quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O que acontece quando


















 

O que acontece quando uma pessoa chega ao fim das suas forças? (Não é doença, não é dor, não é infelicidade, é pior.) Numa manhã, ela senta-se diante da sua tenda e olha para lá do rio. No outro lado estão as mulas escondidas pela erva alta da margem. A erva verga-se ao sopro do vento como uma seara, e o vento traz também para o desfiladeiro o fumo que se escapa da porta do tchai-khan. Os coudéis do xá, vindos das pastagens, chegam nos seus cavalos brancos e malhados, já estafados, e com gritos fazem-nos passar a galope os bancos de saibro. O sol do meio dia é forte e branco. O vento parece arrastá-lo consigo, juntamente com as nuvens e a poeira. Os olhos cansam-se de olhar para cima. Rochedos cinzentos, basalto contra azul, dor sem esperança. Se pousamos por algum tempo o olhar na água negra, rápida, quebrada, sentimos uma vertigem, qualquer coisa como medo.

Annemarie Schwarzenbach, Morte na Pérsia, Tinta-da-China, 2008

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Go write yourself a book

Go write yourself a book and put
therein first things that might define a world:

There's a great clock upon which the pole star
will return, turn,
and return. Cheops' stone mountain's
a lyric gesture. Homer
underwrites not adventure
but the way back home
before Odysseus may shed
a life's disguise.

Robert Duncan, "Under Ground", The Opening of the Field, New Directions Paperbook, 1973.

II

Seta que voando passa
arremessada ao azar,
e que nunca se sabe onde
a tremer se cravará;

folha que da árvore seca
arrebata o vendaval,
sem que alguém acerte o sulco
onde ao pó regressará

onda gigante que o vento
frisa e impele no mar,
e rola e passa e se ignora
que praia buscando está;

luz que em círculos trementes
brilha, prestes a expirar,
e que não se sabe deles
qual o último será.

Isso sou eu, que ao acaso
cruzo o mundo, sem pensar
de onde venho nem aonde
meu passo me levará.  

Gustavo Adolfo Bécquer,Rimas,Tradução de José Bento, Relógio d'Água, 1994.

Keeping the rhyme

By stress and syllable
by change and rhyme and contour
we let the long line pace even awkward to its period.

The short line
we refine and keep for candor.

This we remember:
ember of the fire
catches the word if we but hear
("We must understand what is happening")
and springs to desire,
a bird-right light
sound.

This is the Yule-log that warms December.
This is new grass that springs from the ground.

Robert Duncan, The Opening of the Field, New Directions Paperbook, 1973.

domingo, 7 de novembro de 2010

Expressionismo alemão

"Este expressionismo é horrível. Todo o sentimento relativo ao corpo belo, redondo ou magnificamente informe, estiola como a esperança pela paz. O espírito triunfa em toda a linha sobre o que é vital. O que é místico, espiritual, tísico, inchado, extático, aparece empolado e tudo cheira a alho. [...] Vão expulsar-me do céu desses nobres, idealistas e espirituais. [...] E eu proclamo a minha independência e cuspo e estou farto do que é novo e começo a trabalhar com o que é muito antigo, com o que foi experimentado mil vezes, e faço o que quero, mesmo que aquilo que quero seja mau. E eu sou um materialista e um malandro e um proletário e um anarquista conservador e não escrevo para a imprensa, mas para mim, para ti e para os japoneses."
Bertolt Brecht apud «Definição de um território: os primeiros trabalhos do jovem Brecht", Vera San Payo de Lemos in Bertolt Brecht: Teatro 1, Livros Cotovia, 2003

Bunny suicides

.

O jovem Brecht













"De vez em quando assalta-me a ideia de que os meus trabalhos possam ser demasiado primitivos e antiquados, ou toscos e pouco ousados. Ando em busca de novas formas e faço experiências com a minha maneira de sentir como os mais jovens. Mas depois volto sempre a reconhecer que a essência da arte é simplicidade, grandeza e sentimento e a essência da sua forma, frescura."
Bertolt Brecht (zweiundzwanzig jähre alt) apud «Definição de um território: os primeiros trabalhos do jovem Brecht", Vera San Payo de Lemos in Bertolt Brecht: Teatro 1, Livros Cotovia, 2003

sábado, 6 de novembro de 2010


Boas notícias

De Isaac Babel, será publicada uma antologia de contos, igualmente no primeiro trimestre de 2011.

(The light foot hears you and the brightness begins)

the information flows
that is yearning. A line of Pindar
moves from the area of my lamp
toward morning.

In the dawn that is nowhere
I have seen the willful children

clockwise and counter-clockwise turning.

Robert Duncan in "A Poem Beginning with a Line by Pindar", The Opening of the Field, New Directions Paperbook, 1973

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Waiting for Elmo

Absolutamente maravilhoso. Prometeria outros para breve mas confio que as pessoas saberão chafurdar no youtube. Recomendo "1 flew over the cuckoo's nest" e "twin beaks". E todos.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

I can't read

Gatos de Livraria

Um catálogo de gatos que vivem em livrarias. O meu favorito é o da The Iliad Bookshop. Por cá, na loja da Cotovia na rua da Trindade também há um gato, preto, que dorme dentro de um cesto.

Epígrafe

I know that this was life, – the track 
Where on with equal feet we fared 

Alfred Lord Tennyson, In Memoriam A.H.H., XXV

Fingimento

Se o «fingimento» é, sem dúvida, a mais alta forma de educação, de libertação e esclarecimento do espírito enquanto educador de si próprio e dos outros, o «testemunho» é, na sua expectação, na sua discrição, na sua vigilância, a mais alta forma de transformação do mundo, porque nele, com ele e através dele, que é antes de mais linguagem, se processa a remodelação dos esquemas feitos, das ideias aceites, dos hábitos sociais inconscientemente vividos, dos sentimentos convencionalmente aferidos. Como um processo testemunhal sempre entendi a poesia, cuja melhor arte consistirá em dar expressão ao que o mundo (o dentro e o fora) nos vai revelando, não apenas de outros mundos simultânea e idealmente possíveis, mas principalmente, de outros que a nossa vontade de dignidade humana deseja convocar a que o sejam de facto. Testemunhar do que, em nós e através de nós, se transforma e por isso ser capaz de compreender tudo, de reconhecer a função positiva ou negativa (mas função) de tudo, e de sofrer na consciência ou nos afectos tudo, recusando ao mesmo tempo as disciplinas em que outros serão mais eficientes, os convívios em que alguns serão mais pródigos, ou isolamento de que muitos serão mais ciosos – eis o que foi, e é, para mim, a poesia.
Jorge de Sena in «Prefácio», Poesia - I, Moraes Editores, 1977 (segunda edição).

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Marcial XI.93 - uma releitura de Byron, 1750 anos depois

Pierios uatis Theodori flamma penates   
     abstulit. Hoc Musis et tibi, Phoebe, placet?
 O scelus, o magnum facinus crimenque deorum,   
     non arsit pariter quod domus et dominus!

(Epigramas, XI.93)

The Laureate's house hath been on fire: the Nine
All smiling saw that pleasant bonfire shine;
But, cruel fate! Oh damnable disaster!
The house – the house is burnt, and not the master!

(The Complete Works of Lord Byron, Paris, 1837, p. 888)


As chamas roubaram ao poeta Teodoro o lar
     das Piérias. Parece-vos bem isto, Musas, e a ti, Febo?
Que delito, que maldade enorme e crime dos deuses,
     que à uma não ardessem morada e morador!

Cristina Pimentel, Paulo Sérgio Ferreira, Delfim Leão, José Luís Brandão, Marcial. Epigramas IV, Ed. 70, Lisboa, 2004

segunda-feira, 1 de novembro de 2010


Das ist das

"I make poetry as other man make war or make love or make states or revolutions: to exercise my faculties at large."

Robert Duncan, na contracapa de The Opening of The Field (New Directions Paperbook, 1973)