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domingo, 2 de janeiro de 2011

Capella Strozzi

Analfabetos, entendiam
sem esforço os bonequinhos
na parede, os episódios
aludidos nas vinhetas,
seus ditados e sinais.
Tudo claro, para eles,
tudo íntimo e solene,
nutritivo como pão.

Nós,letrados, percebemos
só depois de compulsar
o Amador Hagiográfico
ou catálogos de símbolos.
Para nós é tudo vago,
duvidoso. Só as formas
nos consolam, e as cores,
a impostura da beleza.

José Miguel Silva, Erros Individuais, Relógio d'Água, 2010.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Volta ao mundo

1.

Voltemos a isto, à contagem dos erros
na soma do mundo, à impotência do riso
contra tudo o que não sabemos mudar:
a morte, o egoísmo, o levadiço coração
humano. Porque não há mais nada (ok
há o amor - vai-te foder) e no mercado
do juízo a catequese está em alta.
Regressemos à toada desta fábrica de luz
defeituosa, intermitente como a vida.
Se não há melhor emprego para a culpa
e os domingos custam dias a passar.

José Miguel Silva, Erros Individuais, Relógio d'Água, 2010.

sábado, 13 de novembro de 2010

Ridículo

O here we go, round and round again
The Virgin Prunes

E assim a minha alma
começou a perder aulas,
a fechar-se em canivetes,
a deixar crescer a sombra.
Já sabia que, na vida,
só depois do exame
é que chega a lição.

Fui servido ao caprichoso
ziguezague do acaso;
que me trouxe quase inteiro a
este pálido caderno,
onde toda a matemática
se ri do meu intento
de somar a não o nada.

  José Miguel Silva, Vista para um Pátio seguido de Desordem, Relógio d'Água, 2003

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Três

Era um gato com oito semanas e medo
dos meus oito anos. Ao cravar em mim
as unhas, ainda vejo o sangue
no seu focinho banzo. Às vezes o amor
degenera em violência. Ao terror do outro
respondemos com pedradas cegas.
Aflitos por não compreender.

 José Miguel Silva, Vista para um Pátio seguido de Desordem, Relógio d'Água, 2003

Meio conto

All we ever wanted was everything
All we ever got was cold.
Bauhaus

Havia a sensação de que tínhamos chegado
demasiado tarde para qualquer coisa
que de momento me escapa, talvez a confiança
na crítica da faculdade de julgar.

A lona do circo jazia dobrada no empedrado
onde afiávamos navalhas. O riso
não escondia nada, era simplesmente
demasiado tarde. Para quê negá-lo.

Por isso revolvíamos os bolsos, era tudo
o que tínhamos, quinhentos escudos
e a vida estragada. Nas mãos de cada um,
a linha interrompida da fortuna.

Uma coisa havia de bom no esquecimento:
era barato e abolia a fronteira de neve
entre um pulmão e outro.

José Miguel Silva, Vista para um Pátio seguido de Desordem, Relógio d'Água, 2003 

sábado, 15 de maio de 2010

Adenda

Ontem quando me perguntaram que livros destacava na primeira década do séc. XXI devia ter acrescentado aos que enumerei Movimentos no Escuro de José Miguel Silva.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Ítaca

A salsa, o lúcio não têm pressa
e o fio de azeite aprende a esperar.
Cada dia que passa, não sei como é -
jantamos mais tarde. Precisa uma casa
de ter quem a viva, quem reze por ela,
por isso te espero de roupa no chão,
sem nada vestido debaixo da pele.

Abrimos a água, enxugo-te o rosto
podemos agora deixar de mentir.
Só com o corpo, relógio parado,
deixámos o mundo a rugir no escuro.
Urtiga nenhuma nos vai separar.
Ouvimos o sulco da garra na porta
e rimo-nos baixo. Não sei como é -
cada dia que passa jantamos mais tarde.

José Miguel Silva, Ulisses já Não Mora Aqui, & etc, 2002

Nocturno

A arte já sabemos nasce
da imperfeição das coisas
que trazemos para casa
com o pó da rua
quando a tarde finda
e não temos água quente
para lavar a cabeça.

Tentamos regular
com açudes de orações
o curso da tristeza
mudamos de cadeira
e levamos a noite
a dizer oxalá
como se a palavra
praticasse anestesia.

José Miguel Silva, Ulisses já não Mora Aqui, & etc, 2002

(Com o devido agradecimento pelo empréstimo.)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

«A Barreira Invisível» - Terrence Malick (1998)

1.
O último graduado a saber de cor
passagens inteiras da Ilíada foi o valente
soldado Ernst, em mil novecentos
e dezassete. Mas esse era um romântico
alemão, caçador de besouros.

Nós, em Guadalcanal, anos depois,
o que tínhamos era sobretudo medo de cair
em desgraça perante o nosso deus,
que não era Marte nem Apolo mas um homem
que se ria de tudo isso: a cólera, o brio,
o ethos violento dos cabreiros de Rodes,
de Tróia, do Peloponeso.

Ria-se a figura do nosso deus, do nosso lar,
entre lágrimas de barro, mas eu não o ouvia,
nem tu. Pois havia que matar, ainda que
sem fé; havia que morrer, mesmo sem
perdão. Entre todos, perfazíamos centenas
de sintomas isolados. Cada um agarrava-se
àquilo que tinha: a barra do beliche,
um punhado de cartas, o pano ainda virgem
do idealismo, a crista humedecida dos joelhos.

2.
É difícil caminhar sobre uma linha invisível,
uma linha de água, entre o mal e o mal. Dividido
pelo sangue que atravessa os pensamentos, do inferno
ao paraíso, com o chumbo atravessado na memória,
os bolsos pesarosos de letais pressentimentos,
caminha sobre as águas quem caminha sobre si.
Por isso é tão difícil caminhar sobre as águas.

José Miguel Silva, Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, 2005

domingo, 24 de janeiro de 2010

«O sabor da cereja» - Abbas Kiarostami (1997)

Não é fácil para um homem
sepultar a sua sombra,
encontrar o melhor
que a terra nos dá:
um esconderijo.

A língua queimada
recusa as cerejas.
Nenhuma palavra
remove da boca
o gosto da poeira.

Circula sem vida,
por montes e restos,
o corpo tresmalhado.
Alguém há-de saber
para que serve um morto.

José Miguel Silva, Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, 2005

sábado, 23 de janeiro de 2010

«Carta de uma desconhecida» - Max Ophüls (1948)

1.
A vida dissoluta tem o seu encanto, desde
que a pessoa durma bem e tenha a sorte
de morrer cedo. Quando não, embaraça
ver um velho D. Juan a mendigar, de sacristia
em sacristia, um sucedâneo de amor.
A libertinagem, como qualquer opção moral,
deve ser levada às últimas consequências.
Pois de todos os pecados o mais inestético
é o arrependimento.

2.
Feliz é quem percebe a tempo aquilo que ama.
Esse não vai ao engano, não se mete onde não presta,
desconhece o desconsolo de uma carta fora de horas,
quando está já de roupão e de chinelos de quarto,
a cabeça uma colónia de fantasmas escarninhos.

Dar ouvidos, insistir, escolher a restrição do amor,
não vejo que outra coisa seja digna de um homem livre.

José Miguel Silva, Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, 2005

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

«A harpa birmanesa» - Kon Ichikawa (1956)

Dez são os anjos
e longas as cordas.
Quem pode deter
a queda dos cegos
para trás dos olhos,
dormir com os mais,
menina Ismene?

Não sabe voltar
a pátria nenhuma
aquele que na guerra
ergueu uma pá
para juntar
a cinza dos vivos
ao lume dos mortos.

José Miguel Silva, Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, 2005

«Amarcord» - Frederico Fellini (1973)

Uma épica de leves incidências, lâmpadas
que estoiram no basalto da memória,
onde tudo se confunde: acção e ficção,
calor e calafrio. A infância será isso,
uma «arte de mentir», a bem dizer.

Desse campo de farinha traduzimos
nós o pão que levamos hoje à boca,
sem fome nenhuma. Que saudades
do desejo incipiente, da sopa de venenos
na cozinha da avó, do tempo
em que navios de caruma
não tinham por destino a geena.

E já nada nos distingue, rapazes,
nem sequer o privilégio nos anima
desses nomes que rezamos, isolados:
Aldina, Volpina, Tomaide - a vertigem
do ardor, a volúpia da mulher
na gruta do tabaco. Fumos e misérias,
privações que nos rebocam vida fora.

José Miguel Silva, Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, 2005

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

«O Intendente Sanchô» - Kenzo Mizoguchi (1954)

Um abrigo de restolho, breve chama,
é tudo o que podemos.
Antes que da noite o lobo venha
devorar o que nos resta.

«Sê severo, Tsushiô, contigo próprio,
e brando com os outros.»

Um pai é uma medida,
não oferece protecção;
a mãe uma raiz, leve prece,
muito longe;
sob as águas, a irmã,
um galho que se quebra.

De tão tardio mundo
pode um homem exilar-se?

José Miguel Silva, Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, 2005

quinta-feira, 30 de julho de 2009

BAYERN DE MUNIQUE 1 X F.C.PORTO 2 - ARTUR JORGE (1987)

(Lines written in dejection)

Aos dezoito anos vive-se já na antecâmara
do pesadelo, mas a vida reserva-nos ainda
o fulgor intempestivo dum embate
donde sairemos homens, estonteados
de suor e lama.

Sabíamos que não iria durar muito
a juventude - noventa e três minutos,
se não erro. Mas o trevo permanece
nas pastagens da memória: um irónico
toque de calcanhar, uma rápida investida
no coração do tempo, as mais loucas
diagonais contra o pior dos fatalismos,
o dos tímidos.

Como esquecer aquelas fintas à tristeza,
a viva fantasia dos relâmpagos abrindo
fundas brechas no espírito simétrico,
pesado, dos teutónicos, a negação
do fado. Que foi isto, perguntámos,
como pôde? Nenhum relógio mede
tamanha velocidade.

E as lágrimas deslizam, como vêem,
pelo poema abaixo, isso é sinal de que o futuro
já passou, já ruiu a balaustrada de onde víamos,
serenos, a corrida dos minutos, coroada
de possível. Que nos resta? Nada. Felizes
os que guardam, pelo menos, a cassete.

José Miguel Silva, Movimentos no Escuro, Assírio & Alvim, 2005