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sexta-feira, 7 de maio de 2010

A viagem

Agora algo me rói as entranhas, persiste na escuridão dos meus anos e eu não hei-de falar das vozes que intimamente escuto, nem do rio que atravessámos ontem, as suas águas inundando a memória em redor - tu,

tu adormeceste e passaram-se séculos enquanto te abracei contra mim e eu era pobre, frio e as minhas mãos enfraqueceram, feneceram -

ou de súbito um estremecer no pântano da alma,

que procurei eu tão desesperadamente, que me restou de ti?

Takis Sinopoulos

[*Tradução minha a partir da versão inglesa da edição de John Stathatos: Takis Sinopoulos, Selected Poems, Wire Press - Oxus Press, 1981]

Sonho

Nesse instante dei por mim sob a terra, caminhando entre as raízes das árvores, estradas intermináveis pavimentadas com a brancura da lua, os meus sapatos gastos pelas pedras, as minhas mãos gastas pelas pedras e nenhuma criança real podia ser escutada nas terra de conturbada morte.

Takis Sinopoulos

[*Tradução minha a partir da versão inglesa da edição de John Stathatos: Takis Sinopoulos, Selected Poems, Wire Press - Oxus Press, 1981]

4

Meia-luz um beco uma curva tu vagueias pelo escuro. E caminhámos de mãos dadas através do mercado condenámos estes muitos anos que passaram e eles em chamas. Muitas janelas as portas no trinco a erva crescida. O peito aquecido como um anel e nos cruzamentos eu gritei «pato». Por esta porta entreaberta agora e a boca como quem espera a escuridão no interior um empregado de loja de penhores. Pode a sede ser saciada? Vestidos que se desvanecem como em sonhos um movimento em esperança de passar para lá do tempo e da carne - uma luz despida consome-te está do outro lado da rua um estúpido maneirismo.

Takis Sinopoulos


[*Tradução minha a partir da versão inglesa da edição de John Stathatos: Takis Sinopoulos, Selected Poems, Wire Press - Oxus Press, 1981]

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Estação

Outono. Ou, como costumamos dizer, os dias
ficam mais curtos, esgotam-se as luzes. Ou mesmo
a chuva batendo incessantemente contra as janelas.
Uma sucessão de diferentes estados.
Mais precisamente: o mês de Outubro com uma breve convergência
na derrota de tantos dias que passam. Ou mesmo
esse incerto barulho de passos. Descendo
em direcção à baixeza do solo como se alguém se aproximasse.
Mas - e isto é certo - ninguém virá.

Então, afinal de contas, estavas à espera de alguém. Quem?
- é a voz da derrota que sobre isto te interroga.

Takis Sinopoulos

[*Tradução minha a partir da versão inglesa da edição de John Stathatos: Takis Sinopoulos, Selected Poems, Wire Press - Oxus Press, 1981]

Os animais selvagens

Há sempre uma profunda água no teu silêncio onde secretamente acorrem animais selvagens que aí bebem e se lavam.

Esta noite abriu-se uma brecha.

E se por acaso de súbito te virares, um tiro ecoará na distância e iluminará a inteireza do teu rosto.

Foi escutada a voz do caçador.
Os animais selvagens dispersam a noite.

Takis Sinopoulos

[*Tradução minha a partir da versão inglesa da edição de John Stathatos: Takis Sinopoulos, Selected Poems, Wire Press - Oxus Press, 1981]

As palavras

Aquelas palavras continham em si certo orgulho
sombrio,

teimosamente contendo no seu som
um mundo de vagas formas.

Tu disseste: o meu nome é céu.

Eu nada disse.


Takis Sinopoulos

[*Tradução minha a partir da versão inglesa da edição de John Stathatos: Takis Sinopoulos, Selected Poems, Wire Press - Oxus Press, 1981]

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Joana delira*

Constantino é uma porta.
Constantino é um rosto por detrás da porta.
Constantino é uma porta que com estrondo se fecha esmagando-te os dedos.
Constantino é um quarto.
Um grito de aviso num quarto vazio.
É uma casa obscura que tresanda a enigmáticos rituais de sangue.
Constantino é amanhã amanhã amanhã. (Amanhã
repete-se até ao infinito.)
Constantino some-se quando o olhas nos olhos.
Constantino surge quando o sonhas.
Ele luta contra a noite nela se lança cegamente cobrindo-se
de feridas que invariavelmente infectam.
Ele é torturado por rostos imprecisão regras ele tacteia o meu
corpo a luz do meu rosto e um incessante soluçar o
afunda.
Constantino é o sol cujo movimento ordenado governa a sombra
sob a erva.
Constantino é a densa floresta que se ampara na vegetação como um
padrão num tapete.
Constantino é uma luta contra quartos e pássaros.
Constantemente ele murmura acerca de um rio que há-de limpar-lhe o corpo
da lama e da imundície que cobre a terra.
Curado da febre que lhe está no sangue adormece.
As fantasias de Constantino têm muito de impuro.
Constantino é um acontecimento disputado.
É um jardim no seu zénite.
É uma tristeza vã com o pó trazido pelo vento acumulando-se nas
janelas.
Ele usa aquele casaco pesado e crê que constantemente
a sua forma se muda.
Por trás do rosto de Constantino outro Constantino se agita.
Que de noite se consome num frenesim mais terrível do que o seu discurso promete.
Os deuses austeros escutam-no e franzem o sobrolho.
Repito que Constantino é uma casa.
Uma casa plena de conceitos que se lançam sobre ti e te rasgam o corpo
com as suas garras.
Constantino arrepende-se de actos que nunca aconteceram.
Confunde o que fez com o que planeou fazer.
Construiu estruturas imensas e sustentou-as freneticamente
com as próprias mãos.
Até que estas se desmoronaram e foram nossa sepultura.
Constantino é responsável por tudo o que sucedeu no íntimo do nosso coração.
Ele despedaça-se em intermináveis ilusões chamando ao meu rosto
vale escurecido da lua. (O meu rosto é semelhante à luz.)
Constantino atemoriza-se quando uma a uma depõe as camadas
que o protegem.
Não sei como apaziguar Constantino.
Por vezes a loucura apodera-se dele e a sua carne ilumina-se
por dentro como se uma lamparina queimando ali tivesse criado raiz.

Isto é Constantino.


Takis Sinopoulos

[*Tradução minha a partir da versão inglesa da edição de John Stathatos: Takis Sinopoulos, Selected Poems, Wire Press - Oxus Press, 1981]

Celebração

Agora respiras na penumbra, eu não posso distinguir o teu pescoço,
o teu rosto.

Subitamente tudo escurece. Permanece aí a passagem e a porta
de tábuas.

À distância a tua voz defende-se para a noite. E aí não
se sentem os pássaros.

Varres as aranhas da negra celebração.

Takis Sinopoulos

[*Tradução minha a partir da versão inglesa da edição de John Stathatos: Takis Sinopoulos, Selected Poems, Wire Press - Oxus Press, 1981]

terça-feira, 4 de maio de 2010

Constantino delira*

Joana é a chuva
movendo-se do mar para a noite.
A neblina enraizada sob o solo.
Joana é um rio.
É a nuvem que precede a voz.
É o fumo da erva em chamas.
É o êxtase de um momento entre dois perigos.
Joana é um rio.
Joana é um rio aberto para sul.
Joana é a criança que correndo fugiu da praça deserta.
Joana é o rosto abaixo do céu.
Joana é o céu abaixo do céu.
Ela é um rio.
Luz lunar e sombra pintam o seu riso.
Quando a casa colapsa Joana abandona o seu corpo e canta
à distância de um outro lugar na noite.
Joana é um rio.
Joana é o dia que antecede ontem ontem e hoje. (Hoje
repete-se até ao infinito.)
Ela é leve como a corola de uma flor adormecida.
Ela tem o peso de um livro fechado.
Ela é a constante afirmação da noite.
Com Joana a ti mesmo te perdes e de novo te encontras
perdido no sono.
Joana é um rio.
Joana é a margem de um rio.
Joana é o junco na margem do rio.
Ela é um rio.
Joana é uma árvore que olha
um sonho que fala
um som que escuta
uma nuvem que se move.
Um rio de cabelo dourado e frio que apazigua o oceano.
Um rio.
Joana é a visão de um lugar pela última vez.
A estação onde de novo nos encontraremos um dia com um grito sonoro por
entre o pó da nossa viagem.
Joana é uma fronteira que continuamente se desloca.
Ela vem descendo transportada no vento.
Uma pena no tempo. Uma pena
sobre a desolação da primavera.
Joana é um rio.
Um rio.

Nunca nunca poderei dizer exactamente o que é Joana.

Takis Sinopoulos

[*Tradução minha a partir da versão inglesa da edição de John Stathatos: Takis Sinopoulos, Selected Poems, Wire Press - Oxus Press, 1981]

sexta-feira, 26 de março de 2010

Takis Sinopoulos (1917 - 1981)

Serviu como médico no exército grego e testemunhou a brutalidade da guerra civil. Os seus primeiros poemas foram publicados em 1951. À semelhança de Kazantzakis, Tennyson e Seferis, também Sinopoulos revisita o tema da Odisseia, mas à luz do horror da guerra civil (Nekrodeipno [O Festim da Morte] 1972). Durante a Ditadura dos Coronéis, Sinopoulos trabalhou no ciclo «Crónica», onde expressa a angústia e o derrotismo dos anos de 1973 – 74.

Um excerto de «Nekrodeipno» («O Festim da Morte»)

Tears scorched me as I wrote alone, what was I, speaking
like this with

year upon year quickening the lost faces, and from the
windows came

glory, dull golden light, benches and tables all about and

windows mirroring the underworld. And they came
dismounting one after the other,
Porporas came and Kontaxis, and Markos, and Gerasimos,
dark hoarfrost on the horses and the day slanting down
through quiescent air, Bilias came and Gournas,
gypsies imprinted on the dusk, and Fakalos, carrying
mandolins, flutes, guitars,
the soul leapt at the sound, the house smelt everywhere
of rain and wood, and when,
only when they'd lit a great blaze to warm themselves,
then only did I call to them.

There came Sarris, and Tsakonas,
Farmakis, Toregas, and

Face pox-scarred, bitter, clawed the ground with his nails
by the castle at Akova, he bled, babbled of torture and
debauchery, so dark was he that I became afraid, ran
stumbling off down the hill.

We took the low road, ashes everywhere, iron, burnt earth,
a black X painted on the doors and you knew death had
passed this way, days and nights with the machine guns
reaping

and you would hear oh! and nothing more. And many

came. Before them came Tzannis, Eleminoglou, Paparizos,
followed by Lazarithis, and Flaskis, and Konstantopoulos -
no one knows in which church they were laid to rest, in
what ground buried.

Then I helped him climb out, he'd fallen backwards in the
ditch, and as I held him he died in my arms, and the next
month his wife smelling of grass, at noon deep in the
garden telling her how he died, the full dark body
whimpered on my chest, at night the forests would glow
and the roots would glow, for years and years the voice
persisted and.

Moon, moonlight, close days, winter building itself a tower
of stone, sunless and hard, I heard the first knock and the
next, at dawn they smashed open the doors and dragged
us out breathless, "wait here", and so much light was dawning.

There came old men and children.

How could they survive in such ragged clothes,
how could the children grow up in such horror?
The old ones creaking, taller than their bodies.
And the children,
clutching the axe, the knife, the hatchet
contempt and menace in their eyes, nor did they speak.

Ditches, wastelands, mothers in black wailing, whom did
you kill, whom did you kill, how many have we killed?

So much blood and Loukas' hands, and others severed at
the wrist, we'd find them in the gully after months on the
move,

here today, tonight elsewhere

murderers, narks, thieves and fornicators, soldiers,
policemen, householders and shopkeepers

and many others riding on time's back and amongst them

ruin's daughters stepped out, hunger and fever, put up
against the wall, an ill wind blew. And there came

Fanni and Litsa sweet-apple trees, Dona came and Nana,
slim as the wheat, Eleni's maidenhair still green,

laurels, myrtles, wild vines
small lost rivers.

And one morning,

that morning when I woke the tree had turned all green,
I loved it so much that it rose to the sky.

And there came birds, birds of sunlight and joy, filling the
place with colours and feathers, perwits and felderels and
other such fantastic species, skimmers and calicocks and
morrowdims, and

gifts of the Lord, merry birds, constant slashes in the blue
sky. And among them came

Yannis Makris, Petros Kallinikos, Yannis the lame.

We sat on the embankment, Rouskas took out his pocket-knife
and cut down the young grass.

And mist over the plain. And you could hear spring
coming, a door whose wood smelt of the sky.

Then came the days of forty-four
and the days of forty-eight.
And from the Morea up to Larissa
deeper yet into Kastoria,
a black pestilence on the map,
Greece's breath rasping -
we held a count that Easter in deserted Kozani,
how many stayed on high, how many travelled on
stone, branch and hill,
down the dark river.

Prosoras came holding his broken rifle,
Alafouzos, and Bakrisioris, and Zervos
approached the gathering. Look, I shouted, and we
looked:
a flood of light, the fruitful sun a monument
to the obscure dead. The years have passed, I told them,
our hair's turned grey.
Tzepetis came, and Zafoglou and Markoutsas
they settled themselves on the bench
while Konstantinos nursed his foot at the far end.

The voices gradually grew calm.

Gradually, as they had come, they vanished,
slipped down the valley, scattering in the wind.

For the last time I watched them, called to them.

The fire sank to the ground and from the windows came -

How just a single star can make night navigable.

How in the empty church is the unknown dead anointed
his body laid to rest among the flowers.

Takis Sinopoulos (1972), traduzido do grego para inglês por John Stathatos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

La Prison

...J'étais totalement seul. Derrière le mur, pas et ren-
contres et cris déchirants. Puis le silence, étrange ins-
tant dont j'avais mal.

Je pensais à un poème qui

détruirait d'un coup la prison, et le temps tout entier.

Takis Sinopoulos in Pierres. Anthologie de la poèsie grecque contemporaine: 1945:2000, Michel Volkovitch (trad.), Gallimard, 2000