terça-feira, 4 de maio de 2010

Constantino delira*

Joana é a chuva
movendo-se do mar para a noite.
A neblina enraizada sob o solo.
Joana é um rio.
É a nuvem que precede a voz.
É o fumo da erva em chamas.
É o êxtase de um momento entre dois perigos.
Joana é um rio.
Joana é um rio aberto para sul.
Joana é a criança que correndo fugiu da praça deserta.
Joana é o rosto abaixo do céu.
Joana é o céu abaixo do céu.
Ela é um rio.
Luz lunar e sombra pintam o seu riso.
Quando a casa colapsa Joana abandona o seu corpo e canta
à distância de um outro lugar na noite.
Joana é um rio.
Joana é o dia que antecede ontem ontem e hoje. (Hoje
repete-se até ao infinito.)
Ela é leve como a corola de uma flor adormecida.
Ela tem o peso de um livro fechado.
Ela é a constante afirmação da noite.
Com Joana a ti mesmo te perdes e de novo te encontras
perdido no sono.
Joana é um rio.
Joana é a margem de um rio.
Joana é o junco na margem do rio.
Ela é um rio.
Joana é uma árvore que olha
um sonho que fala
um som que escuta
uma nuvem que se move.
Um rio de cabelo dourado e frio que apazigua o oceano.
Um rio.
Joana é a visão de um lugar pela última vez.
A estação onde de novo nos encontraremos um dia com um grito sonoro por
entre o pó da nossa viagem.
Joana é uma fronteira que continuamente se desloca.
Ela vem descendo transportada no vento.
Uma pena no tempo. Uma pena
sobre a desolação da primavera.
Joana é um rio.
Um rio.

Nunca nunca poderei dizer exactamente o que é Joana.

Takis Sinopoulos

[*Tradução minha a partir da versão inglesa da edição de John Stathatos: Takis Sinopoulos, Selected Poems, Wire Press - Oxus Press, 1981]

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