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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Zbigniew Herbert, «Calígula»


Lendo velhas crónicas, poemas e vidas, o Sr. Cogito experimenta por vezes uma sensação de presença física de pessoas há muito falecidas

Diz Calígula:

de entre todos os cidadãos de Roma
amei apenas um
Incitato – o cavalo

quando entrou no senado 
a irrepreensível toga do seu pêlo
brilhava imaculadamente entre covardes assassinos orlados de púrpura

Incitato era só virtudes
nunca discursava
natureza estóica
creio que de noite no estábulo lia os filósofos

ameio-o tanto que um dia resolvi crucificá-lo
mas a sua nobre anatomia não o permitiu

aceitou com indiferença a dignidade de cônsul
exercia a autoridade da melhor forma possível
isto é não a exercia de todo

não se pôde convencê-lo a manter relações amorosas estáveis
com a minha querida esposa Cesónia
e assim tristemente não surgiu uma linhagem de Césares-centauros

por isso Roma caiu

decidi proclamá-lo um deus
mas no nono dia antes das calendas de Fevereiro
Quereia Cornélio Sabino e outros idiotas frustraram as
minhas piedosas intenções

recebeu com tranquilidade a nova da minha morte

expulsaram-no do palácio e condenaram-no ao exílio

suportou este golpe com dignidade

morreu sem descendência
abatido por um rude açougueiro do lugarejo de Âncio

sobre o destino póstumo da sua carne
Tácito cala-se



Zbigniew Herbert
tradução de Izabela Stapor, José Pedro Moreira e Tatiana Faia
ítaca 3, Lisboa, 2012

Ver e descarregar os poemas de Herbert traduzidos na ítaca aqui.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Lugano entre os polacos


O que a seguir se narra aconteceu na Igreja da Divina Providência, em Odivelas, durante a festa de Natal da comunidade polaca.

O Eduardo deitou os olhos ao Lugano que eu levava na mão. Abriu-o de pernas para o ar. Descobriu a posição certa, abriu muito os olhos, chilreou qualquer cousa em espanhol ou em russo (não percebi), apontou para um verso, abriu a boca e começou a correr por entre os polacos da festa onde estávamos. A mãe estava a ensaiar com o coro, mas o Eduardo interrompeu o ensaio para mostrar a página aberta, sempre com o dedo espetado num verso qualquer, de boca aberta, com exclamações de entusiasmo. Fez o mesmo à maestrina, estupefacta, e a mais meia dúzia de polacos siderados. Depois correu para a igreja (a acção descrita decorria na sacristia, onde o coro de que a Ana faz parte ensaiava), e sentou-se, como a imagem documenta, a "ler" atentamente. Ao fim de largos minutos tentei negociar. Pesquei uma brochura com imagens coloridas do presépio, e propus a troca. Ele disparou uns olhos indignados, apertou o Lugano e fugiu para a sacristia.

sábado, 10 de dezembro de 2011

michael ventris

recuperas-lhe o olhar vivo
as mãos longas
sobretudo o olhar vivo
projetado
acima da linha da própria altura
rápido a entender as coisas
tinha o vício
de puzzles de quebra-cabeças
da decifração de sinais

um desses homens metódicos
por natureza
que cedo intui que nada
escapa ao caos
nem mesmo o tempo
breve dos obstáculos
que intrometemos
entre nós e as coisas

o tempo de um intervalo
na respiração
de um metrónomo

como o nilo que sobe
porque o mar
o cerca
porque os ventos de sudoeste
correm contra corrente
porque obstáculos o vedam

pensando nele
demoras-te um pouco
no problema do indecifrável
atravessas o longo campo devastado
da imaginação
o desdém
a sua forma lenta de pousio

uma coisa de fome
com garras e que grita
que imita a letargia do entardecer
invadindo tudo
colando-se ao voo de aves migratórias
a este convés de um velho navio sujo

e que te devolve finalmente ao real
puxando-te a partir
da mão que segura a caneta
e vai pousar sobre o estrépito intermitente
de uma dessas tempestades
sobre o mar
numa praia escura do norte

por mais nada que não
essa secreta medida
anterior
ancestral
a que lucrécio
na sua prudência
sábia de matemático
chamou
a grandeza suave do mar

não viveremos sem isto
suave mari magno
ou só podíamos ter vivido
sem isto se fôssemos
anteriores às imagens
se estivéssemos fora delas
se pudéssemos falar sem elas

não como ele
silencioso diante dos sinais
paciente
cuidadoso
medindo a sombra
sob o sentido
diante dessas pequenas
tábuas de argila
que durante anos
permaneceram indecifráveis

a mão segurando a caneta
devolve-nos ao sentido devido
confessamos
que esperávamos
por poemas épicos
cartas de amor
revelações escandalosas
dessa idade longínqua

a mulher do rei
traindo-o
com um qualquer cortesão
o embaixador
que vendendo ao inimigo
por uma medida de ouro
o plano dos pontos
fracos da muralha
vendeu o seu rei

ele demonstrou
que se tratava apenas
de uma imensa contabilidade
de palácio
escrupulosamente apontada
por gerações de amanuenses
mais ou menos
dedicados ou desajeitados

todo o sentido
que havia a extrair
de um incêndio
que durou séculos

a relação do número
de homens e dos seus cavalos
do seu trigo e do número
de remadores nos seus navios

michael morreu
num acidente
demasiado jovem

uma música
distante
imprecisa
tamborilando nas portas

john escreveu-lhe discretamente
talvez um pouco mais do que uma elegia

a adequação das palavras às circunstâncias

Tatiana Faia

terça-feira, 1 de novembro de 2011

campos de ténis

os campos de ténis de outono
recordavam-lhe cartas de aniversário
redes pálidas correndo
contra crepúsculos de púrpura
e um tom cinzento pairando
sobre holofotes
casacos de lã
que a chuva do princípio
não aprenderá
a deixar intactos
alguma coisa
dividida entre
o fim e o novo
pequenas mortes
assinalam
outros tantos começos

na sombra que se projeta na parede
de sépia
há uma mulher que tece
uma trama de deixa
que o que desejo
por uma vez
prevaleça
e um pouco penélope
nos modos tímidos
plena de ardis, ela
imaginada por algum demiurgo
a queda dos seus ombros ao de leve
como a variação
da luz
sobre o teu rosto
lembrada talvez
para te entristecer
demasiado o coração

mas o teu olhar vagueia
nos papagaios do outono
dançando sobre os areais
dança de fios e cor
um cortar de vela
rápida garra
contra o vento
agudo como os gestos
dela
projetados na parede
sombra que se perde
num canto do lume

as mãos que tecem
destecem
as pequenas rosas do outono
o teu rosto
perdido no embaraço
de frases
que ferem devagar
que tecem destecem

mãos por baixo da mesa
uma sobre a outra
travando-se
o remorso surdo
esparso na noite lenta
chega-te como gritar
debaixo de água
uma vaga música
entretém tudo à superfície
é um lugar longe longe
o pensamento

e vai para outros lugares
muda-se para portões
que vasos de flores
travaram
o mar insinuado
abaixo dos telhados brancos
chega-te de novo
no gesto de raquete
cortando a bola
em cima da linha
o braço tenso
o movimento desacertado
a bola caindo
o movimento para desperdício
e morte
os pequenos erros
que não se perdoam

no outono
o jovem poeta
viu pela primeira vez
a sua amada numa escada
de uma velha casa em cambridge
havia luzes música
cocktails conversas pedantes
lanternas chinesas suspensas
por fios no ar
uma mulher
um pouco penélope
de olhos verdes cabelo dourado
que a um olá tímido
respondeu com sotaque americano

estas coisas que se adensam em nós aos poucos
se espessam no sangue
nos nossos pensamentos
nos ferem devagar
e definitivamente

Tatiana Faia

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

esfera

uma daquelas
esferas de vidro
em negativo
a mão fechou-se sobre ela
fê-la girar
neve a fingir
caiu sobre meninos bonecos
tingiu-lhes as roupas
entrou por portas escancaradas
de casas mínimas
com os seus telhados alinhados
castanhos
taciturnos

uma cidade vista de uma encosta
daquelas que avistamos
ao chegar ao topo de uma colina
gritamos uns pelos outros
o mais alto que podemos
somos

feridos pelo nosso próprio eco

a mão ao de leve
puxou uma pena do casaco
tentaste sair pela porta do quintal
o cão guardou a tua sombra
não te denunciou
deixou que passasses
semicerrando os olhos
encolhendo a cabeça entre as patas

assim entras na casa a horas tardias
e sais sem que ninguém te note
levas no bolso
cartas que ainda te enviam
livros que não queres que fiquem aí
o teu próprio eco
atravessa esses lugares
a tua cabeça
emerge numa janela
observa-te disfarçadamente

estas coisas
as palavras confinam-nas
alojam-nas
em caixas
em folhas de papel
pisadas por uma pedra
em que alguém desenhou
delicada borboleta

um desenho de repente pesa-nos
asas azuis
insecto preso

uma cidade presa
feita
que imita outra coisa

virando a esfera
cairá sobre ela neve
um homem de olhos amendoados
escalará a muralha
espiará a tua cidade mínima
da colina
com um arco fará pontaria
aos teus meninos de brinquedo
que brincam na rua

um rapaz espiando-o de um ponto mais acima
forçá-lo-á a adormecer
tombar na lama
com o arremesso de uma pedra escura
o melhor batedor dos yankees
e o seu corpo imenso tombará entre a neve que cai
um vento gelado
agitará ao de leve os seus cabelos
um fio vermelho muito escuro
correrá no chão castanho e branco

de entre os ramos um falcão solta-se
sai da esfera
vem pousar no teu punho
uma maçã apodrecida
tomba
pálpebra que se fecha
na terra
ao longe adivinhas
o murmurar do poço
o balde que sobe
puxado por uma roldana que chia
as coisas estão ligadas
presas pelo fio da narrativa

adivinhas o seu passar silencioso
no alpendre
escutas passos
que se aproximam

procuras
dentro da água escura
dos seus olhos
o teu reflexo
procuras puxá-lo
desse precipício
com a força dos braços
e ele resvala
é o falcão pousado
no punho
o leal embaixador da corte
que te trouxe
em segredo
uma mensagem importante

as histórias
por vezes
são isto
tentas ver-te
no nevoeiro
puxar-te
por uma corda ténue
o teu peso sustentado
por uma roldana que o tempo
fez perra
enferrujou
uma corda que é o último laço
cujo peso nunca saberás
se poderá ser sentido
no teu pescoço

a esfera quebrada no chão
cidade pesada na noite
a neve contra a janela
o corpo corda suspensa
da sua arte de silêncios

Tatiana Faia

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Lugano




Lugano (Edições Artefacto) será lançado no próximo dia 15 de Outubro na sede da Sociedade de Instrucção Guilherme Cossoul (que fica na Av. D. Carlos I, 61 A - é na mesma rua da Fundação para a Ciência e Tecnologia, em Santos). A apresentação será feita por Fernando Guerreiro.*

*Aos amigos que só ficam a saber agora, peço desculpa de não vos ter dito antes.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

muitas coisas ariadne

chegámos à estação
os faróis
indicam o limite
para diante ergue-se o mar
vento ondulando
no verde
o sal dessa água
é uma rede que envolve os tornozelos

afastas-te muito rápido
com pés de fauno
mas há este instante na rapidez
em que ela é a mão cerrada sobre o ombro
o limiar da porta

coisas perdem-se ou são
um cerrar de dentes
mão fechada contra o ombro
os olhos absortos
lanternas de onde
a água pinga
ruelas que escreves
uma vez outra vez
volta atrás
de novo
imitando os movimentos do vento
tropeçando esse ar que corre
apaga-as em poeira
a essas ruas que
vão sendo moedas gastas
faces apagadas
nas mãos
uma impressão
que passa rápido

atirada para o cesto
a roupa despida é o fim do dia
e procuras-te no reflexo
mas sabes que só
a laje de mármore
partida
por insuspeita pancada cega
vem falar a tua língua

dancemos
por isso
em cacos

a certeza de que a nossa história
é um objecto
inacabado
que pertence à desordem onde
os pés pousam
aqui e agora as nossas
muitas luzes
serão traduzidas em estilhaços
simbolizadas
por jeans rasgados nos joelhos
essa canção que
na voz ténue do rapaz
te encontra à esquina
à espera
e rompe na noite
e morre
nas arcadas
volteando em torno
das grades azuis da primeira chuva

o que dizemos
incendeia-se nos candeeiros
respiração intermitente
e talvez se torne aos poucos
a chuva
que se esconde nos cântaros
deixados diante
de muros brancos azuis desolados

esses gigantes guardiões
de vasos de flores
que cedeste
ao sol ao frio
a um modo oscilante
de não voltar mais

os narradores
do teu passar desajeitado
traduzido apenas e trazido de volta
no mover-se
do rapaz de sapatilhas vermelhas
dançando na sala vazia

virá mais tarde esse porquê
perguntado baixinho
enquanto absorto róis as unhas

f. deixou junto à ponte os sapatos
e atravessou descalço
entrou no reno
com pequenos seixos contados
na mão
nunca adivinhou as margens

ferlinghetti
disse
cultivate dissidence and critical thinking

mas eu lembro-me antes de l.
a minha memória mais perene
é feita dessa rapariga
sozinha num quarto
lendo na pouca luz
a sua voz enchia tudo
ela nunca soube
eu ouvi-a encostada à parede
tentava seguir
esse murmurar
que era o meu próprio reno
um tempo que como água
não acabava
não podia acabar

ela não sabia
e era ariadne
luminosa ariadne
de verdade
com o seu fio luminoso
a que se prendia
uma tristeza de ser puxada
trazida contigo

mas naquelas horas
só existia o rapaz
que escapava intacto
do labirinto
espada ensanguentada na mão
um minotauro a menos
nas contas de fim do dia

os nossos heróis eram assim
estavam todos acima
das linhas de destruição
eram vagamente perfeitos
demasiado bonitos
um pouco mais que humanos
percebemos mais tarde
que não eram
assim tão dignos da nossa afeição

na luz acesa
veio devagar essa chuva
que te tracejava a cara
fora do desenho a lápis
intuímos que há este instante
no silêncio
em que nos tornamos
passamos à existência
na certeza dessa familiaridade
ligeiramente ameaçada
o instante em que não posso
saber mais nada de ti
envolvido na ordem fácil
que se esconde no gesto
de terminar o nó da gravata
há essa diferença mínima
a certeza de que não posso
saber mais de ti

pássaro

e espera silenciosa e terna
e a desarrumada ordem
do teu riso
onde todas as cores caiem certas
na combinação geométrica
que não adivinha essa ternura breve
essa que te sorri
como sorte
de um ponto acima

eu que só te podia seguir
até ao pátio interior
a partir destes labirintos de ruas
que lanternas de papel
acenderam
a rápida passagem entre sons
que traz de volta a música

essa rapidez
dúctil
rude
táctil
que nada
pode curvar

e sei que havia esta fronteira na tarde
onde silenciosamente te cercaram
os passos da chuva em torno dos alpendres
um relógio bate algures a hora
e tu tornas-te o gabriel de hill


esse
anjo sensato
que precipitando-se
arrasta consigo
em queda
a luz
isso que o
melhor poeta
aprendeu a definir
como
escuridão sensível

Tatiana Faia

sexta-feira, 8 de julho de 2011

perséfone

O que amo nasce incessantemente
O que amo está sempre no seu princípio.

Odysseas Elytis, Sol O Primeiro, III

a mão de pedra finalmente
apontou para nada
silenciou-se
está feita em cacos
na brancura espessa da tarde
enorme pesada
o braço que a sustentava
cedeu ao seu próprio peso
a mão
tombou
sem chegar a apodrecer
as pedras não apodrecem
desfazem-se em terra
na precisão de pequenos grãos
a história interrompe-se
não vale a pena
perguntares por uma direcção
devagar sentires-te inquieto
frutos e flores
podem adornar os teus cabelos
imitarás confusamente o jovem dioniso
entre as portas de uma casa fechada diante do mar
em esplanadas rodeado de amigos
o ruído como protecção
podes procurar por ti em estátuas destruídas
pedir notícias da tua viagem sem mapa
o corpo ao alto
inclinado entre as velas
o barco e o seu rumo no entardecer
e alguém que da ponte
te observa e acena
sem que nenhum nó te ate
o mar que não fixa o teu regresso
nem reflecte a tua imagem
deixa no corpo sal
afasta-se
e tu recuas diante da maré
tapas com a mão os olhos
na claridade que fere percebeste
não há de verdade uma continuidade
não saberíamos dizer
quando pela primeira vez o entendemos
estava talvez em objectos concretos
verdadeiramente enumeráveis
uvas esmagadas
que se tornam vinho
a possibilidade de arrancar do caderno
as últimas páginas
a conversa acabada
os dedos sobre a máquina de escrever
havia junto à tua janela um candeeiro
podia passar a noite
lançando pedras do outro lado da rua
devia dizer-te
que gastei todas as minhas metáforas de luz
contar-te que o que me sobrou foi o hábito de avançar
de continuar a correr
algumas coisas devemos perdê-las
extinguindo-nos
diante do espelho em estilhaços
trocámos os papéis
confundimos as nossas falas
temos uma memória
feita de palavras em curso
escrevemos a partir de um sítio
onde as coisas estão acabadas
mas eu podia dizer-te
imitando elytis
que tudo o que amei permaneceu jovem
enterrando as mãos nos bolsos
tu responderias
é só um verso isso
a música que restou na luz dos espelhos
a música num espelho longe (manuel gusmão)
equivale
ao osso do braço quebrado
estava já tudo dito
quando se disse
voi ch’entrate
lasciate ogni speranza
mas se a abandonássemos
não haveria história
visitaríamos apenas os mesmos quartos
repetindo as mesmas mentiras cansadas
haveria sempre como retirar
o que ficara dito
para esquecer a esperança é preciso ter imaginado
as suas asas no calor terrível
na tarde na sede na respiração
entrecortada pela poeira
o seu cantar em torneiras que pingam
mal fechadas em torno do calor
e é preciso tê-la perdido
de que outro modo seríamos inteiros
teríamos lançado da distância
a pedra à janela
um som mansamente
uma sugestão
de passos ao de leve
que te resgatou do sono
eu podia repetir-te
que tudo o que amei permaneceu jovem
não é só um verso
ao mesmo tempo é
a mais perfeita forma de esperança
a mais acabada forma de desespero
talvez isto sirva o motivo de dizer
que aqueles que não regressaram
recomeçam
que essa música só começa a existir
para nós
quando aprendemos o riso
e começa a existir devagar
a sua velocidade é a do impulso
dado a um barco de brinquedo
num tanque
o nosso drama em miniatura
as figuras a que concedemos uma fala
à distância de dez mil passos
quando a voz te puxou pelo ombro
pensei que eras orfeu
aprendendo a olhar para trás
tinha no bolso um lápis
e o relógio de pulso
dobrado sobre si
sinais para alguma coisa
que foi interrompida
palavras em curso
o que acontece
e vi isso
tudo o que amei ficou no seu princípio
nascendo incessantemente
talvez perséfone
já tivesse provado
a romã
podia dizer-se
que contra isso havia a luz do sol
à superfície
as minhas horas afundadas
em lagos
nos teus olhos
onde a noite
se prendeu como arestas
perfeitos ângulos
que se opõem
rochas junto ao mar
onde vamos pela vaga
ilusão do voo
que é só o instante
que está antes de bater
contra a água
não queríamos o que era perfeito
só a repetição
das coisas dentro do tempo
essa ilusão
de que tudo o que amámos
continua a despontar
talvez só possamos imitar
a suave morte que
se adensa
e que deméter
dá à terra ao saber-se
sem perséfone
mas
e mesmo que seja assim?

Tatiana Faia

quinta-feira, 9 de junho de 2011

sirenes

What I lost was not a part of this.

Geoffrey Hill, “Old Poet with Distant Admirers”

I

não pertenço à beleza fixa das coisas
sou só um elo na corrente que prende a noite
ao seu pedestal a mão fechada sobre o papel
juntos atravessámos as moradas da noite fomos
os habitantes pacatos dessas paredes escutei
de amigos o riso entre cigarros em bares que
placas não anunciam em ruas discretas que
só existem em lisboa às três da manhã escutei
o seu riso como um murmúrio de rio em cuja
corrente nos perdemos nem a notícia da ínfima
pegada na margem tomei parte em conversas que
não fariam o guião de nenhum filme lucrativo
essas conversas tomaram uma parte de mim
nunca soube se me baniram para sempre da
solidão ou se a moldaram mais perfeitamente

II

o que perdi não foram troços de ruas sem
nome o traço branco do giz no muro conversas
iniciadas na hora de partir o que eu perdi não
era parte disto era, o que tu não disseste, parte
de uma coisa que estava apenas em mim sofremos
tanto para arrancar as últimas raízes do solo
a notícia dessa árvore finalmente cortada chega-
-me tarde por correio expresso um papel deixado
entre livros numa caixa de cartão o que perdemos
já só está dentro da nossa cabeça a sua imagem
tão fielmente capturada finalmente feita em cacos
que palavras podiam avançar por entre destroços
nem o riso a verdadeira alegria nos redime é assim
que perdemos mesmo o que gravamos na memória

III

barcos em que atravessamos o mar de noite
a sua brancura cega nas águas um eco em
profundidade moeda caída no oceano não
chegaríamos a escutar o estrépito o pequeno
som que se esgota como dois tentando conversar
entre o barulho de sirenes essa frase o ressoar
da moeda caída no mar e tu do outro lado
o que disseste e isso está entre o que perdi
a música escutada em bancos de ferries
quando nada podia redimir esse peso que
te vergou os ombros a linha de cinzento
onde cai o primeiro traço da noite o que
perdi estava no tempo sem ser de tempo
a diferença é menos do que infinitesimal
e não servirá o teu lamento o sopro agudo
dessa sirene que te diz que terminou

IV

era alguma coisa antes presa à barreira
desse eco tornado som tornado coisa
um pequeno gesto sem fé a mulher que
olhando o relógio acaba a fitar as unhas
a ela ninguém lhe disse quando o esperava
ouvir «ontem não te vi em babilónia»
o que ela perdeu em nada ficou gravado
assim uma frase escrita num muro por alguém
de passagem que te traz a notícia distante
de não te ter visto uma folha dobrada em
quatro a carta veladamente passada de uma
mão para outra de que outro modo chegam
as mais distantes notícias para uma ausência
tua ou minha que importa se está no eco da
sirene que atravessa o mar projectada a tanta
distância aguda ensurdecedora quase terrível

V

a redenção disto está em nós e é sem memória
talvez se pareça com tardes de agosto que só
existem na agudeza de pátios brancos e quadrados
ou no ressoar da tua fala em claustro fechado
uma conversa que tentei seguir com a curiosidade
inconveniente que reservamos apenas
para o instante em que queremos ler os outros
incertas páginas de livros a redenção é também
uma forma de perda o que perdi era parte de
tudo viaja em longa distância dispersa-se pelo mundo
viaja sobretudo com o que amei encontra-me
à distância de janelas abertas na claridade ociosa
de um olhar que se projecta na distância e se perde



VI

o olhar sirene perdemos apenas o que não foi
verdadeiramente dito é disso que estamos
exilados há-de doer silenciosamente em horas
de lenta insónia quando estamos mais agudamente
conscientes do que somos para isso não haverá
um barco tardio para o qual possamos comprar
a travessia ou o cair de cansaço nos seus bancos
de ferro o que está perdido parece-se com o amparar
da cabeça contra o ombro o perscrutar de uma estrela
que entre nuvens não podemos escolher no páramo
por estes dias até os países se acabam em nevoeiro

Tatiana Faia

segunda-feira, 30 de maio de 2011

manuscritos de outono

Título roubado a Tasos Leivaditis,
o poeta que falava da odisseia que vive cada poeta ao
escrever o mais pequeno poema e cuja definição
de vida era instante luminoso.



I

nunca aprenderá os princípios da arte por impaciência
(não por surdez) espera que te vás aproximando
até à proximidade evidente até que te escute
subir na própria voz como uma cadência
o copiar de um velho hábito que te visitasse
como um remorso trabalha num espaço
de teia em desassossego espécie de loja
de penhores de um corrector de apostas
demasiado desorganizado e pouco ganancioso
mas cederá a pouco e pouco pequenos objectos
de valor simbólico que não importa aqui enumerar

II

bebemos o nosso café em copos de papel
temos nos bolsos luas de papel barcos de papel
se no princípio era o rio talvez eu te apanhasse
na curva da voz mas nunca ouvi dizer que a
comunicação no nosso século se fizesse via
barcos de papel seremos breves e silenciosos
como conspiradores falaremos baixo semi-
cerrando os olhos o argumento desperdiçado

o que concedes como no verso de pavese é um velho
remorso e também nós desceremos ao remoinho mudos

III

estamos condenados a imaginar essas antecâmaras
as suas horas de vigílias as suas esperas o daimon
que habita o intervalo entre o pensamento e o acto
podíamos ter sido como na grécia antiga poetas
a soldo ao serviço de algum déspota mais modesto
mas seria uma vida triste de que nos cansaríamos
depressa afinal não tanto ao contrário de píndaro

IV

um pouco absortos diante da banca de tabaco
e jornais até que te escute subir na própria voz
como quem subisse por uma escada que
desembocasse num pátio onde batesse o sol
e vista de longe a tua sombra passasse na parede
branca reflectida um instante submersa na distracção
do tempo que faz das circunstâncias mais alegoria
de si mesmas do que de qualquer outra caverna

V

ainda que muitas vezes te tome o desejo
de reclusão persianas corridas luzes apagadas
portas fechadas o livro no colo meu pobre
escriba os óculos presos por corrente ao peito
o murmúrio em penumbra de blues como
a impressão concreta definitiva de submergir
num modo de surdez que outra coisa não é
que uma calma duramente aprendida aquela
que não pode vir de uma imobilidade indolente

VI

uma coisa duramente aprendida essa
de nos manietarmos quando queríamos
gritar de taparmos a boca com a mão
de cerrarmos dolorosamente os olhos as mãos
de raiva e despeito tu caminharás
arduamente por esse corredor eu hei-de
carregar comigo o teu grito como aqueles
atletas da grécia a tocha de olímpia e não
me importa se não chegarmos a lado nenhum
se a memória de ti se perder se todas as tuas
palavras pássaros de fumo no vento não
importará porque eu ouvi-te desse lado do
espelho e o teu eco dolorosa pegada
durando contra o rumor de sinos de outono no ar

Tatiana Faia

sexta-feira, 20 de maio de 2011

fragmento

I lie down. I become darkness.

Ted Hughes, “Gog”

I

um sinal por que o reconhecesse um sinal combinado
a nota mais aguda de um assobio três pequenas
pedrinhas lançadas à janela batendo ao de leve
como passos enterrando-se na noite na sua areia
movediça um sussurro pela calada e a imbecilidade
do namorado que ouvindo mal te pedia que repetisses
o segredo sussurrado ao ouvido nós vamos aos recantos
que o tempo mais afundou na memória e eles são
esta espécie de espelhos quebrados meio enterrados
na areia de que só chegamos a ver o fragmento do fragmento

II

tu regressas com a queda do outono as primeiras
aparas de madeira desse boneco esculpido a canivete
cachimbos acesos para conversas em alpendres
tu eras disponível que não é o mesmo que fácil
a mão distraidamente pousada sobre a mesa
semi-aberta assim nenhum gesto ficava fora
do teu alcance a possibilidade de tudo em inércia
descíamos por jardins cobertos de nevoeiro
despidos de cor as nossas sombras coladas
aos charcos do entardecer assim guardamos
as horas repetimos os mesmos gestos enterras
a mão dentro do casaco à altura do peito

III

qualquer coisa no gesto que te denunciasse
que me deixasse ver-te e não importa o quê
o mau hábito de estudar avidamente as pessoas
ansiosamente como gente que não pode deixar
de roer as unhas compulsivamente testar
as consequências inúteis de cada aposta mental

IV

somos o esboço de outras imagens
com esforço desarrumamos a sala
trocamos o lugar das cadeiras quando
eu regressar já será muito tarde de cansaço
terás adormecido o lento cerrar do escuro
em redor das pálpebras ao ouvido hei-de
sussurrar-te que não és hamlet que este
não é o reino da dinamarca talvez me
respondas com uma ponta de tristeza
na voz uma pequena mácula que guardarei
para mim que permanecerá entre nós
em suspenso é verdade temo-nos usado

V

como o ruído do oceano preso nos recessos
do búzio girando em torno preso um pequeno
mar interior encurralado golpeia-te com uma força
incisiva destruidora silenciosa e admiras
a sua teimosia a linha por que se conduz
e em que pára como um adversário temível
e excelente cuja animosidade te honrasse
os nossos mares em miniatura e as suas marés
obliterados em bilhetes para viagens
indo connosco onde quer que vamos fragmentos
os seus sinais as frases que sublinhamos
em livros apontamentos a vermelho à margem

VI

a caneta há-de tornar a oscilar-te nas mãos
tentarás prender tudo aquilo de que desististe
como o vento se prende nas varandas às cordas
de roupa às flores nos vasos ao baloiço do jardim
a presença que só existe no ruído porque o silêncio
nos torna unos com a noite de dia tornaremos
a contar-nos mutuamente um do outro teremos
visto o rosto o que diremos será como a energia
dispensada no desarrumar da sala a sucessiva
mudança de lugar que podemos impor aos objectos
mas somos imóveis resolutos nas nossas vontades
a nossa imobilidade coincide com a noite e o silêncio
se o tema da arte for a vida estaremos para sempre
presos às pequenas diferenças iniciais às variações
infinitesimais de cor ou luz nas coisas aos pormenores
que pudessem definir a nossa corrida por linhas
rectas os nossos incompletos labirintos de creta

Tatiana Faia

terça-feira, 10 de maio de 2011

perdido no som

I

os bolsos de ontem vazios virados
do avesso quadrado de papel azul
última cinza clara o que era sobra
ternamente presa por tinta invisível
a certeza de que o que estava dito
já não estava em ti, como impreciso
grão de areia em ampulheta nunca
se fizera tempo, na própria sombra
se encolhera mas tu prossegues

II

não como o baterista que se engana
e pára um pouco para recomeçar ou
o jogador de monopólio que regressa
à casa de partida nenhuma destas coisas
eu sei que tu és daqueles que recomeça
como quem regressa não pelo caminho novo
antes acumulando em diferentes bolsos tudo
o que te precede como no meio da tempestade
de inverno aquele que pára para olhar para
trás e o outro que se sabe procurado pelo olhar
e é forçado a virar-se há um ponto em que
ambos se encontram e é um ponto em suspenso
na distância, silenciosa imprecisa forma de diálogo

III

procura-lo desligado de todos os fios
em sinais que talvez reconheças o isqueiro
azul sobre a mesa que na verdade é apenas
tábua a metálica máquina de escrever pousada
os dedos sobre ela pousados pianista nervoso
que não está na música há uma espessura
nos dias em que pousamos com passo de
sombra lugares de passagem amantes
que nunca foram nossos zonas de sombra
destroços que cedemos à imaginação

IV

o que tu podias saber não avança como
eco a que se agarra a próxima palavra
afunda-se como garra não chega a fazer
sentido porque na verdade são muito poucas
as coisas a que se crava timidamente chega
apenas a pousar ao de leve os dedos desenha
invisível forma a que nunca se conforma
não argumenta embora faça muito barulho
como som de pequenas asas contra o vidro
pássaro que por engano tristemente se fizera
preso guardas no bolso o isqueiro e sais

V

parece-te que nunca será noite que chegue
este lastro de azul e negro, manto que se
afunda nas horas ciclicamente, querias
embora nunca tivesses tentado caminhar
para fora do círculo a vermelho desenhado
no pátio mas desta vez não tornarás a pousar
a cabeça no seu colo a ti próprio deixaras
no bolso pequena nota em que te obliteraste
em que apagaste um pouco a custo o nome
a caneta riscado tentaste-te com a teimosia
de bicho preso que contra a parede cego se lança

VI

tentaste-te contra coisas feitas de nada cujo
significado te vai fugindo contra a noite
na sua última cor que se descola como
papel de parede em quarto húmido
duas ou três palavras no papel azul
a imprecisão dos números tende a tornar
os lugares menos concretos o peso
da chuva entre os ramos oscilando com
o peso – o som – tu és se alguma definição
fosse útil um lugar perdido no som

Tatiana Faia

terça-feira, 19 de abril de 2011

cidade

I

em desequilíbrio para o primeiro oscilar do corpo
a queda veio mais tarde e pesada queda como
se fosses de pedra e todo o peso tombasse cego
se abatesse sobre o chão estás em desassossego
posta o que é coisa muito próxima da desgraça
na medida em que serve sua evocação
pensas, para com os botões da camisa
(vestiste-a apenas para urdir este verso),
que todas as coisas intoleráveis albergam
em si um peso insustentável mesmo e sobretudo
aquelas que não poderiam ser postas em balança

II

pesadas como açúcar ou quilo de farinha
que metafísicas angústias de comezinhas coisas
vão sendo com ironia arredadas todos o sabemos
e a pensar nestas coisas te consomes mordiscas
o lábio sem querer na boca o sabor acre do
sangue tentas o assobio assim o cortante som
atravessando o espaço viajando de uma ponta
a outra da noite onde poderia chegar o eco
a lugares de pedra a sítios onde nunca estiveste
e o som deixando-os iluminados como luzes trespassando
a lonjura o que o negro espesso do olhar alcança

III

divertes-te presa no diadelo que inventaste
tua gaiola de pássaro e sem phala insistes
naquele assobio com que calceteiros saúdam
as raparigas da primavera pérfido som nos lábios
de uma rapariga depois fechas os olhos
róis um pouco as unhas és reconduzida
de novo à altura que tens e estás sem phala

IV

sem phala e às vezes sem querer falar
de todo nem para enunciar o mais perene
desejo a mais urgente necessidade não falar
não dizer nada demissão de contacto
mas depois o coração preso no pulso desacelera
mordes os lábios pensas que somos quase
próximos como irmãos gente do mesmo sangue


V

mas por vezes fechas os olhos atravessas
a cidade este amparo terno dos lugares
que nos alcançam quase como a impressão
de dois corpos quando a lado adormecem
se apagam como longos dias redundando
em cansaço e sono de púrpura assim às vezes
na solidão no extremo silêncio no extremo
cansaço na perfeita aporia profunda desolação

VI

assim às vezes o meu espanto terno e triste
ante as coisas de pedra feitas saudade
de todos os lugares onde estive de quartos onde
dormi de passeios onde com ou sem tristeza
pensei que é sem peso a minha sombra
de como senti que o nó que me prende
à terra mãe pela garganta me prende
e senti pela primeira vez e muito jovem

VII

e senti pela primeira vez e muito jovem
a sede de abdicar como ambição como
aquele archeiro grego e experiente que
na lonjura não vê mas sabe do outro que
é o mais forte o calcanhar abdicar como
quem baixa a voz para acompanhar a mais
suave nota na canção favorita abdicar
e pude finalmente misturar-me contigo
misturar-me com as coisas que me rodeiam


VIII

falo-te das ruas concretas vermelhas e castanhas
dessa cidade em que entrei ainda não tocada
por amargo desespero essa que seguirá confundindo
segando baralhando e tornando a dar os fios
com que a vida se trama talvez até regressarmos
à simplicidade do primeiro som à primeira letra
talvez só analogia possível de princípio porque
nunca nada fica em branco uma vez nomeado
talvez só analogia de princípio um pouco como
de deus o jovem espanto diante das letras da Torah

Tatiana Faia

domingo, 17 de abril de 2011

Monograma


















Hei-de lamentar-te sempre – ouves-me – a ti
apenas, no Paraíso

O destino, como agulheiro, em outra direcção
há-de virar as linhas das palmas das mãos
O tempo há-de conceder um momento

De que outro modo, desde que os homens amaram

O céu simularia nossas entranhas
A inocência golpearia o mundo
Com a foice do negrume da morte

II

Lamento o sol e lamento o tempo que vem
Sem nós e canto todos os que passaram
Se isto é verdade

Os corpos falados e os barcos que docemente deslizam
As guitarras que tremeluzem debaixo de água
O «acredita em mim» e o «não»
Um no ar e outro em música
Ambos pequenos animais, as nossas mãos
Que tentaram tocar-se em segredo
Os vasos de flor na sombra dos portões abertos do jardim
E as partes do mar que se uniram
Para lá dos muros de pedra, para lá das vedações
A anémona que permaneceu na tua mão
E a sua púrpura por três vezes por três dias tremeu acima
da queda de água

Se isto é verdade canto
A trave de madeira a imaginada tapeçaria quadrada
Na parede, a sereia de soltos cabelos
O gato que nos estudou na penumbra
A criança com incenso e com vermelha cruz
A hora em que anoitece sobre as rochas inacessíveis
Lamento a veste que me toca e o mundo que me alcançou

III

Falo também de mim e de ti
Porque te amo e por amor sei
Entrar como a lua cheia
De toda a parte, em torno do teu pequeno pé nos lençóis inacabáveis
Como colher o jasmim – e eu tenho o poder
De fazer soprar o vento e levar-te adormecida
Através das passagens da lua e das secretas colunas do mar
Hipnotizada árvore de prateadas aranhas
Ouviram falar de ti as ondas
Como acaricias, como beijas
Em redor do pescoço na enseada
Como sussurras o «quê» e o «eh»
Sempre nós a luz e a sombra
Sempre tu a pequena estrela e sempre eu a escura nau
Sempre tu o porto e sempre eu a lanterna à direita
O cais molhado e o brilho incidindo nos remos
Alto na casa de muitas vinhas
As rosas amarradas e a água que refresca
Sempre tu a estátua de pedra e sempre eu a sombra que cresce
Tu a persiana pendente eu o vento que a abre
Porque te amo e te amo
Sempre tu a moeda e eu a devoção que lhe dá valor

Tanta a noite, tanto o clamor do vento
Tanta a neblina do ar, tanta a quietude
Em torno do mar déspota
Arca celeste plena de estrelas
Tanta a tua respiração mínima

Que já nada mais me resta
Entre estas quatro paredes, o tecto, o chão,
Excepto chamar-te e acertar-me a minha própria voz
Sentir o teu odor e os homens temerem
Porque os homens temem
o que não foi tentado e o estrangeiro e é cedo, ouves-me
É ainda cedo neste mundo meu amor

Para falar de ti e de mim

IV

É ainda cedo neste mundo, ouves-me
Ainda não amansaram as feras, ouves-me
O meu sangue desperdiçado e aguçado, ouves-me, faca
Como carneiro correndo através dos céus
Quebrando o rasto de cometas
Sou eu, ouves-me
Amo-te, ouves-me
Abraço-te e levo-te e visto-te
O branco vestido de Ofélia,
Onde me abandonas e onde vais e quem, ouves-me,

Segura a tua mão acima da destruição

Das chamas enormes e da lava vulcânica
E virá o dia, ouves-me,
Em que nos hão-de sepultar, e um milhão de anos mais tarde
Quando formos fósseis reluzentes, ouves-me
Para serem polidos pela indiferença, ouves-me,
Dos homens
E quando ela nos lançar em milhares de pedaços
Nas águas um por um, ouves-me
Eu conto meus amargos seixos, ouves-me
E o tempo é uma grande igreja, ouves-me
Onde outrora as imagens
Dos santos
Choraram verdadeiramente, ouves-me
Os sinos dobram alto, ouves-me
Atravesso um vau profundo
Anjos esperam com velas e fúnebres salmos
Eu não vou a lugar nenhum, ouves-me
Um de nós apenas ou ambos, ouves-me
Esta flor da tempestade e, ouves-me
Do amor
De uma vez por todas a apanharemos
E não tornará a ser flor em parte nenhuma, ouves-me
Noutra terra, noutra estrela, ouves-me
Não existe chão, não existe ar
Que tenhamos tocado, o mesmo, ouves-me

E nunca nenhum jardineiro foi tão afortunado

Que tivesse gerado de semelhante inverno e de semelhantes ventos de norte, ouves-me
Semelhante flor, só nós, ouves-me,
No meio do mar,
Apenas pelo desejo do amor, ouves-me
Erigimos uma ilha inteira, ouves-me
Com grutas e cabos e fragas em flor
Ouve, ouve
Aquele que fala no meio das águas e aquele que grita – ouves?
Sou eu que chamo e sou eu que grito, ouves-me
Amo-te, amo-te, ouves-me

V

De ti falei em tempos antigos
Com sábias amas e rebeldes veteranos
De onde vem a tua tristeza feroz
O brilho da água que no teu rosto cintila
E porque, diz-se, tenho de vir até ti
Eu que não quero o amor mas quero o vento
Mas quero do descoberto e vertical mar o galope

E ainda ninguém tinha ouvido falar de ti
Nem o ditamno nem o cogumelo selvagem
Nas terras altas de Creta, ninguém
Só deus concede e conduz minha mão para ti

Aqui, ali, cuidadosamente a toda a volta
Da margem do rosto, da enseada, do cabelo
Na colina que ondula para a esquerda

O teu corpo na atitude de um solitário pinheiro
Olhos de orgulho e diáfana
Profundidade, na casa com uma velha cristaleira
De amarelas rendas e madeira de cipreste
Sozinho espero para ver onde primeiro surgirás
Ao alto na varanda ou sob as pedras do jardim
Com o cavalo do santo e o ovo da páscoa

Como um mural destruído
Grande como te quis a pequena vida
Para conter numa pequena vela o efervescente brilho vulcânico

Assim nunca ninguém terá visto ou ouvido
Nada acerca de ti na devastação de casas delapidadas
Nem o antepassado sepultado no extremo do jardim
De ti, nem a velha com todas as suas ervas

De ti, só eu e talvez a música
Que em mim se esconde mas que regressará mais forte
De ti, o não crescido peito de doze anos
Virado para o futuro e para a vermelha cratera
De ti, um odor acre encontra o corpo
E como um alfinete perfura a memória
E aqui o solo, aqui as pombas, aqui a nossa terra antiga


VI

Vi muitas coisas e à minha mente a terra parece mais bela
Mais bela na respiração de ouro
A aguçada pedra, mais bela
O escuro azul dos istmos e os telhados que pontuam as ondas
Mais belos os raios onde passas sem pisar
Invicta como a deusa de Samotrácia sobre os cumes do mar

Assim eu te vi e isso basta
Porque tudo e o tempo serão exonerados
No rasto da tua passagem
A minha alma como golfinho verde prossegue

E brinca com o branco e com o azul

Vitória, vitória onde fui vencido
Antes do amor e próximos
No hibisco, na flor-de-maracujá
Vai, vai e deixa-me perder-me

Só, e deixa o sol ser como recém-nascido que seguras
Só, e deixa-me ser como pátria que se lamenta
Como a palavra que enviei para por ti segurar a folha do loureiro
Só o vento forte e só o perfeito
Seixo sob a pálpebra da profunda penumbra
O pescador que pescou e de novo lançou ao tempo o Paraíso

VII

No Paraíso assinalei uma ilha
Semelhante a ti e uma casa junto ao mar
Com uma cama larga e uma porta estreita
À profundidade lancei um eco
Para que a cada manhã me veja quando acordo

Em parte para te ver passar através das águas
Em parte para te chorar no Paraíso

Odysséas Elytis

*********

A versão que aqui apresento é minha, feita a partir do original grego. Importa avisar que o meu conhecimento do grego moderno é ainda incipiente, e que é muito provável que em alguns pontos existam imprecisões ou mesmo erros. Onde a minha dúvida persistiu, comparei a minha versão com traduções inglesas. O original grego pode ser lido aqui. Monograma foi originalmente publicado em 1972.

terça-feira, 5 de abril de 2011

la valetta

I

na pouca luz conversam
palavras acesas candeias
os rostos vagos indefinidos
submersos na música gasta a agulha
contra o disco que oscila na sua órbita
um deles faz desaparecer na mão uma moeda
um truque distraidamente despendido
as mãos do outro apontam para o vazio
conversam esgrimem combatem
às vezes um deles levanta um pouco a voz
asa pequena asa sem golpe se insinua
o cigarro entre os dedos segurado conversam

II

manhã outro quarto desenhado noutra
cidade ainda ensonada deitando fora
o que restava do chá na caixa de lata
uma folha dourada se desperdiça
contra o fundo negro da caixa entre
negras aparas o desenho preciso do que fora
perdendo a planta agora arrancada
lançada para o cesto de papéis o cheiro
das aparas chá preto o rosto do outro
luminoso concreto num recorte contra
o negro assim a memória fala e por vezes
mas muito raramente insiste em cantar

III

la valetta como duas ruas que descem e se bifurcam
num plano de mar ao fundo nem sempre sabes
porque insistes na próxima cidade digamos
um hábito de prelúdio e fuga como se a vida fosse
coisa de ser convertida em música o vício de
constantemente deixar cada coisa para trás
uma conversa que o caminho não rasga corta
interrompe uma pausa de dois segundos
como luz respirando nas acesas candeias
das palavras se descolam as paredes vermelhas
de veludo o bar dois homens conversando


IV

dele o rosto quase feminino loura barba
um viking cuja voz é de água ténue traço
mas irrespirável cada palavra selada sala
se alguma vez por um braço fosses levada
pelo escuro aos tropeções esta seria
a impressão mais tarde guardada hesita
demasiado quando fala garatuja num papelucho
descorçoados versos coisas sem sentido
coordenadas de um lugar para mais tarde
ou para nunca para nunca é onde fica
o inferno dos indecisos e eles amam-no
descorçoados versos escritos com a vaga
graça com que a corça pisa a proximidade
da água mas o rapaz escreve-os furtivo
como se não os sentisse ligados à vida
queixume sem consequências onde não
poderia sequer guardar a própria sombra

V

a mágoa esconde-se noutro lugares
às vezes não nos prende a ninguém
aloja-se nas articulações no branco
silêncio dos ossos no correr do sangue
segue desenha-se próximo da próxima
cidade contém-se no modo como
o corpo hesita num movimento preso
entre uma e outra esquina os gatos
de la valetta contra o ocre das paredes
estendem-se ao sol levantam-se
como tigres preguiçosos para ensaiar
a travessia de uma rua por indolente
instinto se movem como se no seu
movimento te concedessem alguma coisa
a irreversibilidade de um ritmo lento
uma forma terna de música um modo
de pisar o ritmo secreto que não guardas

VI

a travessia de uma rua virada para poente
como um laço ele segura na mão o cigarro
distraído sacode para o chão a cinza
semeia um rasto o vermelho de tabaco e papel
ardendo risca o escuro um risco cava-se na testa
mentalmente revolves esse gesto já distante
uma coisa que te foi dada e de novo negada
por indecisão uma discreta saudade do futuro

VII

por isso a próxima cidade porque o lugar
onde as coisas acontecem é sem raiz
e não pode ser aqui tem de estar no corpo
que se mova ou na mala de novo feita e desfeita
a saia com a rectidão de um gesto dobrada
uma parafernália de coisas que te rodeiem
objectos ditos indispensáveis a argumentação
da conversa não era objectiva como velha
fotografia guardada no bolso e já muito
amachucada estes amuletos que guardamos
não para falar da nossa vida mas para a manter
confinada como toda a conversa indispensável
que inevitavelmente confina com o silêncio
com a noite com a inarticulável sílaba
que exercesse sobre ti a cordial terna
conquista de uma breve certeza que te levantasse
um pouco do chão mas escapa-se sempre
com o mesmo vagar que te provoca
com o mesmo vagar de outrora
aquele que pressentiste nos gatos de malta

Tatiana Faia

sexta-feira, 11 de março de 2011

alexandria

Continua a voltar frequentemente e a tomar-me,

sensação amada continua a voltar

Konstadinos Kavafis, «Continua a voltar»

I

onde se perderam aqueles cadernos a que
teimosamente tornavas para escrever
de novo e de novo as mesmas frases
descalços pés apoiados na arcada da varanda
o sol dando-te no rosto cadernos onde
teimosamente ensaiaste uns quantos
gestos um verão inteiro atrasando-te
onde estão esses cadernos que não
chegaste a rasgar e a coser outra vez
onde com ténues fios brancos e estreitas
agulhas apenas alinhavaste frases
esses furtivamente comprados em estações
de autocarros furtivamente guardados
em gavetas interiores de armários com chave

II

rapariga de cabelo e nome vermelho
de vermelho pintando caixilhos de
janelas mãos de vermelho manchadas
ela emerge à flor da voz mas em
pontas de pés uma prudência tão
ensaiada que não teria como persuadir
outra palavra dita mergulharia no vermelho

III

aquele que conversando pôde apenas
aprender uma forma de ver esse nunca
falou contigo inteligente e cínico calculou
a projecção do próprio eco a conversa
entrou em areia pela noite alastrou
às lanternas ténues fios brancos e estreitas
femininas mãos por engano a luz feriu-te
um pouco acertando-te no rosto tu reclamado
em cor de sépia se a memória fosse um resgate
uma coisa sem fala e sem pena uma memória
calorosamente guardada e esquecida
como coisas que podemos suportar perder
porque nos foram totalmente concedidas

IV

as pequenas nostalgias como fios se prendem
em encaixes de mãos e ombros aquele
que falou contigo junto às vinhas podadas
no dia uma conversa mutilada na mesa
de outono (t. s. eliot) o cheiro de uvas mãos
vermelhas como terias tu provado esse vinho
com que timidez reclamar o que sempre
foi nosso um regresso por hábito à exígua e pobre
divisão da casa às paredes nuas solenidade
de mesa em sala vazia como corda de piano
cuja tecla certa se pressionada certa

V

tu na mesa de outono te sentaste o rigor
do corpo direito as mãos nos joelhos
pousadas como aqueles soldados
que muito tempo longe regressam
quando já ninguém os esperava
com altivez olham o que é deles
e já só podem desdenhar assim
o modo como atravessas de novo
e de novo a estreiteza de certas ruas

VI

continuarás a voltar a estes quartos
junto aos portos de alexandria como
fez kavafis nos seus poemas o encontro
e diálogo com as coisas será por fim
o cheiro de rosas nas mãos o ajeitar
da última flor no vaso onde a aprisionaste
será como nesse livro de agustina que agora
leste uma atenção ao mundo muito dada

VII

será uma pequena variação de cor
na luz do dia será esta forma de silêncio
de não precisar de falar que só nos une
àquilo de que somos muito irmãos o que
de imediato e não tão tragicamente sabemos
e sabemo-lo com a simplicidade de dizer
que sempre o soubemos como se cega
invocação corrida no vazio
disséssemos continua a voltar

Tatiana Faia

quinta-feira, 3 de março de 2011

jerusalém

Electra: No terror one can name —
no suffering of any kind, no not even
affliction sent by a god, is so terrible
that human nature can't take it on.


Eurípides, Orestes
John Peck & Frank Nisetich (trads.)


I

precisavas de uma linha de tempo que fosse
como aquelas rodas imperfeitas que meninos
conduzem em aprumos de aros de arame
por imperfeitas ruas de pedra cada oscilação
o eco de pequenos oráculos prováveis traços
de riscar o chão ecos de apostas mentais
curva de obstinado voo e consequente queda


II

curvas-te de mãos atrás das costas ajeitas no rosto
os óculos narciso curvando-se na direcção
de um espelho branco de água com uma urgência
desesperada com uma urgência com a vida nela
costurada como no quadro de waterhouse

III

a rapariga lê com um livro no colo quem
poderia dizer o que lhe diz o poema
o ar que respiramos e que como cor ou
estilhaço nos atravessa que cor nos espera
ao fim de cada dia penso mãos sobre esta
mesa negra de mármore onde me sento
para escrever outros poderiam entrar
pelos dias dizer que não te chega a tocar
minha mão direita e ela que apodrecesse
jerusalém se eu te esquecesse

IV

mas que consolo haverá na memória de uma cidade
quando já varámos todo o espaço que nos foi dado
tudo o que desejámos e o que nos restava e numa
volta de twisted plot a única coisa que entre as mãos
ainda te corre é já areia se não é cinza essa areia

V

mas na verdade a voz do outro lado do telefone
teima apenas em dizer coisas de rito estudado
tom de voz tão prático que enerva o verso
era grata la voz del agua/ a quien abrumaron
negras arenas desejaste tantas vezes perante
o eco que a resposta fosse sem gratidão

VI

o telefone por vezes é como bomba
com relógio incorporado pode explodir
a qualquer instante assim explodir
nas mãos a tua voz plena de cor
dispersando-se como noite de verão
em parque de diversões as cores
de um fogo de artifício púrpura e amarelo
e vermelho como se a elegia fosse alguém
que se despedisse acenando com um sorriso
um gesto cujo peso não nos pudesse ferir


VII

assim a phala por vezes se converte numa forma
de cabeça contra ombro e olhos fechados
como par que dançasse as pequenas oposições
dos corpos enantiao como diriam os gregos
que quer dizer eu oponho-me eu ofereço
uma pequena resistência aquela que o peso
do corpo sobre o chão permite não mais que isso

VIII

e assim fincarás os pés nas marcas das tuas próprias
pegadas fixarás o olhar nas casas vermelhas na linha
do sol que os teus dedos terão talvez afagado
também esta superstição quase pretensiosa
de que uma parte de nós fica presa fica em suspenso
no que com muita intenção tocamos mas nisto
esconde-se uma forma de noite nunca saberemos
como soam nos corações dos outros as nossas intenções

IX

as conversas no café rodeavam-te como uma luz
quando tornaste a erguer a cabeça e eu pude
finalmente ver o teu rosto isto é vê-lo com toda
a certeza com o peso da matéria que faz os corpos
embeberem-se de memória falo-te desta coisa
que esbate a solidão mesmo quando não podemos
saber que indelével marca deixam os dedos na pele
a única certeza é que nem todas as evocações são
feitas de mármore e que mesmo para essas
sempre haverá aqueles que contra o frio toque
da pedra se debatem sempre haverá aqueles

X

que sabem que sempre haverá uma música
que diga as primícias da primavera onde se prenda
a nossa impressão de familiaridade com as coisas
um rasto de vermelho contra verde na flor
que finalmente floresce a vaga evocação de
um som de uma conversa de alguém que
em sussurro falasse a memória de pouca luz
numa sala mal iluminada

XI

haverá sempre o gesto que te cante mesmo
quando não houver poesia mesmo onde e quando
chegarmos à memória de nada haverá sempre
cama onde te deites o fechar dos olhos o lento virar
do corpo uma última linha de tempo o faiscar da luz
na roda de arame a intacta promessa deste lugar aqui
e agora transferido para um pouco mais tarde
e sabes isto porque também tu chegaste
ao fim de todas as cidades e pudeste regressar


Tatiana Faia

domingo, 6 de fevereiro de 2011

estate violenta

para Joseph K., tendo em conta que, como disse
Kierkegaard, citado por Agustina,
«Quando alguém escreve acerca dos acontecimentos
da sua própria vida, é regra de delicadeza
não dizer nunca a verdade, mas reservá-la para si
e permitir que só se reflicta de diversos ângulos.»

   

I

como no poema de eugenio montale pensas agora
que subiram milhares de escadas de braço dado
imaginas nunca estarás certo que baste que dançaram
juntos através de todas as salas vazias destes
palácios desfeitos pela manhã os teus braços
em torno da sua cintura as mãos dela sobre os teus ombros

II

imaginas que talvez tivessem conversado entre intervalos
de música ou que já aí tivesses pressentido que o mar te cercava
que estava em torno de toda a casa que a árdua respiração
do vento àquela hora lançava contra as janelas mãos de areia
que a música te impedia de ouvir mas o que acontecia
era apenas a rapariga a segurar-te pelos ombros

III

como as marés no princípio das manhãs
as coisas que tememos esvanecem-se vão
para outros lugares tornaremos apenas a convocá-las
mais tarde todo esse exército de soldadinhos de chumbo
que de manhã afundaremos em água e deixaremos bater no fundo

IV

tornaremos a convocá-las apenas em caso de extrema necessidade
mas o que é a extrema necessidade de uma coisa que nos fira
não poderias dizê-lo não é sobre nada vantagem não é conhecimento
não tem a leveza de pés de rapariga que dançassem em
rasos sapatos pretos é um húmus que sobre o nosso chão está
e nada daí poderia ter nascido é uma maneira de noite
por isso de noite erras pela cidade atravessas as linhas de comboio
até ao mar em que quarto vazio poderias estar a dançar agora?

V

pensas que terão dançado como as personagens daquele filme de zurlini
conservamos o corpo depois de ter dançado mas o poema
depois de lido como disse leonard cohen contra homero
esvanece-se mas leonard cohen enganou-se um pouco porque
em algum lugar deve continuar a ser verdade que desci milhares
de escadas de braço dado contigo que em algum lugar o outro verso
de montale tal como o corrompemos continua a fazer sentido
«eu sei que devo perder-te [de novo] e não posso»
pois nem tudo se perde ficará a consolação de saber
que alguns poemas nos explicam

VI

e pensas que é estranho que não te possam exonerar
de sentir dor é estranho que algumas palavras não cumpram
a higiénica função de nos vestir que nos deixem mais sós
mais diante de nós nos espelhos palavras
que de toda a porcaria nos dispam nos deixem mais junto
ao coração da vida que como todos sabemos fica no chão
por isso encostas o ouvido ao solo como nos westerns
os fugitivos à espera de ouvir o comboio
de antecipar um sinal do que se segue
a angústia às vezes parece-se com isto
coisas  que não podemos ouvir nem ver mas que
fatalmente em algum lugar sabemos que nos esperam
como os pés dela nos sapatos pretos baixos contra o chão
quando dançaram como personagens de zurlini ou apenas
como gente porque quanto menos significado melhor e o melhor
às vezes é que não nos assemelhemos a nada a ninguém

VII

e podes continuar a sentir-te cercado pelo mar
sem que nenhum mar te cerque podes esgotar
todos os caminhos da noite antes de tudo recomeçar
virá a manhã como um resgate e o café feito de novo
e terás na boca um gosto amargo que em breve se sumirá
à medida que enches de água a cafeteira e deitas café
no filtro e vês na janela uma mulher a estender em cordas lençóis
e todas as coisas que recordas se somem e tu respiras
como se estivesses em casa de novo e pela primeira vez
e nenhuma palavra te tivesse sido escrita na testa
e nenhum sinal pudesse permitir um reconhecimento
futuro e assim deo gratias é tarde terminemos

Tatiana Faia

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

um espectáculo que não pedimos

I
como aqueles jogadores de sabre
que horas a fio se debatem por um fio presos
tão austeros nas suas roupagens brancas
os seus rostos escondidos por negras máscaras de rede
uma vez por outra em esforço algum grita
uma maneira de dança só ritmo e movimento
nada mais quase

II
o entardecer desce à terra vermelha
detendo-se no vermelho barro dos tijolos na manhã
no porto junto ao canal está o que resta do último sol do dia deixar
para trás o quarto de namorados pequeno desarrumado agora vazio
paredes amarelecidas quantas horas por sobre o ombro nos fitam

III
que espécie de horas por sobre o ombro nos fitam
pedia-te uma descrição cheia de pormenores vividos
recordarias por exemplo os candeeiros acesos
por entre o nevoeiro na avenida das dez da manhã
o rapaz ruivo e sardento chutando uma bola contra a ventania
o pavio ainda aceso o que restava do álcool ardendo
debaixo do balão de café um cheiro de alfazema e madeira velha
os dias decantados as bancadas brancas da cozinha

IV
o atleta que corre na noite das seis da tarde
todo vestido de negro vigiando a cada volta
o relógio mágico que lhe mede a pulsação
a distância percorrida em torno dos campos de rugby
onde um desajeitado coro encena um espectáculo
de sangue e lama um inútil espectáculo que não pedimos
que não saberíamos dizer que função cumpre no poema

V
com uma faca romba a mulher do andar de cima
arranjava o peixe deixava-o dentro de uma taça
de água salgada as escamas eram lançadas como cinza
pela janela eu ligava o rádio a que faltavam botões
trabalhava durante a manhã dançava tardes inteiras
estúpida súbita energia um presságio favorável
os anzóis das tardes onde nunca se enredaram os peixes
vermelhos que outros pescaram a alegria faz-se de pouco
às vezes basta um bilhete de cinema a hora marcada para sair

VI
pacientemente falhámos os encontros
combinados à boca do metro por túneis
subterrâneos cinzentos entrávamos
atrasados no labirinto da cidade uma respiração
que se acelera uma alegria de não sei porquê
efémera como flores que o tempo trespassa
todas as alegrias penso agora são efémeras
um deus que não sabemos se é generoso as distribui
acreditemos que sabiamente com alguma justiça
também as tempera de alguma tristeza como
a mulher no andar de cima funcho sal limão
o toque negro e vermelho de alguma pimenta

VII
para efeitos de sequência lógica do argumento
podias dizer agora que te  perdes em lojas
de especiarias esta indecisão que a espaços
visitas podias perguntar-te que procuras
mas é um lugar comum demasiado
comum para que lhe sobreviva qualquer poema
e até neste aristóteles reprovaria esse topos
mas penso que poderia sorrir a esta imitação desajeitada
feita com bonecos de papel e cera já o deus
que se apieda dos nossos dias nada sabe de ironia
podia até rir-se fingir que percebeu a graça
mas  na verdade a ironia é apenas nossa

VIII

como se nenhum fio nos prendesse pelas costas
somos como aqueles jogadores de sabre que por vezes
sentem ao avançarem contra o adversário que podem
tropeçar nas próprias sapatilhas escutam por isso
o roçar da borracha no chão esperam que seja o adversário
não eles a tropeçar ao fim do dia regressam
nos barcos da noite pelo canal aos quartos pequenos
onde tomam banhos de água tépida e se vestem para sair
não sem antes terem cuidadosamente reservado o bilhete de cinema
enquanto dançam de pés descalços no soalho de madeira a descolar
a encenação dos gestos é sempre repetida mas eles não diriam
(demasiado ingrato e impertinente) o peso exacto
do cobre nos dias  e outra coisa não podem sentir
que uma gratidão tão incerta planando na luz artificial

Tatiana Faia