domingo, 12 de fevereiro de 2012

bênção - robert kelley

Bliss
Robert Kelly

isso é uma palavra nevada uma palavra carregada
para ocidente na nossa acrópole sinistra
(à sombra de colunas iónicas
esfregou as costas a um pilar)
pois é sempre apropriado
caminhar lentamente à volta de algo
com um galho de pereira preso entre os dedos
levemente como uma varinha para adivinhar
as intenções da Besta Que Vem
(vira-te para o lado, estás a ressonar)
preciso do meu café, a religião
está demasiado longe daqui num clima de gente
(dentes de retórica antiga, zeugma-te
comigo ou é um pássaro muito maior
strouthos para hastear a mim tua quadriga)
peliça duma virgem, torque dum Celta
(o que é o ouro? resposta na contracapa)
aliás o amor é tal e qual a álgebra
mas agora mesmo não posso dizer porquê tu podes
a liberdade tem alguma coisa a ver, resolver
para duas incógnitas, mas porquê em árabe?
As crianças esperam que a política acabe
reparaste em todos aqueles bailarinos nus
que celebram as cerimónicas cívicas nas nuvens
como saltaricam solenemente à maneira de liturgia
e falam apenas com os seus membros em movimento ou
scordatura de ventos pipitantes carvalhos castanhos
esses cadáveres folhas deixadas para troçar do nosso verão
(oh vem até mim de novo desta vez não hei-de
ou deixar-te ir, tira a roupa
há tantos livros para ler)
agressores natural este clima puderam comer
nunca ninguém conta as flores no jarro
ou se contam não se preocupam com as pétalas portanto
estamos cercados por uma beleza sem número
(a terra tem dedos não tocamos em pele fora a nossa)
a minha estalactite preferida mede quatro pés
na carteira prateada polida vê o lírio a reflectir
a música que ontem à noite não foi ouvida de novo agora ecôa
(uma das características da manhã tal como a barba no meu queixo)
toca-me sou um estrangeiro ouve-me acordar
será que as pessoas vivem em casas pelas razões erradas?
haverá um clima onde a Cleópatra esteja ainda viva
ainda jovem audaz e perita em química
linguística ela com o grande pharmakon
ela que foi a última a ler as pedras?
(esforça-te mais a ouvir se queres mesmo que ela te dê atenção)
os pássaros tornam-se pesarosos com o seu próprio clamor
como crianças que brincam à espera do anoitecer
voz de mães que as mandam voltar para casa
para longe das contingências de outras pessoas
(ninguém pode sofrer como uma criança não te lembras?)
vira-te para cá e fala duma vez comigo ou isto tudo é
um engate duma noite só que nunca acabou?

Robert Kelley. Aqui. Tradução minha.

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