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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Not just odd

A successful novelist can, with luck, make a bundle, as can a memoir writer (if he or she is fortunate to have had a mother who murders the author’s father in front of his or her eyes), and a third-rate painter can do quite well if a hotel chain or a bank starts fancying his seascapes and sunflowers, but few poets ever made a living from poetry. In past centuries, they could hope for a dinner invitation from some noblemen holed up in his castle to entertain his drunken guests, or even receive a piece of land from the king after writing a paean to his various conquests and massacres. But in modern times, except in the Soviet Union under Stalin, the possibility that poets might toady up to the high and mighty and live thereafter in clover has been foreclosed. Even Robert Frost, who was immensely popular and widely read during his lifetime, had to get a teaching job to support himself. As for the rest of our great poets, going back to Whitman and Dickinson, their combined income from poetry, if it were known, would make them even more incomprehensible in the eyes of many Americans than they already are.

In a country that now regards money as the highest good, doing something for the love of it is not just odd, but downright perverse. Imagine the horror and anger felt by parents of a son or daughter who was destined for the Harvard Business School and a career in finance but discovered an interest in poetry instead. Imagine their enticing descriptions of the future riches and power awaiting their child while trying to make him or her reconsider the decision. “Who has recognized you as a poet? Who has enrolled you in the ranks of poets?,” the trial judge shouted at the Russian poet Josef Brodsky, before sentencing him to five years of hard labor. “No one,” Brodsky replied. He could have been speaking for all the sons and daughters who had to face their parents’ wrath.

Charles Simic, aqui.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Santo Agostinho e o Lirismo

Se quiséssemos indicar um exemplo de consenso entre críticos sobre uma obra da Antiguidade, facilmente se pode dizer que todos os críticos são consensuais em relação à originalidade de Confissões, de Santo Agostinho.
Afirma-se que nunca se conhecera um tipo de autobiografia tão intimista, que a única obra que vagamente se assemelha à autobiografia de Agostinho são as Cartas a Lucílio de Séneca.
Outros elementos concorrem para suportar esta noção de originalidade inerente à obra, como por exemplo o seu pendor existencialista e o seu carácter lírico. Sendo que este último afecta o estilo e a linguagem, bem como o registo linguístico. Significa isto que, em certos passos, encontramos um estilo elevado quando tal não seria de esperar, como por exemplo, no episódio do roubo das peras (Livro II). Frequentemente se encontra repetições, estribilhos, interrogações, antíteses, etc.
Porém, o aspecto que determina o forte lirismo que encontramos nesta obra é a influência dos Salmos. O estilo oracional deste texto é muito influente no impulso lírico com que Santo Agostinho se vira para Deus. Por outro lado, tal como sucede com o salmista, Agostinho sente-se profundamente consciente do abismo de pecado que separa o Homem de Deus e confia cegamente na salvação que deste virá.
Talvez todo este lirismo ajude sobretudo a expressar o cerne da temática das Confissões: o abismo de pecado que rodeava Agostinho e a gratuidade com que Deus o salva.
Este será, de resto, um dos grandes aspecto que afasta Agostinho de um dos seus predecessores na narrativa latina, Apuleio (autor de O Burro de Ouro). Embora também esta obra termine com uma conversão (neste caso ao culto de Ísis), trata-se sobretudo de uma aventura exterior, com as mudanças de cenário e os golpes de cena que são característicos das aventuras exteriores. A conversão de Lúcio (personagem principal do romance de Apuleio) é uma conversão que se dá em parte pela segurança que advém de uma fé enraízada na segurança de uma série de práticas rituais.
Dir-se-ia que a personagem de Apuleio professa uma fé pela estabilidade que sente advir da prática de uma religião. Ora, Santo Agostinho não pode acreditar «porque sim». De resto, é de ler Cícero que o interesse por qualquer espécie de religião lhe advém, e isso é já uma primeira indicação do seu espírito curioso e inquiridor.
A aventura de Agostinho é uma aventura interior, por isso a conversão de Santo Agostinho não se poderia basear em práticas rituais, sobretudo porque a interioridade é o espaço onde irrompe Deus e onde ele o ilumina, não uma quantidade de gestos que exteriormente ele pudesse prefigurar.
Confissões é o diário da viagem de Santo Agostinho ao interior de si próprio. Narrativa de viagem com os defeitos e virtudes que lhe estão subjacentes. É verdade, é um livro com golpes de retórica e em que a imagem do biografado é uma imagem filtrada para servir os desígnios que levam Agostinho a escrever as Confissões. É certo isto. Porém, é um livro ligado a uma profunda noção de louvor, a uma necessidade de admissão da culpa e a uma vontade imensa de destes dar testemunho.

terça-feira, 7 de julho de 2009

A Cultura e o Satyricon de Petrónio

... Para mais, já está a crescer um futuro aluno teu, que será o meu pequeno Cícero. Já sabe dividir por quatro, se vingar, terás à tua beira um criadinho. Pois, sempre que tem um tempito livre, não levanta a cabeça dos livros. É espertote e de bom estofo, se bem que tem a mania da passarada. Já lhe matei três pintassilgos e disse que os tinha comido a doninha. Mas lá descobriu outras lérias e o seu maior prazer é pintar...
Petrónio, Satyricon, Delfim F. Leão (trad.), Livros Cotovia, 2005.

No mais famoso fragmento que até nós chegou do Satyricon, o "Festim de Trimalquião", Equíon, um dos libertos afirma que litterae thesaurum est (mais ou menos literamente: as letras é tesouro). Uma aguda consciência da importância da instrução num sujeito que, ao sintetizá-la, dá três erros de latim.
O caso é paradigmático em relação à oposição entre cultura e actividade económica que se desenha um pouco por toda a obra. Até porque este liberto, Équion, está a dar uma lição ao professor de letras, Agamémnon, o qual surge no início fazendo uma longa prelecção sobre o (mau) estado da educação no império romano. Porém este mesmo professor, sendo pago e precisando de ser pago, não tem qualquer escrúpulo em descer o nível de exigência para dar boas notas aos seus alunos.
Outro exemplo, que pode ajudar a configurar a imagem da relação que se estabelece entre cultura e actividade económica, é o de outra personagem, o poeta Eumolpo. Este Eumolpo já está habituado a ser apedrejado quando declama a sua poesia e a personagem principal, Encólpio, acede dar-lhe uma refeição a troco do seu silêncio.
Estes dois exemplos talvez sirvam para imprimir na mente do leitor a noção de que cultura e actividade económica não coincidem. No discurso do liberto que fala no parágrafo 46 (e onde se integra o excerto acima transcrito), vamos encontrar mais ou menos o mesmo tipo de opinião.
Este liberto é, à sua maneira, um iluminado. Sabe que é importante dar ao filho a educação que ele próprio não teve, mas também tem noção de que é necessário matar os pintassilgos ao rapaz, e desagrada-lhe o facto de este ter descoberto "outras lérias" em substituição do hobbie dos pintassilgos, ou seja, pintar, actividade da qual retira grande prazer - um jovem dado às musas, portanto. Isto apoquenta o pai, homem que, depreende-se, subiu a pulso (esta era uma característica da classe social dos libertos no império romano, que ascenderam largamente na época dos julio-claudianos, eram uma espécie de self-made men) e com muito pragmatismo à mistura. Não é educado, e pode até ser motivo de troça para os estudantes presentes no festim, mas o seu crédito é válido no forum.
Este antigo escravo, que construiu a sua prosperidade a partir da sua actividade económica, possui uma visão pragmática da educação e compra "uns alfarrábios vermelhos" para o filho "dar umas trincas no direito" (aliquid de iure gustare, mais um exemplo de mau latim), pois a educação é útil apenas até ao ponto em que serve para dar pão (habet haec res panem) e perniciosa se criar no rapaz atracção por pintura e pintassilgos. A própria imagem que este liberto tem dos professores denota isto, podem até ser muito educados, mas, em seu entender, os professores, embora sabendo as suas letras, não querem trabalhar ou ensinam mais do que sabem e aparecem em casa dos seus discípulos aos feriados e ficam contentes com quaisquer "restos" que apanhem (esta leitura é bastante literal, deriva de excertos como: ...scit quidem litteras, sed non uult laborare... ou ...est et alter non quidem doctus sed curiosus, qui plus docet quam scit. itaque feriates diebus solet domum uenire, et quicquid dederis, contentus est).
Mesmo a imagem que se dá das personagens principais, Encólpio, Ascilto ou Gíton (por exemplo), tende para a noção de que, embora a cultura até possa conceder uma certa superioridade na compreensão da vida, contudo, a actividade económica é que assegura a sobrevivência e, regra geral, ambas nunca se misturam.
Os libertos, incultos em relação a qualquer coisa que não seja a sua própria cultura, possuem prosperidade e julgam que a cultura é até impeditiva desta, o que o comportamento de Eumolpo ou de Agamémnon, por exemplo, parece confirmar.

Pertubador é o facto de uma visão que nos chega dos tempos do principado de Nero (a mais provável data de composição do Satyricon) permanecer tão actual.