Mostrar mensagens com a etiqueta Sophia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sophia. Mostrar todas as mensagens

sábado, 9 de abril de 2011

Voltar

Porque uma estúpida (instintiva, anterior à inteligência) vontade nos une a tudo o que nos prende (porque como dizia Calasso tudo o que nos prende é um laço), quando morrer farei como Sophia, e voltarei aqui para reclamar todos os instantes que não vivi junto do mar. Não tanto por estúpida teimosia quanto por uma ideia de plenitude imperfeita, que me liga aos lugares, às pessoas que amo, com uma ternura um pouco dilacerada, solene no sentido de leal e não no sentido de chata, insone, quase triste às vezes porque a sei condenada.
Nesta teimosia e sentido de plenitude imperfeita, aquilo que de outra forma fez Agustina escrever que a poesia é a mais estranha das actividades humanas porque é a única que é consagrada ao conhecimento da morte (aquilo que às vezes te dá a impressão que vais a andar e podias de repente sair do teu corpo, encarares-te de frente e dizeres não importa, porque eu sou do mundo e o mundo é meu, aquele que se contém nas paredes da minha vida), esse sentido de teimosia e compromisso, plenitude imperfeita, é também o que coloca a poesia um instante antes da inteligência, é o que a afasta para sempre da retórica, é o que lhe permite passar para outros géneros e sobretudo para o mais literário dos géneros, a vida.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Orpheu e Eurydice

Juntos passavam no cair da tarde
Jovens luminosos muito antigos

Sophia, Musa, Caminho, 2004

domingo, 30 de janeiro de 2011

Ponte de Spoleto

Sob os claros arcos da ponte romana
Onde ressoa ainda o passo das legiões imperiosas
Lá em baixo o leito do rio
Selvático e penumbroso
Interior às memórias insondáveis da alma

Maio de 1994

Sophia, Musa, Caminho, 2004

Elegia

Aprende
A não esperar por ti pois não te encontrarás

No instante de dizer sim ao destino
Incerta paraste emudecida
E os oceanos depois devagar te rodearam

A isso chamaste Orpheu Eurydice -
Incessante intensa lira vibrava ao lado
Do desfilar real dos teus dias
Nunca se distingue bem o vivido do não vivido
O encontra do fracasso -
Quem se lembra do fino escorrer da areia na ampulheta
Quando se ergue o canto
Por isso a memória sequiosa quer vir à tona
Em procura da parte que não deste
No rouco instante da noite mais calada
Ou no secreto jardim à beira-rio
Em Junho

1994
Sophia, Musa, Caminho, 2004

sábado, 29 de janeiro de 2011

Aquelas cujos ombros se extinguiram

Aquelas cujos ombros se extinguiram
Contra os muros dum quarto misterioso
Onde há uma janela voltada para longe

Aquelas em cujos olhos não há cor
À força de fitarem o vazio
Que vai e vem entre o horizonte e elas

Aquelas cujo desespero cai
De todo o céu a pique sobre a terra,
Imutável e completo, igual
Ao silêncio do mar sobre os naufrágios.

Elas são aquelas que esperaram
Que todas as promessas se cumprissem
E nos deuses cegos confiaram.

Sophia, Dia do Mar, Caminho, 2005

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Tarde

O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas.

Sophia, No Tempo Dividido, Caminho, 2005

V Inverno

Parece que eternamente sobre a terra
Choverá desolação e frio
A mesma neve de horror desencarnada
A mesma solidão dentro das casas

Sophia, No Tempo Dividido, Caminho, 2005

IV

Na minha vida há sempre um silêncio morto
Uma parte de mim que não se pode
Nem desligar nem partir nem regressar
Aonde as coisas eram uma intimamente
Como no seio morno de uma noite

Sophia, No Tempo Dividido, Caminho, 2005

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Caderno I

Quando me perco de novo neste antigo
Caderno de capa preta de oleado -
Que um dia rasguei com fúria e que um amigo
Folha a folhar recolou com vagar e paciência -

Tudo me dói ainda como faca e me corta
Pois diante de mim estão como sussurro e floresta
As longas tardes as misturadas noites
Onde divago e divagam incessantemente
Os venenosos perfumes mortais da juventude

E dói-me a luz como um jardim perdido

Sophia, O Nome das Coisas, Caminho, 2004

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Regressarei

Eu regressarei ao poema como à pátria à casa
Como à antiga infância que perdi por descuido
Para buscar obstinada a substância de tudo
E gritar de paixão sob mil luzes acesas

Sophia, O Nome das Coisas, Caminho, 2004

Esteira e cesto

No entrançar de cestos ou de esteira
Há um saber que vive e não desterra
Como se o tecedor a si próprio se tecesse
E não entrançasse unicamente esteira e cesto

Mas seu humano casamento com a terra

Sophia, O Nome das Coisas, Caminho, 2004

segunda-feira, 19 de abril de 2010

VII

Difícil é saber de longe a tua morte
E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma

1979

Sophia, Navegações, Caminho, 2004

XIV

Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho

1982

Sophia, Navegações, Caminho, 2004

III

Nus se banharam em grandes praias lisas
Outros se perderam no repentino azul dos temporais

1982

Sophia, Navegações, Caminho, 2004

sábado, 17 de abril de 2010

IX

Cidades e ciladas
Mas também o pasmo de tão grande arquitectura
As sedes os perfumes a doçura
Das vozes e dos gestos

Os grandes pátios da noite e sua flor
De pânico e sossego

1982

Sophia
, Navegações, Caminho, 2004

sexta-feira, 16 de abril de 2010

VII - Trevas

O que foi antigamente manhã limpa
Sereno amor das coisas e da vida
É hoje busca desesperada busca
De um corpo cuja face me é oculta.

Sophia, O Cristo Cigano, Caminho, 2005

VI - A solidão

A noite abre os seus ângulos de lua
E em todas as paredes te procuro

A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procuro

A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões te procuro

Ao do rio a noite acende as suas luzes
Roxas, verdes, azuis.

Eu te procuro.

Sophia, O Cristo Cigano, Caminho, 2005

V - O Amor

Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.

E noite onde sem fim me afundarei.

Sophia, O Cristo Cigano, Caminho, 2005

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Elsinore

No palácio dos Atridas como em Elsinore
Tudo era cavernoso - as paredes
Eram grossas o espaço excessivo e sonoro
Roucas as vozes da maldição antiga

Porém em Micenas o sangue era exposto
E corria vermelho como num grande talho
Sujando apenas as mãos dos assassinos
E a água da banheira -
Lá fora o rio a luz
Continuavam limpos e transparentes
O crime era um corpo estranho circunscrito
Não pertencia à natureza das coisas

Em Elsinore ao contrário o mal era um veneno
Subtil
Invadia o ar e a luz - penetrava
Os ouvidos as narinas o próprio pensamento -
O amor era impossível e ninguém podia
Libertar-se:
O inferno vomitava sua pestilência invadia
As veias e os rios:
No entanto o mal não se via: era apenas
Um leve sabor a podre que fazia parte
Da natureza das coisas

Sophia
, Ilhas, Caminho, 2004