I
a luz entre as persianas fere-lhe os olhos
ele toma pelo pulso o peso da noite
entre mãos o desconforto a manhã demasiado rápida
rapaz curvando a cabeça ao canto inferior dos pássaros
e ainda entretecido nas vozes de mulheres que cantam
este: licáon, o mais jovem dos filhos de príamo
ao amanhacer não sabe
(erros seus? Má fortuna?)
quanto de um dia escuro
pelos braços lhe vem subindo
e sobre o peito se cerra já
ele como todos os outros
ainda inteiro e já eivado de sombra
vai pela planície
pela margem do rio avança
em sangue e saibro
um instante a mais de sol
II
depois de todas as palavras se estilhaçarem
contra a angústia sobrevém um respirar de luz
em pequenos quartos paredes brancas
a vida ao contraste do peso do bronze
quanto de ti ensurdece e se vai perdendo
em gestos que a neblina esbate
o canto das mulheres é uma água já demasiado tarde
e a luz entre as persianas fere
o hábito velho de desde o princípio
ter aprendido a fechar os olhos
nunca rente às janelas te ter ocorrido
ao quebrar das lâminas
a luminosidade interior
Tatiana Faia
Mostrar mensagens com a etiqueta work in progress. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta work in progress. Mostrar todas as mensagens
domingo, 7 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
com o cheiro de laranjas agarrado às mãos
avançar contra o baço rumor da vida
em pano de fundo ao lento abrir dos olhos
o verde avança sobre o trigo
como o abrir de uma asa o gesto mais próximo
guarda o outono que percorre a velocidade das primeiras luzes
e te encontra estendido sobre o muro
ao sol da tarde a sombra do rapaz alastra sobre a sebe
avança correndo fora da indistinção dos muros
o movimento dos pés guarda o seu olhar atento
que cresce sobre silvas
a bola continuará a rolar para lá dos seus gritos
outra voz te há-de conduzir a um ponto onde o corpo fica
à mercê da intenção de um remate
em certos instantes se contém
a perplexidade de um movimento esquivo
que corre em pontos fundeados sobre as manhãs
alastra sobre traves
fundações daquele outro cais
onde fica em suspenso a passagem para o inverno
Tatiana Faia
avançar contra o baço rumor da vida
em pano de fundo ao lento abrir dos olhos
o verde avança sobre o trigo
como o abrir de uma asa o gesto mais próximo
guarda o outono que percorre a velocidade das primeiras luzes
e te encontra estendido sobre o muro
ao sol da tarde a sombra do rapaz alastra sobre a sebe
avança correndo fora da indistinção dos muros
o movimento dos pés guarda o seu olhar atento
que cresce sobre silvas
a bola continuará a rolar para lá dos seus gritos
outra voz te há-de conduzir a um ponto onde o corpo fica
à mercê da intenção de um remate
em certos instantes se contém
a perplexidade de um movimento esquivo
que corre em pontos fundeados sobre as manhãs
alastra sobre traves
fundações daquele outro cais
onde fica em suspenso a passagem para o inverno
Tatiana Faia
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
o rapaz como o poema
atravessa a luz e a cinza
percorrendo o caminho que
até casa desce numa claridade menor
de entardecer
a sombra dá-lhe pela cintura
o rapaz caminha à margem da alegria
da tristeza
como o gato sobe à árvore mais recuada
desenha-se no ponto mais recuado da íris
o movimento do corpo translada o espaço do silêncio
sem amargura a pedra concreta de cada dia percorre
o incêndio que desce aos campos
com a precisão de uma lâmina
o rapaz como o poema
atravessa o sangue rente à margem
atravessa para outro lado
sôfrego senta-se na planura do campo em cinza
sem angústia é a sua forma de deixar
tombar para trás a cabeça afundando os dedos na terra
a raiz mais perto dos dedos
escapa-se pela visão de uma luz magoada
que acerta pelo coração batendo dentro do peito
deixar como o poema escapar as palavras
segurar as primeiras imagens
ter chegado por entre as nuvens a decidir o páramo
Tatiana Faia
atravessa a luz e a cinza
percorrendo o caminho que
até casa desce numa claridade menor
de entardecer
a sombra dá-lhe pela cintura
o rapaz caminha à margem da alegria
da tristeza
como o gato sobe à árvore mais recuada
desenha-se no ponto mais recuado da íris
o movimento do corpo translada o espaço do silêncio
sem amargura a pedra concreta de cada dia percorre
o incêndio que desce aos campos
com a precisão de uma lâmina
o rapaz como o poema
atravessa o sangue rente à margem
atravessa para outro lado
sôfrego senta-se na planura do campo em cinza
sem angústia é a sua forma de deixar
tombar para trás a cabeça afundando os dedos na terra
a raiz mais perto dos dedos
escapa-se pela visão de uma luz magoada
que acerta pelo coração batendo dentro do peito
deixar como o poema escapar as palavras
segurar as primeiras imagens
ter chegado por entre as nuvens a decidir o páramo
Tatiana Faia
Párodo das Coéforas
Orestes e Pílades afastam-se. O coro de mulheres aproxima-se do túmulo de Agamémnon.
‹Coro:›
(cantando e dançando)
Estr.1
Enviada pela casa eu vim
em procissão trazer libações enquanto a mão rápida feria o corpo:
eis na minha face os arranhões ensanguentados,
..........[sulcos recém talhados pelas minhas unhas 25
(por toda a minha vida se tem alimentado de lamentos o coração),
rasgões destruíram o linho,
dilaceraram ruidosamente os belos tecidos com as dores,
e as dobras das minhas vestes sobre o peito — golpeadas 30
por desgraças sem risos!
Ant.1
Claro, fazendo eriçar os cabelos da casa,
um sonho profético, soprando rancor em vez de sono,
um fundo grito de medo arrancou
..........[do interior da noite nos recessos do palácio, 35
caindo pesado no aposento das mulheres,
e os intérpretes de sonhos
anunciaram, com uma certeza vinda dos deuses,
que os que jazem sob a terra estavam gravemente ofendidos 40
e encolerizados contra os seus assassinos.
Estr.2
Tal é o favor desfavorável para afastar os males —
iô Terra Mãe! — que ela procura ao enviar-me, 45
..........essa mulher ímpia! Mas eu temo deixar cair essas palavras.
Pois que expiação pode haver uma vez derramado o sangue no chão?
Iô, este lar é todo ele desgraça,
iô, a ruína desta casa! 50
Impenetráveis ao sol, odiosas aos homens,
as trevas cobriram a casa
com a morte do senhor.
Ant.2
Outrora inelutável, inconquistável, invencível, o venerável respeito 55
invadia os ouvidos e o coração do povo
..........mas agora anda longe, e há quem tema. A prosperidade
é um deus e mais do que um deus entre os mortais; 60
mas observa-os a Justiça e o prato da balança
de imediato faz pender sobre alguns à luz do dia,
outros na fronteira da escuridão
por longo tempo prosperam {em dores},
a outros alcança-os a noite sem fim. 65
Estr.3
O sangue, quando bebido pela Terra que o nutriu,
coagula-se em vingadora matança, sem se dissolver:
uma inesgotável ruína
..........atormenta o culpado,
..........‹bem como› a enfermidade de infinitos recursos. {Aos que prosperam
alcança-os a noite sem fim.} 70
Ant. 3
Para o que profanou as câmaras nupciais não
há cura, e ainda que todas correntes a um único curso
..........afluíssem para lavar as mãos sujas
..........de um homicídio, correriam em vão.
Epod.
Quanto a mim — pois os deuses impuseram 75
a necessidade sitiadora de cidades, e da casa paterna
trouxeram-me para um destino de escravidão —
justo ou injusto que seja, devo aceitar
o domínio sobre a minha vida em violência ao meu coração
e reprimir este ódio amargo; 80
mas eu choro sob as minhas vestes
pela sorte sem sentido dos meus senhores,
arrepiada com o pranto clandestino.
——————————————
Cá fica um primeiro esboço da minha tradução do párodo (canto que acompanha a entrada do Coro na orquestra, um vasto recinto circular diante do palco) das Coéforas, a segunda tragédia da Oresteia de Ésquilo. A edição usada é a de M.L. West, Teubner, Estugarda, 1991.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
pensa bem nos nichos que só as unhas alcançam
pensa na porcaria que as unhas escondem
pensa na moça que hoje faz anos
e tu não esqueceste mas nem uma palavra
pensa em tudo o que apodrece
dentro de ti
em cada um dos teus mortos que apodrece
dentro de ti
em cada furto à verdade
em cada masturbação matreira
em cada impureza inconfessada
dentro de ti
que nem as unhas alcançam.
eu sei que pensas muito em tudo isso
mas nada disso importa.
já te falei de corpos mutilados na rosa dos séculos
(corpos queimados corpos decepados corpos desmembrados
pedaços de carne desfiada drapejando ao vento
não como o desejo muitos deles com a alma ainda lá dentro)
da imortalidade da alma da redenção condicional da alma
da real importância do logos do mal que radica na alma
ad aeternum
de como a alma se alegra na contemplação das pequenas crias
de todos os animais sobretudo dos ferozes?
pensa pensa bem em tudo isso
sem esquecer que é tudo uma mesma coisa.
mas nada disso importa.
pensa na porcaria que as unhas escondem
pensa na moça que hoje faz anos
e tu não esqueceste mas nem uma palavra
pensa em tudo o que apodrece
dentro de ti
em cada um dos teus mortos que apodrece
dentro de ti
em cada furto à verdade
em cada masturbação matreira
em cada impureza inconfessada
dentro de ti
que nem as unhas alcançam.
eu sei que pensas muito em tudo isso
mas nada disso importa.
já te falei de corpos mutilados na rosa dos séculos
(corpos queimados corpos decepados corpos desmembrados
pedaços de carne desfiada drapejando ao vento
não como o desejo muitos deles com a alma ainda lá dentro)
da imortalidade da alma da redenção condicional da alma
da real importância do logos do mal que radica na alma
ad aeternum
de como a alma se alegra na contemplação das pequenas crias
de todos os animais sobretudo dos ferozes?
pensa pensa bem em tudo isso
sem esquecer que é tudo uma mesma coisa.
mas nada disso importa.
Subscrever:
Mensagens (Atom)