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terça-feira, 29 de maio de 2012

I don't think any word

Às tantas em Citizen Kane alguém diz que I don't think any word can explain a man's life. Infelizmente, pertenço àquele número de pessoas que acredita nisto com uma espécie de piedade ímpia. O facto de não acreditar que alguma vez alguma palavra possa explicar o que foi ou é a vida de um homem prende-se com outras reservas que tenho acerca da palavra enquanto experiência passível de ser entendida enquanto meramente estética. Para mim, não é a palavra que é a tragédia. A experiência do trágico é o que as palavras nos fazem - mas entre a palavra e o que sobre ela sentimos há uma falha que não pode ser colmatada. Há gente a quem Eurípides nunca fez nada, nunca fará nada, nunca poderá fazer nada. Há gente que prefere José Rodrigues dos Santos a Dostoiévsky. Essa falha entre nós e as palavras é o espaço em que assumimos as coisas, assumimos não só a nossa identificação com a experiência que as palavras nos oferecem, assumimos também um compromisso ético, o jogo de um código de valores e de sentimentos implícitos. Há duas ou três horas via num museu uma cnémide de um soldado grego do séc. VI. No papelinho que a descrevia dizia que era um misto de bronze e couro. Agora cor de vómito e com um aspecto putrefacto (algures há-de ter tido melhor aspecto, I hope), explicava-se no papelito da vitrine que os soldados a punham para dentro da sandália um pouco à semelhança do que faz um moderno jogador de cricket. Dou por mim então a pensar que entre o equipamento para o ofício de matar um homem e para o ofício de bater uma bola com um taco existem semelhanças. É possível pensar nestas coisas em termos próximos. Um homem vestido para a morte equipa-se de um modo semelhante ao de um homem vestido para jogar um jogo. Não há nada de errado nisto e a comparação é eficaz e inocente. Mas aqui, nisto, está o mecanismo que primeiro e de modo mais literal demonstra que nenhuma palavra pode de verdade explicar a vida de um homem sem que pelo menos algo se perca ou se ganhe nesta operação. 
Estava a pensar nisto e lembrei-me do final do L'Avventura de Antonioni. Aqui há uns dias estava a ler um texto de Martin Scorsese em que ele narrava a experiência de ter visto pela primeira vez este filme. Ele falava da última cena e dizia que nessa última cena Antonioni nos dava a ver uma coisa extraordinária, a dor de estar simplesmente vivo. Noções destas acho que são coisas que as palavras nos podem transmitir (como o primeiro agente no contágio de uma doença - estou muito filoniana hoje) mas que nenhuma palavra mimetiza em nós, que nenhuma palavra pode de facto sentir por nós ou dispensar-nos de sentirmos por nós só porque ela expõe o mecanismo. 
Aquando da morte de Sophia, Agustina escreveu à filha desta uma carta que começa assim: «Os sentimentos mais profundos não se partilham. Não fazem parte da história, não são do domínio público.» Um académico qualquer que li não sei onde chamava à palavra o lado público do pensamento. Não sei se as palavras são só o lado público do pensamento (he wished!), palavras tacteiam estas coisas que não se partilham, que não fazem parte da história, que não são do domínio público, dizê-las totalmente é todo um outro combate, é todo um outro cuidado - ainda que admita que as nossas palavras possam ir e criar essas coisas que não podemos dizer totalmente nos outros (é uma coisa que acontece por exemplo no poema de Joaquim Manuel Magalhães que cito no post anterior), mas tudo isto exige - mind this - equipamento ainda mais eficaz do que o do moderno jogador de cricket. 


*Tenho consciência que há falhas nesta argumentação, mas isto é uma crónica não um ensaio. Ofereço-me para travar uma partida de cricket com quem quer que queira criticar a minha nota. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

E, sobretudo, não foi um grande homem

O melhor da sua situação era que o seu sentimento de família não era prejudicado pela presença da família. Ela era para José Rui uma auréola e não uma obrigação. Ulisses foi uma lenda porque não teve a família como ministério. Correu perigos, o que lhe bastou como inteligência. E, sobretudo, não foi um grande homem, o que equivale a dizer que fez o que quis e que voltou à pátria por desfastio ou por falta de imaginação.
Agustina Bessa-Luís, Antes do degelo

sábado, 24 de dezembro de 2011

Das coisas inabordáveis


Assim como os pequenos lobos brincam entre eles e se preparam para o sexo e as caçadas, também os irmãos, embora criados em castidade e defesa do pecado, se entregam a mil ares de sedução e de traição até aos mais obscuros passos da paixão humana. Vêde as irmãs Brontë, as escritoras. Há melhor sarabanda do desejo, melhor orquestra de suspiros e tormentos? O irmão chega a apagar o retrato dele no meio dos retratos delas. E morre como um peixe no seu tanque de água salobra, procurando saltar e libertar-se. Querem exemplo melhor duma família feliz, embriagada de amor, e de álcool e de urzes das serras? Assim nascem os romances; do proibido e negro pasto do coração. Quando não houver mais esse gosto das coisas inabordáveis e trágicas, não haverá romance, nem literatura, nem nada.

Agustina Bessa-Luís, Antes do degelo

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração

Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada. Eu penso que o escritor com maior sucesso (não de livraria, mas de integração social e profunda) é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração. Mas porque se escreve, não se sabe exactamente. Porque a poética precisão de um acto humano não corresponde totalmente à sua evidência. Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas. Depois de tudo, escrever é um pouco corrigir a fortuna, que é cega, com um júbilo da Natureza, que é precavida.

Agustina Bessa-Luís, Contemplação Carinhosa da Angústia, Guimarães Editores, 2000 (2ª ed.).

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Há que amar a mulher que disse:

Francamente - porque pensam que eu escrevo? Para incomodar o maior número de pessoas, com o máximo de inteligência. Por narcisismo, que é um facto civilizador. Para ganhar a vida e figurar no Larousse com o mesmo realismo utópico aplicado a Madame Pompadour. Que, sendo pequenina e abonecada, ali se apresenta como «grande, bien faite». A fama de uma pessoa confunde o juízo, como o amor fabuloso e o erotismo pedante.
Escrevo para desiludir com mérito, que é a maneira de se fazer lembrar com virtude.

Agustina Bessa-Luís, Contemplação Carinhosa da Angústia, Guimarães Editores, 2000 (seg. ed.)

sábado, 9 de abril de 2011

Voltar

Porque uma estúpida (instintiva, anterior à inteligência) vontade nos une a tudo o que nos prende (porque como dizia Calasso tudo o que nos prende é um laço), quando morrer farei como Sophia, e voltarei aqui para reclamar todos os instantes que não vivi junto do mar. Não tanto por estúpida teimosia quanto por uma ideia de plenitude imperfeita, que me liga aos lugares, às pessoas que amo, com uma ternura um pouco dilacerada, solene no sentido de leal e não no sentido de chata, insone, quase triste às vezes porque a sei condenada.
Nesta teimosia e sentido de plenitude imperfeita, aquilo que de outra forma fez Agustina escrever que a poesia é a mais estranha das actividades humanas porque é a única que é consagrada ao conhecimento da morte (aquilo que às vezes te dá a impressão que vais a andar e podias de repente sair do teu corpo, encarares-te de frente e dizeres não importa, porque eu sou do mundo e o mundo é meu, aquele que se contém nas paredes da minha vida), esse sentido de teimosia e compromisso, plenitude imperfeita, é também o que coloca a poesia um instante antes da inteligência, é o que a afasta para sempre da retórica, é o que lhe permite passar para outros géneros e sobretudo para o mais literário dos géneros, a vida.

sábado, 2 de abril de 2011

A força do que se espera indefinidamente

Da energia humana ninguém sabe nada ainda. Ela converte os homens em joguetes fantásticos, dá-lhes voz e razão, segreda-lhes as verdades ocultas no cosmos, e enche-lhes o vazio cérebro de respostas sublimes ao próprio destino. E faz com que a terra produza frutos maravilhosos, entre os quais a força do que se espera indefinidamente.

Agustina Bessa-Luís, Conversações com Dmitri e Outras Fantasias, Relógio d'Água, 1992

Qualquer coisa de mitológico























Agustina Bessa-Luís, Conversações com Dmitri e Outras Fantasias, Relógio d'Água, 1992

quinta-feira, 31 de março de 2011

E é isso

É possível que tudo quanto é belo seja interrogativo; mas o que deveras se comunica não precisa de devassar-se para ser presente e aceite.

Agustina Bessa-Luís, Conversações com Dmitri e Outras Fantasias, Relógio d'Água, 1992

segunda-feira, 28 de março de 2011

Brindisi

Foi em Brindisi. Não sei se me expliquei bem, as letras não servem às vezes o coração da realidade. Mas penso que um rosto humano é feito de momentos assim, de continuidade, de paixão que não serve aos homens senão para que resistam ao seu grande espanto de viver. Assim é. Vejo Brindisi ao cair da tarde, cidade portuária e desenganada, com grandes bonecas encaixadas às portas, vestidas de azul e rosa. Como meretrizes honestas e sem alma. E os inglesinhos de compridos cabelos, de queixos agudos, feios. A excentricidade deles, os moços de bordo em mangas de camisa, a fuligem nos bancos do convés, a partida de Brindisi à noite e o rulho do mar à noite. E aquele imóvel rosto, aquela recusa fria, o sádico encanto do amor que resistia a participar e a ser. E a beleza, prodígio para sempre pobre e desamparado, não embarcara em Brindisi. Não embarcava em parte nenhuma, eu tinha a certeza disso.

Agustina Bessa-Luís, Conversações com Dmitri e Outras Fantasias, Relógio d'Água, 1992

sexta-feira, 11 de março de 2011

Livre

Nenhum homem está a ser livre se não se abstém de emparedar os outros entre os quatro muros da sua opinião...

Agustina Bessa-Luís, Embaixada a Calígula, Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira (fixação de texto), Guimarães, 2009

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Em vez de vaguear

Queria, em vez de vaguear pelas capitais embandeiradas, viver num tempo limpo e sem exasperação, em que eu pudesse ler os versos de Neruda sem me ocultar dos que têm o coração alvo demais; ou que pudesse entrar numa igreja sem que me chamem reaccionária. Porque é que uma rã, de ventre redondo e húmido, canta livremente nos arrozais e não lhe dizem: «Qual é o teu partido, o teu credo, o teu clã?» Eu não quero ser outra coisa, senão esse pequeno verde, sem gramática demasiado oficial, sem copiosos sentimentos além das estações, o medo das águias imorredoiras ou das cobras meio adormecidas.

Agustina Bessa-Luís, Embaixada a Calígula, Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira (fixação de texto), Guimarães, 2009.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Frederico de Montefeltro, Duque de Urbino*

Por vezes a mera evocação força-nos a recordar uma coisa que para nós não existe e a sua consequente descrição. Talvez isto seja uma definição apta de imaginação ou talvez devesse servir para ser a evocação sem melancolia de coisas que nunca veremos, que passaram ou que estão fora do nosso tempo já. Assim Agustina Bessa-Luís, quando evoca Frederico de Montefeltro em Embaixada a Calígula e dele diz: «Este Frederico de Montefeltro, Duque de Urbino, com o seu olho de rapina e a tez de mouro, foi com certeza alguém que levou preocupações aos cidadãos pisanos...» Este é também um exercício de rigor, de contenção, como se nestas duas linhas se pudesse guardar o que é vital sobre o carácter de um homem pela mera alusão a um modo de olhar ou à cor de uma tez. Pensei que assim somos muito exíguos às vezes. Um curto espaço de tempo e emoção, no caso do Duque de Urbino nem sequer belo. Mas sem melancolia, como se não nos aproximássemos muito do espelho e deste modo a desilusão, a dissolução não fossem nunca possíveis ou fossem intimamente sentidas como um pequeno golpe de coração, só a mim isto aconteceu, a mais ninguém, tu nunca o saberás. Assim fica Frederico de Montefeltro, Duque de Urbino, pendurado num quadro de museu em Florença, ninguém poderia já dizer quantas dores de cabeça trouxe ele aos pisanos. A compensação é que penso que até no quadro, quando já nada se pode saber, ele continua a ser aquilo que foi, ou uma réstia do que. E ser aquilo que foi é literatura, mais do que é história. Como na descrição feita duas ou três páginas antes de uma outra personagem que penso que interessou muito mais a Agustina do que Frederico de Montefeltro, Savonarola, de quem ela escreveu: «Pode-se dizer que a Renascença inteira teve uma parte de inspiração, não nas palavras, mas na força desesperada de Savonarola.»
E não me importa que esta definição (porque não é uma afirmação sobre) de Savonarola seja discutível ou não. Quem poderia querer definir com argumentável precisão o que seja uma força desesperada?

* Sempre quis fazer um post cujo título fosse o nome deste senhor e o seu perfil de nariz adunco. Uma destas duas coisas não era possível, enfim.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Catedral de Toledo

De toda esta profusão de tesouros fica-nos uma impressão que não acertamos a exprimir. Fernando III disse, quando entre tesoureiros e arquitectos, se propôs erguer a Catedral de Toledo: «Hagamos una fábrica tal que nuestros descendientes nos tengan por locos.» Mas não pensamos hoje que fossem loucos os seus construtores e os que a inspiraram. É uma obra que afirma a maturidade dum reino, com a sua sociedade de cavaleiros, a sua determinação que se chamará espírito épico, a sua rasgada forma de actuar: «Que nuestros descendientes nos tengan por locos.» É estranho pensar que nem um só povo do mundo seria hoje capaz de um voto assim, de enfrentar assim as idades que lhe sucederão, mas antes se encostam uns aos outros e copiam sisudamente as suas civilizações, desgostosos quando se acham pobres, incapazes quando se julgam ultrapassados. «Sejamos razoáveis» - dizem, suavemente. Razoáveis no ódio e no pecado, tímidos no empreender, frouxos no amar, desconfiados no sentir, cobardes no julgar. No entanto, que catedrais estão suspensas da nossa mão, que capelas estão por edificar no coração das criaturas, que torres para levantar e que portas para abrir! «Façamos uma obra tal que os nossos descendentes nos tenham por loucos.» Desertemos da razão avelhantada e fútil em que andamos, deixemos de lado as capas de burocratas, tomemos do pensamento o novo e o que não foi tentado ainda, e não ponhamos reflexão onde devia estar sabedoria - porque se a sabedoria é, acima de tudo, actividade, a reflexão é pessimismo, e malícia muitas e muitas vezes.

Agustina Bessa-Luís, Embaixada a Calígula, Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira (fixação de texto), Guimarães, 2009

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Escorial

O Escorial fala-nos de disciplina, essa paixão dos homens tímidos em relação ao próprio destino. 
Agustina Bessa-Luís, Embaixada a Calígula, Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira (fixação de texto), Guimarães, 2009

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O «dandy» Português

Parece-me que em A Sibila Agustina Bessa-Luís cristalizou para a eternidade o tipo do dandy português:

Houve, em Morouços, um enviado daquela encantadora Adriana do Folgozinho que, na mocidade, tivera Estina na conta de prima dilecta. Era o seu único neto. Germa viu-se diante de um certo Bernardo Sanches, um dandy da intelectualidade, que citava Paul Éluard, fazendo retinir muito as sílabas, com exaltação mais dogmática do que poética. Usava lunetas, por birra pedante, do mesmo modo que usava o seu casaco aberto atrás, sob o cinto, no estilo que estivera em moda por volta de 1900 e que o povo, jocosamente, chamara «de aparta barulhos».

Agustina Bessa-Luís, A Sibila, Guimarães Editores, 1998 (23ª edição).

O Plano

Tudo o que não obedece a um plano, dura apenas o tempo da realização; e não tem glória, nem esse cunho das coisas humanas que trazem consigo um alento de superação e de eternidade.

Agustina Bessa-Luís, A Sibila, Guimarães Editores, 1998 (23ª edição).