sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A minha poesia

Deixa-me salvar o que se pode salvar
e eu sento-me somente
grave
como um bloco de pedra
como aquele pássaro gigante
que na idade ingrata feri e mudo sangrou na sombra dos salgueiros.
Em silêncio no fundo do silêncio da parte ignorada do mundo
escrevo os meus poemas que estão à uma para cá e para lá da literatura
das leis costumadas
dos êxtases imbecis.
Basta de beleza a granel
dos efeitos herdados.
A minha poesia não nasce da florescência incoerente dos sonhos
mas da ordem rigorosa da geometria
tira a pele do fruto
traça seu plano
dispõe no espaço os objectos
limpa as ruínas do passado
e promete um futuro mais belo.
Eis a essência da minha poesia
o conteúdo das minhas palavras
o sentido que diriam insensato das minhas confissões
chuva de fogo
e tilintar de estalactites
que segundo a lei dos contrários
vivem lado a lado simultaneamente
e do mundo povoam
conhecidos desconhecidos domínios.

Kassák Lajos in Antologia da Poesia Húngara, Ernesto Rodrigues (selecção e tradução), Âncora Editores, 2002.

Em qualquer parte

Contra pequenos mundos inteiros, o poeta floresce em qualquer parte (...)

Gil de Carvalho, algures em A Phala

Marcial na Restauração

Já aqui tenho falado do monumental Philippus Prudens, de Juan Caramuel Lobkowitz, que, em 1639, se dedicou em mais de 400 páginas de excelente latim a provar a legitimidade dos Filipes ao trono português. Parecia que adivinhava o que aconteceria um ano depois.

Logo em 1641 foi publicada a resposta portuguesa, no Manifesto do Reyno de Portugal, que se dedica, inversamente, a provar a ilegitimidade dos Filipes, e a legitimidade dos Braganças, em 1580, na pessoa de D. Catarina, e em 1640, na de D. João IV.

Um ano volvido, em 1642, Caramuel volta à carga, com uma Respuesta al Manifiesto del Reyno de Portugal, na qual retoma de forma sintética as teses defendidas no Philippus Prudens. Na edição de 1665, o prefácio é enriquecido com uma desconcertante citação: Marcial III,8.


Y pues hauemos visto, que no se aprouecha de dos ojos el Duque de Bergança, con facilidad probaremos que está ciego el Pueblo Portuguez. Tómo por fundamento para persuadir esta verdad dos lineas de otro ingenio Español.

Tháida Quinctus amat. Quam Tháida: Thaida luscã.
Vnum oculum Tháis non habet, ille duos.

Habló en lengua estrangera, que en su materna huuiera dicho.

Quinto ama a Tháis. Y qual vos
Decis? La del ojo tuerto:
Que a Tháis falta un ojo es cierto,
Pero a Quinto ambos a dos.

Mira a su Vtilidad, no a su Conciencia el Duque: y asi, como decíamos, carece del ojo principal su Politica: pero la del pueblo Portugues, ni mira la honra de Dios, ni la utilidad propria, y assi es ciega, y carece de entrambos.



É preciso lembrar que, em 1665, continuava a guerra entre Portugal e Espanha, e que só 3 anos depois, em Fevereiro de 1668, seria assinada a paz, e consequentemente reconhecida a independência restaurada em 1 de Dezembro de 1640.

Encerramento do Tio Vânia: Primeiras Reacções

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

(Variação sobre II: 9 de Setembro)

Uma angústia por hábito
O dia mergulhando no escuro
A luz rapaz tolo ama-te demasiado
Ou o contrário porque paralelo
O coração não segue rigorosamente a aridez
Do primeiro pensamento que te agarra
A lua roça esse chão de areia e vai
Subindo por mecânica de repetição e não sabes
Se cantaste humildemente um sorriso
Um passo em falso uma forma de saudação
A maneira como espiando o relógio
Te debates em falso e suavemente inclinas a cabeça
Mergulhas num sono breve
Onde por ruas circulares te moves como um peão
A geografia de uma cidade onde sempre te perdes
De cansaço te canto e por remorso
Gastando as últimas palavras
As mais chãs as mais amargas
Consumindo o tempo efémero de cada gesto
Por baixeza de espírito te canto
O teu rosto mergulhado na penumbra
E por bem menos do que desespero e mesquinhez
Por isso este hábito de angústia
Porque sei que há um lugar
Onde vão morrer os dias que amo
E adivinho o seu silêncio
Conheço a sua cor baça
A forma como se debate um pouco
Sem ousar a altivez de uma força que chegue
Para ferir a orla dos dias
Por isso a impressão indelével do toque
Fria mão pousada sobre a testa

"The Night of the Hunter" de Charles Laughton, 1955

Influência

Fosse qual fosse a via por que ela se exerceu, o certo é que a influência de Pessoa na «geração de 40» - quer no grupo neo-realista, quer nos poetas ligados aos Cadernos de Poesia, quer na Poesia Nova, quer, mais tarde, nos surrealistas - é, de um modo geral, determinante, embora não tenha de maneira nenhuma revestido o carácter obsessivo com que se manifesta na década seguinte.

Fernando Martinho, Pessoa e a Moderna Poesia Portuguesa: Do Orpheu a 1960, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1991 (2ª edição).

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Princípio perfeito

O poeta de Hortobágy

Era um rapaz de olhos grandes, sangue
cumano, ferido de tristes quereres;
a manada guardava e corria
através do célebre Hortobágy húngaro.

Crepúsculos e miragens cem vezes
a alma lhe tomaram; se uma flor,
porém, no coração lhe crescia,
nele pastava uma manada de povos.

Mil vezes pensou em maravilhas,
pensou na morte, em vinho, mulheres;
em qualquer outro sítio do mundo
teriam feito dele cantor sacro.

Mas se olhava os companheiros,
sujos, tolos, calças largas, e a manada,
logo enterrava a sua canção:
e praguejava ou assobiava.

Ady Endre in Antologia da Poesia Húngara, Ernesto Rodrigues (selecção e tradução), Âncora Editores, 2002.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ao virar da esquina



















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Aqui estou, no meio da planura...

Aqui estou, no meio da planura,
como estátua, imóvel.
Cobre o deserto silêncio sepulcral,
qual sudário cobre o morto.
Ao longe, um homem ceifa;
pára agora mesmo,
e afia a foice...
A lâmina não se ouve,
vejo somente como a mão se move.
E olha, agora,
comigo se admira, mas eu nem pestanejo.
Que pensará que eu penso acerca dele?

Petófi Sándor in Antologia da Poesia Húngara, Ernesto Rodrigues (selecção e tradução), Âncora Editores, 2002.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

"Fanny och Alexander" de Ingmar Bergman, 1982





















Que filme!

A Próspero

Que rude terra criasse engenho qual o meu
espanta-te, Próspero, filho do céu toscano.
Em qualquer lado podem nascer estúpidos
e também homens cujos corações ardentes vibram.
O pensamento de Demócrito surgiu em Abdera, rica em gado,
deu a rústica Mântua Virgílio subtil.
Se, porém, te esquivas a crer em exemplos antigos,
olha para nós, quem somos e donde vimos.

Jannus Pannonius* in Antologia da Poesia Húngara, Ernesto Rodrigues (selecção e tradução), Âncora Editores, 2002.

*Jannus Pannonius, a julgar pela amostra de poemas que tem nesta Antologia, era um homem com um ego que nunca mais acabava. Sed, bom poeta.

Call it a day

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Probabilidade

Um medo maior acerca a ilha
Medo que o encanto se quebre
e o desmoronamento se propague
aos elementos que do mar a ergueram.

Será que existem inventores
solicitados pela sua invenção?
A ilha, indiferente a construtores,
afirma-se na sua missão

de renovar espantos singulares.
O próprio medo é renovador
quando percorrido pela intempérie
que sopra das ilhas implacáveis.

Ruy Cinatti, Lembrança para S. Tomé e Príncipe 1972, Instituto Universitário de Évora, 1979
Vai lá.

Roger The Great

Sensible






























Via Bookshelf Porn.