de três bicos
respectivas pinças e quebra-luz. No meio, uma jarra
de faiança branca, mais flores, uma voz mansa, uma voz
doce, excelente para conspirar.
Festões verdes e doirados estão a par
sobre outro armário. Na parede, noutra parede, claro,
uma pintura que mais parece na casa de um poeta
trágico de Pompeia: o registo do sacrifício de
Ifigénia em Áulis, na dimensão das anteriores
meninas com flores; natureza muito carregada de flores
os festões são assim, verdes e dourados como já vos
disse: uma das desvantagens das pessoas
eloquentes - como eu - é que não conseguem crédito
tão depressa como aquelas que cantam alto
as suas próprias canções.
João Miguel Fernandes Jorge, Não é Certo este Dizer, Presença, Colecção Forma, 1997.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Esse mundo de sombras
E
contudo
esse mundo de sombras a que também pertenço
existe. Sinto-o. Às vezes
aflora nos meus olhos e
murmura ao vagar dos dedos
palavras, obscuros traços que não entendo, e
a ideia de vir um dia a compreendê-los faz-me
temer. Também tu, eu sei,
ouves as vozes desse mundo
e reconheces que
a viagem para o exacto lugar onde se encontram
começa, começou há muito.
João Miguel Fernandes Jorge, Não é Certo este Dizer, Presença, Colecção Forma, 1997.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Sobre uma meditação de Synésius
Nada sei da solidão. Hypatia de Alexandria
eloquente e creio que bela apenas me ensinou
as virtudes geométricas teoremas axiomas alguns
severa como era das verdades do paganismo.
Depois Atenas. Onde a sabedoria?
Os que navegam sob um vento favorável
os que batidos pela tempestade onde para eles
as doutrinas dos que ensinaram
em Atenas não a elegância do discurso
mas a filosofia na força do pensado
na virtude da obra no exemplo do vivido. Onde?
Que possa acreditar?
Estarei morto?
Ou será o exílio?
O inverno e o verão têm o mesmo fim: a fertilidade da terra.
A coragem do navegante não existe só na tempestade
também na calma tem o seu lugar. E como é difícil este
século o quarto
o corpo habita ainda um ponto do mundo e ninguém
comanda já o silêncio ou melhor o progresso (do
cosmos ou dos godos?).
Não nos voltaremos a ver porque da solidão nada sei.
Cyrene envia-me. Aqui estou Arcadius para deixar na tua fronte
uma coroa de ouro para deixar no teu coração o sinal da filosofia.
Cyrene cidade grega venerada célebre mil vezes
no canto de antigos sábios Cyrene grande ruína.
Arcadius a tua vontade imperador
fará meu país digno da sua antiguidade
a palavra espera o país livre. Quando?
Que coisa nos aguarda senão correr para a
ruína? Eu queria o exército só composto
por romanos. O legislador não deve dar armas
senão aos que se alimentam na prática das suas leis
o mais imprudência. Quero dizer-me guerreiro
animado pela filosofia invoco aqui um deus supremo
mostrando-te Arcadius
a filosofia associada ao império.
Porque da solidão não nos voltaremos a ver.
Sem perigo nos plainos da Líbia festas e prazeres
o estudo da ciência a caça um ou outro poema
entre os gregos a memória de algum sábio Hypatia
sobre todos os gregos e egípcios Hypatia a quem chamo mãe
irmã amiga da longe Alexandria auxílio
na construção de quadros astronómicos escritos
sob o céu luminoso pelas noites de Cyrene.
Nos plainos da Líbia só se ouve o eco testemunho
da minha voz dividida pelos platónicos de Atenas
de Alexandria
adoptando a essência divina dos cristãos.
Assim vou permanecendo eu Synésius sábio rico feliz
admirado quase bispo de Ptolemaïs.
Divido o meu tempo entre o estudo e o prazer
porque não passarei de novo o mar até Atenas?
E fizeram-me de facto hoje bispo. Não nos voltaremos a ver.
Quem corre hoje na arena é feliz por certo
e quem estica o arco para lançar a flecha e
o que deixa tombar sobre as espáduas longa
cabeleira por certo bem feliz será o que é
célebre entre os rapazes entre as raparigas
pela beleza do seu rosto. Quanto a mim escuto hoje apenas
a fé de Niceia.
Não nos voltaremos a ver porque prisioneiro
das muralhas já só sei espiar os sinais do fogo
e rondar com o meu cavalo toda a surpresa do bárbaro
na máquina que fabrico a guerra continua as praças
foram tomadas pela fome pela fadiga eu que passava
as noites sem sono a espiar o curso dos astros
durmo apenas breves momentos medidos pelo som
da clepsidra (deu-ma Hypatia mesmo no inferno lembrarei
Hypatia). Caiu o culto velho caiu o culto novo.
Estamos em fuga tomados feridos vendidos como escravos
no entanto coloco diante de mim os vasos sagrados
as colunas do santuário a santa mesa e permanecerei vivo
sou um bispo casado mas um ministro de deus
por ele a minha vida
por ele nem a memória da data da minha morte
quando desaparecer sob ruínas sob ruínas.
João Miguel Fernandes Jorge, Obra poética, vol. 2 (Turvos Dizeres/Alguns círculos), Presença, Lisboa, 1987.
eloquente e creio que bela apenas me ensinou
as virtudes geométricas teoremas axiomas alguns
severa como era das verdades do paganismo.
Depois Atenas. Onde a sabedoria?
Os que navegam sob um vento favorável
os que batidos pela tempestade onde para eles
as doutrinas dos que ensinaram
em Atenas não a elegância do discurso
mas a filosofia na força do pensado
na virtude da obra no exemplo do vivido. Onde?
Que possa acreditar?
Estarei morto?
Ou será o exílio?
O inverno e o verão têm o mesmo fim: a fertilidade da terra.
A coragem do navegante não existe só na tempestade
também na calma tem o seu lugar. E como é difícil este
século o quarto
o corpo habita ainda um ponto do mundo e ninguém
comanda já o silêncio ou melhor o progresso (do
cosmos ou dos godos?).
Não nos voltaremos a ver porque da solidão nada sei.
Cyrene envia-me. Aqui estou Arcadius para deixar na tua fronte
uma coroa de ouro para deixar no teu coração o sinal da filosofia.
Cyrene cidade grega venerada célebre mil vezes
no canto de antigos sábios Cyrene grande ruína.
Arcadius a tua vontade imperador
fará meu país digno da sua antiguidade
a palavra espera o país livre. Quando?
Que coisa nos aguarda senão correr para a
ruína? Eu queria o exército só composto
por romanos. O legislador não deve dar armas
senão aos que se alimentam na prática das suas leis
o mais imprudência. Quero dizer-me guerreiro
animado pela filosofia invoco aqui um deus supremo
mostrando-te Arcadius
a filosofia associada ao império.
Porque da solidão não nos voltaremos a ver.
Sem perigo nos plainos da Líbia festas e prazeres
o estudo da ciência a caça um ou outro poema
entre os gregos a memória de algum sábio Hypatia
sobre todos os gregos e egípcios Hypatia a quem chamo mãe
irmã amiga da longe Alexandria auxílio
na construção de quadros astronómicos escritos
sob o céu luminoso pelas noites de Cyrene.
Nos plainos da Líbia só se ouve o eco testemunho
da minha voz dividida pelos platónicos de Atenas
de Alexandria
adoptando a essência divina dos cristãos.
Assim vou permanecendo eu Synésius sábio rico feliz
admirado quase bispo de Ptolemaïs.
Divido o meu tempo entre o estudo e o prazer
porque não passarei de novo o mar até Atenas?
E fizeram-me de facto hoje bispo. Não nos voltaremos a ver.
Quem corre hoje na arena é feliz por certo
e quem estica o arco para lançar a flecha e
o que deixa tombar sobre as espáduas longa
cabeleira por certo bem feliz será o que é
célebre entre os rapazes entre as raparigas
pela beleza do seu rosto. Quanto a mim escuto hoje apenas
a fé de Niceia.
Não nos voltaremos a ver porque prisioneiro
das muralhas já só sei espiar os sinais do fogo
e rondar com o meu cavalo toda a surpresa do bárbaro
na máquina que fabrico a guerra continua as praças
foram tomadas pela fome pela fadiga eu que passava
as noites sem sono a espiar o curso dos astros
durmo apenas breves momentos medidos pelo som
da clepsidra (deu-ma Hypatia mesmo no inferno lembrarei
Hypatia). Caiu o culto velho caiu o culto novo.
Estamos em fuga tomados feridos vendidos como escravos
no entanto coloco diante de mim os vasos sagrados
as colunas do santuário a santa mesa e permanecerei vivo
sou um bispo casado mas um ministro de deus
por ele a minha vida
por ele nem a memória da data da minha morte
quando desaparecer sob ruínas sob ruínas.
João Miguel Fernandes Jorge, Obra poética, vol. 2 (Turvos Dizeres/Alguns círculos), Presença, Lisboa, 1987.
sábado, 16 de abril de 2011
XII
Para ganhar algum dinheiro
além do que lhe dão aos fins-de-semana,
o filho mais
novo da casa trabalhou durante as férias
deste verão na colheita da maçã
num pomar próximo. Cansado,
ao fim do dia de agosto - Pai, a
mais vermelha maçã
a mais perfeita, a mais doce maçã
ficou no ramo mais alto, não pude
apanhá-la. Ao regressar ainda a
olhei. O último raio de sol confundia
o rubro da cor, a líquida polpa
o cheiro, quase um cantar - Pai, o corvo,
com o bico preto,
desfazia-a, estava a feri-la sob o esplendor negro da asa.
João Miguel Fernandes Jorge/João Cruz Rosa, Mãe-do-Fogo, Relógio d'Água, 2009
além do que lhe dão aos fins-de-semana,
o filho mais
novo da casa trabalhou durante as férias
deste verão na colheita da maçã
num pomar próximo. Cansado,
ao fim do dia de agosto - Pai, a
mais vermelha maçã
a mais perfeita, a mais doce maçã
ficou no ramo mais alto, não pude
apanhá-la. Ao regressar ainda a
olhei. O último raio de sol confundia
o rubro da cor, a líquida polpa
o cheiro, quase um cantar - Pai, o corvo,
com o bico preto,
desfazia-a, estava a feri-la sob o esplendor negro da asa.
João Miguel Fernandes Jorge/João Cruz Rosa, Mãe-do-Fogo, Relógio d'Água, 2009
sábado, 6 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Vivi nesta casa muitos anos.
Agora mudaram já decerto a fechadura
e as pequenas coisas que fazem uma casa.
As chaves já não as trago
ao lado dos meus gestos.
Mudaram os móveis
deitaram foram as cortinas
e as paredes
trazem agora um calendário novo.
Uma casa é sempre
caliça cheiros alianças.
Eu avanço sobre o silêncio de
ainda
esperar por ti.
João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, Na Regra do Jogo, 1982
Agora mudaram já decerto a fechadura
e as pequenas coisas que fazem uma casa.
As chaves já não as trago
ao lado dos meus gestos.
Mudaram os móveis
deitaram foram as cortinas
e as paredes
trazem agora um calendário novo.
Uma casa é sempre
caliça cheiros alianças.
Eu avanço sobre o silêncio de
ainda
esperar por ti.
João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, Na Regra do Jogo, 1982
Aqui a vida é uma poeira arrastando.
As lanças deixam ficar por toda a parte
alguma coisa do seu calor
mesmo se o nevoeiro envolve o corpo.
Suporto o sol a trajectória do tiro
o agasalho farrapo onde embalo a noite
do acampamento
é o próprio frio desdobrando a mesquinha
morte. Morte chega aos olhos a tua cor
e apaga-os.
Os ratos. Os ratos brancos e cegos de
Mafra estão aqui nestes corredores e
nestas pedras. Carregando de poeira
aqui a vida todos a trazem à altura do
coração e a perdem nos caminhos e dizem
aos vossos destinos
mas o destino aqui não se lê nem escreve.
Histórias de coragem e expiação
contadas almas que cumpriram o tempo do
medo comum a paz impraticável ou o verso.
João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, Na Regra do Jogo, 1982
As lanças deixam ficar por toda a parte
alguma coisa do seu calor
mesmo se o nevoeiro envolve o corpo.
Suporto o sol a trajectória do tiro
o agasalho farrapo onde embalo a noite
do acampamento
é o próprio frio desdobrando a mesquinha
morte. Morte chega aos olhos a tua cor
e apaga-os.
Os ratos. Os ratos brancos e cegos de
Mafra estão aqui nestes corredores e
nestas pedras. Carregando de poeira
aqui a vida todos a trazem à altura do
coração e a perdem nos caminhos e dizem
aos vossos destinos
mas o destino aqui não se lê nem escreve.
Histórias de coragem e expiação
contadas almas que cumpriram o tempo do
medo comum a paz impraticável ou o verso.
João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, Na Regra do Jogo, 1982
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