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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Animula vagula blandula



Animula, vagula, blandula
Hospes comesque corporis
Quae nunc abibis in loca
Pallidula, rigida, nudula,
Nec, ut soles, dabis iocos...

Ontem lembrei-me deste poema de Adriano, que também é citado numa cena do Satyricon de Fellini, pela personagem interpretada por Joseph Wheeler. Nesta cena filma-se uma espécie de projecção do suicídio de Petrónio dentro da obra de Fellini. Porém, a citação é um anacronismo: Petrónio no momento do seu suicídio jamais poderia ter citado Adriano porque Adriano só viria a existir quase um século depois.
É uma citação deprimente numa cena deprimente, mas que concede uma dignidade imensa à personagem e à cena, que se destacam por isso mesmo na economia narrativa da adaptação de Fellini. Trata-se de uma das cenas mais bonitas do filme.
Uma tradução do poema pode ser encontrada aqui, embora eu tenha algumas reservas em relação às opções do tradutor para o último verso.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A representação de três poetas na Antiguidade, ou como ir da Épica ao Romance

Na Odisseia encontramos representados dois aedos, Demódoco, o aedo cego que vivia na corte dos Feaces, e que alguns estudiosos defendem ser uma projecção de Homero, e Fémio, filho de Térpio, que cantara à força para os pretendentes e que acaba por ser poupado por Ulisses aquando da chacina dos restantes pretendentes de Penélope.
Quando Alcínoo pela primeira vez se refere ao aedo Demódoco, fá-lo nos seguintes termos:

(…) E chamai ainda o divino aedo,
Demódoco, pois a ele concedeu o deus o apanágio de nos
deleitar, quando aquilo canta que lhe inspira o coração.*

Demódoco, sendo cego, é conduzido pelo arauto e sentado num trono adornado de prata no meio dos convivas, junto dele é colocado um cesto e uma mesa e é-lhe servida uma taça de vinho, a lira é pendurada num prego, perto da sua cabeça.
O aedo ocupava um lugar próprio na corte dos Feaces, tem um arauto que o guia para junto dos convivas e que lhe mostra como pode chegar à sua lira. São-lhe servidas comida e bebida antes de executar a sua arte. Diz-se que os deuses lhe haviam concedido ao mesmo tempo o bem e o mal: privaram-no da vista, mas, em compensação, outorgaram-lhe o dom do canto. É possível inferir que todos na corte dos Feaces entendem que Démodoco possui um dom divino que, de certa forma, o torna um homem sagrado entre os restantes, um ser inspirado pelos deuses. O canto, diz-se, tal como o banquete, sacia o coração .
É nos mesmos moldes que Fémio suplica a Ulisses que o poupe. Diz-lhe:

Peço-te de joelhos, ó Ulisses, que me respeites e te apiedes de mim.
Para ti próprio virá a desventura, se matares o aedo:
eu mesmo, que canto para os deuses e para os homens.
Sou autodidacta e um deus me pôs no espírito cantos
de todos os géneros: sou a pessoa certa para cantar ao teu lado,
como se fosse um deus. Por isso não desejes degolar-me.

Dignas de nota são as palavras do v. 345, acima citado. Fémio prevê para Ulisses a desventura, caso o mate, pois ele canta para os deuses e para os homens e um deus [lhe] pôs no espírito cantos. Mais uma vez, o poeta surge como ser inspirado, é funesto (podemos inferi-lo) matá-lo pois possui um dom divino.
Por outro lado, nas palavras de Fémio (nos vv. 348 – 349) está implícita uma outra qualidade que era tida pelos aedos: o dom de, pela fama que o canto espalha, imortalizar os feitos de um homem, daí ser lícito Fémio comparar-se a um deus, visto que a imortalidade e a concessão da imortalidade eram um atributo e dádiva considerados divinos. O canto tinha o poder de eternizar um feito, daí os aedos serem tão respeitados. Praticar um gesto que merecesse ser imortalizado pelo canto era a ambição de qualquer herói homérico, porque lhes concedia o lugar de imortalidade possível: a memória dos homens.
Esta noção de que existem feitos que merecem ser imortalizados pelo canto e de que todo o herói deve ambicionar praticá-los é muito própria do mundo homérico. A estes heróis homéricos, Petrónio contrapõe, talvez até conscientemente, Encólpio, o seu anti-herói.
Também no Satyricon encontramos um poeta, Eumolpo, mas este surge numa situação bem diferente destes dois aedos. Também o seu comportamento é bastante distante do destes dois seres inspirados pelos deuses. Eumolpo pertence a um mundo em que já não é possível um poeta ser considerado divino. Tal é atestado no momento da sua primeira aparição. No §90, enquanto o poeta recita o poema sobre a tomada de Tróia, a Troiae halosis, alguns transeuntes que passeavam pelo pórtico atiraram pedras a Eumolpo, enquanto este recitava. E ele, que já conhecia o aplauso acolhido pelo seu engenho, cobriu a cabeça e tratou de fugir para fora do templo.
Um cenário bem diferente portanto daqueles em que se movimentavam Demódoco e Fémio, que possuíam um espaço próprio e eram acolhidos e respeitados pelos homens que se movimentavam nos mesmos espaços que eles, para usar as expressões de Lukács, toda e qualquer acção sua era a well-fitting garment for the world. Existia uma relação de adequação entre estas personagens e o mundo em que se movimentavam. O mesmo não se poderá dizer de Eumolpo, que é uma personagem que enquanto poeta não tem um espaço próprio no mundo em que se movimenta, correndo o risco de se tornar uma figura marginal. Repare-se palavras que Encólpio lhe dirige na sequência deste episódio:

– Ouve lá: onde pretendes tu chegar com essa tua mania? Andas comigo há menos de duas horas e já mais vezes falaste à maneira dos poetas que dos humanos! Por isso não admira que as pessoas te persigam à pedrada. Também eu deveria carregar os bolsos de calhaus, para te fazer saltar o sangue da cabeça, sempre que te desse para sair dos eixos.
(…)
– Muito bem; se deres hoje trégua à tua bílis, podemos jantar os dois.

O canto não é o bem que os deuses lhe concederam, é uma mania sua. A linguagem dos poetas não pertence à fala dos humanos e, certamente, tal afirmação da parte de Encólpio não vai no sentido de sublinhar o carácter divino do acto de cantar, uma vez que acrescenta que não o admira que as pessoas o persigam à pedrada e afirma que ele próprio devia fazer o mesmo. Repara-se que, neste ponto do romance, Eumolpo está a cantar um tema homérico, tarefa de que imediatamente abdica mediante a oferta de um jantar.
Ainda para demonstrar que já não estamos num tempo em que a forma de expressão adequada aos actos dos homens seja a épica homérica, da qual o aedo era um símbolo, uma vez que a narrava, é o facto de Eumolpo não atingir notoriedade como poeta mas como contador de histórias, como a atestam a narração do episódio autobiográfico do rapaz de Pérgamo e a história da matrona de Éfeso. Nenhuma das narrativas é acolhida com uma chuva de calhaus e ninguém diz ao poeta que ele esteja a sair dos eixos. Será correcto afirmar que o canto aqui surge evoluindo (ou decaindo, depende da perspectiva) para uma forma narrativa, que podemos considerar como no âmbito da linguagem dos humanos, e portanto tolerável.
Porque as condições do seu mundo não são já as da épica homérica (mundo fechado, de totalidade imanente), o acto de narrar em verso um facto homérico deixa de ser possível a Eumolpo, sob pena de ser apedrejado pelos seus contemporâneos, o que demonstra que este tempo já não é o da sensibilidade da épica. Porém, a narrativa de uma história, acto identificado com a linguagem quotidiana mas também forma própria do romance e da novela, é bem acolhida.

*As citações incluídas neste texto são retiradas das edições da Livros Cotovia da Odisseia e do Satyricon, traduções, respectivamente, de Frederico Lourenço e Delfim F. Leão

terça-feira, 7 de julho de 2009

A Cultura e o Satyricon de Petrónio

... Para mais, já está a crescer um futuro aluno teu, que será o meu pequeno Cícero. Já sabe dividir por quatro, se vingar, terás à tua beira um criadinho. Pois, sempre que tem um tempito livre, não levanta a cabeça dos livros. É espertote e de bom estofo, se bem que tem a mania da passarada. Já lhe matei três pintassilgos e disse que os tinha comido a doninha. Mas lá descobriu outras lérias e o seu maior prazer é pintar...
Petrónio, Satyricon, Delfim F. Leão (trad.), Livros Cotovia, 2005.

No mais famoso fragmento que até nós chegou do Satyricon, o "Festim de Trimalquião", Equíon, um dos libertos afirma que litterae thesaurum est (mais ou menos literamente: as letras é tesouro). Uma aguda consciência da importância da instrução num sujeito que, ao sintetizá-la, dá três erros de latim.
O caso é paradigmático em relação à oposição entre cultura e actividade económica que se desenha um pouco por toda a obra. Até porque este liberto, Équion, está a dar uma lição ao professor de letras, Agamémnon, o qual surge no início fazendo uma longa prelecção sobre o (mau) estado da educação no império romano. Porém este mesmo professor, sendo pago e precisando de ser pago, não tem qualquer escrúpulo em descer o nível de exigência para dar boas notas aos seus alunos.
Outro exemplo, que pode ajudar a configurar a imagem da relação que se estabelece entre cultura e actividade económica, é o de outra personagem, o poeta Eumolpo. Este Eumolpo já está habituado a ser apedrejado quando declama a sua poesia e a personagem principal, Encólpio, acede dar-lhe uma refeição a troco do seu silêncio.
Estes dois exemplos talvez sirvam para imprimir na mente do leitor a noção de que cultura e actividade económica não coincidem. No discurso do liberto que fala no parágrafo 46 (e onde se integra o excerto acima transcrito), vamos encontrar mais ou menos o mesmo tipo de opinião.
Este liberto é, à sua maneira, um iluminado. Sabe que é importante dar ao filho a educação que ele próprio não teve, mas também tem noção de que é necessário matar os pintassilgos ao rapaz, e desagrada-lhe o facto de este ter descoberto "outras lérias" em substituição do hobbie dos pintassilgos, ou seja, pintar, actividade da qual retira grande prazer - um jovem dado às musas, portanto. Isto apoquenta o pai, homem que, depreende-se, subiu a pulso (esta era uma característica da classe social dos libertos no império romano, que ascenderam largamente na época dos julio-claudianos, eram uma espécie de self-made men) e com muito pragmatismo à mistura. Não é educado, e pode até ser motivo de troça para os estudantes presentes no festim, mas o seu crédito é válido no forum.
Este antigo escravo, que construiu a sua prosperidade a partir da sua actividade económica, possui uma visão pragmática da educação e compra "uns alfarrábios vermelhos" para o filho "dar umas trincas no direito" (aliquid de iure gustare, mais um exemplo de mau latim), pois a educação é útil apenas até ao ponto em que serve para dar pão (habet haec res panem) e perniciosa se criar no rapaz atracção por pintura e pintassilgos. A própria imagem que este liberto tem dos professores denota isto, podem até ser muito educados, mas, em seu entender, os professores, embora sabendo as suas letras, não querem trabalhar ou ensinam mais do que sabem e aparecem em casa dos seus discípulos aos feriados e ficam contentes com quaisquer "restos" que apanhem (esta leitura é bastante literal, deriva de excertos como: ...scit quidem litteras, sed non uult laborare... ou ...est et alter non quidem doctus sed curiosus, qui plus docet quam scit. itaque feriates diebus solet domum uenire, et quicquid dederis, contentus est).
Mesmo a imagem que se dá das personagens principais, Encólpio, Ascilto ou Gíton (por exemplo), tende para a noção de que, embora a cultura até possa conceder uma certa superioridade na compreensão da vida, contudo, a actividade económica é que assegura a sobrevivência e, regra geral, ambas nunca se misturam.
Os libertos, incultos em relação a qualquer coisa que não seja a sua própria cultura, possuem prosperidade e julgam que a cultura é até impeditiva desta, o que o comportamento de Eumolpo ou de Agamémnon, por exemplo, parece confirmar.

Pertubador é o facto de uma visão que nos chega dos tempos do principado de Nero (a mais provável data de composição do Satyricon) permanecer tão actual.