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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Níobe

Níobe viu matar os seus dez filhos. A sua dor faz chorar as pedras. Mas, à medida que a dor se acalma, ela começa a alimentar-se. Homero insiste nisto. É uma interposição da verdade iluminada, também fundamental em Shakespeare. O absolutamente trágico é, portanto, não apenas insuportável para a sensibilidade humana: é falso para com a vida.

George Steiner, «A tragédia absoluta», in Paixão Intacta, Margarida Periquito e Victor Antunes (trads.), Relógio d'Água, 2003.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Kafka

Se o livro que estamos a ler não nos desperta, como se fosse um soco na cabeça, então porque estamos a lê-lo? Para que nos faça felizes? Meu Deus, também seríamos felizes se não tivéssemos livros e os livros que nos fazem felizes também podíamos ser nós a escrevê-los, se fosse preciso. O que devemos ler são esses livros que se abatem sobre nós como uma desgraça, que nos afligem profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós próprios, como o suicídio.

Kafka, citado por Steiner, in «A nossa pátria, o texto», Paixão Intacta, Margarida Periquito e Victor Antunes (trads.), Relógio d'Água, 2003.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Soldados de infantaria



















«A sua grande sombra ainda a arder»: Homero falando de Ajax, rancoroso, no Inferno. Charles Péguy era de estatura franzina, no entanto era extraordinariamente robusto para as longas marchas e para o manejo das armas. Tal como Ajax, fizera da sua existência um duelo mano a mano: contra o compromisso, contra o brilho oleoso do discurso político, da manipulação fiscal, contra o oportunismo das relações públicas e privadas, contra mundum. Até ao mais alto grau da aparente destruição mental (próximo do fim, não havia praticamente nenhum aliado, nenhum apoiante, nenhum amigo com quem Péguy não tivesse cortado relações e que não tivesse despachado para o limbo da desonra mundana). Como Sócrates, outro agitador, Ajax e Péguy não passaram de fantassins, soldados de infantaria, até ao âmago, com um sentido exacto do chão amargo que pisavam e do peso das armas que levavam às costas. Ambos eram mestres da ira.

George Steiner in «Tamborilando nas Portas - Péguy», Paixão Intacta, Margarida Periquito e Victor Antunes (trads.), Relógio d'Água, 2003.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Resposta à lembrança exacta

A linguagem perdeu a sua aptidão própria para a verdade e para a honestidade política ou pessoal. Vendeu, e vendeu ao desbarato, os seus mistérios de intuição profética e as suas capacidades de resposta à lembrança exacta. Na prosa de Kafka, na poesia de Paul Celan ou de Mandelstam, na linguística messiânica de Benjamin e na estética e na sociologia política de Adorno, a linguagem funciona, de maneira insegura, no gume cortante do silêncio. Agora sabemos que se a Palavra «era no princípio», também pode ser no fim: que existe um vocabulário e uma gramática dos campos da morte, que as detonações termo-nucleares podem ser designadas como «Operation Sunshine». Seria como se a quinta-essência, o atributo que identifica o homem - o Logos, o orgão da linguagem - se tivesse quebrado dentro das nossas bocas.

George Steiner, "Presenças Reais", in Paixão Intacta, Margarida Periquito e Victor Antunes (trads.), Relógio d'Água, p. 37

domingo, 1 de maio de 2011

“Naquela aragem fria, não há lugar para o incenso.”

“Devemos, realça Simone Weil, sofrer uma “morte mortal”, uma extinção do eu que provoque uma aceitação total de tudo, independente do ego e da sua volição. O eu individual só pode ser redimido se o oferecermos a Deus para que seja aniquilado. Essa oferta, por sua vez, permitirá a recuperação do criado dentro da unidade perfeita do Criador. A conversão em ser de outras criaturas além de deus determina uma falha fatal, uma abdicação divina e uma autodispersão. Todo o acto de egotismo – e, por definição, não pode haver nenhuma acção humana que não esteja manchada, em maior ou menor grau, de vontade própria – agrava o afastamento de Deus de Si mesmo. A abnegação, o “abraço” autista que Weil praticava existencialmente, são passos curtos mas decisivos para a “reunificação” de Deus e, presumimos, para a abolição, talvez temporária ou temporal (…) de uma realidade suja e corrupta.”


George Steiner, Paixão Intacta, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2003

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

[Citação]

Em matéria de impureza, de realismo invasor, a linguagem é totalmente vulnerável. Não há imaculado possível. Vimos que as experiências do neologismo sistemático, da escrita automática, da dissolução surrealista da sintaxe, acabam por desembocar na trivialidade. Vimos também que nem o escritor mais inventivo e inovador pode escapar à localidade e à temporalidade da linguagem que herda ou adquire, ao seu estado nativo e à sua prioridade histórica lexical e gramatical. A linguagem está incomensuravelmente saturada. As palavras, as formas gramaticais, as frases, as convenções retóricas estão saturadas, até ao nível do fonema quase, pelo uso, pelos precedentes e pelas conotações culturais e sociais. Cada som da fala desencadeia harmonias concêntricas e formalmente ilimitadas. Colide com cada uma das partículas semânticas suas vizinhas numa câmara de eco, como que à maneira dos sinos de Veneza, por vezes desacertados, dessincronizados, fora do ritmo, que inundam o ar com as suas vozes ao mesmo tempo concordantes e contrárias. Um mestre da linguagem pode imprimir a esse meio a energia de um salto quântico. Mas a nova órbita pululará, por seu turno, de associações, que não foram escolhidas. O facto de "o mundo estar em excesso para o poeta" não resulta tanto das tentações mundanas, do investimento de si no transitório e no oportuno, mas é antes um corolário absolutamente inescapável da própria linguagem que veicula consigo, queiramo-o ou não, a carga do mundo. Na linguagem, as matemáticas puras só poderiam ser silêncio.

George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d'Água, Lisboa, 2002 (trad. de Miguel Serras Pereira)

domingo, 27 de dezembro de 2009

(Citação)

"Pode realmente ser muito mais difícil engendrar uma obra estética e intelectual eminente no interior do vazio sem resistência de uma licença mais ou menos completa e indiferente. O patrocínio dos meios de comunicação de massa e do mercado livre, o oportunismo distributivo do consumo de massa, podem ser mais ameaçadores para a arte e para o pensamento que os regimes censórios do passado. Que epigrama poderia ter afectado, para já não dizer assustado, a Casa Branca durante o período de atrocidades levadas a cabo no Vietname? A ignorância e a condescendência podem paralizar tão eficazmente como a proibição."

George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d'Água, Lisboa (trad. de Miguel Serras Pereira)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

George Steiner, Doutor «Honoris Causa»pela Universidade de Lisboa

O discurso de George Steiner - e aqui deveria colocar como aposto a expressão «um dos mais brilhantes pensadores vivos», mas isso quase que parece um chavão e está implícito - proferido ontem na Reitoria da Universidade de Lisboa foi curto e sem suporte em papel. Steiner, que recebeu este grau por proposta da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, recordou que as humanidades estão em crise, e, a propósito desta consideração, lembrou que ainda não podemos explicar como é que homens que à noite tocavam Mozart com toda a proficiência exerciam funções de carrasco pela manhã em campos de concentração.
Referiu Saramago como o nosso grande escritor vivo e apelidou Lobo Antunes de dark giant (que diria ele, ou virá a dizer, de Gonçalo M. Tavares?). Proferiu um discurso a dois tempos, maioritariamente em inglês com algumas expressões em francês pelo meio. Descreveu como seria a sua universidade ideal, uma universidade onde se conjugasse o estudo da arquitectura, da física e da música, essa linguagem que, depois de Babel, é a única que é universal, passível de ser compreendida por todos.
Acabou o seu discurso, que alguns poderão descrever como pessimista (os jornalistas portugueses muito possivelmente apenas irão recordar que lamentou não saber português para poder ler Pessoa no original), contando uma anedota onde afinal espreita um olhar de esperança, e talvez de profunda esperança, nas capacidades do homem.
Parafraseando a anedota: Deus resolve acabar com a espécie humana, mas desta vez de forma definitiva. Nada de arca de Noé ou quaisquer outros subterfúgios. O fim chegará em dez dias. Os homens, desesperados, vão ter com o seu rabi: «Rabi, Deus perdeu a paciência, vamos todos morrer afogados dentro de dez dias.» Ao que o rabi responde: «Calma, calma, dez dias é tempo de sobra para aprender a respirar debaixo de água.»
Um discurso curto mas, como se notou no final da cerimónia, muito bonito. Pelo que, gostei (ainda) mais de ouvir George Steiner nesta segunda oportunidade do que na primeira (há ano atrás, na Gulbenkian).

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Can we still speak of a human condition? Some brief remarks.

George Steiner esteve ontem nas Quintas Conferências Internacionais de Filosofia e Epistemologia e proferiu a conferência que dá título a este post. O autor do blogue A Varanda Amarela, Príncipe Myshkin, que ouviu a conferência, elaborou cuidadosamente um texto baseado nas notas que foi tirando ao longo da conferência e do registo áudio que desta fez, satisfazendo assim a curiosidade de uma série de leitores que estavam em pulgas para saber qual o conteúdo do discurso de Steiner. A ler, aqui.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Entrega das Insígnias de Doutor «Honoris Causa»

A George Steiner, dia 26 de Novembro de 2009 às 15h00 no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa. George Steiner receberá as insígnias de doutor honoris causa por proposta da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e será apadrinhado na cerimónia pelo Professor José Pedro Serra (professor associado com agregação do Departamento de Estudos Clássicos da FLUL), que proferirá o elogio.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Simples Facto de S. Paulo Citar Eurípides

O simples facto de S. Paulo citar Eurípides mostra que era um homem de cultura livresca, quase a antítese do homem vindo de Nazaré, que o apóstolo transmutará em Cristo. Raras são as personagens histórias - lembramo-nos de Marx e de Lenine - capazes de rivalizar com a mestria da propaganda paulista, no sentido simultaneamente instrumental, didáctico e etimológico de propaganda pedagógica, ou igualá-la na intuição que tem de que os textos escritos podem transformar a condição humana.

George Steiner in O Silêncio dos Livros, seguido de: Esse Vício Ainda Impune, George Steiner e Michel Crépu (auts.), Gradiva, 2006.

Em relação a este livro, nunca consegui perceber se gosto mais do primeiro ou do segundo ensaio (sublinhado meu). O ensaio foi publicado originalmente na revista Esprit (em Janeiro de 2005) com o título «Ódio ao Livro».
Pergunto-me quando se publicará entre nós um outro ensaio de Steiner, originalmente publicado na Samalgundi, Ten (Possible) Reasons for the Sadness of Thought, se, tal como eu, tiverem um carácter demasiado impaciente para esperar, é este que aqui está publicado, embora sem qualquer indicação de autor (pelo menos visível). Não é preciso dizer que vale a pena.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O Sentido de Eurídice

E ainda que um Rembrandt ou um Mozart possam, no futuro, ser igualados (noção, entre todas, inexacta e confusa), não podem ser superados. Há a lógica profunda de um fluxo de energia atravessando as artes, mas não progresso cumulativo, tal como o descobrimos nas ciências. Nem erros que sejam corrigidos ou teoremas que sejam refutados. Porque traz o passado dentro de si, a linguagem, ao contrário da matemática, remete-nos para trás. Tal é o sentido de Eurídice.

George Steiner, No Castelo do Barba Azul: Algumas Notas para a Redefinição de Cultura, Miguel Serras Pereira (trad.), Relógio d'Água, 1992.