Mostrar mensagens com a etiqueta Petrónio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Petrónio. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 17 de maio de 2011

O desprezo

Quando li o Satyricon bati-me com aquela desilusão um bocado cliché de aquilo nada ter que ver com o filme de Fellini. Aquilo que mais me enterneceu em Petrónio foi uma coisa que ouvi dizer a um professor e que de facto está patente no texto, ele é um autor incansável na contemplação que faz do espectáculo do mundo. Porque o mundo para ele é isso, um espectáculo. A contemplação crítica (acrescentaria o aluno diligente no rotineiro teste) do espectáculo do mundo.
Outra coisa que também estava em Petrónio foi uma frase que encontrei escrita anos mais tarde num livro de Agustina Bessa-Luís: «tinha pela humanidade um desprezo vernáculo, pio, à Petrónio.» Podíamos agora fazer um entimema: o desprezo que Petrónio tinha pela humanidade, pio e vernáculo, advinha-lhe da contemplação crítica do espectáculo do mundo.
Lembramo-nos depois da descrição que Tácito faz do suicídio do árbitro de elegâncias de Nero (que a maior parte dos ratos de biblioteca, perdão, estudiosos identifica como sendo o mesmo Petrónio que escreveu o Satyricon). Se a memória não me falha, e segundo o que conta Tácito, na noite em que foi suicidado (Nero foi o imperador que num curto espaço de tempo suicidou três lendas vivas, e portanto depois mortas, da literatura ocidental: Séneca; Lucano, Petrónio), Petrónio deu um banquete, juntou os amigos todos, organizou uma anacrónica pândega à Dostoievsky, e deteve-se a conversar com os seus convidados, abriu os pulsos e por duas ou três vezes estancou a hemorrogia para ficar mais um bocado à conversa, pelo prazer da conversa. E foi assim. Ele era esta contradicção em termos, entre o desprezo pio e a contemplação embevecida. Há que amá-lo.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Da sorte

Calígula, imperador de Roma, escreveu em 40 uma carta ao seu legado na Síria em que lhe recomendava vivamente o suicídio. Petrónio, o senhor em causa (não é o mesmo que escreveu o Satyricon), tentara evitar a revolta que se daria na sua província caso cumprisse a ordem do seu imperador e atrasara a execução da ordem que dele recebera, a saber, erguer uma colossal estátua do dito, disfarçado de Zeus Epifânio no Templo em Jerusalém, o que constituía a máxima violação do carácter sagrado, para os Judeus, da terra da Palestina e implicava a imediata dessacralização desse que era o mais sagrado dos lugares, o Templo.
Ora Josefo conta-nos (Antiguidades Judaicas, Livro 18, §305) que o navio que transportou esta carta foi tão lento a navegar que Petrónio só recebeu a missiva depois de já ter recebido uma outra, que lhe dava conta de que Gaio tinha sido morto em Roma por Quereia & Co.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Petrónio, legado da Síria

Em 39-40, Calígula ordenou que se erguesse uma estátua sua no Templo em Jerusalém. Este acto, em si, implicava a profanação da sinagoga, que deixava automaticamente de ser um espaço sagrado.
Tendo ordenado ao legado da Síria, Petrónio, que procedesse às diligências necessárias para a construção da estátua, este imediatamente se apercebeu que a comunidade judaica de imediato se revoltaria contra este acto.
Petrónio era um homem prudente e resolveu atrasar o mais possível a colocação da estátua no Templo. Ordenou a escultores em Sídon que produzissem uma estátua magnificente. Disse-lhes que o tempo não era problema. Entretanto, destacou duas legiões e uma imensa força para auxiliar estas e deslocou-se a Ptolemaïs. Não é possível determinar a data exacta em que Petrónio terá chegado a esta cidade com o seu exército. Muito provavelmente no Inverno de 39.
Milhares de judeus de todas as classes sociais dirigiram-se a Ptolemaïs para implorar a Petrónio que não violasse os costumes dos seus antepassados. Disseram-lhe que, se ele estava determinado a cumprir a ordem de Calígula, eles preferiam ser mortos pelos soldados romanos a submeterem-se à violação das suas leis ancestrais. Disseram-lhe que enquanto estivessem vivos não aceitariam semelhante profanação. Petrónio encolerizou-se: que não era ele o imperador e que era obrigado a cumprir as ordens que lhe eram dadas.
Os judeus responderam-lhe que, tal como ele não podia desobedecer às ordens do imperador também eles não podiam violar um mandamento de Deus.
A história acaba bem. Instado pelo rei Agripa I, seu amigo de longa data e neto de Herodes (o Grande), Calígula acabou por ceder, ordenando que, se a estátua ainda não tivesse sido colocada no Templo até à chegada do emissário com a ordem que anulava o primeiro decreto, não fosse de todo colocada. Se já lá estivesse, deveria ficar onde estava.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A representação de três poetas na Antiguidade, ou como ir da Épica ao Romance

Na Odisseia encontramos representados dois aedos, Demódoco, o aedo cego que vivia na corte dos Feaces, e que alguns estudiosos defendem ser uma projecção de Homero, e Fémio, filho de Térpio, que cantara à força para os pretendentes e que acaba por ser poupado por Ulisses aquando da chacina dos restantes pretendentes de Penélope.
Quando Alcínoo pela primeira vez se refere ao aedo Demódoco, fá-lo nos seguintes termos:

(…) E chamai ainda o divino aedo,
Demódoco, pois a ele concedeu o deus o apanágio de nos
deleitar, quando aquilo canta que lhe inspira o coração.*

Demódoco, sendo cego, é conduzido pelo arauto e sentado num trono adornado de prata no meio dos convivas, junto dele é colocado um cesto e uma mesa e é-lhe servida uma taça de vinho, a lira é pendurada num prego, perto da sua cabeça.
O aedo ocupava um lugar próprio na corte dos Feaces, tem um arauto que o guia para junto dos convivas e que lhe mostra como pode chegar à sua lira. São-lhe servidas comida e bebida antes de executar a sua arte. Diz-se que os deuses lhe haviam concedido ao mesmo tempo o bem e o mal: privaram-no da vista, mas, em compensação, outorgaram-lhe o dom do canto. É possível inferir que todos na corte dos Feaces entendem que Démodoco possui um dom divino que, de certa forma, o torna um homem sagrado entre os restantes, um ser inspirado pelos deuses. O canto, diz-se, tal como o banquete, sacia o coração .
É nos mesmos moldes que Fémio suplica a Ulisses que o poupe. Diz-lhe:

Peço-te de joelhos, ó Ulisses, que me respeites e te apiedes de mim.
Para ti próprio virá a desventura, se matares o aedo:
eu mesmo, que canto para os deuses e para os homens.
Sou autodidacta e um deus me pôs no espírito cantos
de todos os géneros: sou a pessoa certa para cantar ao teu lado,
como se fosse um deus. Por isso não desejes degolar-me.

Dignas de nota são as palavras do v. 345, acima citado. Fémio prevê para Ulisses a desventura, caso o mate, pois ele canta para os deuses e para os homens e um deus [lhe] pôs no espírito cantos. Mais uma vez, o poeta surge como ser inspirado, é funesto (podemos inferi-lo) matá-lo pois possui um dom divino.
Por outro lado, nas palavras de Fémio (nos vv. 348 – 349) está implícita uma outra qualidade que era tida pelos aedos: o dom de, pela fama que o canto espalha, imortalizar os feitos de um homem, daí ser lícito Fémio comparar-se a um deus, visto que a imortalidade e a concessão da imortalidade eram um atributo e dádiva considerados divinos. O canto tinha o poder de eternizar um feito, daí os aedos serem tão respeitados. Praticar um gesto que merecesse ser imortalizado pelo canto era a ambição de qualquer herói homérico, porque lhes concedia o lugar de imortalidade possível: a memória dos homens.
Esta noção de que existem feitos que merecem ser imortalizados pelo canto e de que todo o herói deve ambicionar praticá-los é muito própria do mundo homérico. A estes heróis homéricos, Petrónio contrapõe, talvez até conscientemente, Encólpio, o seu anti-herói.
Também no Satyricon encontramos um poeta, Eumolpo, mas este surge numa situação bem diferente destes dois aedos. Também o seu comportamento é bastante distante do destes dois seres inspirados pelos deuses. Eumolpo pertence a um mundo em que já não é possível um poeta ser considerado divino. Tal é atestado no momento da sua primeira aparição. No §90, enquanto o poeta recita o poema sobre a tomada de Tróia, a Troiae halosis, alguns transeuntes que passeavam pelo pórtico atiraram pedras a Eumolpo, enquanto este recitava. E ele, que já conhecia o aplauso acolhido pelo seu engenho, cobriu a cabeça e tratou de fugir para fora do templo.
Um cenário bem diferente portanto daqueles em que se movimentavam Demódoco e Fémio, que possuíam um espaço próprio e eram acolhidos e respeitados pelos homens que se movimentavam nos mesmos espaços que eles, para usar as expressões de Lukács, toda e qualquer acção sua era a well-fitting garment for the world. Existia uma relação de adequação entre estas personagens e o mundo em que se movimentavam. O mesmo não se poderá dizer de Eumolpo, que é uma personagem que enquanto poeta não tem um espaço próprio no mundo em que se movimenta, correndo o risco de se tornar uma figura marginal. Repare-se palavras que Encólpio lhe dirige na sequência deste episódio:

– Ouve lá: onde pretendes tu chegar com essa tua mania? Andas comigo há menos de duas horas e já mais vezes falaste à maneira dos poetas que dos humanos! Por isso não admira que as pessoas te persigam à pedrada. Também eu deveria carregar os bolsos de calhaus, para te fazer saltar o sangue da cabeça, sempre que te desse para sair dos eixos.
(…)
– Muito bem; se deres hoje trégua à tua bílis, podemos jantar os dois.

O canto não é o bem que os deuses lhe concederam, é uma mania sua. A linguagem dos poetas não pertence à fala dos humanos e, certamente, tal afirmação da parte de Encólpio não vai no sentido de sublinhar o carácter divino do acto de cantar, uma vez que acrescenta que não o admira que as pessoas o persigam à pedrada e afirma que ele próprio devia fazer o mesmo. Repara-se que, neste ponto do romance, Eumolpo está a cantar um tema homérico, tarefa de que imediatamente abdica mediante a oferta de um jantar.
Ainda para demonstrar que já não estamos num tempo em que a forma de expressão adequada aos actos dos homens seja a épica homérica, da qual o aedo era um símbolo, uma vez que a narrava, é o facto de Eumolpo não atingir notoriedade como poeta mas como contador de histórias, como a atestam a narração do episódio autobiográfico do rapaz de Pérgamo e a história da matrona de Éfeso. Nenhuma das narrativas é acolhida com uma chuva de calhaus e ninguém diz ao poeta que ele esteja a sair dos eixos. Será correcto afirmar que o canto aqui surge evoluindo (ou decaindo, depende da perspectiva) para uma forma narrativa, que podemos considerar como no âmbito da linguagem dos humanos, e portanto tolerável.
Porque as condições do seu mundo não são já as da épica homérica (mundo fechado, de totalidade imanente), o acto de narrar em verso um facto homérico deixa de ser possível a Eumolpo, sob pena de ser apedrejado pelos seus contemporâneos, o que demonstra que este tempo já não é o da sensibilidade da épica. Porém, a narrativa de uma história, acto identificado com a linguagem quotidiana mas também forma própria do romance e da novela, é bem acolhida.

*As citações incluídas neste texto são retiradas das edições da Livros Cotovia da Odisseia e do Satyricon, traduções, respectivamente, de Frederico Lourenço e Delfim F. Leão

terça-feira, 7 de julho de 2009

A Cultura e o Satyricon de Petrónio

... Para mais, já está a crescer um futuro aluno teu, que será o meu pequeno Cícero. Já sabe dividir por quatro, se vingar, terás à tua beira um criadinho. Pois, sempre que tem um tempito livre, não levanta a cabeça dos livros. É espertote e de bom estofo, se bem que tem a mania da passarada. Já lhe matei três pintassilgos e disse que os tinha comido a doninha. Mas lá descobriu outras lérias e o seu maior prazer é pintar...
Petrónio, Satyricon, Delfim F. Leão (trad.), Livros Cotovia, 2005.

No mais famoso fragmento que até nós chegou do Satyricon, o "Festim de Trimalquião", Equíon, um dos libertos afirma que litterae thesaurum est (mais ou menos literamente: as letras é tesouro). Uma aguda consciência da importância da instrução num sujeito que, ao sintetizá-la, dá três erros de latim.
O caso é paradigmático em relação à oposição entre cultura e actividade económica que se desenha um pouco por toda a obra. Até porque este liberto, Équion, está a dar uma lição ao professor de letras, Agamémnon, o qual surge no início fazendo uma longa prelecção sobre o (mau) estado da educação no império romano. Porém este mesmo professor, sendo pago e precisando de ser pago, não tem qualquer escrúpulo em descer o nível de exigência para dar boas notas aos seus alunos.
Outro exemplo, que pode ajudar a configurar a imagem da relação que se estabelece entre cultura e actividade económica, é o de outra personagem, o poeta Eumolpo. Este Eumolpo já está habituado a ser apedrejado quando declama a sua poesia e a personagem principal, Encólpio, acede dar-lhe uma refeição a troco do seu silêncio.
Estes dois exemplos talvez sirvam para imprimir na mente do leitor a noção de que cultura e actividade económica não coincidem. No discurso do liberto que fala no parágrafo 46 (e onde se integra o excerto acima transcrito), vamos encontrar mais ou menos o mesmo tipo de opinião.
Este liberto é, à sua maneira, um iluminado. Sabe que é importante dar ao filho a educação que ele próprio não teve, mas também tem noção de que é necessário matar os pintassilgos ao rapaz, e desagrada-lhe o facto de este ter descoberto "outras lérias" em substituição do hobbie dos pintassilgos, ou seja, pintar, actividade da qual retira grande prazer - um jovem dado às musas, portanto. Isto apoquenta o pai, homem que, depreende-se, subiu a pulso (esta era uma característica da classe social dos libertos no império romano, que ascenderam largamente na época dos julio-claudianos, eram uma espécie de self-made men) e com muito pragmatismo à mistura. Não é educado, e pode até ser motivo de troça para os estudantes presentes no festim, mas o seu crédito é válido no forum.
Este antigo escravo, que construiu a sua prosperidade a partir da sua actividade económica, possui uma visão pragmática da educação e compra "uns alfarrábios vermelhos" para o filho "dar umas trincas no direito" (aliquid de iure gustare, mais um exemplo de mau latim), pois a educação é útil apenas até ao ponto em que serve para dar pão (habet haec res panem) e perniciosa se criar no rapaz atracção por pintura e pintassilgos. A própria imagem que este liberto tem dos professores denota isto, podem até ser muito educados, mas, em seu entender, os professores, embora sabendo as suas letras, não querem trabalhar ou ensinam mais do que sabem e aparecem em casa dos seus discípulos aos feriados e ficam contentes com quaisquer "restos" que apanhem (esta leitura é bastante literal, deriva de excertos como: ...scit quidem litteras, sed non uult laborare... ou ...est et alter non quidem doctus sed curiosus, qui plus docet quam scit. itaque feriates diebus solet domum uenire, et quicquid dederis, contentus est).
Mesmo a imagem que se dá das personagens principais, Encólpio, Ascilto ou Gíton (por exemplo), tende para a noção de que, embora a cultura até possa conceder uma certa superioridade na compreensão da vida, contudo, a actividade económica é que assegura a sobrevivência e, regra geral, ambas nunca se misturam.
Os libertos, incultos em relação a qualquer coisa que não seja a sua própria cultura, possuem prosperidade e julgam que a cultura é até impeditiva desta, o que o comportamento de Eumolpo ou de Agamémnon, por exemplo, parece confirmar.

Pertubador é o facto de uma visão que nos chega dos tempos do principado de Nero (a mais provável data de composição do Satyricon) permanecer tão actual.