Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura Latina. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura Latina. Mostrar todas as mensagens

sábado, 12 de março de 2011

Canção do Engate


Um excerto da Arte de Amar, de Ovídio (43 a.C.-c.17 d.C).


E não percas as famosas corridas de cavalos;
     muitos são os prazeres que proporciona o circo repleto de povo.
Não tens precisão dos dedos, para poderes segredar o que te vai na alma,
     nem é por acenos que deves acolher aquela que assinalaste;
junto a essa mulher, sem ninguém a impedi-lo, aí te deves sentar;
     encosta o teu corpo, tanto quanto te for possível, ao corpo dela;
ainda bem que as marcações te obrigam, mesmo que não queiras, a encostar-te,
     e que ela, graças às condições do lugar, tem de consentir ser tocada por ti.
Hás-de, então, buscar um começo de conversa amigável;
     sejam lugares comuns a desencadear as primeiras palavras:
"A quem pertencem os cavalos que ali vêm?", faz por perguntá-lo, interessado,
     e, de pronto, o que ela apoiar, seja quem for, apoia-o tu também.


(Ovídio, Arte de Amar, I.135-146. Trad. Carlos Ascenso André, Livros Cotovia)

terça-feira, 8 de março de 2011

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Marcial XI.93 - uma releitura de Byron, 1750 anos depois

Pierios uatis Theodori flamma penates   
     abstulit. Hoc Musis et tibi, Phoebe, placet?
 O scelus, o magnum facinus crimenque deorum,   
     non arsit pariter quod domus et dominus!

(Epigramas, XI.93)

The Laureate's house hath been on fire: the Nine
All smiling saw that pleasant bonfire shine;
But, cruel fate! Oh damnable disaster!
The house – the house is burnt, and not the master!

(The Complete Works of Lord Byron, Paris, 1837, p. 888)


As chamas roubaram ao poeta Teodoro o lar
     das Piérias. Parece-vos bem isto, Musas, e a ti, Febo?
Que delito, que maldade enorme e crime dos deuses,
     que à uma não ardessem morada e morador!

Cristina Pimentel, Paulo Sérgio Ferreira, Delfim Leão, José Luís Brandão, Marcial. Epigramas IV, Ed. 70, Lisboa, 2004

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Pedicabo uos et irrumabo


O cu e a boca vos foderei eu,
Aurélio minha bicha, Fúrio meu paneleiro,
que pelos meus versinhos me julgam,
por tão delicadinhos serem, pouco virtuoso.
É que casto deve ser o bom poeta,
não têm de o ser os seus versinhos,
que além do mais têm picante e graça,
sendo tão delicadinhos e pouco virtuosos,
e se podem provocar comichões,
não digo aos miúdos, mas a estes peludos
que não conseguem mexer as duras piças.
Vocês, porque "muitos milhares de beijos"
me leram, acham que eu sou pouco macho?
O cu e a boca vos foderei eu!

Catulo, XVI
(tradução minha)

sábado, 18 de setembro de 2010

Catulo 84

"Khómodo", se acaso "cómodo" queria
dizer, e "insídias" Árrio "hinsídias" dizia,
e gabava-se então de maravilhosamente ter falado,
quando, o mais que pudera, "hinsídias" dissera.
Parece-me que já assim a sua mãe, assim o seu tio livre,
assim o avô materno e a avó tinham falado.
Enviado ele para a Síria, a todos haviam os ouvidos descansado:
ouviam essas mesmas palavras branda e levemente ditas,
nem depois tais palavras receavam,
quando de repente surge a notícia terrível:
as ondas Iónicas, depois de lá ter estado Árrio,
já não Iónicas, mas Hiónicas eram.

Tradução de André Simões

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Marcial na Restauração

Já aqui tenho falado do monumental Philippus Prudens, de Juan Caramuel Lobkowitz, que, em 1639, se dedicou em mais de 400 páginas de excelente latim a provar a legitimidade dos Filipes ao trono português. Parecia que adivinhava o que aconteceria um ano depois.

Logo em 1641 foi publicada a resposta portuguesa, no Manifesto do Reyno de Portugal, que se dedica, inversamente, a provar a ilegitimidade dos Filipes, e a legitimidade dos Braganças, em 1580, na pessoa de D. Catarina, e em 1640, na de D. João IV.

Um ano volvido, em 1642, Caramuel volta à carga, com uma Respuesta al Manifiesto del Reyno de Portugal, na qual retoma de forma sintética as teses defendidas no Philippus Prudens. Na edição de 1665, o prefácio é enriquecido com uma desconcertante citação: Marcial III,8.


Y pues hauemos visto, que no se aprouecha de dos ojos el Duque de Bergança, con facilidad probaremos que está ciego el Pueblo Portuguez. Tómo por fundamento para persuadir esta verdad dos lineas de otro ingenio Español.

Tháida Quinctus amat. Quam Tháida: Thaida luscã.
Vnum oculum Tháis non habet, ille duos.

Habló en lengua estrangera, que en su materna huuiera dicho.

Quinto ama a Tháis. Y qual vos
Decis? La del ojo tuerto:
Que a Tháis falta un ojo es cierto,
Pero a Quinto ambos a dos.

Mira a su Vtilidad, no a su Conciencia el Duque: y asi, como decíamos, carece del ojo principal su Politica: pero la del pueblo Portugues, ni mira la honra de Dios, ni la utilidad propria, y assi es ciega, y carece de entrambos.



É preciso lembrar que, em 1665, continuava a guerra entre Portugal e Espanha, e que só 3 anos depois, em Fevereiro de 1668, seria assinada a paz, e consequentemente reconhecida a independência restaurada em 1 de Dezembro de 1640.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Catulo LXVII: à conversa com uma porta

Catulo:
ó tu que és estimada pelo doce marido, estimada pelos pais,
salve, e que prosperes nas boas graças de Júpiter,
ó porta, de ti dizem que prestaste bons serviços a Balbo
outrora, quando o velhote aqui vivia,
mas, conta-se, que, pelo contrário, tens servido mal o filho, 5
desde que o velho esticou o pernil e te fizeram casar1.
diz-nos por que se conta que mudaste
e abandonaste a antiga fidelidade ao teu senhor.

Porta:
não é (assim agrade a Cecílio, a quem agora pertenço)
culpa minha, embora se diga que é minha, 10
nem ninguém pode falar de nenhuma falta da minha parte,
mas esta gente é assim, é a porta que faz tudo,
sempre que se acha qualquer coisa que não está bem
todos me dizem «porta, a culpa é tua!»

Catulo:
não basta dizer isso numa única palavra, 15
é preciso fazer com que se sinta e veja.

Porta:
e como? ninguém pergunta ou faz por saber!

Catulo:
nós queremos saber: não hesites em contar-nos.

Porta:
então, para começar, que ela tenha sido trazida virgem até nós
é falso. o seu anterior marido não lhe tinha tocado, 20
a sua adagazinha pendia mais lânguida do que uma tenra beterraba
e nunca se levantou até meio da túnica;
mas o pai violou o leito do filho,
assim se conta, e desonrou a pobre casa,
talvez porque a sua mente ímpia ardia com um amor cego, 25
ou porque o filho era de semente estéril e impotente,
e num lado ou noutro se tivesse de arranjar com mais nervo
aquilo que serve para desatar o cinto virginal.

Catulo:
é um pai extraordinariamente dedicado o que descreves,
que até molha o colo do filho!2 30

Porta:
e, no entanto, não só disto diz ter conhecimento
Bríxia3, situada sob o miradouro de Cicno,
que o loiro Mela4 atravessa com sua branda corrente,
Bríxia, mãe amada da minha Verona,
mas fala também de Postúmio e do amor de Cornélio, 35
com os quais ela cometeu vergonhoso adultério.
aqui alguém dirá: «como ficaste tu a saber destas coisas, porta,
a quem não é permitido nunca abandonar a soleira do teu senhor,
nem escutar o povo, mas, presa a este lintel,
não fazes mais nada senão abrir e fechar a casa?» 40
muitas vezes a ouvi contar, em voz baixa,
sozinha com as criadas, estes seus crimes,
dizendo os nomes que dissemos, porque achava
que eu não tinha língua nem ouvidos.
para além destes acrescentou mais um que eu prefiro 45
não nomear, para que não franza as sobrancelhas vermelhas.
é um tipo alto, que teve outrora problemas
por causa da falsa gravidez de um ventre fictício5.

Notas:
1. I.e., desde que a casa se tornou dos recém-casados, do filho de Balbo e da sua mulher.
2. Eufemismo para «que até se vem no colo que pertence ao filho!»
3. A actual cidade de Bréscia.
4. Rio que corre junto a Bréscia.
5. Aparentemente o indivíduo visado teria, para receber uma herança que estipulava que o beneficiário deveria ter filhos naturais, obrigado a mulher a simular gravidez e, ao mesmo tempo, adoptado uma criança, que faria depois passar por sua. O engano foi descoberto e o sujeito teve de responder em tribunal.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Catulo LI

LI
ele parece-me semelhante a um deus,
ele, se tal é lícito, parece-me superar os deuses,
esse que se senta perante ti e que continuamente
contempla e escuta

teu doce riso, que ao pobre de mim 5
arrebata todos os sentidos: pois no momento,
Lésbia, em que te olho, nada resta


mas a língua fica dormente, cortante pelos membros
uma chama desce, com um som interno 10
zunem os ouvidos, toldam-se as gémeas
vistas de noite.

o ócio, Catulo, é-te prejudicial:
por causa do ócio exultas e em demasia te excitas.
o ócio foi que primeiro reis e prósperas 15
cidades perdeu.

Notas:
O poema é uma «adaptação» latina do fr. 31 Lobel-Page de Safo.
Alguns críticos entendem que a estrofe final não pertence a este poema.
A edição seguida foi a de Thomson: D.F.S. Thomson, Catullus, University of Toronto Press, Toronto, 1997.

domingo, 1 de agosto de 2010

Catulo XXVIII

XXVIII
companheiros de viagem de Pisão, comitiva sem um tostão,
que trazeis uma bagagenzinha bem leve de se carregar,
ó excelente Verânio e tu, meu Fabulo,
como andam vocês? acaso aquele
panhonha vos fez passar muito frio e fome? 5
nas vossas tabuinhas vê-se no lugar do ganhozito
algum encargo, como me sucedeu, que ao seguir o meu
pretor registei mais despesa do que lucro?
ó Mémio, bem me fodeste tu a teu bel-prazer,
com o pau todo como e durante o tempo que quiseste! 10
mas, tanto quanto vejo, tiveste igual
sorte: pois com um caralho não menor
levas agora. procura o auxílio de amigos de bem!
mas que a vós muitos males os deuses e deusas
dêem, vergonha de Rómulo e Remo! 15

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Lucrécio, De Rerum Natura, 2.1-61 ("Suave, mari magno...")

Agradável é, quando no mar imenso os ventos revolvem as águas,
de terra assistir ao imenso aperto de outrem;
não que a desgraça de alguém seja deleitoso passatempo,
mas conhecer os infortúnios de que tu próprio estás livre, isso é agradável.
Agradável é até contemplar as imensas competições da guerra, 5
dispostas ao longo do campo de batalha, sem que seja tua uma parte do perigo;
mas nada há de mais agradável do que habitar as elevadas
planuras, serenas e erguidas pela ciência dos sábios,
de onde podes olhar para baixo e ver por todo o lado os homens
errar em busca de um caminho para a sua existência transviada, 10
a competir em talento, contendendo por honrarias,
sobrecarregando-se noite e dia com a tarefa de todos superar
para alcançar as maiores riquezas e sobre as coisas dominar.
Ó míseras mentes dos homens, ó cegos corações!
Em que trevas da vida, em quantos perigos 15
se consome a existência, invariavelmente breve! Não vês
que para si a natureza nada pede, a não ser que,
separada do corpo, a dor ande longe e a mente frua
deleitosas sensações, livre de medos e cuidados?
Logo vemos que para a natureza corpórea pouco 20
é necessário no geral: tão só o que liberta da dor
e que possa também servir para nos cobrirmos de prazeres vários.
Mais gratificante é por vezes (pois a natureza não procura tais luxos ) -
se não há pela casa douradas estátuas de jovens
detendo na mão direita igníferas tochas 25
para servir a luz a sumptuosos banquetes nocturnos,
nem a casa refulge e cintila com ouro e prata,
nem as cítaras ressoam em salões apainelados e adornados com ouro -
que, ainda assim, em conjunto os homens se refastelem na tenra erva,
junto da água de um ribeiro sob os ramos de uma alta árvore, 30
e, sem necessidade de grandes luxos, docemente cuidem de seus corpos,
sobretudo quando o tempo sorri e a estação
do ano esparge pela relva viçosas flores.
Nem mais cedo partirão do corpo as febres ardentes
se para pintadas tapeçarias ou um robe rubro de púrpura 35
te lançares, do que se te deitares em lençóis plebeus.
Assim, uma vez que o nosso corpo em nada lucra
com riquezas, nem honrarias ou glória de estado,
devemos concluir que a nossa alma igualmente em nada lucrará;
a não ser talvez quando as tuas legiões espalhadas pelo Campo de Marte 40
vês borbulhar, exercitando-se em simulações de guerra,
apoiadas pelas imponentes reservas e pela cavalaria,
todas igualmente guarnecidas de armas e igualmente moralizadas,
e então com isto as superstições assustadoras
fogem assustadas do teu espírito, e os temores da morte
deixam o teu peito vago e livre de preocupações. 45
Mas se tudo isto julgamos tolo e ridículo,
e que na verdade o temor dos homens e os cuidados que os acossam
não temem o clangor das armas nem as lanças ferozes,
mas até entre reis e os poderosos do mundo audaciosamente 50
se instalam, nem reverenciar o fulgor do ouro,
nem o claro esplendor das vestes purpúreas,
por que duvidas então que somente a razão o pode,
sobretudo quando a vida de todos é incessante labor nas trevas?
Pois tal como as crianças tremem e tudo nas cegas 55
trevas teme, assim nós em plena luz receamos
por vezes o que tem tantas razões para ser temido como
as que no escuro fazem tremer as crianças ao imaginá-las próximas.
É portanto necessário que este terror e trevas da alma
- não por raios de sol nem luzente raiar do dia - 60
sejam dispersos, mas pelo exame da natureza e de suas leis.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Catulo XXXVI

Anais de Volúsio, papelada imunda,
um voto cumpri pela minha moça:
com efeito à sagrada Vénus e a Cupido
prometeu que, se eu lhe fosse restituído
e me deixasse de contra ela brandir jambos ferozes, (5)
ela escolheria do pior poeta
os escritos e ao deus de pé lento dedicá-los-ia
queimando-os em madeira de mau-agoiro,
e isto a terrível moça acha
bem por brincadeira dedicar aos deuses. (10)
Agora, ó gerada no cerúleo mar,
que o sagrado Idálio e os Úrios batidos pela tempestade
e Ancona e Cnido em canas abundante
habitas e também o Darráquio, pousada do Adriático,
dá por realizada e reconhecida a promessa, (15)
se não a julgas desagradável e deselegante.
E quanto a vós, toca a ir para o fogo,
cheios de rudeza e grosseria,
Anais de Volúsio, papelada imunda.

sábado, 1 de agosto de 2009

Portugal Restaurado . 05


Invictissimo Regi Lusitaniae Joanni IV. Academia Conimbricensis libellum dicat in felicissima sua aclamatione..., Coimbra, 1641

Publicado em Coimbra, em 1641, este volume consiste numa miscelânea de textos comemorativos da Restauração, em português, latim, espanhol e italiano. Encontram-se aqui sermões, tratados jurídicos, sonetos e outras formas poéticas, quase sempre sem indicação de autor.

Desta vez transcrevo e traduzo um decástico em que se pode ler isoladamente cada dístico, ou então começar a ler do fim para o princípio. Como se pode imaginar, esta tradução ensonada (aceitam-se críticas e sugestões) não dá conta da arte do original latino.

IN LAVDEM SERENISSIMI REGIS IOANNIS
IIII. Decastichon, Quod retrogradè legi potest, tum
respectu cuiusuis distichi tum respectu totius epi-
grammatis, sumendo vltimam dictionem,
& sursum caeteras construendo.


Perpetuum tibi iam sceptrum dent sydere firmam
_____Numina faelici dent tibi laetitiam
Imperium regis hoc Ioannes Quartus ouilis
_____ Pastor Lusani tu (scio) legitimus
Pacificè tibi ceu tradit nunc patria Regnum,
_____ Sydera sic annos dent tibi Nestorios,
Auri comum caput, vt praecingas victor ouante
_____ Clarus tum Phaebo, tum Ioue stellifero.
Magnificum tibi dum nomen dat Lysia victrix
_____ Dextera Castellae sit tua terribilis.
Terribilis tua sit Castellae dextera, victrix
_____ Lysia dat nomen dum tibi magnificum
Stellifero Ioue tum Phaebo tum clarus ouante
_____ Victor praecingas, vt caput auri comum.
Nestorios tibi dent annos sic sydera Regnum
_____ Patria nunc tradit ceu tibi pacificè.
Legitimus (scio) tu Lusani pastor ouilis
_____ Quartus Ioannes hoc regis imperium
Laetitiam tibi dent faelici numina firmam
_____ Sydere, dent sceptrum iam tibi perpetuum.

-------------------------------------------

EM LOUVOR DO SERENÍSSIMO REI D. JOÃO
IV: decástico que se pode ler de baixo para cima quer
considerando qualquer dístico, quer considerando todo
o epigrama, tomando a última palavra,
e construindo as restantes para cima.

Perpétuo ceptro te dêem já nos Céus, duradoura
_____ felicidade te dêem os deuses:
Este Império governas, João Quarto, tu, do luso
_____ redil legítimo (sei-o) pastor.
Como pacificamente te entrega agora a pátria o Reino,
_____ assim te dêm os Céus os anos de Nestor,
Para cingires a cabeça comada de ouro, vencedor ilustre,
_____ ovante ora Febo, ora Jove Estelífero.
Enquanto nome magnífico te dá a Lísia vitoriosa,
_____ seja a tua dextra para Castela terrível.
Terrível seja a tua dextra para Castela, enquanto
_____ a vitoriosa Lísia te dá nome magnífico,
Para que, ovante, ora Jove Estelífero ora Febo, cinjas,
_____ vencedor ilustre, a cabeça comada de ouro.
Assim te dêem os Céus os anos de Nestor, como
_____ o Reino agora te entrega pacificamente a pátria.
Tu, legítimo (sei-o) pastor do luso redil,
_____ João Quarto, governas este império:
Duradoura felicidade te dêem os deuses
_____ nos Céus, perpétuo ceptro te dêem já.

terça-feira, 7 de julho de 2009

A Cultura e o Satyricon de Petrónio

... Para mais, já está a crescer um futuro aluno teu, que será o meu pequeno Cícero. Já sabe dividir por quatro, se vingar, terás à tua beira um criadinho. Pois, sempre que tem um tempito livre, não levanta a cabeça dos livros. É espertote e de bom estofo, se bem que tem a mania da passarada. Já lhe matei três pintassilgos e disse que os tinha comido a doninha. Mas lá descobriu outras lérias e o seu maior prazer é pintar...
Petrónio, Satyricon, Delfim F. Leão (trad.), Livros Cotovia, 2005.

No mais famoso fragmento que até nós chegou do Satyricon, o "Festim de Trimalquião", Equíon, um dos libertos afirma que litterae thesaurum est (mais ou menos literamente: as letras é tesouro). Uma aguda consciência da importância da instrução num sujeito que, ao sintetizá-la, dá três erros de latim.
O caso é paradigmático em relação à oposição entre cultura e actividade económica que se desenha um pouco por toda a obra. Até porque este liberto, Équion, está a dar uma lição ao professor de letras, Agamémnon, o qual surge no início fazendo uma longa prelecção sobre o (mau) estado da educação no império romano. Porém este mesmo professor, sendo pago e precisando de ser pago, não tem qualquer escrúpulo em descer o nível de exigência para dar boas notas aos seus alunos.
Outro exemplo, que pode ajudar a configurar a imagem da relação que se estabelece entre cultura e actividade económica, é o de outra personagem, o poeta Eumolpo. Este Eumolpo já está habituado a ser apedrejado quando declama a sua poesia e a personagem principal, Encólpio, acede dar-lhe uma refeição a troco do seu silêncio.
Estes dois exemplos talvez sirvam para imprimir na mente do leitor a noção de que cultura e actividade económica não coincidem. No discurso do liberto que fala no parágrafo 46 (e onde se integra o excerto acima transcrito), vamos encontrar mais ou menos o mesmo tipo de opinião.
Este liberto é, à sua maneira, um iluminado. Sabe que é importante dar ao filho a educação que ele próprio não teve, mas também tem noção de que é necessário matar os pintassilgos ao rapaz, e desagrada-lhe o facto de este ter descoberto "outras lérias" em substituição do hobbie dos pintassilgos, ou seja, pintar, actividade da qual retira grande prazer - um jovem dado às musas, portanto. Isto apoquenta o pai, homem que, depreende-se, subiu a pulso (esta era uma característica da classe social dos libertos no império romano, que ascenderam largamente na época dos julio-claudianos, eram uma espécie de self-made men) e com muito pragmatismo à mistura. Não é educado, e pode até ser motivo de troça para os estudantes presentes no festim, mas o seu crédito é válido no forum.
Este antigo escravo, que construiu a sua prosperidade a partir da sua actividade económica, possui uma visão pragmática da educação e compra "uns alfarrábios vermelhos" para o filho "dar umas trincas no direito" (aliquid de iure gustare, mais um exemplo de mau latim), pois a educação é útil apenas até ao ponto em que serve para dar pão (habet haec res panem) e perniciosa se criar no rapaz atracção por pintura e pintassilgos. A própria imagem que este liberto tem dos professores denota isto, podem até ser muito educados, mas, em seu entender, os professores, embora sabendo as suas letras, não querem trabalhar ou ensinam mais do que sabem e aparecem em casa dos seus discípulos aos feriados e ficam contentes com quaisquer "restos" que apanhem (esta leitura é bastante literal, deriva de excertos como: ...scit quidem litteras, sed non uult laborare... ou ...est et alter non quidem doctus sed curiosus, qui plus docet quam scit. itaque feriates diebus solet domum uenire, et quicquid dederis, contentus est).
Mesmo a imagem que se dá das personagens principais, Encólpio, Ascilto ou Gíton (por exemplo), tende para a noção de que, embora a cultura até possa conceder uma certa superioridade na compreensão da vida, contudo, a actividade económica é que assegura a sobrevivência e, regra geral, ambas nunca se misturam.
Os libertos, incultos em relação a qualquer coisa que não seja a sua própria cultura, possuem prosperidade e julgam que a cultura é até impeditiva desta, o que o comportamento de Eumolpo ou de Agamémnon, por exemplo, parece confirmar.

Pertubador é o facto de uma visão que nos chega dos tempos do principado de Nero (a mais provável data de composição do Satyricon) permanecer tão actual.