sexta-feira, 12 de junho de 2009

A minha imagem mental de escritor é a de Jorge de Sena, ainda menino, cabeça encostada contra as teclas do piano, com o seu papagaio verde ao lado e tocando devagar as teclas. A minha imagem mental de poeta é a descrição que Jorge de Sena faz do momento em que pela primeira vez escutou a La Cathédral Engloutie de Débussy ou a primeira aparição do poema como narrada em Sinais de Fogo.

Post-Scriptum

Não sou daqueles cujos ossos se guardam,
nem sou sequer dos que os vindouros lamentam
não hajam sido guardados a tempo de ser ossos.

Igualmente não sou dos que serão estandartes
em lutas de sangue ou de palavras,
por uns odiados quando me amem outros.

Não sou sequer dos que são voz de encanto,
ciciando na penumbra ao jovem solitário,
a beleza vaga que em seus sonhos houver.

Nem serei ao menos consolação dos tristes,
dos humilhados, dos que fervem raivas
de uma vida inteira e pouco traída.

Não, não serei nada do que fica ou serve,
e morrerei, quando morrer, comigo.

Só muito a medo, horas mortas, me lerá,
de todos e de si disfarçando,
curioso, aquel' que aceita suspeitar
quanto mesmo a poesia ainda é disfarça da vida.

Jorge de Sena, A Arte de Jorge de Sena, 2004.

Fidelidade

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só comigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

Jorge de Sena, A Arte de Jorge de Sena, 2004.

II

Sometimes beauty
craks
you can see the body
it cracks
you can see the parts
that you'd like to make love
to and with
they crack in heat
and after
sometimes you dream
of beauty before.

Às vezes beleza
estala
pode ver-se o corpo
estala
podem ver-se as partes
que se gostaria de fazer amor
a e com
estalam no ardor
e depois
às vezes sonha-se
da beleza, antes.

Jorge de Sena, Poesia III, 1989.

Poupança

Enquanto o nosso primeiro-ministro fala sobre «crise do capitalismo» e «necessidade de maior investimento público», David Brooks escreve no New York Times sobre poupança. Alguns excertos:

(...)

The leverage wave crashed last fall. Facing the possibility of systemic collapse, the government stepped in and replaced private borrowing with public borrowing. The Federal Reserve printed money at incredible rates, and federal spending ballooned. In 2007, the federal deficit was 1.2 percent of G.D.P. Two years later, it’s at 13 percent.

(...)

The members of the political class face a set of monumental tasks. First, they have to persuade a country to postpone gratification for the sake of rebuilding the country. This country hasn’t accepted sacrifice in 50 years.

Second, political leaders will have to raise taxes and cut spending to get the federal fiscal house in order, and they will have to do it at a time when voters are already scaling back their lifestyles.

Third, they will have to refrain from doing anything that might further damage America’s fiscal position, which is extremely fragile. That means not passing a health care reform package unless it is really and truly paid for. That means forming a Social Security commission next year to tackle that entitlement problem.

Fourth, the political class is going to attempt the politically unthinkable. The U.S. is going to have to move toward a consumption tax, to discourage spending and encourage savings.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Aparição

A velha visitada pelo fantasma mulato
da telenovela das oito a inveja
de todas as vizinhas e comadres nos quintais.

Luís Serra, Brinquedos de Latão e Sarampo, Apenas Livros, 2009.

Ausência

Primavera
cheia com
flores de
plástico o
prometido
é de vidro.

Luís Serra, Brinquedos de Latão e Sarampo, Apenas Livros, 2009.

Uma tarde quente de chuva

Uma mosca no resto doce do prato de veneno
um rumo porno e cor de corrida
um motor imóvel a dar um baile
uma vontade de foder.

Luís Serra, Brinquedos de Latão e Sarampo, Apenas Livros, 2009.

Duelo

Ao desobediente sorriso da figueira
o gato mostrou melancolia às riscas.

Luís Serra, Brinquedos de Latão e Sarampo, Apenas Livros, 2009.

De Subir

Faetonte, meu rapaz, boas notícias: hoje fazem de ti um homem
Tomando nas mãos as rédeas do carro do sol aprenderás que melhor é subir

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Rápida a Sombra

Luzem na água
Cintilações
Divagam monocórdicos
Sons, ruídos
Que acompanham
A tarde a esvanecer-se

Pássaros empalhados
Vazios e nostálgicos
Marcam o ritmo

Caem como chuva
Húmidas sensações
Atravessam-se no peito
E perdem-se
Num vago mastigar

Há uma guerra
Sem sentido com a natureza
Que apaga no alcatrão
As palavras sujas

Há sons no esquecimento
Que têm o calor
Das frases feitas

Uma inundação
De saliva na boca
Ao desejar
Caminhos transparentes
Onde as cores
Fazem acordar

É um clarão
A iluminar as colinas
Que se olham com fascínio

É este querer
Que vem do nada
Que faz morrer

Rui Carlos Souto, Maneiras de Andar, Black Sun Editores, 2001.

Poema Hoje

Tenho um cavalo alado
No sangue. Que voa

Sinto as narinas
O fôlego. O contacto

As casas. A existência
Do subúrbio sobre as asas

Tem a cor do fumo
E voa com as mariposas das fábricas

Voa sobre o oceano azul, sobre a rua
Sobre as ideias

Tem a estética da escultura parada
Tem o condão de ser miragem
E a ilusão de galopar

Rui Carlos Souto, Maneiras de Andar, Black Sun Editores, 2001.
dentro da palavra há um gesto de agarrar
uma mão fechada sem pontos de fuga
já inciso na hora do fio
há um gesto de prender
da sua cor de linho é a mulher
dentro dos passos do homem
e também o seu colo arco recurvo
e a linha dos seus ombros de deixar
correr a penumbra
e a sua maneira de flor ao tender
para a sombra estendendo a mão
num gesto ainda por despertar

gesto do homem dentro do labirinto:
toda a memória astrolábio é uma coisa
de pegar na mão e esperar dentro do fio

e há um golpe exacto de terra dentro da mulher
e a sua maneira de ser fio pertence ao olvido
maneira de terra dentro do arco
no gesto de concorrer de arremessar

daí a mulher ser memória e ser saída
silêncio de cumprir o fio e o labirinto

Ribeira

Não tanto como Pessoa amei

Não tanto como Pessoa amei
As cidades de hoje, no Norte.
Mas sempre à beira-morte
As conheci. Reconheci.
Escuridão opressa
Em outro continente.
Au bout de la nuit
Surgiu-me o seu olhar.
Eu o segui então à beira
De morrer, à beira de ser
Logo escuridão compacta.
Um grito ao longe. Exacta,
inflexível, a direcção tomada:
É para lá da morte o próximo comboio.

M. António, Cinquenta Anos Cinquenta Poemas, 1988.

terça-feira, 9 de junho de 2009

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Riscos

O problema é dar início a algo. A primeira frase do caderno serve, geralmente, para ser riscada.

Homem ideal

Pôr a máscara todos os dias:

And in the everyday world, nothing to be done but respectably carry on the huge pretense of living as himself, with all the shame of masquerading as the ideal man
.

- Philip Roth, American Pastoral

Sylvia Plath Reads 'Daddy'

À medida que a vida vai ficando mais curta, perguntamo-nos o mesmo com cada vez maior frequência. Escrevi sete romances. Adoraria escrever outros sete antes de morrer. Mas a vida é curta. E que tal desfrutá-la mais? Por vezes, tenho de me forçar a fazê-lo. Porque escrevo? Que significado tem isso? Em primeiro lugar, como disse, é o instinto de estar sozinho num quarto. Em segundo, há em mim um lado competitivo quase pueril, que quer tentar escrever um bom livro mais uma vez. Acredito cada vez menos na eternidade dos autores. Estamos a ler muito poucos dos livros escritos há duzentos anos. As coisas estão a mudar tão depressa que os livros escritos hoje serão provavelmente esquecidos dentro de cem anos. Muito poucos serão lidos. Daqui a duzentos anos, estarão vivos talvez cinco dos livros escritos hoje. Terei a certeza de estar a escrever um desses cinco? Mas, e será esse o sentido da escrita? Porque deveria eu preocupar-me em ser lido duzentos anos depois? Não deveria preocupar-me em viver mais? Precisarei do consolo de ser lido no futuro? Penso em todas essas coisas e continuo a escrever. Não sei porquê. Mas nunca desisto.

Orhan Pamuk, Outras Cores