segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Caim - Lenda

As declarações de Saramago, que parecem ter estancado definitivamente qualquer possibilidade de se vir a falar do seu novo livro, o objecto em concreto e a história que nele se conta, levam-me a pensar num texto bastante afastado desta polémica.

«Lenda»

Abel e Caim encontraram-se depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e reconheceram-se de longe, porque eram ambos muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, fizeram uma fogueira e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando declina o dia. No céu aparecia uma ou outra estrela, que ainda não recebera nome. À luz das chamas, Caim reparou na marca da pedra na testa de Abel e deixou cair o pão que ia levar à boca e pediu que lhe fosse perdoado o seu crime.
Abel respondeu:
- Tu mataste-me ou fui eu que te matei?Já não me lembro; aqui estamos juntos como dantes.
- Agora sei que na verdade me perdoaste – disse Caim -, porque esquecer é perdoar. Eu tratarei também de esquecer.
Abel disse devagar:
- É verdade.Enquanto dura o remorso, dura a culpa.

Jorge Luís Borges, in Elogia da Sombra, Obras Completas: 1952 - 1972, Fernando Pinto do Amaral (trad.), Editorial Teorema, 1998.

P.S. A minha opinião alinha nos pontos essenciais com esta.

3 comentários:

  1. Devia começar-se por ler a Bíblia que não se lê, neste caso o Pentateuco (Génesis), sem ligar aos apartes interpretativos e condicionadores da Igreja Católica, ou, se possível, sem eles. Tamanho chinfrim em toda a blogosfera e da ICAR com os seus anátemas indiciam um progrom idiota, em que Jorge Luís Borges entraria de bom grado, e não poucos pegariam fogo livro numa nova Kristallnacht. Claro que o vou ler com curiosidade e sem medo de que o autor venha de uma página dar-me a tal injecção na orelha, que afinal é o móbil de tamanha barulho e raiva primária.

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  2. Se ajuda, eu por acaso já li o pentateuco, e alguns livros do novo testamento, mas com olhar científico, que era o que se pedia para o trabalho que estava a fazer nessa altura. eu não tenho medo da injecção na orelha, acho que saramago é um excelente contador de histórias e possivelmente vou ler o livro com franco agrado, tenho pena é desta publicidade estúpida e propositada. Não sei se Borges entraria de bom grado em semelhante coisa, mesmo admitindo que tivesse vontade, há coisas em que a inteligência supera a vontade, felizmente.

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