sábado, 8 de agosto de 2009

Vagão J





Por sentir inveja de um rapazola que dá pelo nome de Bogas, Manuel Borralho, um homem pobre, sujo, porco e mau, dá-lhe uma facada à traição. Vai para a prisão. Passa lá um mês. Manuel Borrralho só pensa em voltar a estoirar Bogas quando sair dali. Bogas abusa na prosápia. Logo, necessita de estoiros. É assim que se desenrola o espaço mental da personagem mais caricata de Vagão «J» (1946), de Vergílio Ferreira. Manuel, assim como todos os outros Borralhos, não vale nada. Assemelha-se a um animal. Joaquina, a mãe dos Borralhos, serve para parir e para cagar sentenças. Gorra vem do Brasil para fazer um «despacho» ao desgraçado do Chico Borralho, o pai de família que, por estar aleijado de uma perna e por não trabalhar, não merece a vida. Os Borralhos são todos da ralé, todos padecem desse grande mal que é a pobreza. Enfrentam o mundo com as armas que têm. O crime, a violência e a batota são algumas dessas armas.

Vagão «J» é a única obra neo-realista que Vergílio Ferreira nos quis deixar. Parece que, com o passar dos anos, o autor deixou de se sentir chegado a estas dialécticas movidas por forças sociais. O operariado, a pobreza, a fome ou a burguesia são chaves para entender este esquema soviético que marcou o panorama neo-realista. Um Fernando Namora celebra a tragédia dos miseráveis de forma bastante comovedora. Os próprios livros de Namora são deveras comovedores. Dão vontade de chorar. Não por serem demasiadamente bons, mas por serem chatos. Namora tem, aliás, outras componentes (como o amor incondicional à U.R.S.S e o ódio irracional aos E.U.A) dentro da sua obra que me levam a dizer que o seu neo-realismo era do puro. Vergílio Ferreira não segue o caminho de Namora. Como se disse, os Borralhos não se inserem na lógica dos coitadinhos que precisam de um valente marxismo para pôr a coisa no local certo. Não. São maus. São criminosos. E vivem na lama. Para um livro que se insere nessa bola cinzenta que é a da realidade vermelha, na qual a forma é desvalorizada para se dar primazia à ideologia, Vagão «J» é um livro muito bem escrito, tem muita piada. A linguagem de época é fantástica, as expressões dos «primatas» são saborosas. Enfim, uma excelente narrativa. Mesmo assim, o menos interessante dos livros que Vergílio Ferreira escreveu.

Só as vizinhas deram pêsames a Joaquina Borralho que sentiu uma comoção violenta e não chorou. Todavia Chico Borralho fora seu, dele tivera filhos e filhos, lutara com ela, Joaquina amava-o do coração. Mas não chorou, mulher dura, a vida cria calos na gente, não vale a pena chorar.

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