domingo, 10 de abril de 2011

The King of Comedy (1983)


Ainda Lumet

Eduardo Pitta pergunta-se, em Da Literatura, se terá morrido, em Sidney Lumet, o último clássico. É daquelas perguntas que são injustas para nomes como Godard, Ettore Scola, Martin Scorsese, Stanley Kubrick, ou mesmo um realizador que acho que pertence muitíssimo à mesma tradição de Lumet, que é Clint Eastwood (que como todos sabemos a seguir ao último dos Dirty Harry foi raptado por ET's e condenado a realizar filmes no mínimo bons até ao fim dos seus dias). Diria ainda que, só para citar nomes de língua inglesa, tenho muita esperança no trabalho de realizadores como James Gray, Christopher Nolan ou os irmãos Coen, só para citar alguns. Creio que todos estes se hão-de tornar clássicos, se é que não o são já (os Coen pela quantidade e pela qualidade acho que estão para lá de confirmados). Além disso, os clássicos na verdade nunca morrem.

Mad as hell


Sidney Lumet (1924-211), Network, 1976.

Sidney Lumet

sábado, 9 de abril de 2011

Mischa, Jascha, Toscha, Sascha

Li algures que houve um showdown de virtuosos - violinistas, bem entendido - nos anos 50 entre os Estados Unidos e a União Soviética. Parece que a coisa se resumiu a ver quem tinha os melhores judeus de Odessa.

o sacerdócio da poesia

Na verdade, como outrora ser poeta e sacerdote eram uma e a mesma função, a aliança desses ministérios mantém-se, felizmente, nas mesmas pessoas; esta, suponho, a única razão defensável para o chamamento que eles tanto prezam, quero dizer, o modesto título de «divino poeta». Seja como for, por jamais ter assistido a uma cerimónia de ordenação no sacerdócio da poesia, confesso não ter a menor ideia da coisa, pelo que nada mais posso dizer aqui.

Jonathan Swift, «Carta de Aviso a um Jovem Poeta», Preceitos para Uso do Pessoal Doméstico e Outros Textos, tradução de João Fonseca Amaral, Editorial Estampa, Lisboa, 1986

Voltar

Porque uma estúpida (instintiva, anterior à inteligência) vontade nos une a tudo o que nos prende (porque como dizia Calasso tudo o que nos prende é um laço), quando morrer farei como Sophia, e voltarei aqui para reclamar todos os instantes que não vivi junto do mar. Não tanto por estúpida teimosia quanto por uma ideia de plenitude imperfeita, que me liga aos lugares, às pessoas que amo, com uma ternura um pouco dilacerada, solene no sentido de leal e não no sentido de chata, insone, quase triste às vezes porque a sei condenada.
Nesta teimosia e sentido de plenitude imperfeita, aquilo que de outra forma fez Agustina escrever que a poesia é a mais estranha das actividades humanas porque é a única que é consagrada ao conhecimento da morte (aquilo que às vezes te dá a impressão que vais a andar e podias de repente sair do teu corpo, encarares-te de frente e dizeres não importa, porque eu sou do mundo e o mundo é meu, aquele que se contém nas paredes da minha vida), esse sentido de teimosia e compromisso, plenitude imperfeita, é também o que coloca a poesia um instante antes da inteligência, é o que a afasta para sempre da retórica, é o que lhe permite passar para outros géneros e sobretudo para o mais literário dos géneros, a vida.

Nemea (1940)

A song in the valley of Nemea:
Sing quiet, quiet quiet here.

Song for the brides of Argos
Combing the swarms of golden hair:
Quiet quiet, here.

Under the rolling comb of grass,
The sword outrusts the golden helm.

Agamemnon under tumulus serene
Outmiles the jury of skeletons:
Cool under tumulus the lion queen:

Only the drum can celebrate,
Only the adjective outlive them.

A song in the valley of Nemea:
Song quiet, quiet, here.

Tone of the frog in the empty well,
Drone of the bald bee on the cold skull,

Quiet. Quiet. Quiet.

Lawrence Durrell, Selected Poems, Peter Porter (ed.), Faber & Faber, 2006

De Bloom

O mundo que nasce é de imediato atacável, e assim está bem.
Bloom, contou Anish a Shankra, não gosta que os factos
de uma semana rimem entre si. Agrada-lhe a surpresa,
tanto mais quando ela surge no último instante.
Às 23 horas e cinquenta minutos
o dia ainda tem 10 minutos para explodir
indiscretamente. Nada é firme antes de terminar.
E depois de terminar, tudo morreu. A firmeza
e a imortalidade não existem porque são o mesmo
e nenhuma existe.


Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Canto VII, est. 71, Editorial Caminho, 2010.

Mais um

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Matrimonio all'italiana (2)



Queria pôr aqui a cena do frigorífico (quando o Mastroianni diz à Sophia Loren para dançar à luz do frigorífico: mais romântico), mas não a encontrei. Esta é a cena final. Este filme é uma light-hearted heart destruction italian style com final feliz. O filme inteiro está aqui.

Uma variação sobre Sócrates

Pertenço infelizmente àquela casta de idiotas que acha que qualquer forma de conhecimento que se possa adquirir é sempre limitada (nunca saberemos tudo de tudo, académica e vivamente falando) e que o que sabemos nunca deve ser feito ou julgado forma de poder, vantagem ou nobilitas sobre terceiros. O pouco que sei, a mim, serve-me para medir mais a minha ignorância do que para enfiar em relevo o aprendido, limitado que sei que está à partida, pois que nunca será tudo. Desta forma, de volta a Sócrates e à Apologia de Sócrates: só sei que nada sei. Na escola aprendi grego, com o meu tio a jogar à malha, ambas as coisas por acaso me têm dado jeito e alegria, nunca vi em nenhuma delas sobre outros vantagem e no dia em que tiver de o fazer, acabou, desisto. No que podemos saber está a alegria da partilha, da troca, o que sabemos torna-se pesado cadáver quando o queremos lançar à cara de outros como um peso, como humilhação por não o saberem. O que é realmente a sabedoria e onde está?, porque não está aí.

Finis

There is a great heart-break in an evening sea;
Remoteness in the sudden naked shafts
of light that die, tremulous, quivering
Into cool ripples of blue and silver...
So it is with these songs:
........................................the ink has dried,
And found its own perpetual circuit here,
Casts its own net
Of little, formless mimicry around itself,
And you must turn away smile...
..................................................and forget.

Lawrence Durrell, Selected Poems, Peter Porter (ed.), Faber & Faber, 2006

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Da autojustificação

Ésquilo estava errado

Estr. 2

Certa vez um homem criou

___em sua casa um pequeno leão privado do leite materno

______[mas ainda desejoso de mamar,

no prelúdio da sua vida 720

era dócil, amigo dos pequenos,

e causa de alegria para os anciãos.

Muitas vezes o segurava nos braços

como a um filho recém-nascido

e ele, de olhos brilhando postos na mão, abanava a cauda

______[com a necessidade do ventre. 725


Ant. 2

Com o passar do tempo mostrou

___a natureza herdada de seus pais: em agradecimento aos que o criaram,

juntamente com uma horrenda matança de gado, 730

preparou, sem ser convidado, um festim,

a casa ficou manchada de sangue,

uma dor inelutável para os seus habitantes,

imensa desgraça de muitas mortes –

por desejo de um deus um sacerdote da Ruína foi criado na casa. 735


Ésquilo, Agamémnon, 717-736 (a tradução é minha a partir do texto grego fixado por M.L. West)


Bem-vindos

Ontem juntaram-se-nos mais dois colaboradores o Miguel Monteiro e o AJTR. As boas-vindas em nome da gestão deste tasco. Falando em tasco, isto quase que consegue ser melhor que o Casablanca dobrado.

Ténis