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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Zbigniew Herbert, «Calígula»


Lendo velhas crónicas, poemas e vidas, o Sr. Cogito experimenta por vezes uma sensação de presença física de pessoas há muito falecidas

Diz Calígula:

de entre todos os cidadãos de Roma
amei apenas um
Incitato – o cavalo

quando entrou no senado 
a irrepreensível toga do seu pêlo
brilhava imaculadamente entre covardes assassinos orlados de púrpura

Incitato era só virtudes
nunca discursava
natureza estóica
creio que de noite no estábulo lia os filósofos

ameio-o tanto que um dia resolvi crucificá-lo
mas a sua nobre anatomia não o permitiu

aceitou com indiferença a dignidade de cônsul
exercia a autoridade da melhor forma possível
isto é não a exercia de todo

não se pôde convencê-lo a manter relações amorosas estáveis
com a minha querida esposa Cesónia
e assim tristemente não surgiu uma linhagem de Césares-centauros

por isso Roma caiu

decidi proclamá-lo um deus
mas no nono dia antes das calendas de Fevereiro
Quereia Cornélio Sabino e outros idiotas frustraram as
minhas piedosas intenções

recebeu com tranquilidade a nova da minha morte

expulsaram-no do palácio e condenaram-no ao exílio

suportou este golpe com dignidade

morreu sem descendência
abatido por um rude açougueiro do lugarejo de Âncio

sobre o destino póstumo da sua carne
Tácito cala-se



Zbigniew Herbert
tradução de Izabela Stapor, José Pedro Moreira e Tatiana Faia
ítaca 3, Lisboa, 2012

Ver e descarregar os poemas de Herbert traduzidos na ítaca aqui.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Paisagem e Erudição no Humanismo Português

(Ana María S. Tarrío)

«João Rodrigues de Sá de Meneses (1486/87-1579), alcaide-mor do Porto, celebrado pela geração camoniana como pai fundador da nova aristocracia das letras, prefigurou intensamente a dualidade renascentista da pena e da espada. Acusado quatro vezes perante o tribunal da Inquisição por comportamentos heréticos e por práticas de sodomia, representava a facção intelectual mais ousada da nobreza manuelina, marcada pelo impacte da formação humanística italiana e em breve incómoda, no período de rigor doutrinário contra-reformista (...). Elaborou as composições poéticas mais vanguardistas do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende de 1516, renovando a medida velha com novos conceitos e princípios humanísticos antes da renovação métrica de Bernardim Ribeiro e Francisco de Sá de Miranda, seu primo. Além de várias composições poéticas neolatinas, redigiu a singular monografia 'De Platano', que aqui se publica. Nesta obra rara da literatura renascentista europeia a imagética neoplatónica da natureza aviva-se para produzir um discurso nacional que procura superar a condição de periferia cultural lusitana relativamente à hegemonia italiana.»

Ana María S. Tarrío, Paisagem e Erudição no Humanismo Português. João Rodrigues de Sá de Meneses. De Platano (1527-1537). Estudo introdutório, edição crítica, tradução e notas. Gulbenkian, Lisboa, 2009