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quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ideia romântica

Simplificação: Aristóteles, que escreve na Retórica que a maior parte das pessoas são estúpidas e só não praticam o mal se não puderem (livro I, livro II, passim), também escreveu na Ética a Nicómaco que não se pode escolher o bem em causa própria sem ter o bem de outros como fim. A primeira coisa não invalidava a possibilidade da justiça e do bem. Aristóteles deveria querer dizer não que se lixassem os estúpidos e os maus, mas que o potencial para o bem era intrínseco à vida em comunidade. (Platão é outra conversa.) Quintiliano, por sua parte (Institutio Oratoria, Livro II?), defendia que à maior parte das pessoas a maior parte das coisas podia ser explicada e por elas compreendida. A mesma ideia estaria eventualmente implícita na formulação de Aristóteles e penso que é por isso que o seu primeiro juízo não invalida o segundo. Em ambos acho que fica implícita outra ideia, base destas, que é a noção, romântica talvez, de que o coração dos homens, para o bem e para o mal, é muito vasto.
Ainda assim, implícita na ideia de que a justiça se exerce com outros e visa o bem de outros, está a sua contrária, a de que injustiça também se exerce com outros e para o mal de outros. How fucked up is that?

sexta-feira, 11 de março de 2011

A justiça

«A justiça concentra em si todas as excelências.» É assim, de modo supremo a mais completa das excelências. É, na verdade, o uso da excelência completa. É completa, porque quem a possuir tem o poder a usar não apenas só para si, mas também com outrem. Pois, de facto, há muitos que têm o poder de fazer uso da excelência em assuntos que lhes pertencem e dizem respeito, mas são impotentes para o fazer em relação a outrem. E é por esse motivo que parece estar correcto o dito de Bias, segundo o qual «o cargo público revela aquilo de que um homem é capaz», porque no desempenho das suas funções já se está em relação com outrem e em comunidade.
É por esta razão, então, que a justiça é a única das excelências que parece também ser um bem que pertence a outrem, porque, efectivamente, envolve uma relação com outrem, isto é, produz pela sua acção o que é de interesse para outrem (...)

Aristóteles, Ética a Nicómaco, António de Castro Caeiro, Quetzal, 2006 (segunda edição).

terça-feira, 1 de março de 2011

Don't explain



Caros senhores, a esta hora apetece-me perorar sobre esta música de Nina Simone, que na verdade e tanto quanto sei, foi primeiro cantada por Billie Holiday. Apetece-me perorar sobre ela como Cícero no exórdio do Pro Milone ou do Pro Archia. Mas sou desarmada pelo começo, o começo esmaga-me. Hush now, don't explain, there ain't nothing to gain. As coisas que mais verdadeiramente sentimos são as que confinam com o indizível, com o inexplicável. Também sobre isso é aquilo de que trata esse filme de Aronofsky, Black Swan. Daí também brotou a poesia, bela alegoria disso é a natureza tão dúplice de Apolo, deus de arco e lira. O que cura e mata, todas estas coisas que já alguém antes de mim notara.
O que dá cabo de mim a esta hora é aquele verso de Ruy Belo em Elogio de Maria Teresa, contigo fui cruel no dia a dia, tal como dito por Luís Miguel Cintra, as palavras lentas, arrastadas, pesando. Como se uma identidade mais verdadeira para o amor só se conquistasse a partir daí, por contigo ter sido cruel no dia a dia, Clara Rilke, escreveu Ruy Belo. Neste verso ele toca a natureza de uma coisa paradoxal, absurda, porque só as coisas absurdas podem ser absolutas, de outra forma explicar-se-ia o absoluto e ele estaria desmontado. É por isso que a poesia pode ser uma coisa total, é aí que está o seu poder e a sua possibilidade de nos mover. Aristóteles escreveu as pessoas são de um modo geral estúpidas, mas sempre as arrasta o belo. Eu penso que ele o diz sem crueldade. Que o diz com o espírito de dissecador de rãs que era. Nina Simone, a cantar esta música, não precisou de dar uma volta tão grande. Hush now, don't explain, there ain't nothing gain, I'm glad that you're back, don't explain. Alguém fora cruel com ela no dia a dia. Mas ela já estava para lá disso. Sei que já li poemas com essa mesma coreografia. Pensei que Ovídio, na minha metamorfose favorita, arrastou o indizível até à corporização da metáfora, uma mulher que por causa de uma brisa o próprio amante com um dardo trespassa e no último sopro que exala ela própria em brisa se converte. Suck that, Aristotle.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Aristóteles

Pertenço a um restrito conjunto de gente tarada que se levanta às seis da manhã para ler a Retórica de Aristóteles. O professor com quem estou a estudar a Retórica disse numa aula que Aristóteles era uma máquina de pensar. Quando ele lhe chamou «máquina de pensar» eu estava ligeiramente distraída, a pensar na morte da bezerra, evidentemente, e pensei que o que ele queria dizer é que Aristóteles era muito fértil em ideias. Mas agora que me pus a reler a Retórica é muito evidente porque é que é legítimo chamar a Aristóteles «máquina de pensar». A primeira ideia, às vezes até só a partícula mínima de uma ideia, arrasta consigo incontáveis roldanas, rodas dentadas que por sua vez servem para pôr outras em movimento. Ele tem uma noção e define-a até ao infinito, em todas as suas ínfimas aplicações e consequências, para em seguida definir o contrário delas, para as rodear de exemplos e para neste jogo ficarmos com o cerne das coisas. Uma coisa arrasta sempre outra. Até Aristóteles se devia fartar do carácter excessivamente lógico e analítico de Aristóteles. O que me assusta é como de forma tão lógica alguém possa definir tão claramente o que seja sentir medo em todas as suas variantes e circunstâncias, ou ira, ou calma, ou vergonha, ou piedade, coisas que pelo seu carácter são excessivamente vastas e vagas. Um dia alguém devia escrever um romance retirado ao Livro II da Retórica. Digo que não é uma ideia tão idiota quanto parece. Ou uma pequena peça de teatro. Alguém?

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Cálcis, Macedónia

Em 343, o rei Filipe da Macedónia convidou Aristóteles a tornar-se tutor de Alexandre em Pela. Durante quatro anos, o filósofo encarregou-se da educação de Alexandre e, passado este tempo, Filipe encarregou-o de supervisionar os trabalhos de reconstrução de Estagira, cidade de onde Aristóteles era oriundo e que fora devastada pela guerra.
Cumprida esta tarefa, Aristóteles resolveu regressar a Atenas, onde anteriormente (367) fizera a sua educação. Aqui viria a fundar uma escola que pôde competir com a Academia do seu mestre Platão, e que se passou a chamar Liceu, assim baptizada porque fora dedicada a Apolo Lyceos, deus de pastores, e porque foi edificada no bosque que lhe estava consagrado, na parte Leste de Atenas. O edifício da escola albergava uma imensa biblioteca, um museu de história natural e um jardim zoológico, nas suas dependências ensinava-se botânica, os costumes dos bárbaros, música, matemática, medicina, as constituições das cidades gregas, zoologia, etc. 
Nenhum dos vinte e sete tratados que se diz terem sido escritos por Aristóteles chegou até nós. O que até nós chegou foi o trabalho da, mais coisa menos coisa, sua última década de vida, ou seja, os apontamentos das suas aulas, por ele e pelos seus alunos coligidos. São estes apontamentos que no séc. I a.C. foram publicados por Andronico de Rodes.
Small talk à parte, quando Alexandre morreu em 323, acolhedor não era propriamente o primeiro adjectivo que os macedónios tinham na ponta da língua para caracterizar Atenas e os atenienses - a cidade antes fora conquistada por Filipe.
No meio da boa disposição geral, os atenienses resolveram fazer ao macedónio Aristóteles o que já tinham feito a Sócrates: acusaram-no de impiedade. Ao contrário de Sócrates, que com disposição pacífica bebeu a cicuta, Aristóteles revolveu que não daria aos atenienses a oportunidade «de pecar pela segunda vez contra a filosofia» e mudou-se para Cálcis, na Macedonia.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Cleofonte

Para mais, quando os Lacedemónios mostraram intenções de evacuar Deceleia e firmar a paz no ponto em que ambos se encontravam, alguns apressaram-se a mostrar o seu apoio. A maioria, porém, não quis atendê-los, deixando-se levar por Cleofonte, que impediu que se firmasse a paz, ao apresentar-se na assembleia, bêbado e de couraça revestida, afirmando a sua completa oposição, a menos que os Lacedemónios se retirassem de todas as cidades ocupadas.

Aristóteles, Constituição dos Atenienses, Delfim Leão (trad.), Fundação Calouste Gulbenkian, 2003

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O Juízo de John Donne sobre Shakeaspere

Se um pintor quisesse juntar a uma cabeça humana um pescoço de cavalo e a membros de animais de toda a ordem aplicar plumas variegadas, de forma que terminasse em torpe e negro peixe a mulher de bela face, conteríeis vós o riso, ó meus amigos, se a ver tal espectáculo vos levassem? Pois crede-me, Pisões, em tudo a este quadro se assemelharia o livro, cujas ideias vãs se concebessem quais sonhos de doente, de tal modo que nem pés nem cabeça pudessem constituir uma só forma. Direis vós que «a pintores e poetas igualmente se concedeu, desde sempre, a faculdade de tudo ousar». Bem o sabemos e, por isso, tal liberdade procuramos e reciprocamente a concedemos, sem permitir, contudo, que à mansidão se junte a ferocidade e que associem serpentes a aves e cordeiros a tigres. (...)
Em suma, faz tudo o que quiseres, contanto que o faças com simplicidade e unidade.

Horácio, Arte Poética, R. M. Rosado Fernandes (trad.), Editorial Inquérito, 2001.

É neste tom que abre o poema em verso que Horácio dedicou, possivelmente numa data posterior a 14, 13 a.C., aos Pisões, de tal forma que a sua Arte Poética é também conhecida como Epístola aos Pisões.
Enquanto na Poética, esse bloco de notas de Aristóteles, encontramos uma reflexão sobretudo teórica, virada para questões de teorização dos géneros e relativas a uma problemática das artes miméticas (de um modo muito geral), a Arte Poética é bastante prática: como escrever isto ou aquilo ou como não o escrever. De certa forma, pode-se dizer que é uma espécie de curso de Práticas de Escrita mas escrito por um dos maiores poetas da literatura latina e um dos mais influentes a moldar o imaginário poético da literatura ocidental.
Para mim existem três livros acerca de teorização poética na antiguidade que devem forçosamente ser lidos por alguém que se interesse por literatura ou por escrita: Arte Poética de Horácio, Poética de Aristóteles e o Íon de Platão. Podemos sempre querer escapar a tudo o que eles lá dizem, mas devemos conhecer estas obras, porque Platão, Aristóteles, Horácio fixaram e debateram as mesmas questões em relação à literatura que ainda hoje são debatidas por nós. Fizeram-no com uma acuidade notável e muita da nossa problematização (e dos nossos problemas) em relação à literatura são herdeiros deles: o que diferencia tragédia de épica? como , admitindo que existe uma fórmula, se deve escrever poesia e o que é poesia? há um poder pernicioso que torna a literatura «menos recomendável»? os poetas devem ser proscritos, banidos (aqui já estamos sobretudo no domínio da República mas também do Íon, que é dos três livros que indico o meu favorito) da cidade, por uma influência perniciosa que com as suas obras possam exercer? por que é que os homens apreciam tanto as artes miméticas? por que é que gostam de ver imitações de sofrimento?
Estas perguntas, que tipos como Platão, Horácio, Aristóteles colocaram, acabaram por nomear, delimitar e fixar o campo do nosso fascínio pela literatura, em toda a extensão do seu poder e influência. Definiram-na e fizeram dela uma arte. E não foi uma definição pacífica e regular, porque os homens e as suas paixões são sempre os mesmos, variando algumas condições consoante a época.
A estes três livros, de modo a traçar a influência e a história da discussão teórica da literatura na antiguidade, eu juntaria mais alguns, que ajudam a colocar a questão em perspectiva: alguns livros da República (de Platão), a Retórica (de Aristóteles, que detém o recorde de absoluto de livro-mais-escruciante-que-alguma-vez-tive-de-ler-na-vida) e creio que, ainda que para alguns um pouco à margem, entra nesta discussão o Do Sublime de Longino.
Não sou daquelas pessoas que têm a ilusão de que não se pode discutir literatura sem ler isto. Tal como não me conto entre aquelas pessoas que acreditam que é necessário ler Homero para escrever excelente poesia, embora ache que ajuda. Mas estas obras, de nomes tão pesados como Platão, Aristóteles, Horácio, Longino, ajudaram a explicar e a moldar o fascínio dos homens pela literatura. Ao nomeá-lo, criaram-no e ajudam-nos, hoje em dia, a saber o que estamos a discutir, quando discutimos uma fronteira de género ou se tal ou tal peça é uma tragédia ou uma comédia. Toda a literatura é um movimento de continuidade (mesmo onde há ruptura) e o mesmo sucede com a teoria literária. O romance foi durante séculos um género «proscrito», «novo», porque Aristóteles não o contemplou na sua teorização (à data o romance não existia).
Por vezes, sinto uma imensa curiosidade em saber o que ele teria escrito acerca do romance, trata-se, um pouco, do mesmo mecanismo que Borge nomeia, ao aludir à curiosidade que sentia em saber o juízo de John Donne sobre Shakespeare.