Mostrar mensagens com a etiqueta Platão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Platão. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 28 de março de 2012

Misanthropy

Misanthropy develops when, without skill, on puts complete trust in somebody, thinking the person absolutely true and sound and reliable, and then a little later finds him bad and unreliable; and then that happens again with another person; and when it happens often, especially at the hands of those one would regard as one's nearest and dearest friend, one ends up, after repeated hard knocks, hating everyone, thinking there's no soundness whatever in anyone at all. Have you ever noticed that happen? (...) Well, isn't it an ugly thing, and isn't it clear that such a person was setting about handling human beings, without any skill in human relations? Because if one handled them with skill, one would have surely recognized the truth, that extremely good and bad people are both very few in number and the majority lie in between.

Platão, Fédon, 89d5-90, Tradução e introdução de David Gallop, Oxford World Classics, 2009 (reimp.).


ἥ τε γὰρ μισανθρωπία ἐνδύεται ἐκ τοῦ σφόδρα τινὶ πιστεῦσαι ἄνευ τέχνης, καὶ ἡγήσασθαι παντάπασί γε ἀληθῆ εἶναι καὶ ὑγιῆ καὶ πιστὸν τὸν ἄνθρωπον, ἔπειτα ὀλίγον ὕστερον εὑρεῖν τοῦτον πονηρόν τε καὶ ἄπιστον, καὶ αὖθις ἕτερον: καὶ ὅταν τοῦτο πολλάκις πάθῃ τις καὶ ὑπὸ τούτων μάλιστα οὓς ἂν ἡγήσαιτο οἰκειοτάτους τε καὶ ἑταιροτάτους, τελευτῶν δὴ θαμὰ προσκρούων μισεῖ τε πάντας καὶ ἡγεῖται οὐδενὸς οὐδὲν ὑγιὲς εἶναι τὸ παράπαν. ἢ οὐκ ᾔσθησαι σύ πω τοῦτο γιγνόμενον; οὐκοῦν, ἦ δ᾽ ὅς, αἰσχρόν, καὶ δῆλον ὅτι ἄνευ τέχνης τῆς περὶ τἀνθρώπεια ὁ τοιοῦτος χρῆσθαι ἐπεχείρει τοῖς ἀνθρώποις; εἰ γάρ που μετὰ τέχνης ἐχρῆτο, ὥσπερ ἔχει οὕτως ἂν ἡγήσατο, τοὺς μὲν χρηστοὺς καὶ πονηροὺς σφόδρα ὀλίγους εἶναι ἑκατέρους, τοὺς δὲ μεταξὺ πλείστους.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

One can feel so much and no more.

We grieve, but our grief is not bitter. In the actual life of man, sorrow, as Spinoza says somewhere, is a passage to a lesser perfection. But the sorrow with which Art fills us both purifies and initiates, if I may quote once more from the great art-critic of the Greeks. It is through Art, and through Art only, that we can realize our perfection; through Art, and trough Art only, that we can shield ourselves from the sordid perils of actual existence. This results not merely from the fact that nothing that one can imagine is worth doing, and that one can imagine everything, but from the subtle law that emotional forces, like the forces of the physical sphere, are limited in extent and energy. One can feel so much and no more.

Oscar Wilde, The Decay of Lying and Other Essays, Penguin Books, 2010.

Tenho algumas reservas em relação ao que Wilde aqui diz. Mas não é isso que importa ao caso. O que me intriga neste excerto é a articulação que isto poderia ter com o que Platão diz algures em meados do livro VII (?) da República sobre poesia. Penso que este é um passo platónico de Wilde. Não posso deixar de pensar que para os moldes em que Platão faz a condenação das artes miméticas, a linha positiva de argumentação, a oposta, seria algo de muito parecido com este passo. A somar a isto, penso que o irlandês adopta aqui uma forma que é irónica para falar deste assunto: estas linhas passam-se num diálogo, concebido à velha maneira platónica. Oo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A arte dialéctica é mais bela quando

toma uma alma apta e nela planta e semeia discursos com entendimento – discursos capazes de vir em socorro de si mesmos e de quem os plantou, não improdutivos mas possuidores de gérmen, de que mais discursos nascem em outros temperamentos e podem tornar para sempre essa semente imortal, e assim conceder ao seu detentor o mais alto grau de felicidade que um ser humano pode ter.  
Platão/Sócrates, Fedro, 277a, José Ribeiro Ferreira (trad.), Edições 70, 1997.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Metapoiésis

Com efeito, os poetas dizem-nos, não é verdade, que é em fontes de mel, em certos jardins e pequenos vales das Musas que eles colhem os versos para, tal como as abelhas, no-los trazerem, esvoaçando como elas. E falam verdade! Com efeito, o poeta é uma coisa leve, alada, sagrada, e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão. Enquanto não perceber este dom divino, nenhum ser humano é capaz de fazer versos ou de proferir oráculos.
Platão, Íon, Tradução, Introdução e Notas de Victor Jabouille, Editorial Inquérito, 2000.

O sentimento intenso, extático ou terrível, sem objecto ou excedendo o seu objecto, é algo que toda a pessoa de sensibilidade conhece; é sem dúvida assunto de estudo para os patologistas. Ocorre frequentemente na adolescência: a pessoa vulgar adormece estes sentimentos, ou domina os sentimentos para se adaptar ao mundo real; o artista mantém-nos vivos por meio da sua capacidade para intensificar o mundo, em função das suas emoções.
T.S. Eliot, «Hamlet» ("Hamlet and his Problems", 1919), in Ensaios Escolhidos, Tradução de Maria Adelaide Ramos, Livros Cotovia, 1992.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O Juízo de John Donne sobre Shakeaspere

Se um pintor quisesse juntar a uma cabeça humana um pescoço de cavalo e a membros de animais de toda a ordem aplicar plumas variegadas, de forma que terminasse em torpe e negro peixe a mulher de bela face, conteríeis vós o riso, ó meus amigos, se a ver tal espectáculo vos levassem? Pois crede-me, Pisões, em tudo a este quadro se assemelharia o livro, cujas ideias vãs se concebessem quais sonhos de doente, de tal modo que nem pés nem cabeça pudessem constituir uma só forma. Direis vós que «a pintores e poetas igualmente se concedeu, desde sempre, a faculdade de tudo ousar». Bem o sabemos e, por isso, tal liberdade procuramos e reciprocamente a concedemos, sem permitir, contudo, que à mansidão se junte a ferocidade e que associem serpentes a aves e cordeiros a tigres. (...)
Em suma, faz tudo o que quiseres, contanto que o faças com simplicidade e unidade.

Horácio, Arte Poética, R. M. Rosado Fernandes (trad.), Editorial Inquérito, 2001.

É neste tom que abre o poema em verso que Horácio dedicou, possivelmente numa data posterior a 14, 13 a.C., aos Pisões, de tal forma que a sua Arte Poética é também conhecida como Epístola aos Pisões.
Enquanto na Poética, esse bloco de notas de Aristóteles, encontramos uma reflexão sobretudo teórica, virada para questões de teorização dos géneros e relativas a uma problemática das artes miméticas (de um modo muito geral), a Arte Poética é bastante prática: como escrever isto ou aquilo ou como não o escrever. De certa forma, pode-se dizer que é uma espécie de curso de Práticas de Escrita mas escrito por um dos maiores poetas da literatura latina e um dos mais influentes a moldar o imaginário poético da literatura ocidental.
Para mim existem três livros acerca de teorização poética na antiguidade que devem forçosamente ser lidos por alguém que se interesse por literatura ou por escrita: Arte Poética de Horácio, Poética de Aristóteles e o Íon de Platão. Podemos sempre querer escapar a tudo o que eles lá dizem, mas devemos conhecer estas obras, porque Platão, Aristóteles, Horácio fixaram e debateram as mesmas questões em relação à literatura que ainda hoje são debatidas por nós. Fizeram-no com uma acuidade notável e muita da nossa problematização (e dos nossos problemas) em relação à literatura são herdeiros deles: o que diferencia tragédia de épica? como , admitindo que existe uma fórmula, se deve escrever poesia e o que é poesia? há um poder pernicioso que torna a literatura «menos recomendável»? os poetas devem ser proscritos, banidos (aqui já estamos sobretudo no domínio da República mas também do Íon, que é dos três livros que indico o meu favorito) da cidade, por uma influência perniciosa que com as suas obras possam exercer? por que é que os homens apreciam tanto as artes miméticas? por que é que gostam de ver imitações de sofrimento?
Estas perguntas, que tipos como Platão, Horácio, Aristóteles colocaram, acabaram por nomear, delimitar e fixar o campo do nosso fascínio pela literatura, em toda a extensão do seu poder e influência. Definiram-na e fizeram dela uma arte. E não foi uma definição pacífica e regular, porque os homens e as suas paixões são sempre os mesmos, variando algumas condições consoante a época.
A estes três livros, de modo a traçar a influência e a história da discussão teórica da literatura na antiguidade, eu juntaria mais alguns, que ajudam a colocar a questão em perspectiva: alguns livros da República (de Platão), a Retórica (de Aristóteles, que detém o recorde de absoluto de livro-mais-escruciante-que-alguma-vez-tive-de-ler-na-vida) e creio que, ainda que para alguns um pouco à margem, entra nesta discussão o Do Sublime de Longino.
Não sou daquelas pessoas que têm a ilusão de que não se pode discutir literatura sem ler isto. Tal como não me conto entre aquelas pessoas que acreditam que é necessário ler Homero para escrever excelente poesia, embora ache que ajuda. Mas estas obras, de nomes tão pesados como Platão, Aristóteles, Horácio, Longino, ajudaram a explicar e a moldar o fascínio dos homens pela literatura. Ao nomeá-lo, criaram-no e ajudam-nos, hoje em dia, a saber o que estamos a discutir, quando discutimos uma fronteira de género ou se tal ou tal peça é uma tragédia ou uma comédia. Toda a literatura é um movimento de continuidade (mesmo onde há ruptura) e o mesmo sucede com a teoria literária. O romance foi durante séculos um género «proscrito», «novo», porque Aristóteles não o contemplou na sua teorização (à data o romance não existia).
Por vezes, sinto uma imensa curiosidade em saber o que ele teria escrito acerca do romance, trata-se, um pouco, do mesmo mecanismo que Borge nomeia, ao aludir à curiosidade que sentia em saber o juízo de John Donne sobre Shakespeare.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Platão, República, VI, 485d

ἦ οὖν δυνατὸν εἶναι τὴν αὐτὴν φύσιν φιλόσοφόν τε καὶ φιλοψευδῆ;

É possível que uma mesma natureza seja ao mesmo tempo amiga da sabedoria e da mentira?