I
a luz entre as persianas fere-lhe os olhos
ele toma pelo pulso o peso da noite
entre mãos o desconforto a manhã demasiado rápida
rapaz curvando a cabeça ao canto inferior dos pássaros
e ainda entretecido nas vozes de mulheres que cantam
este: licáon, o mais jovem dos filhos de príamo
ao amanhacer não sabe
(erros seus? Má fortuna?)
quanto de um dia escuro
pelos braços lhe vem subindo
e sobre o peito se cerra já
ele como todos os outros
ainda inteiro e já eivado de sombra
vai pela planície
pela margem do rio avança
em sangue e saibro
um instante a mais de sol
II
depois de todas as palavras se estilhaçarem
contra a angústia sobrevém um respirar de luz
em pequenos quartos paredes brancas
a vida ao contraste do peso do bronze
quanto de ti ensurdece e se vai perdendo
em gestos que a neblina esbate
o canto das mulheres é uma água já demasiado tarde
e a luz entre as persianas fere
o hábito velho de desde o princípio
ter aprendido a fechar os olhos
nunca rente às janelas te ter ocorrido
ao quebrar das lâminas
a luminosidade interior
Tatiana Faia
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