Mostrar mensagens com a etiqueta Ruy Belo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ruy Belo. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 4 de junho de 2013

A fonte da arte

Homenageio a tua primavera em flor
alma precocemente iluminada
que pões a salvação no mais profundo risco
o silêncio dos olhos sobranceiros
na predestinação da profecia
suavidade um dia em minha morte
com o olhar imerso na tristeza
Povoavam pássaros a noite
tudo era pensamento para mim
e as palavras só vinham depois
Ó meu país longínquo donde venho
nessa nuvem de vida sobre a minha morte
Na manhã combalida do domingo
na primavera dolorosa dos teus passos ruy
ao tempo de uma má reputação
o metro tem a voz de um cordeiro triste
É isso apenas isso e o demais são
a morte e a nascença dos contrários a
fórmula da ternura e do sossego
abismo de ameaças nos seus olhos
regiões insondáveis e inacessíveis
pequeníssimas flores da memória
relâmpago dourado do olhar
os cheiros acres das redondas cavidades
a tua boca de ouro de onde voam as palavras
animadas figuras do meu sonho
os peixes negros e dourados das recordações
olhos brilhantes de animais desconhecidos
coisas que por pensá-las eu as sinto
Os dias diminuem é outono
alguém alguma coisa me virá desse distante bosque
O que dirão de mim o castanheiro
os rostos múltiplos trazidos pela tarde num momento
a verde zebra que nos campos vibra ou
papoila rubra que no céu me sobra?
Mas amo muito mais amo o bem e o mal
os campos no outono moribundo
no meio do inverno a casa acolhedora
estranha companheira dos meus dias
demónio de demência e desespero
ao longo do caminho no outono
O receio da morte é a fonte da arte
Eu amo a embriaguez vasta dos espaços
a canção inquieta do amor as
alturas coloridas do outono
Não se pode dizer muito melhor
na monstruosa veemência dos sentidos
e sinto-me perdido de tristeza
entre esses longos nomes das mulheres casadas
Houveram morte às minhas mãos as cartas
os aviões nos distribuem por países
saem de um centro partem nas mais várias direcções
farejam na distância os seus destinos
retalham-nos o espaço em sulcos divisórios
Por onde corre agora a fonte das suaves raparigas?
Ficou na casa o meu lugar vazio
levo a desgraça como um braço ao peito
e árvores ao vento neste dia
e sombra ao sol deste meu dia
Queimam as folhas no parque del'oeste
o tecto é baixo o sol está quase a pôr-se
tenho nas minhas mãos três notas do país amado
Esta manhã falavam-me de málaga
e de súbito no meio desta névoa
abriu-se o céu de há anos no verão
Éramos tão jovens nesse tempo
que não sabíamos sequer que nos amávamos assim
e discutimos junto ao porto e regressámos separados
ao hostal onde estávamos aboletados
E tu de olhos no chão reflectias o vulto entre as águas
e não havia os filhos éramos os dois apenas
mas enfim foi há pouco posto que inda hoje brilha
a moeda nesse ano posta em circulação
e que acabo de ter nas minhas mãos no bar
Não me farto de contemplar
o braço esquerdo e a perna direita
que cortados de mim não me pertencem mais
Tu foste sempre reino sobre ti
e o meu desejo é seguir do alto o tejo
Que depressa se esfuma uma cidade no ar
não são sequer as nuvens nem o vasto espaço
basta um golpe de asa que roçando limpe
o pára-brisas próximo horizonte
Pensar é estar alguma coisa a mais
pensar é o que sobra da respiração
pensar é o que não nos leva às coisas
pensando se antecipa a própria morte
O receio da morte é a fonte da arte

Madrid, 24/V/1977


Ruy Belo, Despeço-me da Terra da Alegria, Editorial Presença, 1978

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Mulher sentada

Essa mulher sentada de ribeiro de pavia
nas maçãs salientes risco ao meio e ancas arqueadas
(das pernas nada digo pois sou púdico e além disso há a mesa de permeio)
essa mulher durante tantos anos perseguida e só muito raras vezes conseguida
no mínimo desenho do pintor alentejano
finalmente perdida como tudo com a vida essa mulher amendoada
mas de cabelo louro (oxigenado?) e de dois olhos
possivelmente obtidos a partir desse lápis-lazúli
ainda não há muito visto mesmo mais que entrevisto
em dois botões de punho que o hernani me deixou ao voltar para o chile
entre compreensivos conviventes versos sobre a mesa do meu quarto
de solteiro e amiúde solitário
da casa do brasil onde em madrid envelheci um ano
esse lápis-lazúli que eu esquecera em roma numa mesa de oratório
e tão bem conhecia do antónio nobre onde me conhecera
não menos que em courelas do guerreiro ou do costa alemão
(já não sei qual dos dois) concretamente se chamava
silicato complexo de alumínio e sódio
(que forma mais complexa se utiliza - lembro-me - pensava -
pra nomear uma só pedra embora rara baça sonhadoramente azul
que já de si se chama de maneira complicada)
essa mulher sentada jamais pode conhecer
quem envelhece ao fim do corredor dos dias
e acaba de passar ao lado de umas árvores moldadas despenteadas pelo vento
sob a macia abóbada do lusco-fusco
num carro porventura expressamente encarregado
de difundir esse quarteto salvo erro número dois de haydn
entre as íntimas ervas dos velados campos
onde perdeu coisas concretas como a sua juventude
um búzio um rancho de mulheres ou o varejo da azeitona
alguns cabelos uma chave ou uma rima original
Raios a partam e depois de todos estes digressivos versos
essa mulher na mesma ali sentada e assentada
sozinha à minha espera à espera de um sentido para a vida
à espera de um marido à espera do natal

Ruy Belo, Transporte no Tempo, Moraes Editores, Lisboa, 1973.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Estátua de rapariga que se prepara para dançar

Há uns vinte e três séculos que esta rapariga
concentra toda a vida que o mármore consente
no acto de dançar e de vencer assim
a condição mortal que intimamente a atinge
o peso que lhe pesa nesses pés com os quais pisa
a terra positiva e ciumenta como mãe
inimiga do voo de quem no acto de voar pode encontrar
maneira de evitar aquela gravidade que o sobrecarrega
Prepara a dança rapariga grega
tu nunca dançarás mas dançarás melhor
que se houvesses dançado alguma vez
No gesto com que apertas o sapato
nesse dobrar da perna até no risco do cabelo
no próprio olhar que pões em ver passar os dias
tu danças toda a dança que se tem dançado
em teatros jardins boîtes em adros de aldeias
ao longo destes séculos separando na aparência
dois seres que na verdade aqui hoje convivem
um breve instante neste corredor nesta passagem
com uma intensidade inacessível a contemporâneos
Prepara-te mulher para dançar
e por nunca dançar hás-de dançar em toda a parte
todas as danças que se têm sucedido
sobre esta terra grave e oscilante entre o dia e a noite
firme no solo inconstante no mar
através deste tempo que separa e une
e tanto mais nos une quanto mais separa
Não sei o que pensavas tu dançar
mas eu vi-te dançar ballet e música yé-yé
vi-te dançar giselle e vi-te até dançar
um único momento ao som de música moderna
há pouco tempo ainda na estalagem de saler
És toda a gente que na dança afinal tem procurado
deter o tempo eternizar o instante
Prepara a dança e põe em prepará-la
todo o cuidado de que és capaz
Só por ti não passaram vinte e tantos séculos
só tu não suportaste o dia-a-dia
não sofreste com guerras não tiveste fome
nem morreste sequer como cada pessoa
que teve nesta terra a vida e que pagou por tê-la
Prepara-te mulher e permanece e petrifica
assim serás feliz por nem teres começado
uma coisa que como uma das nossas muitas coisas
já mesmo ao começar havia terminado

Ruy Belo, Transporte no Tempo, Moraes Editores, Lisboa, 1973

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Em legítima defesa

Sei hoje que ninguém antes de ti
morreu profundamente para mim
Aos outros foi possível ocultá-los
na sua irredutível posição horizontal
sob a capa da terra maternal
Choramo-los imóveis e voltamos
à nossa irrequieta condição de vivos
Arrumamos os mortos e ungimo-los
são uma instituição que respeitamos
e às vezes lembramos celebramos
nos fatos que envergamos de propósito
nas lágrimas nos gestos nas gravatas
com flores e nas datas num horário
que apenas os mate o estritamente necessário
Mas decerto de acordo com um prévio plano
tu não só me mataste como destruíste
as ruas os lugares onde cruzámos
os nossos olhos feitos para ver
não tanto as coisas como o nosso próprio ser
A cidade é a mesma e no entanto
há portas que não posso atravessar
sítios que me seria doloroso outra vez visitar
onde mais viva que antes tenho medo de encontrar-te
Morreste mais que todos os meus mortos
pois esses arrumei-os festejei-os
enquanto a ti preciso de matar-te
dentro do coração continuamente
pois prossegues de pé sobre este solo
onde um por um persigo os meus fantasmas
e tu és o maior de todos eles
Não suporto que nada haja mudado
que nem sequer o mais elementar dos rituais
pelo menos marcasse em tua vida o antes e o depois
forma rudimentar de morte e afinal morte
que por não teres morrido muito mais tenhas morrido
Se todos os demais morreram de uma morte de que vivo
tu matas-me não só rua por rua
nalguma qualquer esquina a qualquer hora
como coisa por coisa dessas coisas que subsistem
vivas mais do que na vida vivas na imaginação
onde só afinal as coisas são
Ninguém morreu assim como morreste
pois se houvesses morrido tudo estava resolvido
Os outros estão mortos porque o estão
só tu morreste tanto porque não tens ressurreição
pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
onde antes te encontravas e te posso encontrar
e ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e vives sempre mais

Ruy Belo, Transporte no Tempo, Moraes Editores, Lisboa, 1973

domingo, 12 de maio de 2013

Um quarto as coisas a cabeça

Mesmo que fosse mais do que este quarto a minha vida
à volta da cabeça pronta a rebentar
mesmo que fossem quatro apenas as paredes
quatro paredes são de mais para uma vida
e há palavras horríveis ó meu deus sintagma da gramaticalidade
pura pura negação da vida três palavras onde
se apoia há muito o homem que afinal só fala por falar
e eu me apoio agora em holocausto ao ritmo à vibração verbal
há dizia eu palavras pavorosas que não são precisamente o adjectivo
que substituo por razões de métrica mas são palavras como
por exemplo vida e há muito haver deixado a minha infância
coisa talvez que só por havê-la deixado alguma coisa significa
e ser não já profissional qualificado mas pessoa crescida
que não leva talvez gravata mas que tem vida privada
gulosamente devassada por vizinhos companheiros de trabalho
e tem outras pessoas e tem horas e tem ruas ó meus deus
ó forma essencialmente vocativa do meu grito grande merda esta vida
Talvez haja a janela haja árvores e céu
talvez se eu caminhar ao longo do comprido corredor
que talvez una uns com os outros estes dias
talvez se houve uma entrada ao fundo haja uma saída
Hei-de passar a merda desta vida à procura de papéis?
Sempre em mim e ao que chamam coisas há-de haver palavras
e dirão que há-de haver não só algum sentido para as coisas
mas um sentido seja ele qual for para a merda da vida
onde nasce de súbito um pequeno imenso monstro descendente de um tirano
e a mãe desse tirano descendente que podia ser tamanha como simples mãe
é mãe por profissão por pose pela posição da tão tonta cabeça
multiplicada pelas capas das estúpidas inúmeras revistas
forma mais fugitiva de fugir à fome à alegria própria ao real
cabeça digo não apenas sem ideias mas cabeça onde já nada começa
criança que sabe quantos quilos pesa que cor tinha
a primeira e menos metafórica das merdas que cagou
e o pai da criança que horrorosamente se apresenta como pai profissional
como marido inteiramente a par das regras da mulher
meu deus que merda metafórica esta merda desta vida
E ter eu de passar a vida à procura da chave
e procurar abrir e não saber da chave
e não existir nunca porta ou chave
e chave ser palavra ambígua ter sentido
e haver muitas palavras e muitíssimos sentidos
e a vida ser só uma e ser a vida
e haver mãos para as coisas gestos para as mãos
e não haver que porra uma saída
E esta cara esta cabeça susceptível de ser vista
e tudo quanto faço interpretado e comentado
e haver nomes e eu ser isto e não aquilo
e eu sentir-me em nomes encerrado
Quero dormir não ter esta doença de pensar
estender-me sob o céu o mais possível ao comprido
e que bastante terra cubra o meu comprido corpo
e eu seja terra apenas e a terra nada seja
Que eu durma ó meu nada e tu meu nada existas só
para na noite ouvir quem como eu é isso apenas que deseja

Ruy Belo, Transporte no Tempo, Moraes Editores, Lisboa, 1973

quarta-feira, 8 de maio de 2013

De "Breve programa para uma iniciação ao canto"

Escrever é desconcertar, perturbar e, em certa medida, agredir. Alguém se encarregará de instuticionalizar o escritor, desde os amigos, os conterrâneos, os companheiros de luta, até todas aquelas pessoas que abominou e combateu. Acabarão por lhe encontrar coerência, evolução harmoniosa, enquadramento numa tradição. Servir-se-ão delem, utilizá-lo-ão, homenageá-lo-ão. Sabem que assim o conseguirão calar, amordaçar, reduzir.
É claro que falo do poeta e não do poetrasto, do industrial e do comerciante de poemas, do promotor da venda das palavras que proferiu. Falo do homem que nunca repousou sobre o que escreveu, que recusou a servir-se a si e a servir, que constantemente se sublevou.
Falo do homem que, ombro a ombro com os oprimidos, empunhando a palavra como uma enxada ou uma arma, encontrou ou pelo menos procurou na linguagem um contorno para o silêncio que há no vento, no mar, nos campos.

Ruy Belo, Transporte no Tempo, Moraes Editores, 1973.

domingo, 5 de maio de 2013

Espaço para uma canção

As noites desmedidas de novembro
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra
Adeus ó meu verão impiedoso
ó limpidez da água sobre as pedras
ó inúmeros galos da manhã
ó tempestade agreste de alegria
É o país da música é a fome da noite
impossível estar só razoável rapaz
meu príncipe da própria juventude
Nos cabelos de vento do mar morto do destino
fundo antigo de água conchas e areias
no centro solitário deste solo
ante a solenidade sensual do sono
eu olho os paralelipípedos do nada
não me detenho nos umbrais das trevas
caminho numa mesma direcção
Onde o cheiro da esteva sobre a vila
o trigo para o campo do olhar
as estrelas abertas pelo céu?
Ponho os pés sobre as folhas no asfalto
espero por dezembro mês para morrer
evoco a luz discreta das doenças de outrora
Aqui os cisnes são da cor da cinza
e o vento devasta o país dos pauis
quando perto do chão a última cigarra
anuncia a definitiva solidão
Que é momentos puros de outra vida
da luminosa luz como ferro em fusão
do silêncio como a nossa melhor obra?
Eu te saúdo outono punitivo
sinal desse silêncio que me não permite
desistir de cantar enquanto vivo
Que o vento a névoa a folha e sobretudo o chão
caibam dentro do espaço da minha canção

Ruy Belo, Transporte no Tempo, Moraes Editores, 1973

segunda-feira, 21 de maio de 2012

1

11 (Príncipe Míchkin depois da morte de Nastássia Filíppovna, tirado daqui)

Mas nós os que dos peixes somos
os que com a tormenta afinal todos nos perdemos
temos por simples pátria a língua portuguesa
e por isso por arma temos estar de pé
opor ao sol a face incorrigível
e darmos palavra aos que não têm voz
pois ao silêncio os têm submetidos
Poema de palavras não de paz mas de pavor
construção linguística difícil aparentemente
eu que em troca da vida e do triunfo me tornei teu ínfimo
                                                                                  cultor
sob essa superfície de impassível frialdade
sei que se oculta a voz não da humanidade
palavra do mais dúbio dos significados
mas dos homens que dostoievski viu ofendidos e
                                                            humilhados
Quente e humana embora na aparência fria
que a todos se destine a poesia.

De Ruy Belo, Transporte no Tempo

Versos que me trouxeram à memória um texto de Benjamin, Sobre a Linguagem em Geral e sobre a Linguagem Humana, em que nos é dito, por um lado, que a natureza sofre porque vive na ausência de linguagem. Por outro, o silêncio da natureza é reflexo da mais profunda tristeza, mas é para sua redenção que existem a vida e a linguagem do homem na natureza, e não só a do poeta, como por vezes se supõe
A poesia pode também dar voz ao que, pela opressão, se cala.

Elogio de Maria Teresa

Eu que às vezes encontro sem saber porquê

um simples não sei quê em estátuas retratos antigos

de límpidas mulheres desconhecidas

eu que de súbito à primeira vista me apaixono
                                                  adolescentemente
por essas mulheres mortas mas contemporâneas

de um pobre poeta português do século vinte

levadas até ele talvez por um discreto gesto

às formas e às cores impresso por um homem

que na arte encontrava a única razão de vida

abro a pasta e deparo com o teu retrato

um retrato de passe anos atrás tirado

no sítio suburbano onde primeiro vivemos
e juntos suportámos com surpresa a solidão

de sermos dois e ela só vergar os ombros onde os dias nos
                                                                                  poisavam

Conheço outros retratos teus onde também estás viva
um deles bem me lembro estava à minha espera em
                                                                     saint-malo

uma tarde ao voltar do monte saint michel

nesse verão bretão onde então procurava

justificação por mínima que fosse para a vida
numa das muitas fugas de mim próprio

que às vezes empreendo embora antecipadamente certo

de que só pela morte enfim me encontrarei comigo
com todos quantos verdadeiramente amei

alguns desconhecidos e alguns mesmo inimigos

sobretudo sedentos de justiça

de que depois somente de bem morto hei-de dispor
                                                               daquela paz
que sempre apeteci mas nunca procurei

até por não ter tempo para isso nem sequer para saber
coisas simples como saber quem sou porque ao certo só sei

que muito mais passei naquilo em que fiquei

nem que fossem os filhos ou os versos
 
que fiquei muito mais naquilo onde passei

como passos na areia no inverno ou repentinas sensações

de me sentir de súbito sensivelmente bem

encher o peito de ar sentir-me vivo

São retratos diferentes de quem foste um breve instante

e nele floriste e apenas não murchaste
por haveres ficado um pouco mais em tais fotografias

Mas há em todos eles uma graça inesperada

a surpresa da corça ou restos dessa raça

que há em ti talvez um pouco mais que nas demais
                                                                      mulheres

expressão sempre surpreendente da surpresa
mesmo até para quem te conhece tão bem como eu te
                                                                            conheço

Se nuns mais do que noutros sem excepção desponta

a madrugada que era e é esse teu riso claro

quem primeiro falou de riso claro

talvez houvesse ouvido a água quando corre sobre os
                                                       seixos de
 um ribeiro

talvez a houvesse visto branca e fresca

mas teve de inventar pra conquistar essa metáfora

quando eu que te ouvi rir não fiz mais do que ouvir

e sei que o som da água imita o teu sorriso

Talvez dentro de séculos se não fale já de ti

coisa aliás sem maior importância

que a de não ter alguém deixado o teu retrato

em qualquer dos museus esparsos pelo mundo
Eu estarei morto e pouco poderei fazer

por ti simples mulher da minha vida
Mas isso não importa importa esta manhã
este bar de milão onde olho o teu retrato

enquanto espero o meu pequeno-almoço

saboreio as cervejas em jejum tomadas

e começam de súbito a chegar aos meus ouvidos

inesperados os primeiros acordes do concerto imperador

Se um dia penso porventura te perder
mulher simples recôndita e surpreendente

sobre quem recaiu o peso do meu nome

só então saberei quanto valias verdadeiramente

Estás presente em mim como ninguém
e sabes quão terrivelmente amei e amo outras mulheres

além de ti além de minha mãe

Mas tu tens o meu nome clara rilke tu trocaste

a tua alegre vida irrequieta

no único infeliz dos teus negócios

por um poeta pobre velho e feio como eu

Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo

e a diversa cor que há nos olhos das pessoas

Só tu me acompanhaste súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor

e me sentia só e no cabo do mundo

Contigo fui cruel no dia a dia

mais que mulher tu és já hoje a minha única viúva

Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre

e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente

Bons-dias maria teresa até depois
preciso de tomar o meu pequeno-almoço

a cerveja era boa mas é bom comer

como come qualquer homem normal

e me poupa ao perigo de até pela idade

me converter subitamente num sentimental

Ruy Belo, Transporte no Tempo,  Editorial Presença, Lisboa, 1997.

sugerido também por esta publicação.

terça-feira, 1 de março de 2011

Don't explain



Caros senhores, a esta hora apetece-me perorar sobre esta música de Nina Simone, que na verdade e tanto quanto sei, foi primeiro cantada por Billie Holiday. Apetece-me perorar sobre ela como Cícero no exórdio do Pro Milone ou do Pro Archia. Mas sou desarmada pelo começo, o começo esmaga-me. Hush now, don't explain, there ain't nothing to gain. As coisas que mais verdadeiramente sentimos são as que confinam com o indizível, com o inexplicável. Também sobre isso é aquilo de que trata esse filme de Aronofsky, Black Swan. Daí também brotou a poesia, bela alegoria disso é a natureza tão dúplice de Apolo, deus de arco e lira. O que cura e mata, todas estas coisas que já alguém antes de mim notara.
O que dá cabo de mim a esta hora é aquele verso de Ruy Belo em Elogio de Maria Teresa, contigo fui cruel no dia a dia, tal como dito por Luís Miguel Cintra, as palavras lentas, arrastadas, pesando. Como se uma identidade mais verdadeira para o amor só se conquistasse a partir daí, por contigo ter sido cruel no dia a dia, Clara Rilke, escreveu Ruy Belo. Neste verso ele toca a natureza de uma coisa paradoxal, absurda, porque só as coisas absurdas podem ser absolutas, de outra forma explicar-se-ia o absoluto e ele estaria desmontado. É por isso que a poesia pode ser uma coisa total, é aí que está o seu poder e a sua possibilidade de nos mover. Aristóteles escreveu as pessoas são de um modo geral estúpidas, mas sempre as arrasta o belo. Eu penso que ele o diz sem crueldade. Que o diz com o espírito de dissecador de rãs que era. Nina Simone, a cantar esta música, não precisou de dar uma volta tão grande. Hush now, don't explain, there ain't nothing gain, I'm glad that you're back, don't explain. Alguém fora cruel com ela no dia a dia. Mas ela já estava para lá disso. Sei que já li poemas com essa mesma coreografia. Pensei que Ovídio, na minha metamorfose favorita, arrastou o indizível até à corporização da metáfora, uma mulher que por causa de uma brisa o próprio amante com um dardo trespassa e no último sopro que exala ela própria em brisa se converte. Suck that, Aristotle.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Muriel*



*Ou um dos posts que sempre quis fazer. A imagem é, salvo o erro, de In a lonely place de Nicholas Ray.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

"Miguel Sousa Tavares e Ruy Belo a ver a bola" ou "As fraquezas de um poeta" ou "Por que não meto os pés na Luz quando o meu querido Porto lá joga"

A loucura, pelos vistos, era tanta que o Miguel até ia ver jogos do Benfica ao Estádio da Luz.
Com o Ruy Belo, exactamente. E ia vê-lo jogar. Era defesa central.

As idas ao Estádio da Luz eram frequentes?
Eram frequentes, eram. Um dia, o Ruy Belo, coitado, quase teve de andar à pancada porque me levou a ver um Benfica-Porto e eu comecei a gritar pelo Porto no meio dos sócios do Benfica.

Iam para a bancada dos sócios?
Ele era sócio e levava-me. Mas teve o azar de me levar a um Benfica-Porto em que o Porto marcou um golo, coisa rara nesses tempos. Eu desatei aos pulos e a multidão gritava: “Leva-me esse puto de merda para casa!” Coitado do Ruy.

Ele sabia que o Miguel era portista?
Sabia. Ele queria ver se me conseguia convencer para o Benfica mas não resultou.

Excerto de uma entrevista de Carlos Vaz Marques a Miguel Sousa Tavares na revista Ler, nº83, Setembro 2009

Palavras a reter: “Coitado do Ruy”.