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sábado, 12 de maio de 2012

On Homer's beaches



XIII

On Homer's beaches was a bliss, a grandeur, which reached our days untouched. The soles of our feet, digging the same sand feel it. We walk thousands of years, the wind continually bends the canebrakes and we continually raise our faces. Whither? Until when? Who are in charge?
We need a body of laws that develops form like our own skins as we grow up. Something both youthful and strong, like the “therein were overflowing waters”1 or the “shedding a copious tear”2. So that what man gives birth to may surpass man without suppressing him. 

 1.Odisseia 13.109: ἐν δ᾽ ὕδατ᾽ ἀενάοντα.
2. Ilíada 6.9: θαλερὸν κατὰ δάκρυ χέουσα.

Odysséas Elytis, The Collected Poems, Nikos Sarris e Jeffrey Carson (trad.), The Johns Hopkins University Press, 1997.

quarta-feira, 14 de março de 2012

"I enriched all my ideas with islands"

And I, I always arrive straight at absence. One sound makes the brook, and what I say, what I love remains untouched in its shadows. Innocences and pebbles in the depth of a translucency. Sensation of crystal.

-

When you flash in the sun that slides waterdrops and immortal hyacinths and silences on you, I name you the only reality. When you escape darkness and come again with the east, wellspring, bud, sunbeam, I name you the only reality. When you leave those who are assimilated into nonexistence and reoffer yourself as a human, I wake from the beginning with your change.

Play no more. Cast the ace of fire. Open the human geography.

-

All that's left is for you to come and turn your eyes toward the sea that will be no other than your living continual eternal whispering.

All that's left is for you to end up in the horizons.


(de The Concert of Hyacinths)

Odysséas Elytis, The Collected Poems, Nikos Sarris e Jeffrey Carson (trad.), The Johns Hopkins University Press, 1997.

sábado, 9 de julho de 2011

Image of Boeotia

Here where a desolate glance blows the stones and agave
Here where time's footsteps sound deep
Where great clouds open into golden cherubim
Above the metope of the sky
Tell me where eternity began
Tell me what is the sign you ache for
And what the lot of the helminth

O earth of Boeothia shined by the wind

What has become of the orchestra of naked hands
beneath the palaces
Of the mercy that rose like sacred smoke
Where are the gates with ancient singing birds
And the clang that dawned the terror of peoples
When the sun was entering as triumph
When fate whrithed on the lance of the heart
And fraticidal warblings took fire
What has become of the immortal March libations
Of Greek lines in the water of verdancy

Foreheads and elbows were wounded
Time rolled pink from so much sky
Men advanced
Filled with pain and dream

Acrid image! Enobled by the wind
Of a summer storm that leaves fireblond
Traces on the lines of hills and eagles
In the lines of your palm's destiny

What can you regard and what can you wear
Dressed in the music of glasses and how you proceed
Through heather and through sage
To the arrow's final point

On this red earth of Boeotia
In the desolate marching song of boulders
You'll kindle golden sheaves of fire
You'll uproot the evil fruitfulness of memory
You'll leave a bitter soul in the wild mint!

Odysséas Elytis, The Collected Poems, de In Service of Summer, Jeffrey Carson e Nikos Sarris (trads.), Johns Hopkins University Press, 1997.

terça-feira, 5 de julho de 2011

X

Enfrentando a corrente
Um peixe que busca transparência noutro clima
Uma mão que em nada acredita
Eu sou hoje como ontem
As lâminas do tempo ensinaram-me a sentir
Eu dissolvo as noites de dentro para fora reviro as alegrias
Espalho esquecimento ao abrir um pombal
Saindo pelas portas traseiras do céu
Sem uma palavra no olhar
Como um rapaz que esconde no cabelo
um cravo.

Odysséas Elytis, de «Céus Límpidos». Versão minha a partir do inglês (não tinha o original grego à mão).

sábado, 30 de abril de 2011

Gift silver poem

I know that all this is worthless and that the language
I speak doesn't have an alphabet
Since the sun and the waves are a syllabic script
which can be deciphered only in the years of sorrow and exile

And the motherland a fresco with successive overlays

frankish or slavic which, should you try to restore,

you are immediately sent to prison and

held responsible

To a crowd of foreign Powers always through
the intervention of your own


As it happens for the disasters


But let's imagine that in an old days' threshing-floor
which might be in an apartment-complex children
are playing and whoever loses

Should, according to the rules, tell the others
and give them a truth
Then everyone ends up holding in his
hand a small
Gift, silver poem.

Odysséas Elytis,The tree of Light and the Forteenth Beauty, tradução de Marios Dikaiakos.

domingo, 17 de abril de 2011

Monograma


















Hei-de lamentar-te sempre – ouves-me – a ti
apenas, no Paraíso

O destino, como agulheiro, em outra direcção
há-de virar as linhas das palmas das mãos
O tempo há-de conceder um momento

De que outro modo, desde que os homens amaram

O céu simularia nossas entranhas
A inocência golpearia o mundo
Com a foice do negrume da morte

II

Lamento o sol e lamento o tempo que vem
Sem nós e canto todos os que passaram
Se isto é verdade

Os corpos falados e os barcos que docemente deslizam
As guitarras que tremeluzem debaixo de água
O «acredita em mim» e o «não»
Um no ar e outro em música
Ambos pequenos animais, as nossas mãos
Que tentaram tocar-se em segredo
Os vasos de flor na sombra dos portões abertos do jardim
E as partes do mar que se uniram
Para lá dos muros de pedra, para lá das vedações
A anémona que permaneceu na tua mão
E a sua púrpura por três vezes por três dias tremeu acima
da queda de água

Se isto é verdade canto
A trave de madeira a imaginada tapeçaria quadrada
Na parede, a sereia de soltos cabelos
O gato que nos estudou na penumbra
A criança com incenso e com vermelha cruz
A hora em que anoitece sobre as rochas inacessíveis
Lamento a veste que me toca e o mundo que me alcançou

III

Falo também de mim e de ti
Porque te amo e por amor sei
Entrar como a lua cheia
De toda a parte, em torno do teu pequeno pé nos lençóis inacabáveis
Como colher o jasmim – e eu tenho o poder
De fazer soprar o vento e levar-te adormecida
Através das passagens da lua e das secretas colunas do mar
Hipnotizada árvore de prateadas aranhas
Ouviram falar de ti as ondas
Como acaricias, como beijas
Em redor do pescoço na enseada
Como sussurras o «quê» e o «eh»
Sempre nós a luz e a sombra
Sempre tu a pequena estrela e sempre eu a escura nau
Sempre tu o porto e sempre eu a lanterna à direita
O cais molhado e o brilho incidindo nos remos
Alto na casa de muitas vinhas
As rosas amarradas e a água que refresca
Sempre tu a estátua de pedra e sempre eu a sombra que cresce
Tu a persiana pendente eu o vento que a abre
Porque te amo e te amo
Sempre tu a moeda e eu a devoção que lhe dá valor

Tanta a noite, tanto o clamor do vento
Tanta a neblina do ar, tanta a quietude
Em torno do mar déspota
Arca celeste plena de estrelas
Tanta a tua respiração mínima

Que já nada mais me resta
Entre estas quatro paredes, o tecto, o chão,
Excepto chamar-te e acertar-me a minha própria voz
Sentir o teu odor e os homens temerem
Porque os homens temem
o que não foi tentado e o estrangeiro e é cedo, ouves-me
É ainda cedo neste mundo meu amor

Para falar de ti e de mim

IV

É ainda cedo neste mundo, ouves-me
Ainda não amansaram as feras, ouves-me
O meu sangue desperdiçado e aguçado, ouves-me, faca
Como carneiro correndo através dos céus
Quebrando o rasto de cometas
Sou eu, ouves-me
Amo-te, ouves-me
Abraço-te e levo-te e visto-te
O branco vestido de Ofélia,
Onde me abandonas e onde vais e quem, ouves-me,

Segura a tua mão acima da destruição

Das chamas enormes e da lava vulcânica
E virá o dia, ouves-me,
Em que nos hão-de sepultar, e um milhão de anos mais tarde
Quando formos fósseis reluzentes, ouves-me
Para serem polidos pela indiferença, ouves-me,
Dos homens
E quando ela nos lançar em milhares de pedaços
Nas águas um por um, ouves-me
Eu conto meus amargos seixos, ouves-me
E o tempo é uma grande igreja, ouves-me
Onde outrora as imagens
Dos santos
Choraram verdadeiramente, ouves-me
Os sinos dobram alto, ouves-me
Atravesso um vau profundo
Anjos esperam com velas e fúnebres salmos
Eu não vou a lugar nenhum, ouves-me
Um de nós apenas ou ambos, ouves-me
Esta flor da tempestade e, ouves-me
Do amor
De uma vez por todas a apanharemos
E não tornará a ser flor em parte nenhuma, ouves-me
Noutra terra, noutra estrela, ouves-me
Não existe chão, não existe ar
Que tenhamos tocado, o mesmo, ouves-me

E nunca nenhum jardineiro foi tão afortunado

Que tivesse gerado de semelhante inverno e de semelhantes ventos de norte, ouves-me
Semelhante flor, só nós, ouves-me,
No meio do mar,
Apenas pelo desejo do amor, ouves-me
Erigimos uma ilha inteira, ouves-me
Com grutas e cabos e fragas em flor
Ouve, ouve
Aquele que fala no meio das águas e aquele que grita – ouves?
Sou eu que chamo e sou eu que grito, ouves-me
Amo-te, amo-te, ouves-me

V

De ti falei em tempos antigos
Com sábias amas e rebeldes veteranos
De onde vem a tua tristeza feroz
O brilho da água que no teu rosto cintila
E porque, diz-se, tenho de vir até ti
Eu que não quero o amor mas quero o vento
Mas quero do descoberto e vertical mar o galope

E ainda ninguém tinha ouvido falar de ti
Nem o ditamno nem o cogumelo selvagem
Nas terras altas de Creta, ninguém
Só deus concede e conduz minha mão para ti

Aqui, ali, cuidadosamente a toda a volta
Da margem do rosto, da enseada, do cabelo
Na colina que ondula para a esquerda

O teu corpo na atitude de um solitário pinheiro
Olhos de orgulho e diáfana
Profundidade, na casa com uma velha cristaleira
De amarelas rendas e madeira de cipreste
Sozinho espero para ver onde primeiro surgirás
Ao alto na varanda ou sob as pedras do jardim
Com o cavalo do santo e o ovo da páscoa

Como um mural destruído
Grande como te quis a pequena vida
Para conter numa pequena vela o efervescente brilho vulcânico

Assim nunca ninguém terá visto ou ouvido
Nada acerca de ti na devastação de casas delapidadas
Nem o antepassado sepultado no extremo do jardim
De ti, nem a velha com todas as suas ervas

De ti, só eu e talvez a música
Que em mim se esconde mas que regressará mais forte
De ti, o não crescido peito de doze anos
Virado para o futuro e para a vermelha cratera
De ti, um odor acre encontra o corpo
E como um alfinete perfura a memória
E aqui o solo, aqui as pombas, aqui a nossa terra antiga


VI

Vi muitas coisas e à minha mente a terra parece mais bela
Mais bela na respiração de ouro
A aguçada pedra, mais bela
O escuro azul dos istmos e os telhados que pontuam as ondas
Mais belos os raios onde passas sem pisar
Invicta como a deusa de Samotrácia sobre os cumes do mar

Assim eu te vi e isso basta
Porque tudo e o tempo serão exonerados
No rasto da tua passagem
A minha alma como golfinho verde prossegue

E brinca com o branco e com o azul

Vitória, vitória onde fui vencido
Antes do amor e próximos
No hibisco, na flor-de-maracujá
Vai, vai e deixa-me perder-me

Só, e deixa o sol ser como recém-nascido que seguras
Só, e deixa-me ser como pátria que se lamenta
Como a palavra que enviei para por ti segurar a folha do loureiro
Só o vento forte e só o perfeito
Seixo sob a pálpebra da profunda penumbra
O pescador que pescou e de novo lançou ao tempo o Paraíso

VII

No Paraíso assinalei uma ilha
Semelhante a ti e uma casa junto ao mar
Com uma cama larga e uma porta estreita
À profundidade lancei um eco
Para que a cada manhã me veja quando acordo

Em parte para te ver passar através das águas
Em parte para te chorar no Paraíso

Odysséas Elytis

*********

A versão que aqui apresento é minha, feita a partir do original grego. Importa avisar que o meu conhecimento do grego moderno é ainda incipiente, e que é muito provável que em alguns pontos existam imprecisões ou mesmo erros. Onde a minha dúvida persistiu, comparei a minha versão com traduções inglesas. O original grego pode ser lido aqui. Monograma foi originalmente publicado em 1972.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Louvada seja a luz e a primeira
prece humana gravada sobre a pedra
a força no animal a conduzir o sol
a planta que ao trinar soltou o dia

A margem que mergulha e ergue a nuca
um cavalo de pedra que o mar cavalga
as mil vozes pequenas e azuis
o grande busto branco de Poseidon

Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí), Manuel Resende (trad.), Assírio & Alvim, 2004.
Louvada seja a voz que vem de longe
a bela ondulação da angra de Helena
os figos que reluzem na axila do nopal
os escombros do futuro e a sua aranha

As noites sem fim com as nossas entranhas
o relógio com insónias que não vale nada
um leito negro no seu périplo sem fim
pelas roucas paragens da Galáxia

Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí), Manuel Resende (trad.), Assírio & Alvim, 2004.
Louvada seja a névoa entre as ervas
no calcanhar molhado o frrte do lagarto
Mnesaretê cujo olhar profundo
não sendo cordeiro dá a absolvição

O vento despertando ouro no sino
e o cavaleiro prestes a perder-se no poente
e o outro cavaleiro do espírito
que desfia ao avesso as ruínas do tempo

Numa noite de Junho as azuis tréguas
jasmins e saias que enchem o jardim
o bichinho dos astros que sobe no ar
o instante de alegria antes das lágrimas

Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí), Manuel Resende (trad.), Assírio & Alvim, 2004.

domingo, 25 de outubro de 2009

IV

Adicionei os meus dias e não te encontrei
nunca, em sítio nenhum, para me tomares a mão
no clamor dos abismos e na minha barafunda de estrelas!
Tomaram uns o saber e outros o poder
a escuridão, rasgando as duras penas
e pequenas máscaras, de alegria e tristeza,
ajustando à face arruinada.
Eu é que não, não ajustei máscaras,
deitei para trás de mim alegria e tristeza
pródigo deitei para trás de mim
o Poder e o Saber.
Adicionei os meus dias e fiquei sozinho.
Disseram uns: porquê? Este também há-de viver
na casa com vasos e a branca noiva.
Cavalos de pêlo fulvo e negro acenderam-me
a obstinação por outras mais brancas Helenas!
Almejei outra mais secreta bravura
e aí onde me impediram, invisível, fui a galope
restituir as chuvas aos campos
e recuperar o sangue dos meus mortos insepultos!
Disseram outros: porquê? Este também há-de conhecer,
até ele, a vida nos olhos do outro.
Não vi olhos de outrem, não encontrei nada
senão lágrimas no vazio que me abraçava
senão borrascas na serenidade que suportava.
Adicionei os meus dias e não te encontrei
e enverguei armas e saí sozinho
para o clamor dos abismos e a minha barafunda de estrelas!

Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí), Manuel Resende (trad.), Assírio & Alvim, 2004.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A Ler

Estou a ler isto:

procurei o branco até à tensão extrema
do negro A esperança até às lágrimas
a alegria até aos confins do desespero

Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí), Manuel Resende (trad.), Assírio & Alvim, 2004.