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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Chega perto, mar.

Por vezes chega, repentina,
uma hora em que o teu desumano coração
nos assusta e do nosso se separa.
Da minha a tua música discorda,
então, e é meu inimigo todo o teu desafio.
Sobre mim me dobro pois, vazio
de forças, a tua voz parece surda.
Detenho-me sobre o pedregal
que em direcção a ti se estende
até à escarpada margem que te domina,
quebrada, amarela, sulcada
de charcos de água da chuva.
A minha vida é este declive seco,
meio e não fim, caminho aberto à foz
dos regatos, lento desmoronamento.
É também esta planta
que nasce da devastação
e na face recebe os golpes do mar e está suspensa
entre as erráticas forças dos ventos.
Este bocado de solo sem verdura
abriu-se para que uma margarida aí nascesse.
Com ela hesito junto ao mar que me fustiga,
falta ainda o silêncio na minha vida.
Olho a terra que cintila,
o ar é tão sereno que é sem cor.
E isto que em mim cresce
é talvez o rancor
que todo o filho, ó mar, tem pelo pai.


Eugenio Montale, Poesia, Assírio e Alvim, José Manuel de Vasconcelos (trad.), 2004.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A Memória

A memória foi um género literário
quando ainda não tinha nascido a escrita.
Veio a ser depois crónica e tradição
mas já fedia como um cadáver.
A memória vivente é imemorial,
não surge da mente, não se enraiza nela.
Junta-se ao existente como uma auréola
de névoa na cabeça. Está já esfumada, é duvidoso
que regresse. Nem sempre tem memória
de si.

Eugenio Montale, Caderno de Quatro Anos, in Poesia, trad. de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Cedo ou Tarde

Desde criança acreditei que não é o homem
que se move mas o cenário, a paisagem.
Foi quando, imóvel, vi desenrolar-se
o lago de Lugano no vaudeville
de um tal Dall'Argine que provavelmente
em homenagem a si mesmo, nomen omen,
não deixou nunca a margem. Depois dei-me conta
do meu pueril engano e agora sei
que volante ou pedestre, estase ou movimento
em nada diferem. Há quem goste de
beber a vida gota a gota ou a jorros;
mas a garrafa é a mesma, não se pode
enchê-la quando se esvazia.

Eugenio Montale, Diário de 72, in Poesia, tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

Xenia II.5

Desci, dando-te o braço, pelo menos um milhão de escadas
e agora que já cá não estás é o vazio em cada degrau.
Mesmo assim a nossa longa viagem foi breve.
A minha ainda dura, mas já não me acontecem
as coincidências, as reservas,
as ciladas, os dissabores de quem crê
que a realidade é aquilo que se vê.

Desci milhões de escadas dando-te o braço
e não porque com quatro olhos talvez se veja mais.
Contigo desci-as porque sabia que de nós os dois
as únicas verdadeiras pupilas, ainda que ofuscadas,
eram as tuas.

Eugenio Montale, Satura, in Poesia, tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

domingo, 16 de janeiro de 2011

A Poesia

1
A angustiante questão
se é a frio ou a quente a inspiração
não pertence à ciência térmica.
O raptus não produz, o vazio não conduz,
não há poesia no sorvete ou no espeto.
Tratar-se-á antes de palavras
muito importunas
que têm pressa de sair
do forno ou do congelador.
O facto não tem valor. Mal estejam fora
olham em volta e têm ar de dizer:
que estou aqui a fazer?

2
Com horror
a poesia recusa
as glosas dos escoliastas.
Mas não é certo que demasiado muda
se baste a si mesma
ou ao aderecista que tropeça nela
sem saber que é
o seu autor.

Eugenio Montale, Satura I, in Poesia, trad. de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

Xenia II.1

1
A morte não te dizia respeito.
Também os teus cães estavam mortos, morto estava
o médico dos loucos a quem chamavam o tio demente,
morta a tua mãe e a sua «especialidade»
de arroz de rã, triunfo milanês;
e também o teu pai que de um pequeno medalhão
me vigia da parede noite e dia.
Mas apesar disso a morte não te dizia respeito.

Aos funerais era eu que tinha de ir,
escondido num táxi ficando à distância
para evitar lágrimas e incómodos. A própria
vida não te importava com as suas feiras
de vaidades e cobiças e muito menos os
cancros universais que transformam
os homens em lobos.

Uma tábua rasa; se não se desse o caso
de um ponto existir, para mim incompreensível,
e esse ponto dizia-te respeito.

Eugenio Montale, Satura, in Poesia, tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004

segunda-feira, 8 de março de 2010

The story of everyday

The sole science to remain standing --
eschatology --
isn't science but a fact
of everyday life.
It's a question of crumbs that disappear
without being replaced.
Who cares about crumbs, mutters,
the haruspex,
it's the cake that remains, even if shipped and
deflated here and there.
The secret lies in its aging,
and a hundred years rather than ten,
or a thousand years instead of a hundred,
will do much for the flavor.
Clearly the luckiest one -- without knowing it --
will be the future taster
and "the rest is literature."

Eugenio Montale in Italian Poetry: 1950 to 1990, Ridinger and Renello (eds.), Dante University Press, 1996.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Elogy of our times

There's no overdoing
the importance of the world
(ours I mean)
probably the only one
where killing can be an art and where
art work is created to live
for the length of a morning,
even if one of milleniums or more.
No, there's no glorifying it enough.
Only now we must hurry because
the hour seems near
when to much will be inflated
according to a noted apologist,
the frog.

Eugenio Montale, in Italian Poetry: 1950 to 1990, Ridinger and Renello (eds.), Dante University Press, 1996.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Bird-shooting

You wonder why I sail along in uncertainty
rather than trying another route?
Ask that of the bird who turns round, unharmed
by the long shot and the oversized rose
of explosion.

Even for us without wings
rarefications exist,
made not of lead but of deeds,
not of atmosphere but of vexations.
If a weight loss may save us
remains to be seen.

Eugenio Montale, "Il tiro a volo", in Italian Poetry: 1950 to 1990, Ridinger and Renello (eds.), Dante University Press, 1996.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Volto a pensar no teu sorriso

VOLTO A PENSAR no teu sorriso, e ele é para mim uma água límpida
descoberta por acaso entre os seixos de um leito,
exíguo espelho onde olhas uma hera e os seus corimbos;
e por cima o abraço de um branco céu perfeito.

Esta é a minha recordação; não sei dizer, distância vã,
se no teu rosto se exprime livremente uma alma ingénua,
ou se és um fugitivo que o mal do mundo estenua
levando consigo o sofrimento como um talismã.

Mas isto posso dizer-te, que a tua pensada efígie
submerge os caprichosos desgostos numa onda rasteira,
e que a tua imagem se insinua na minha memória gris
simples como a copa de uma jovem palmeira...

Eugenio Montale, Poesia, Assírio e Alvim, José Manuel de Vasconcelos (trad.), 2004.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Primeiras leituras, outras leituras

A primeira vez que li Montale foi no meu primeiro ano de Faculdade, no ano em que saiu a primeira edição da Assírio, em 2004, no mês de Dezembro, enquanto fazia a minha primeira cadeira de literatura, na altura Introdução ao Estudo da Literatura I, que já nem existe. Enumero aqui estes pormenores todos para fazer uma reflexão sobre a diferença entre uma primeira leitura e leituras seguintes.
A minha primeira leitura de Montale foi a leitura de alguém que não sabia muito de literatura italiana, que não tinha ainda lido autores da mesma geração, como Pavese ou Quasimodo, nem sequer autores de quem Montale se confessa devedor, como Dante. O que admirei em Montale numa primeira leitura foi a beleza evidente dos poemas, a beleza que entra pelos olhos e que nos ajuda a perceber que estamos perante um grande poeta. Poemas que incluo nesta categoria são poemas como «I limoni», «Vento e Bandieri», «Portami il Girasole», entre outros.
Numa segunda leitura, filtrada pela experiência de já ter lido outros autores próximos literariamente de Montale, como Pavese e Cernuda (que é um poeta que instintivamente agrupo na mesma categoria destes dois, embora não saiba porquê), entre outros, eu era já, digamos, uma leitora mais apta.
Para começar, numa segunda leitura, dei-me ao trabalho de ler a introdução de José Manuel Vasconcelos, que é excelente, e nos deixa melhor preparados para ler a selecção antológica por ele feita.
A sensibilidade de um leitor numa segunda leitura, parece-me, tende a ser mais paciente, mais atenta, e, ao mesmo tempo, mais descontraída. Nada nos pode devolver o encanto de ler um livro pela primeira vez, isso é certo. Mas tornamo-nos atentos a aspectos mais delicados, em que a forma como se trata a beleza ou o efeito estético ou a emoção que subjaz a determinado poema não é tão evidente.
Foi na minha segunda leitura de Montale que vi a beleza de poemas como «Lo sai: debbo riperderti e non posso», «Lontano, ero con te quando tuo padre», «Cigola la carrucola del pozzo», entre outros.
A minha experiência de vida permitiu-me ver melhor estes poemas, e não apenas a minha experiência de leitora. O que se aprende, à medida que se repete a leitura de determinado livro, é que os livros mesmo muito bons, aqueles que fazem do seu autor um grande autor, são aqueles que melhor admitem e resistem à nossa convivência, ao nosso olhar nem sempre educado para o que eles têm a oferecer, ao nosso escrutínio, às vezes não muito interessado na intensidade da emoção captada pelo sujeito poético de determinado poema, mas, cruelmente, apenas em efeitos de construção retórica, o que também é necessário, para averiguar da qualidade do fabbro que temos diante de nós. Montale sobrevive a tudo isso. A minha terceira leitura de Montale? Um dia conto-vos.
Há livros que nunca chegamos a ver completamente. Que nunca ficam revelados. Isso acontece por vezes apenas com grandes escritores, outras basta apenas que se trate de um grande livro. Há sempre algo que podemos tentar bargain (falta-me uma palavra melhor) com eles ou em relação a eles, eles superam-se e superam-nos sempre. É uma espécie de amor e uma espécie de eternidade, essa é uma das «utilidades» da literatura (já que vivemos num tempo em que nem ela pode ser inútil): ela desdobra o tempo e desdobra-se no tempo. É como a intuição maravilhosa de Maria Zambrano (em A Metáfora do Coração e Outros Escritos) nos explica: a palavra pára o tempo.

sábado, 15 de agosto de 2009

12

OS falcões
sempre demasiado longe do teu olhar
raramente os vistes de perto.
Um em Étretat vigiava o voo
desajeitado dos seus filhotes.
Dois outros na Grécia, no caminho de Delfos,
uma briga de macias penas, dois bicos jovens
inofensivos e audazes.

Agradava-te a vida feita de pedaços
aquela que jorra da sua insuportável
trama.

Eugenio Montale, Poesia, Assírio e Alvim, José Manuel de Vasconcelos (trad.), 2004.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

LONTANO, ero con te quando tuo padre
entrò nell'ombra e ti lasciò il suo addio.
Che seppi fino allora? Il logorìo
di prima mi salvò solo per questo:

che t'ignoravo e non dovevo: ai colpi
d'oggi lo so, se di laggiù s'inflette
un'ora e mi riporta Cumerlotti
o Anghébeni - tra scoppi di spolette
e i lamenti e l'accorrer delle squadre.

Eugenio Montale, Poesia, Assírio e Alvim, José Manuel de Vasconcelos (trad.), 2004.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

TU SABES BEM: devo perder-te de novo e não posso.
Como um tiro certeiro me abala
cada acção, cada grito e mesmo o sopro
salino que se agita
nos molhes e faz a sombria primavera
de Sottoripa.

Terra de ferro velho e floresta
de mastros no pó do entardecer.
Um zunido longo vem do espaço aberto,
raspa como uma unha nos vidros. Procuro o sinal
desaparecido, o único penhor que tive como uma graça
tua.
.......E o inferno é certo.

Eugenio Montale, Poesia, Assírio e Alvim, José Manuel de Vasconcelos (trad.), 2004.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

CHIA A ROLDANA do poço,
a água sobe até à luz e aí se funde.
Treme uma recordação no alcatruz colmado,
no círculo fechado uma imagem progride.
Aproximo o rosto de evanescentes lábios:
deforma-se o passado, fica avelhantado,
pertence a um outro...
........................................Ah range já na sua lide
a roda, entrega-te ao fundo escuro,
visão, uma distância nos divide.

Eugenio Montale, Poesia, Assírio e Alvim, José Manuel de Vasconcelos (trad.), 2004.

domingo, 9 de agosto de 2009

Ventos e Bandeiras

O sopro que soltou o aroma amargo
do muro rumo às espirais dos vales,
e te despenteou no seu assalto largo
novelo breve contra um céu bem alvo;
a rajada que colou a ti as vestes
e em ti rápida modelou a sua imagem,
pôde voltar na tua ausência a estes
calhaus que o monte lança à voragem;

e como sossegada a ébria sede
volta a ver o jardim o ténue hálito
que te embalou, estendida sobre a rede,
por entre as árvores, nos teus voos sem alas.

Ai de mim, nunca duas vezes configura
o tempo de igual maneira as suas contas! E a salvação
está aí: que, se o mesmo acontecesse na natura
a nossa fábula arderia num clarão.

Jorro que não repete -, e que ora vive
num grupo de moradas que deitadas
ante o olhar no flanco de um declive
de galas e pendões ornamentadas.

O mundo existe...um torpor sustém assim
o coração que aos vagos pesadelos claudica,
mensageiros nocturnos: e não acredita
que os homens famintos façam um festim.

Eugenio Montale, Poesia, Assírio e Alvim, José Manuel de Vasconcelos (trad.), 2004.

Os limões

Escuta, os poetas laureados
movem-se apenas entre plantas
com nomes pouco comuns: buxos, ligustros ou acantos.
Por mim, prefiro os caminhos que vão dar às fossas
cobertas de ervas onde em lameiros
meio secos os miúdos apanham
alguma enguia definhada:
as veredas que bordejam as ravinas,
descem por entre os tufos dos canaviais
e entram pelas hortas, por entre os limoeiros.

É melhor ainda quando a algazarra dos pássaros
se cala engolida pelo azul do céu:
mais claro se ouve o sussurro
dos ramos amigos no ar que quase não se move,
e as impressões deste cheiro
que não consegue separar-se da terra
e faz chover no peito uma doçura inquieta.
Aqui das divertidas paixões
por milagre cala-se a guerra,
aqui também nós os pobres temos a nossa parte de riqueza
que é o cheiro dos limões.

Olha, nestes silêncios em que as coisas
se abandonam e parecem perto
de trair o seu último segredo,
esperamos por vezes
descobrir um erro da Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não liga,
o fio do novelo que finalmente nos leva
ao centro de uma verdade.
O olhar procura derredor,
a mente indaga harmoniza separa
no perfume que se espalha
quando o dia mais enfraquece.
São os silêncios nos quais se vê
em cada sombra humana que se afasta
alguma perturbada Divindade.

Mas a ilusão perde-se e o tempo transporta-nos
até ruidosas cidades onde o azul se mostra
apenas em pedaços, no alto, entre os telhados.
Então a chuva cansa a terra: concentra-se
o tédio do inverno sobre as casas,
a luz torna-se avara – a alma amara.
Quando um dia, de um portão entreaberto
por entre as árvores de um pátio
se nos depara o amarelo dos limões;
e o gelo do coração se desfaz,
e ao peito afluem
as suas canções
as trombetas de ouro da solaridade.

Eugenio Montale, Poesia, Assírio e Alvim, José Manuel de Vasconcelos (trad.), 2004.